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A Grécia é considerada o berço da civilização ocidental. Além da filosofia, da geometria e da tragédia, a retórica é, também, uma invenção dos gregos. Eles a sistematizam, dão-lhe um perfil e a técnica que, independentemente do conteúdo, habilita as pessoas a defenderem qualquer causa ou tese. Criam a teoria retórica, tida como uma reflexão mais abrangente que visa à compreensão dos fatos e do mundo.

A Retórica Antiga teve sua sistematização com Aristóteles e seus seguidores. Podemos identificá-la como Retórica-mãe. A Retórica, através dos tempos, não tem uma interpretação de sentido linear e homogênea. Cada período, conforme as circunstâncias, outorga-lhe o sentido que melhor se ajuste aos seus interesses e que, nem sempre, coaduna-se com os reais valores da matéria em suas origens, na Grécia.

Primacial para o ser humano, é saber expressar-se com propriedade e permite ao orador atingir a expressão mais justa. Quintiliano, autor de Formação do Orador8, utiliza a Gramática para explicar os textos e a Dialética como técnica de argumentação. A retórica é o bem por excelência. É a arte de bem falar9 e afirma que ‘onde houver causa injusta não haverá retórica’ ( apud Reboul,O - Introdução à Retórica, 2004:74). Para ele, só fala bem o homem virtuoso.

Inicialmente, a retórica tem uma função judiciária e dirime conflitos, na relação governo-governados. Os cidadãos comuns, despojados pelos tiranos, como não há advogados, recorrem às pessoas mais esclarecidas em normas e leis do Estado. Nessa época, surge Córax que, com outro seguidor, Tísias, publica uma ‘arte oratória’ coletânea cuja função é de dar suporte técnico e assistência aos cidadãos que recorrem à justiça.

Córax, inventor do argumento das piores causas, é quem primeiro define Retórica, como criadora de persuasão. Atenas adota a retórica judiciária. Surgem os retores, estudiosos que oferecem seus serviços aos litigantes e afirmam que a persuasão, feita a partir do verossímil, torna-se imbatível e vangloriam-se, por ‘transformar o argumento mais fraco no mais forte.’(Reboul, p.3). Antifonte, (480-411), considerado o melhor representante da retórica judiciária da Grécia, com os retores, cria os lugares,

topoi, argumentos decorados, espécie de retaguarda logística e estratégia a que recorrem

em qualquer momento do litígio.

Górgias cria a origem literária da retórica ( 485-376 ) e desenvolve um sistema que visa à estética, à beleza da construção. Cria e usa, abundantemente, as figuras

8 Institutio Oratoria. 9 Scientia bene discendi

retóricas e o faz, com eloqüência, criatividade e dá um novo ritmo à frase. Nessa época, os gregos confundem literatura com poesia. Górgias desfaz esse equívoco e cria o discurso epidíctico ou elogio público e faz uso de assonâncias, metáforas e antíteses de rara beleza. São de sua lavra, Elogio fúnebre aos heróis atenienses e Elogio de Helena. Górgias põe a retórica a serviço do belo e influencia nomes famosos como, Demóstenes, Tucídites e Platão, entre outros.

A busca do belo nem sempre está a serviço da verdade, daí, o surgimento dos sofistas que pregam a onipotência da palavra, em que os meios justificam os fins. O liame entre a sofística e a retórica surge com Protágoras, mestre itinerante que ensina filosofia e eloqüência. É autor enciclopédico, pioneiro na psicologia das personagens, gênero dos substantivos e dos tempos verbais que resultam na criação da gramática.

Atribui-se-lhe, ainda, o ensinamento da erística cujo princípio é de que, todo argumento pode opor-se a outro, e, qualquer assunto pode ser refutado ou sustentado, ainda que se recorra aos mais esdrúxulos sofismas. Da erística advém a dialética. Protágoras afirma ser “o homem a medida de todas as coisas.” ( Reboul, 08)

Em outras palavras, a verdade depende de como parece a cada homem, e cada um constrói sua verdade e todas podem ser verdades. Mescla, nesse contexto, os valores estéticos, morais, a língua e as ciências. Platão contra-argumenta e diz que a medida de todas as coisas é Deus. O que não o impede de considerar Protágoras um grande humanista. Platão só reconhece a linguagem a serviço da verdade.

Apesar das contradições e polêmicas, os sofistas legam-nos a retórica, como arte do discurso persuasivo, os primeiros passos da gramática, o esboço de uma prosa com ornamentos e erudição, além da réplica que vige até nossos dias. O que os compromete é o fato de usarem uma aparente lógica e estilo para convencer e de considerarem a Retórica, a única ciência possível. A finalidade da retórica não é procurar o verdadeiro, mas convencer pela eficácia da palavra. Para eles a retórica é a rainha, mas sem escrúpulos, despótica e ilegítima.

A retórica atende a muitas necessidades dos gregos, como a técnica judiciária, a prosa literária e a Filosofia. Nesse momento, surge Isócrates, (436-338), ateniense que adiciona o componente moral à retórica. Como a natureza não lhe presenteia com uma voz apropriada para tornar-se um orador, elemento de prestígio entre os gregos, opta por ser professor de oratória. Inova essa arte, muda os procedimentos, conclama seus alunos à reflexão, estimula-os à leitura e à discussão dos assuntos para se aprimorarem.

Segundo Isócrates, o orador possui três atributos: aptidões naturais, prática constante e ensino sistemático. Os dois últimos podem melhorar o orador, mas não criá- lo. Sua maneira de escrever com sobriedade e harmonia impressiona. Evita o abuso de figuras, usa uma linguagem sóbria, clara, sem rebuscamento, ao contrário dos sofistas, e, coloca a oratória a serviço de uma causa nobre, honesta e moral.

Com esse estudioso, iniciam-se os primeiros passos em direção ao humanismo. Ele embeleza a palavra e dá-lhe um novo vigor. Exorta seus contemporâneos a que evitem as guerras fratricidas. Valoriza a língua e a cultura, verdadeiros componentes da nação. Anti-sofista, diz-se filósofo, prega a cultura geral incrustada na oratória e o que vemos é a retórica que praticamente, confunde-se com a filosofia.

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.4 - Aristóteles: concepção de retórica e dialética.

Aristóteles (384-322) filósofo, sábio, torna-se discípulo de Platão cuja academia freqüenta. É o fundador do Liceu, preceptor de Alexandre e traz para a filosofia grega uma transformação sistemática, enriquece-a, repensa toda a sua trajetória e coloca-a no cerne do conhecimento humano. Prega sua utilidade e admite o risco de sua manipulação desonesta, já que usada por indivíduos, o que não diminui sua essência e grandeza. Introduz uma dimensão mais sólida na retórica, com uma argumentação rigorosa e utiliza silogismos implícitos que dão força ao discurso, legitima seu uso, atribui-lhe um valor positivo e torna-a mais eficiente. Para ele, “todos os bens são relativos com exceção da virtude.” (apud Reboul, 23)

Aristóteles, em sua argumentação, defende a tese da utilidade da retórica a que adiciona quatro argumentos: primeiro que não se pode explicar o verdadeiro sem valer- se de artifícios da oratória; segundo, justifica o fato de muitos veredictos, em tribunais, serem injustos; assim, abraça a tese de que os argumentos levantados pelos litigantes são mais fracos e não conseguem sobrepujar os de seu adversário; terceiro, é necessário saber defender o pró e o contra para refutar a argumentação dos adversários. Em quarto lugar, surge a ampliação do debate em que sobressai o uso e a arte da palavra.

Tais argumentos servem para qualquer tipo de discurso, na comunicação, no direito, na política, em que a palavra é a grande arma; define o que é justo e injusto, o que é útil e nocivo; destaca ser a retórica indispensável como arte ou técnica da palavra. Para o estagirita10 deve-se partir do verdadeiro para se chegar ao verdadeiro. Considera

a Retórica uma ciência exata, mas se torna impotente para convencer determinados auditórios incapazes de compreender sua essência, por falta de instrução.

Em resumo, Aristóteles atribui à retórica um papel indispensável, num mundo em conflitos. Devem-se descobrir os argumentos mais persuasivos e convincentes, quando não há outro recurso que não o contraditório.

Os gregos são, por natureza, adeptos da Dialética. Para Aristóteles, a Dialética é a arte do diálogo ordenado, do raciocínio a partir do provável sob a égide da lógica. Ela parte de premissas prováveis para atingir o consenso. A Dialética abdica da verdade em detrimento da opinião aceita e não é, pois, nem moral nem imoral. Tem um fim em si mesma, convencer e respeitar as regras estabelecidas.

Além do respeito às normas, deve-se rejeitar o sofisma, a trapaça e a vitória a qualquer custo. A discussão deve ocorrer por meio de argumentos. A prevalência da ética e da clareza evita o uso de objeções que levem ao fim o embate de idéias.

A passagem do falso ao verdadeiro, faz-se por meio da Dialética, que, considerada como um jogo pelo jogo, pelo prazer do debate, pelo uso da inteligência na busca dos melhores argumentos, procura deleitar os ouvintes, rejeita o preconceito e a parcialidade.

Ainda, conforme Aristóteles, há outros benefícios de caráter pedagógico que se usam há milênios e que capacitam os interlocutores a debaterem qualquer assunto, por meio de exercícios. A dialética permite que o filósofo, com um simples olhar, possa fazer a escolha mais justa. Pelo auto-questionamento, encontra a verdade.

A dialética, como ensina Reboul, é a parte argumentativa da retórica que visa ao convencimento, apóia-se no verossímil e na racionalidade. Se a Dialética é um jogo especulativo, a Retórica é um instrumento de ação social e busca o campo da deliberação e do verossímil. Aquilo que é evidente não prescinde de deliberação.

Retórica e Dialética, ainda que diferentes, pertencem ao mesmo mundo. A primeira engloba persuasão e utiliza a segunda como elemento intelectual. Na retórica, sustenta-se uma tese, mas se defende uma causa. É inevitável reconhecer que, com Aristóteles, a retórica tomou nova dimensão.

A Retórica Clássica sob cuja vigência, Joaquim Nabuco cria toda sua produção literária, consolida-se no classicismo renascentista, por volta do século XVI, e podemos dizer que ela reduziu a Retórica ao campo da elocução à qual privilegia, em detrimento das outras partes convencionais. Realça a arte de escrever e falar bem, valoriza o emprego das figuras, há prevalência da forma sobre o conteúdo e persuadir torna-se um

objetivo secundário. Predomina o sentido de falar bem, agradar e o estilo passa a ter um valor forte, e destaque na elaboração de frases de efeito. Tal é o reducionismo a que chega que num determinado momento aparece uma nova fase denominada Estilística, já no começo do século XX. Acontecimento dos mais notáveis é o surgimento da imprensa que se impõe como grande meio de comunicação e determina o fim da era dos manuscritos. De toda forma, a retórica clássica atendendo mais ao apelo das várias épocas ocupa um lugar preeminente durante um longo período da história humana.

A Retórica Clássica revela-se um campo fecundo para as artes literárias, daí encontrarmos nomes consagrados sob sua áurea com destaque para dois ícones dessa ciência, Cícero, Quintiliano, formando a classe dos bons escritores que até hoje são cognominados de clássicos.

A história literária brasileira em seu período mais fecundo é erigida à sombra de seus alicerces. Os grandes nomes que brilham em nossas escolas literárias, sobretudo o Romantismo e o Realismo pertencem a esse ciclo de gerações, dentre os quais Joaquim Nabcuco.