Joaquim Nabuco nasce em 1849, no estado de Pernambuco, na fazenda de Massagana, onde vive até os oito anos. Lá, toma contato com os escravos, a casa grande, a senzala, o engenho de açúcar, os conflitos de propriedade e com o sistema patriarcal. Essas imagens povoam sua imaginação, num cenário que fica incrustado em sua memória, na qual busca inspiração para escrever uma bela passagem de nossa vida literária. Em Minha Formação, ao recordar os quadros de sua infância, manifesta-se com nostalgia: “Nunca se me retira da vista este pano de fundo que representa os últimos longes de minha vida." (Joaquim Nabuco, Minha Formação, 1952:227)
A História mostra-nos que o Brasil desfruta de um período relativamente calmo, em que duas vertentes alimentam a opinião nacional, sob a vigência da monarquia, com o governo de D.Pedro II que assume o trono em 1840. O imperador tem, a seu lado, a unanimidade nacional, nesse pequeno período de calmaria; mas, como se há de ver, o Segundo Reinado é um dos capítulos mais agitados de nossa história. Dois partidos revezam-se nos ministérios, o Liberal e o Conservador e cada qual procura enraizar-se
no poder, influenciar as decisões políticas sob o comando do Imperador. Esses desencontros prolongam-se até a queda definitiva do Império.
Outro assunto que contagia a consciência nacional e estremece os alicerces da nação é o regime escravocrata, verdadeiro divisor de águas em nossa história política cuja presença centraliza quase todos os episódios que marcam a realidade nacional. É um tema constante em quase todas as rodas e em todos os ambientes. Com a Guerra da Secessão dos Estados Unidos americanos e a libertação dos negros, o Brasil torna-se o último remanescente, no mundo, a ostentar a marca do preconceito de cor.
Paralelamente, o Brasil debate-se numa guerra sangrenta contra Solano Lopes, o ditador paraguaio, cujas feridas, apesar da vitória, trazem conseqüências desastrosas para o nosso país. As finanças ficam arrasadas e os escravos, que voltam do sul, orgulham-se de se mostrarem, na luta pela segurança da pátria, tão úteis quanto os demais membros do exército. São reconhecidos e elogiados no cumprimento de sua missão e, solenemente alforriados.
Todavia, a escravidão centraliza as disputas ideológicas, políticas, religiosas e morais. Os estudantes são os primeiros a se engajarem na luta pela libertação. Na Faculdade do Largo São Francisco, soltam o grito de guerra. Destaca-se Castro Alves, o
poeta dos escravos, que, no auge de sua curta carreira, brande a espada da inspiração,
em prol da liberdade dos negros.
A Faculdade de Direito, onde os espíritos fervilham, é o palco ideal para a fermentação dos ideais libertários cujas vozes ecoam pelos quatro cantos do país. Ao lado do poeta condoreiro, dois outros nomes juntam-se a essa obsessão nacional. São eles, Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa que palmilham os primeiros degraus em busca de vôos e arroubos de eloqüência, apanágio de ambos. Joaquim Nabuco faz dessa temática, seu trunfo maior e, como um sacerdócio, inicia uma batalha que somente termina com a definitiva abolição da escravatura.
O Brasil é influenciado pelas normas de conduta européias. Para lá partem os intelectuais em busca das novas ideologias. O velho mundo dita as regras. A Inglaterra, com seu velho modelo democrático, é referência para os partidos e políticos brasileiros que nela se espelham e de lá trazem os componentes necessários para se aperfeiçoarem nas lides parlamentares. A França é a Meca da intelectualidade. É a língua diplomática,
por excelência, com laivos de universalidade. A produção literária empolga os admiradores do conhecimento, da erudição e das artes.
Lá pontificam, Victor Hugo, George Sand, Flaubert e Renan, grande amigo e inspirador de Nabuco, em seus arroubos poéticos. Nabuco fala fluentemente o inglês e o francês. Declara, mais de uma vez, ser-lhe mais fácil expressar-se na língua de Descartes do que no idioma de Camões. O sentimento íntimo de Nabuco era bilíngüe. Em Minha Formação, sua obra literária mais expressiva, relata as viagens ao velho mundo e deixa transparecer a profunda influência do velho continente sobre sua vida pública e privada.
Por esse tempo, o Brasil inaugura a linha de telégrafos que nos liga à Europa. É o meio de comunicação avançado, traço que sempre acompanhou a humanidade. O mundo começa a globalizar-se e encurta as distâncias. São os primeiros sintomas da futura aldeia que marca os tempos modernos.
Nabuco, atento aos fatos, em pleno vigor de suas condições e no total amadurecimento intelectual, não perde o ensejo que lhe surge. Encampa a idéia da liberdade, abraça o movimento que vem ao encontro dos seus ideais, empresta seu talento à causa abolicionista que monopoliza a opinião nacional. Ninguém fica imune a essa avalanche libertária. Joaquim Nabuco, na política desde 1879, tem a tribuna à sua disposição.
É homem público. Os fazendeiros dominam as forças da nação. Esse conflito aberto cria espaço para o surgimento de uma nova liderança. Emerge a figura predestinada a conduzir o processo que personifica a luta contra as injustiças da escravidão. É um desafio remexer as idéias convencionais. Nabuco enfrenta essa barreira.
E o açoite vem com endereço certo. Denuncia os maus tratos aos negros, critica as elites, os fazendeiros, as classes conservadoras, a política retrógrada e a omissão do Imperador. Arrebata as multidões que o ovacionam, num movimento popular jamais visto. Em comícios, ao ar livre, no parlamento, nos clubes, em associações, arregimenta os prosélitos necessários para prosseguir a missão.
Onde há uma tribuna, seu gênio se levanta, ergue sua voz metálica, como testemunham seus próprios adversários e seus companheiros de luta. É uma luta arrebatadora, ao lado dos oprimidos. Fala em nome da justiça social, fulmina seus adversários com metáforas de fogo.
Não há como resistir. Num determinado momento, com exceção das minorias interessadas em protelar o caos, há um só grito, uma só emoção e uma só causa, a liberdade dos negros cativos. A Lei Áurea é o golpe que extingue, de vez, a vergonha nacional. Nabuco é o protagonista maior dessa epopéia, o predestinado, cuja habilidade política faz desmoronar o estigma que deturpa nossa história e cujo episódio antecipa o golpe republicano. A proclamação da República leva-o a abandonar a política, pois, monarquista convicto, vê, no movimento, um retrocesso para quem sonha com outro modelo político.