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Situasjonen i Drammen sentrum

In document Varelevering i Drammen sentrum (sider 11-24)

A poesia revela o homem a si mesmo e o homem no seu mundo, uma vez que em todo sujeito está arraigada uma imagem do mundo. Ao revelá-lo, porém, ela o coloca diante de sua condição original. Octavio Paz (2012, p. 151), influenciado pelo pensamento heideggeriano, dirá que o homem é “contingência e finitude”.

Ao lado da poesia, as religiões têm sido responsáveis muitas vezes por colocar o homem em contato com essa condição original. No entanto, elas o fazem sob a forma de um contato com o supostamente sobrenatural, uma experiência na qual o sujeito percebe seu “pouco ser” (PAZ, 2012, p. 153) ao confrontar-se com uma realidade absoluta. Tal realidade desperta no homem o desejo de superar a contingência e a finitude e, definitivamente, ser. Essa possibilidade se apresenta sob diversas formas durante a vida de um homem. Todorov (2011, p. 316) declara:

Os seres humanos precisam se assegurar de sua sobrevivência material, obter reconhecimento social, gozar dos prazeres da vida; eles também procuram, porém, de maneira menos consciente, mas não menos imperiosa, encontrar em sua existência um lugar para o absoluto. Sempre foi assim, desde que os homens começaram a enterrar seus mortos e até hoje, inclusive quando parecem inteiramente absorvidos pelo frenesi do consumo ou do êxito. Pois, contrariamente ao que afirma o rumor, não é verdade que "tudo é relativo.

Essa disposição do homem para o absoluto, para um desejo de ser, que muitas vezes o conduz para a religião ou para o reconhecimento de um Outro divino é, segundo Paz (2012, p. 152), uma solução que, ao mesmo tempo que revela, esconde a condição original do homem:

Pode-se concluir que a experiência do sagrado é uma revelação da nossa condição original, mas também que é uma interpretação que tende a ocultar-nos o sentido dessa revelação. Reação ao fato fundamental que nos define como homens: ser mortais e sabê-lo e senti-lo, a religião é uma resposta à condenação de vivermos a

mortalidade que todo homem é. Mas é uma resposta que encobre exatamente aquilo que, em seu primeiro movimento, revela.

Essa conclusão de Paz em relação à “experiência do sagrado” não impede o desejo de uma superação do tempo que mora em todo homem, um desejo que o conduz à negação da morte sob as diversas formas que ela assume nas religiões, nas filosofias e nas artes. Steiner (2013, p. 10) expõe essa percepção ao dizer:

Na mais confiante elaboração metafísica e na obra de arte mais triunfal há sempre um memento mori, um empenho implícito ou explícito para conter a ação fatal do tempo e da entropia que penetra toda forma viva. É desse embate que o discurso filosófico e a produção da arte derivam seu poder criativo e sua tensão não- resolvida, da qual a beleza e a lógica representam os principais modos formais.

Veja-se, por exemplo, o caso do artista que deseja se perpetuar por meio da obra de arte. Tal pretensão encerra em si um desejo de se imortalizar, de sobreviver às condições de seu próprio tempo. Há, portanto, uma forte tensão entre vida e morte, temporalidade e atemporalidade, que engendra a força criativa nas artes em geral. “Tudo é por causa da morte, a mágica” (PRADO, 1991, p. 231). Talvez seja isso o que Adélia Prado deseja expressar com tal verso.

A angústia advinda da condição mortal do homem o faz procurar uma saída. Afinal, aceitar a mortalidade não é uma tarefa fácil. Adélia Prado (1991, p. 326) questiona: “Como posso aceitar que morreremos?”. Diante dessa “indesejada das gentes” (BANDEIRA, 1993, p. 223), os mais belos artifícios retóricos e as mais fantásticas imagens foram forjadas, todos com o único intuito de transformá-la em algo, diga-se, mais admissível. Contudo, como a poeta diz em uma entrevista: “Morrer é de verdade, não só metáfora” (PRADO, 2014). Essa impossibilidade de ignorar a questão faz o filósofo e poeta espanhol Miguel de Unamuno (2013, p. 46) especular:

Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai o que me rodeia e o que significa tudo isso? Porque não quero morrer completamente e quero saber se vou morrer ou não definitivamente. E se eu não morrer, o que acontecerá comigo? e se eu morrer, já nada tem sentido. E há três soluções: a) ou sei que morro completamente e então o desespero é inevitável ou b) sei que não morro completamente e, então, a resignação, ou c) não posso saber nenhuma dessas coisas e então a resignação no desespero,

ou este naquela, uma resignação desesperada, ou um desespero resignado, e a luta.

A colocação do problema por Unamuno conduz a arriscar que, no caso das artes, pode-se testemunhar as três possibilidades variando de acordo com as idiossincrasias de cada artista. Contudo, talvez seja a atitude mais real do espírito humano aquela que esbate entre o desespero e a esperança. Em “Um bom motivo”, o sujeito lírico adeliano diz:

Poetas antes de mim choraram e melhor e mais belo e mais profundamente, não apenas a morte do rei, mas a minha, a tua, a própria morte deles,

a condição miserável de ser homem. No entanto,

as razões de chorar não se acabaram. (PRADO, 1991, p. 231)

É essa “resignação desesperada” ou “desespero resignado” que lança o homem a cogitar a hipótese que, na visão de Paz, esconde a revelação de sua natureza mortal no mesmo momento em que a revela. Talvez essa atitude esteja bem expressa na seguinte frase de Unamuno (2013, p. 57): “bela é a sorte que temos de correr de que nossa alma nunca morra, sentença que é germe do famoso argumento da aposta de Pascal”.

A possibilidade que Unamuno (2013, p. 112) vislumbra, todavia, não conduz a um estado de tranquilidade. Para ele, ela é um constante estado de tensão, “luta entre a razão e a vida”. Com efeito, todos os esforços de racionalização conduzem à evidência de que somos mortais. O desejo de nosso coração e nossa vontade, porém, negam essa mortalidade e aspiram à superação dessa condição:

Nem o anseio vital de imortalidade humana encontra confirmação racional nem a razão nos dá estímulo e consolo de vida e verdadeira finalidade para ela. Mas eis que no fundo do abismo se enfrentam o desespero sentimental e volitivo e o ceticismo racional, e se abraçam como irmãos. E será desse abraço, um abraço trágico, ou seja, intimamente amoroso, donde brotará um manancial de vida, de uma vida séria e terrível. O ceticismo, a incerteza, última posição aonde chega a razão exercendo sua análise sobre si mesma, sobre sua própria validade, é o fundamento sobre o qual o desespero do sentimento vital fundará sua esperança (UNAMUNO, 2013, p. 105). Essa condição humana – que não é somente a de ser mortal, mas de, sendo mortal, desejar o contrário – é o que Unamuno chama “sentimento trágico da vida”. É ela que fará o poeta espanhol afirmar:

...com razão ou contra ela não quero morrer. E quando finalmente eu morrer, se é mesmo assim, não terei morrido eu, quer dizer, não me terei deixado morrer, terei sido morto pelo destino humano. A menos que eu perca a cabeça, ou melhor, o coração, eu não renuncio à vida. Serei destituído dela. (UNAMUNO, 2013, p. 123)

A disposição de Unamuno diante da evidência da morte faz recordar de outro poema adeliano contido num livro de sugestivo nome, A Duração do Dia:

No Jardim

Sob sol quente, no jardim flamejante a varejeira rebrilha, joia viva.

O poder de Deus me aterra em sua inércia. Não vai impedir a mosca de botar seus ovos sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras. Tremo, obrigada que sou

a ver Seu rosto sob vermes. (PRADO, 2010,p. 62)

Contra toda evidência, levanta-se ainda a esperança de um poder salvador projetado na figura da divindade. A tensão entre os traços inegáveis da morte (“a língua defunta”, “a varejeira”, “a mosca”, “vermes”) e a teimosia da vida (“jardim flamejante”, “joia viva”) coloca o sujeito na posição paradoxal de afirmar a perpetuidade da vida frente à podridão inexorável. Enveredando na mesma direção, Unamuno (2013, p. 61) teima: “Não me submeto à razão e me rebelo contra ela, e tento criar com a força da minha fé meu Deus imortalizador e torcer com minha vontade o curso dos astros”.

A disposição da vontade de não morrer conduz o homem, Miguel de Unamuno, ao abraço da fé. Embora não seja cristão afeito à ortodoxia, Unamuno aproxima-se do cristianismo, particularmente daquele católico ibérico, ao ver nele um sistema que tem no centro a imortalidade. Essa atitude de Unamuno é vista negativamente por Paz (2012, p. 153), que ironiza: “essa salvação com malas e bagagens que tanto comovia Unamuno e que constitui um dos aspectos mais inquietantes e doentios do seu caráter”.

Com efeito, a atitude do poeta espanhol é questionada por Paz como uma “disposição divinizante” do homem que faz minar a existência de Deus, fazendo-a depender da “subjetividade humana” (PAZ, 2012, P. 148). O problema é insolúvel,

uma vez que está associado a uma adesão à fé por parte de Unamuno (2013, p. 111), que admite “acreditar é, em sua primeira instância, querer acreditar”.

Independentemente das posições divergentes em que Paz e Unamuno estão, a forma como o segundo coloca o problema da morte permitirá melhor compreender como a ressurreição surge feito uma força criativa na poética adeliana e – mais uma vez, por que não? – na poesia cristã e ocidental.

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