Etimologicamente, método procede do grego: (methodos: caminho para se chegar a um fim). Essa conceituação, (Dicionário Aurélio Eletrônico – Século XXI, 1999), sintetiza nosso intuito. Temos que fazer a opção por uma trajetória metodológica que (ainda conforme o Aurélio), é a arte de dirigir o espírito na investigação da verdade, ou seja, a estrada que vamos percorrer para realizar com propriedade nossa pesquisa.
Quando fazemos a abordagem de outros elementos para a fundamentação teórico-metodológica, devemos ressalvar a necessidade de, primeiramente, termos consciência dos objetivos e a que conclusões pretendemos chegar na análise do documento. A escolha obedece a um rígido critério, realiza-se dentro de princípios de
extrema pertinência e propriedade para que a pesquisa não resulte estéril e nada adicione ao que já conhecemos.
Não podemos nos ater a um fato já explorado, dissecado por outrem, pois perde assim, a investigação, seu caráter e conteúdo de novidade, a menos que seja para ampliar o conteúdo existente e focalizar um novo aspecto, ainda não detectado. É a seleção das fontes, com a devida observação e critério, um componente sem o qual a pesquisa não atinge o fim almejado. É de relevo dizer que as fontes consultadas devem ser primárias, para que se possam aplicar os princípios metodológicos, com a sistemática pertinente ao documento. Um recorte inteligente e criterioso leva-nos a um resultado enriquecedor sobre a matéria enfocada.
De posse do documento, precisamos conhecer, razoavelmente, a história da peça documental que temos em mãos: averiguar as condições em que foi redigido, com que finalidade, por quem, em que circunstâncias, qual o espírito de época em vigor. Um documento nunca é neutro, sempre carrega as impressões de quem o cria, do período em que é produzido. Normalmente, reflete o meio sob cujo influxo é elaborado. Fazer um paralelo com o que é produzido na mesma época, analisar o sentido dos vocábulos, das expressões usadas, torna-se fundamental, bem como, ter um olhar crítico, pois, sabe-se que, no fundo, sempre há uma dose de subjetividade em sua elaboração.
É fundamental atentar para a veracidade das fontes, discutir os critérios, as marcas e os vieses. Ter paciência, minuciosa paciência para descobrir o que está por trás do documento, o que realmente, ele quer expressar. É importante identificar as mudanças, as rupturas... Essas precauções devem acompanhar o historiógrafo em seu ofício de pesquisar, com consciência e seriedade. Obedecer aos padrões que devem delimitar e nortear uma pesquisa científica contribui para que o pesquisador produza um bom trabalho historiográfico.
Uma língua, qualquer que seja ela, em sua longa trajetória, através do tempo, sempre sofre contínuas mutações, variedades, caracterizadas por uma clara heterogeneidade com a qual o pesquisador deve se familiarizar. Os mais recentes estudos mostram não haver uma língua homogênea, o que, muitas vezes, implica um rompimento com os modelos tradicionais veiculados pela escola. As línguas são marcadas por um conjunto de transformações que resultam das peculiaridades específicas do grupo que as usam, tais como a maneira como ele se organiza social e economicamente, qual sua visão de mundo, os meios de informação, a freqüência à escola, etc.
Os estudiosos alertam para o perfil metodológico usado, tendo como linhas mestras de pesquisa da HL, as já conhecidas obras de Koerner e Swiggers, passando por Cristina Altman e do Grupo de Pesquisa da PUC/Mackenzie, perfilhando o modo de fazer o saber lingüístico, num determinado contexto, numa visão pancrônica da realidade, sempre respeitando os princípios científicos, sem o que não se faz historiografia.
Ainda no que tange aos critérios metodológicos, não podemos deixar de considerar outros procedimentos que auxiliam o historiógrafo. Ele deve adicionar os chamados passos investigativos, seqüência objetiva e sistemática, para analisar o registro. Primeiro, seleciona criteriosamente o objeto de seu estudo, já que o pesquisador tem um objetivo, encontrar o documento apropriado que lhe servirá de matéria para o que pretende.
Descoberto o documento, o pesquisador cerca-se de todos os elementos que dêem credibilidade à fonte, procura conhecer todos os detalhes e informações que a compõem. A partir de sua autenticidade, verifica outros detalhes como a edição, as possíveis influências do contexto histórico, as opiniões, as eventuais referências da imprensa da época, tudo com muita paciência, a começar por eliminar previamente, qualquer juízo de valor, ou traço que não implique neutralidade e a busca da verdade real. A simples intuição não deve atropelar o processo científico.
Um dos fatores modernos e muito usados, em qualquer pesquisa é o da
Metalinguagem. Ao lado dos princípios básicos e estudos possíveis da HL, é esse
método, fundamental para a apreensão e estudo dos acontecimentos histórico- lingüísticos. Por meio desse procedimento, percebemos as diversas variações e maneiras de representação, às vezes implícitas, por meio das quais o pesquisador detecta eventuais deslizes cometidos pelo historiógrafo da Lingüística. Como a metalinguagem visa à explicação do código pelo código, conforme a intenção do locutor, a linguagem assume várias funções. É importante estar atento à questão do tempo que separa o documento do historiador que o examina. É ainda K. Koerner (1996:3) quem propõe a metalinguagem como método de análise do documento passado, sem o que, diz ele, o historiógrafo poderá chegar a resultados distorcidos:
Quando trata de determinado assunto na Historiografia da Lingüística o historiógrafo não pode fugir à questão, especificamente quando, ao discutir teorias de períodos passados, estiver ao mesmo tempo tentando torná-las acessíveis ao leitor do presente e tentando não distorcer sua intenção e significado original.
A metalinguagem é a forma pela qual o historiógrafo trabalha o estudo da linguagem. É a decifração do código. É a linguagem com que nos reportamos ao próprio objeto da investigação em lingüística que, outro não é, senão a própria língua, ou qualquer outro enfoque da mesma língua. Cabe ao pesquisador descobrir os elementos nem sempre explícitos nos textos analisados, como as entrelinhas, o não dito, o não visível, à primeira vista, escondidos na essencialidade do documento. Sabemos que língua e história sempre encerram valores fundamentais que precisam ser desvelados, decifrados e, a metalinguagem é, por excelência, esse processo moderno apropriado para uma interpretação da linguagem mais segura, alicerçada num processo de teor científico.
K.Koerner (1996) em seu artigo Questões que persistem em Historiografia
Lingüística, afirma que os historiógrafos devem buscar seu quadro de trabalho,
metodologia e epistemologia em seu próprio meio e não precisam importar esse tipo de estudo. Faz uma referência especial à metalinguagem, como o método apropriado para descrever fatos passados sobre linguagem e lingüística e para a abordagem de teorias antigas, a fim de que o historiógrafo não caia na tentação de distorcer o documento em seu significado original. O uso correto da metalinguagem vai determinar o sucesso ou fracasso do pesquisador:
A mim parece que pelo menos uma parte do sucesso ou fracasso do historiógrafo da lingüística depende de como ele/ela lida com o problema da metalinguagem, isto é, a maneira pela qual ele/ela empreende a descrição e apresentação de teorias da linguagem aos pesquisadores do campo no presente. [...]
Assim, não podemos estudar a evolução de uma língua como algo absoluto, preestabelecido e esquematizado. Ela está sempre sujeita à intervenção dos elementos que a permeiam, ao meio social que a usa, ao intercâmbio entre os diversos grupos falantes e suas escolhas preferenciais. Não a caracterizam princípios gerais, pois como é produto da atividade humana, está sujeita às vicissitudes e contingências da vida concreta dos falantes, da história peculiar de cada grupo, ou seja, da sociedade humana.
Nunca devemos, estudar os fenômenos lingüísticos isoladamente e é preciso não dissociá-los de outros fatos da história da língua. Não se pode analisá-los de
maneira fragmentada, mas dentro de uma estrutura, de um contexto e de fenômenos que favorecem as mudanças do código lingüístico.
1.9. Fontes
Além da metalinguagem, devemos considerar significativas para o estudo da historiografia lingüística, as fontes históricas, isto é, o documento, o registro, o vestígio, enfim, tudo que foi produzido pela humanidade no tempo e no espaço e que fica como herança para a posteridade. As fontes passam a ter maior interesse, a partir do século XVIII e XIX, com os eruditos franceses que atribuem substancial valor ao documento, considerado como a prova na qual reside a verdade. Compete ao pesquisador apenas coletá-lo, agrupá-lo e submetê-lo à crítica externa e interna para comprovar sua autenticidade.
No século passado, com o advento da Escola dos Annales, e a influência sobretudo de Karl Marx que questiona a objetividade imparcial da história, todo pesquisador está ligado a sua classe social e, pois, não pode ser imparcial. Essa referência muda o conceito de documento que precisa ser estudado a partir de fatores presentes e passados e não têm mais a prerrogativa de irrefutável como algo sobre o qual não se pode questionar. O fato histórico passa a ser construção do pesquisador que faz suas indagações sobre o documento, sua origem, autenticidade e sua ligação com a sociedade que o constrói.
A partir da segunda metade do século XX, a preocupação volta-se mais para os vestígios, vestimenta, comida, cotidiano, alimentação, saúde, as mentalidades coletivas. O documento escrito, é evidente, não perde sua importância, apenas é reinterpretado com fulcro na interdisciplinaridade, principalmente, em relação à Lingüística e a Psicologia. Também o documento oral, sobretudo entrevistas, com base na memória, ocupa lugar de destaque em nossos dias. Devemos acrescentar, também, a literatura, os filmes, as fontes históricas regionais...
A referência de nosso estudo é fazermos uma análise sobre alguns aspectos da obra O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco. Esta obra sintetiza um estudo calcado, sobretudo, na relação escravo / senhor, tendo como palco a segunda metade do século XIX. A partir dessa dicotomia, o autor aprofunda-se no contexto da época, faz as considerações pertinentes, analisa as causas, examina as conseqüências e apresenta as alternativas viáveis para uma solução menos traumática do quadro em questão.
Trabalhar com o documento é estar em contato como o passado, é a versão de um determinado fato ou momento e implica a visão do autor. A realização de um bom trabalho exige do historiógrafo uma noção criteriosa dos fatos, o conhecimento do contexto em que é produzido, seu autor, seus vínculos políticos, sociais, visão de mundo, ideologia etc. É importante relembrar que as perguntas feitas, questionamentos com critério e propriedade, fazem o documento falar.
Essa parte metodológica é fundamental para que possamos fazer uma pesquisa criteriosa, sob a égide das normas que devem reger um trabalho de natureza científica. Fizemos um percurso pela história. Conceituamos essa disciplina, sob os mais diversos enfoques, em vários períodos, destacamos a importância maior ou menor do processo histórico que, invariavelmente, depende da época, das circunstâncias, do meio, das influências políticas e culturais que sempre atingem os pesquisadores em seu estudo.
Estabelecemos a diferença entre História e Historiografia e direcionamos nossos estudos para o campo da Historiografia Lingüística, essência e meta de nossa pesquisa. Conhecemos alguns personagens que influenciam os rumos da História e da Historiografia através do tempo em que o homem, por meio de suas iniciativas, movimentos, mudanças de paradigmas, torna-se o protagonista, o personagem central da história humana.
Apresentamos a Historiografia Lingüística como uma ciência relativamente nova, nascida na década de 70, que prima pela interdisciplinaridade, dialoga com várias ciências que lhe são afins, sobretudo, a História e a Lingüística e tem como objetivo essencial analisar as transformações ocorridas na língua, através do tempo, a partir de documentos escritos.
Mostramos a importância das fontes históricas, dos documentos que nos foram legados e de cuja análise, extraímos os elementos para compor a história do homem sobre a face da terra, desde tempos imemoriais. Procuramos entender o homem de cada época, com suas características peculiares, colocamos em evidência aqueles que tiveram a coragem, a ousadia de se insurgir contra a mesmice, a opressão, as desigualdades
sociais. São seres iluminados, graças aos quais, a história pode ser escrita com novas tintas e critérios.
Nosso enfoque, doravante, converge para o estudo de uma das mais importantes ciências que tem influência sobre os destinos da humanidade em todos os tempos. Encanta pessoas de todas as épocas, empolga platéias, desperta paixões e é o fator de comunicação mais expressivo da linguagem humana. Sua história representa, com fidelidade o pensamento que distingue o ser humano dos irracionais. É ciência, é arte é marca da estética cuja linguagem é o belo. É marco da sensibilidade.
No próximo capítulo, fazemos uma incursão pelas origens da Retórica e trilhamos seus passos através do tempo. Grécia e Roma, onde a disciplina atinge seu apogeu, são pontos de análise obrigatórios. Alguns nomes se destacam e permanecem até nossos dias, como referenciais ligados à matéria. Joaquim Nabuco, por sua formação acadêmica, sente a influência desse contexto cultural e as marcas do clima de opinião transparecem quando escreve O Abolicionismo.