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3. Harvesting: owning, measuring, and enacting cassava

3.1. Enacting cassava through ownership

O livro Quero Descobrir faz parte de um programa recente do governo federal (LEI 11.274/2006), que inseriu as crianças de seis anos no Ensino Fundamental e veio exigir, das escolas, programas curriculares que intermediassem, tanto as necessidades próprias da crianças da educação infantil, quanto as do ensino fundamental. Nas Escolas Adventistas, conforme programa oficial do sistema

educacional, no documento de implantação desse novo modelo de escolarização, de 2007, percebe-se uma proposta integrada entre as diferentes áreas do conhecimento mais as que são próprias da infância. Nesse contexto, o livro “Quero Descobrir”, segundo a autora, procurou atender a diversidade cultural e se propôs ampliar vocabulário dos estudantes. Dessa forma, por exemplo, quando menciona nomes de frutas de várias regiões, ou brinquedos e costumes, dentre outros aspectos, a cultura de uma região é apresentada às crianças que vivem nos diferentes lugares do país. Nas palavras dela:

Procuramos contextualizar o ensino partindo de temas geradores que facilitariam a compreensão melhor dos conteúdos a serem trabalhados e facilitaria o trabalho com projetos na sala de aula. Assim cada professora poderá adaptar o tema partindo de elementos importantes de sua região e ainda mencionar outros lugares, modos de vida comparando-os com sua realidade (ELEN LIEDKE).

Com isso, cada região tem possibilidade de apresentar a regionalidade com sua beleza natural e do povo que a constitui. Na opinião dela, no entanto, “[...] é muito difícil abranger todas as regiões do Brasil e sua diversidade cultural num único livro.”

Analisando essa questão, ela considera possível o professor partir de um ponto, como por exemplo, o livro, fazer comparações com a região em que a criança está situada, e ampliar ao máximo possível os conhecimentos dos elementos culturais, “[...] para que o estudante amplie sua visão de mundo.”

Esse trabalho vem apresentar sua importância porque, além das conquistas cognitivas, também é “[...] muito importante desenvolver o respeito às diferenças sociais ou romper com padrões sobre o povo de uma determinada região.”

Ela acredita que o livro pode, sim, ser um meio de interagir com algumas informações importantes e cabe ao professor continuar o trabalho mediante investigação com seus estudantes, com a cultural regional, dando possibilidade para ampliar os estudos em todo o território nacional. Os estudantes, com essa metodologia, desenvolverão características de investigadores, serão críticos e saberão valorizar as diferenças.

Nos programas de formação continuada ela procura atender as necessidades dos professores por meio de um trabalho básico, com aspectos da pré-alfabetização, procurando levantar as questões teóricas de forma prática. Utiliza-se de trabalhos de

educadores e pesquisadores que já trilharam e aplicaram suas pesquisas, deixando pistas para que se consiga ter um embasamento teórico. Depois dos programas de formação, a autora considera que as professoras alcançam condições de adaptar o que vivenciaram à sua realidade local.

Sempre ouço um pouco da história de cada uma, isso resgata o seu próprio valor como pessoa, primeiro, depois como profissional. Cada pessoa tem sua história como aprendentes e como ensinantes. Refletir sobre seu papel e sua responsabilidade, suscitando valores e missão torna-se relevante para o desenvolvimento de todo o programa.

Assim como, outro ponto a ser ressaltado é a importância de levar notícias de experiências de professoras de outras regiões, atividades de quem encontrou novos caminhos, e trocar ideias que geralmente são aceitas e olhadas com interesse e consideração no que o outro está fazendo.

6 CENAS FINAIS, LIMITES E DESCONTINUIDADES

[...] a grande maioria não almeja ter finalidades ou ideias próprias, mas receber ordens dos poucos que estão em posição de autoridade

(CUNHA, 2007).

A antropologia, por meio da teorização de Geertz (1989), critica o uso desenfreado do conceito de cultura e diz que ela é uma teia cuja interpretação objetiva-se não a buscar leis, porém procurar significados. Geertz registra que o conceito de cultura sofre uma revisão no qual há abertura para entendimento como padrões de significados que se materializam em comportamentos; no entanto, são transmitidos historicamente e incorporados mediante símbolos perceptíveis.

Nesse sentido a cultura pode ser considerada como um texto, lido de diferentes formas e com diferentes interpretações. Dessa maneira, ao descrever alguns quadros da história da cultura educacional adventista procura-se, primeiramente analisar os livros didáticos escolhidos, os documentos que registram o fazer pedagógico das escolas e que fundamentam, também, a Casa Publicadora Brasileira. A partir daí, percebe-se nuances culturais que estiveram presentes em outros povos, em outros momentos históricos, e também se fazem presentes nos discursos das escolas que fizeram parte da pesquisa.

Durante a construção do ideário, foi possível examinar um pouco mais sobre a identidade dessa rede educacional, com o nascimento e o desenvolvimento, as crises e as superações. Isso foi realizado com a finalidade de entender o posicionamento dessa rede educacional que se mostra desejosa em continuar pesquisando e esclarecendo as interpretações dos pioneiros, numa tentativa de aplicar uma educação que se fundamenta em outros tempos, mas que se situa em espaços contemporâneos.

Assim, deseja-se neste capítulo, não encerrar este trabalho, nem emitir uma opinião, mas chegar a um determinado ponto ou uma posição definida sobre o tema abordado, pois em se tratando da formação cultural, todos ainda estamos em via de ser. O objetivo foi mapear e investigar a cultura regional nos livros didáticos usados nas Escolas Adventistas, com o intuito de compreender como os livros didáticos da Casa Publicadora Brasileira atendem às necessidades culturais regionais do Brasil.

Torna-se relevante volver-se às questões de pesquisa descritas no início deste trabalho: Como os livros didáticos da CPB atendem às necessidades culturais regionais? Como os professores aplicam os livros frente às necessidades? Quais são as particularidades discrepantes identificadas no trabalho do cotidiano? omo os editores e os autores têm visto e trabalhado com tais realidades?

Essas questões remetem ao entendimento de que as várias maneiras de perceber a cultura viabilizam um trabalho que se volve, tanto aos aspectos mais globais quanto aos locais, o que nos levou a ver a cultura como um sistema de organização de indivíduos e grupos nos diferentes espaços. Os sistemas, conforme Geertz (1989), fazem parte de mecanismos de poder que apreendem os indivíduos por meio de signos e submetem os membros de uma comunidade política para poder perdurar no tempo e no espaço.

Ao mesmo tempo em que a cultura cria e recria comportamentos, ela também os controla e os guia, sendo que o conteúdo ideológico impossibilita o esvaziamento dos significados. Com isso, em um exercício de consciência, analisou-se, passo a passo, a trajetória a ser pesquisada e verificaram-se como as leituras sobre culturas foram capazes de ir re-formando a própria mente da pesquisadora. O que a levou pensar, mais uma vez, em Larrosa (1999, p. 37), que diz que certas reflexões sobre si mesmo e sobre o modo como somos fabricados “[...] no interior de certos aparatos

[...] de subjetivação.”, requerem questionamentos, pois escapam de nós a medida que avançamos.

Afinal, como as teorias e práticas pedagógicas são capazes de produzir determinadas pessoas, ficou claro nas entrevistas e questionários aplicados. JLPR007 em seu relato apresenta um resumo do modo como foi constituído e das tecnologias e metodologias que entrou em contato em sua infância na escola, que contribuíram para a sua formação:

A escola, de primeiro era tão diferente de agora. Até a maneira de nós estudarmos. A gente acha que era mais fácil no passado que hoje, mas não é, hoje eles ensinam mais por som, de primeiro eles tinham que saber o A, B, C, de cor, tinha que saber tabuada de cor, tinha que saber tudo. E, no tempo da escola o respeito que os alunos tinham pelos professores eles eram muito mais considerados do que hoje. Os professores davam castigo. Um dos castigos que eu mais ganhei quando era pequeno era escrever palavras. O professor S e do professor R. Eles diziam assim, a gente fazia qualquer coisa e eles faziam a gente escrever 500 palavras. Nós enchíamos cadernos fazendo palavras. E a gente tinha um medo porque tinha que ter a assinatura do pai. E aí, ó, o chicote nos pegava. [...] Naquela época a gente apanhava mesmo. Era diferente. Hoje, um pai não pode bater num

filho, o filho já ameaça que vai dar parte de um pai. Professor não pode dar um castigo para uma criança porque a criança já ameaça o professor. Então, eu não sei, eu acho, hoje, muito pior a educação, educar um filho, do que no meu tempo. No meu tempo existia respeito. A gente obedecia. O nosso castigo era ajoelhar muitas vezes naquele cantinho ali. Naquele cantinho o professor botava um grão de milho, viradinho com a pontinha pra cima e a gente tinha que se ajoelhar em cima daquele grão de milho. Sem calça. Sem calça comprida. Nós já usávamos calça curta mesmo. Então chegava ali e a gente não agüentava. A gente dobrava o grãozinho e ficava ajoelhado, chorava!!! Naquele lugar. O castigo era, ele mandava a gente colocar a mão. Em cima da carteira, da classe, da mesa, e pegava uma régua, a palmatória, que eles diziam. E dava uma reguaça na mão da gente que chegava estralar. Parece que quebrava tudo. Mas era uma maneira de educação. Dos antigos, né? Naquela época era assim. Mas existia muito mais respeito. Era difícil um aluno brigar com outro aluno, era difícil um aluno dizer um nome pro professor. Porque o medo, a gente tinha medo de vir o castigo. E os pais eram severos. [...]. Os alunos respeitavam o pai. Hoje em dia tudo mudou. É difícil. Eu tenho os meus filhos e já to com 70 anos. [...] Ta, e a gente vê como é difícil educar nossos filhos.

Sobre o uso dos livros ele lembra que:

Então os livros, as matérias que eles usavam eram poucos livros, não era como eles têm hoje. Hoje tem muito mais livros. O livro de português, por exemplo, ele nos ensinavam como estudar, como aprender a ler, depois vinha os adjetivos, aí vinha os advérbios, aí vinham os pronomes, toda a gramática era num livro só. Era um livro grosso, grande, e tinha tudo. Aí vinha depois geografia, e vinha história e vinha, era tudo assim de um livro só, né? Agora tudo repartido, cada matéria, um livro. De primeiro, não, era um livrão com diversos tipos de matéria. Né, que a gente tinha e era um só professor. Não era como agora, cada matéria um professor. Era um professor pra setenta alunos, oitenta alunos. Eu mesmo fui professor quando eu me casei a minha esposa era professora. Ela adoeceu e eu fiquei um ano dando aula pra 58 alunos. De manhã e a tarde sozinho. [...] A gente vê que naquele tempo era muito mais difícil. Olha a quantidade de alunos que nós temos aqui, oh. Todos os alunos, bem dizer todos os alunos. As disciplinas eram bem diferentes de agora. Que eles marcavam as matérias, davam as matérias pra tal dia, pra amanhã ou pra depois, diziam: eu quero tal matéria pronta. Nós tínhamos que estudar a maneira, tinha que copiar, tinha que fazer as redações, tinha que contar aquilo que a pessoa fez, era tudo feito assim.

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Sobre o uso do caderno e do desenvolvimento da oralidade:

[...] gramaticalmente, tudo era feito por escrito. [...] de vez em quando tinha que comprar caderno. Os pais ficavam bravos, mas você já gastou o teu caderno! Mas o professor nos dá trabalho o tempo todo!!! Tem que trazer escrito, né? copiava do livro e passava pro caderno. E apresentava pro professor, ia lá na frente. Muitas vezes eles tavam ensinando lá na frente e perguntavam: qual era o aluno quer vir aqui continuar a aula que a gente está dando? Eles trabalhavam a oralidade e a parte religiosa. Eles resolviam quase igual uma com a outra, a parte religiosa e a parte da oralidade. Em primeiro lugar a aula religiosa, em primeiro lugar o respeito. [...] os professores que nos ensinavam eram nossos segundo pais.

As famílias dessa região construíram uma escola com o objetivo de expandir a missão da Igreja. JLPR007 diz que a maioria dos estudantes alimentava o sonho de estudar e sair dali para trabalhar em algum setor da igreja em qualquer lugar do Brasil e do mundo, caso tivessem oportunidade. Para que isso acontecesse, a disciplina de Ensino Religioso era priorizada, sendo que todos os dias a Bíblia e os livros que dela tratavam, traduzidos pela CBP, eram estudados. Um programa semanal denominado de MV, missionários voluntários, completava a formação desejada com momentos de divulgação das descobertas pesquisadas e das aprendizagens dos estudantes. Aquele que aprendia a tocar um instrumento musical, apresentava, cantava, declamava poemas, fazia minissermões e dramatizavam cenas da história do Brasil ou de um contexto bíblico. Nesse programa havia concursos bíblicos e de conhecimentos gerais.

Então, os pastores, os missionários que saíram daqui, já saíram de uma descendência missionária. Já puxaram os troncos missionários. Tava no sangue, a pessoa pra ser uma missionária [...]. Eu era menino, chegava sábado, os alunos da escola, naquele tempo, no programa juvenil ou no programa jovem decorava meditação matinal, chegava sábado tinha concurso devocional pra ver quem sabia mais versos de cor durante o ano e durante o mês. Então tudo tinha uma educação diferente. E a escola, a disciplina era muito linda: igreja, religião, com educação. Sempre em primeiro lugar a religião. A parte fundamental da nossa escola sempre foi educar na vida religiosa para o futuro do aluno, né? Pra ser sempre um exemplo e uma lembrança. [...] Os alunos dessa escola estão espalhados pelo mundo todo os que passaram por aqui. Uma educação firme, sólida, uma educação que existia muito respeito e todas as aulas que nós tínhamos.

JLPR007 ainda fala do tempo da escola e compara com a realidade atual:

A gente começava cantando os hinos da igreja, hinos sacros, hinos religiosos, orações terminava cantando o hino também, naquela época. Hoje já não cantam mais. É muita aula, muito, a escola é diferente. Naquela época era só uma escola. Então, era duro para um professor, mas o professor trabalhava com amor com a gente...

Essas cenas remetem-nos a pensar no trabalho de Foucault (2007), que descreve no seu livro As Palavras e as Coisas, a sua análise do quadro Las

Meninas. Enquanto o pintor pinta a cena, envolve-se com ela em seus detalhes,

depois, “O pintor dirige os olhos para nós na medida em que nos encontramos no lugar do seu motivo. Nós, expectadores, estamos em excesso.” (FOUCAULT, 2007, p. 5).