Os 303 inventários dos 20% a 50% mais ricos registram 317 ocupações de inventariados. Dos 14 registros de ocupações secundárias, são mais numerosos os produtores rurais que também foram advogado, militar, religioso e ferroviário (4 casos), de industriais, artesãos ou prestadores de serviços que também foram
comerciantes (3) e de comerciantes atuando em mais de um ramo dessa atividade (2). Os resultados indicam que médicos, dentistas, engenheiros, advogados, prestadores de serviços diversos, servidores públicos e comerciantes tendem a caracterizar o perfil econômico desse estrato, ao longo do tempo.
De acordo com a amostra, os produtores rurais somam 81 casos, os proprietários e investidores, 89, os comerciantes, 56, os industriais, artesãos e prestadores de serviços, 28, mesmo número de registros de ocupações diversas (profissionais liberais, servidores públicos e trabalhadores diversos). Há ainda 35 inventariados sem ocupações declaradas e identificadas (Tabela 6.4).
Tabela 6.4 – Ocupações entre os 20%-50% mais ricos, Campinas, 1870-1940, em número e %
1870-1890 1895-1915 1920-1940 Totais No. % No. % No. % No. Produtor rural 23 39,0 13 15,9 45 25,6 81 Proprietário e investidor 16 27,1 30 36,6 43 24,4 89 Comerciante 13 22,0 19 23,2 24 13,6 56 Industrial, artesão, prestador serviços 5 8,5 13 15,9 10 5,7 28 Ocupações diversas 2 3,4 6 7,3 20 11,4 28 Sem declaração e identificação 0 0,0 1 1,2 34 19,3 35 Totais 59 100,0 82 100,0 176 100,0 317
Fonte: inventários TJSP–Campinas. Nota: Ocupações diversas: administrador de fazendas, religioso, ferroviário, operário, construtor, advogado, escrivão, professor, militar, médico, contador, jornalista, inspetor de alunos e médico legista.
Os percentuais do grupo de produtores rurais partem de expressivos 39% do total de 1870-1890, declinam bruscamente para 15,9% no período seguinte e sobem para 25,6% no período final. Das 23 ocorrências de 1870-1890, 12 foram cafeicultores, 3 combinaram seus cafezais com lavouras de milho, arroz, feijão, batata, cana-de-açúcar e frutas, 3 produziram cana, cereais e frutas, além de constarem 5 casos sem identificação das lavouras. Dos 13 registros de 1895-1915, 4 foram cafeicultores, 4 combinaram cafezais com lavouras como as já citadas, 2 produziram cana, cereais e frutas, além de 3 inventários sem identificação das roças. Das 45 ocorrências de 1920-1940, apenas 9 foram cafeicultores, 8 combinaram cafezais com outras lavouras, 8 produziram cereais, tubérculos, algodão e frutas, além de 20 casos sem declaração das plantações. Os resultados mostram a queda da produção cafeeira e a diversificação, sobretudo, para a produção de alimentos. Os dados apontam, também, para o aumento das pequenas e médias propriedades rurais após a implantação de núcleos coloniais na região, no final do século XIX e início do XX. Dessa maneira, a amostra de
inventários corrobora que foi possível a uma parte dos lavradores comuns, nesse período, adquirir propriedades menos valorizadas, com produtos voltados para o mercado urbano.
Os percentuais do grupo de proprietários e investidores partem de 27,1% em 1870-1890, atingem 36,6% no período seguinte, mas voltam ao patamar inicial em 1920-1940, com 24,4%.
O grupo de comerciantes tem participação estável do primeiro para o segundo período, com 22% e 23,2%, respectivamente. Porém, o valor declina para 13,6% entre 1920-1940. Dos 13 registros iniciais, 5 foram da área de alimentos e bebidas (açougues, secos e molhados a atacado e a varejo), 2 de vestimentas e tecidos, 1 de medicamentos, além de 5 casos sem os ramos declarados. Dos 19 inventários de 1895-1915, 12 foram da área de alimentos e bebidas, 2 de vestuário e tecidos, 1 de móveis e utensílios domésticos e 2 casos de comércios diversos (ferramentas e madeira), além de 2 registros sem os ramos especificados. Dos 24 casos de 1920-1940, 9 foram da área de alimentos e bebidas, 4 de móveis e utensílios domésticos, 2 de vestimentas e tecidos, 1 de medicamentos, 1 de combustíveis, além de 7 sem declaração e identificação.
Os industriais, artesãos e prestadores de serviços começam com 8,5% do total de 1870-1890, sobem para 15,9% no período seguinte e depois declinam para 5,7% em 1920-1940. Dos 5 casos iniciais, 2 foram da área de construção civil, 2 foram prestadores de serviços de alimentação e hospedagem e 1 de serviços funerários. Dos 13 inventariados de 1895-1915, 3 foram da área da construção civil, 3 da área de alimentos e bebidas, 1 da área de metal e mecânica, 2 artesãos diversos (1 seleiro e 1 curtidor de couros), 1 prestador de serviços de alimentação e hospedagem, 1 de serviços funerários e 2 de serviços diversos (vestimentas e estábulo). Dos 10 casos finais, 2 foram da área de construção civil, 1 da área de metal e mecânica, 2 manufaturas diversas (1 de formas e flores para chapéus e 1 de instrumentos musicais), além de 4 prestadores de serviços de hospedagem e alimentação e 1 de serviços telefônicos.
O grupo de ocupações diversas apresenta tendência crescente. Seu percentual inicial é de 3,4% do total, chega a 7,3% no período 1895-1915 e atinge 11,4% em 1920-1940. No período 1870-1890, identificam-se 1 construtor e 1 administrador de fazendas. Dos 6 registros do período seguinte, 2 foram advogados, 1 construtor, 1 escrivão, 1 professora e 1 militar. Em 1920-1940, 4
foram servidores públicos, 4 professores, 2 médicos, 2 construtores, 2 escrivães, 2 ferroviários (um deles também produtor de milho e mandioca), além de 1 entrada cada um de contador, jornalista, inspetor de alunos e médico legista.
Quase todos os grupos de ocupações apresentam tendência de queda relativa ao longo do tempo. No entanto, antes de observarem percentuais em declínio entre 1920-1940, os grupos de proprietários e investidores, de comerciantes e de industriais, artesãos e prestadores de serviços vinham de percentuais crescentes entre 1870-1890 e 1895-1915. Uma possível explicação para essa queda é a saída desses profissionais para centros com maiores oportunidades econômicas, sobretudo a capital paulista, confirmando o refluxo de trabalhadores e profissionais especializados do interior para a capital apontado na literatura.11
Os resultados para os produtores rurais sugerem uma dinâmica social diferente da observada no caso das ocupações urbanas citadas acima. Os percentuais caíram em 1895-1915, quando revertem nas décadas 1920-1940. Existem documentos que corroboram a disseminação de pequenas e médias propriedades rurais com os núcleos coloniais, justamente no período 1920-1940, quando as primeiras gerações de proprietários desses lotes passaram a figurar na amostra de inventários.
O aumento proporcional de casos de ocupações diversas, sobretudo de médicos, engenheiros, advogados, dentistas e demais profissionais liberais, de professores e professoras, escrivães, procuradores e outros servidores públicos, bem como de ferroviários e operários, também é indicativo da diversificação econômica de Campinas nas primeiras décadas do século XX.