Os estrangeiros e seus descendentes são mais presentes nos segmentos intermediários e menos ricos, como mencionado antes. Entre os 20% a 50% mais ricos, dos 312 inventariados entres 1870 a 1940, 175 são brasileiros, 68 italianos, 34 alemães e 35 de outras nacionalidades. (Tabela 5.4).
Tabela 5.4 – Nacionalidades dos 20%-50% mais ricos, Campinas, 1870-1940, em número e %
1870-1890 1895-1915 1920-1940 Totais Número % Número % Número % Número Brasileiros 48 84,2 48 62,3 79 44,4 175 Italianos 0 0,0 15 19,5 53 29,8 68 Alemães 3 5,3 11 14,3 20 11,2 34 Outras nacionalidades 6 10,5 3 3,9 26 14,6 35
28 TJC, 1º Ofício, n.11051, 1925.
Totais 57 100,0 77 100,0 178 100,0 312
Fonte: Inventários TJSP–Campinas. Nota: Outras nacionalidades: portuguesa, espanhola, dinamarquesa, sírio-libanesa, norte-americana ou britânica, russa, francesa ou franco-suíça.
Os brasileiros constituem a maioria de 84,2% no período 1870-1890, com 48 de 57 inventariados. Os alemães somam 3 ocorrências (5,3%) e o grupo de outras nacionalidades, 6 (10,5%). Da mesma forma que ocorreu no caso dos 20% mais ricos, também no estrato intermediário não houve qualquer caso de italianos inventariados entre 1870-1890.
No período seguinte, 1895-1915, a participação dos brasileiros declina 22 pontos percentuais e seus 48 inventariados alcançam 62,2% do total de 77 inventários. Entre os estrangeiros, os italianos aparecem pela primeira vez na amostra somando 15 casos (19,5%) e superando o número de alemães, com 11 (14,3%), e o grupo de outras nacionalidades, com 3 (3,9%). A distribuição das nacionalidades é ainda mais diversificada no período 1920-1940, em que brasileiros somam 79 de 178 inventariados (44,4%), os italianos, 53 (29,8%), os alemães, 20 (11,2%) e o grupo de outras nacionalidades, 26 (14,6%).
Entre os brasileiros, há famílias no estrato intermediário que também aparecem entre os 20% mais ricos. Esse é o caso dos Camargo Andrade, Camargo Penteado, Pupo Nogueira, Bueno de Camargo, entre outras. Esse resultado sugere um possível declínio na escala social de membros de famílias tradicionalmente situadas na elite econômica. Na análise das datas de autuação dos inventários e dos valores das riquezas orçadas nas partilhas, observam-se indícios de declínio
causados pela dispersão natural da transmissão dos bens para os descendentes.29
Por outro lado, também encontram-se casos de endividamentos capazes de reduzir a posição social de parte dessas famílias. Entre os inventariados com dívidas superiores a 60% do valor nominal bruto de suas propriedades, estão os cafeicultores Paula Joaquina de Camargo Nogueira, Francisco Bueno dos Santos,
Francisco de Paula Souza Campos e Francisco Antonio de Souza Salles.30
No estrato intermediário, a amostra também registra 13 casamentos entre inventariados e inventariantes de nacionalidades diferentes, sendo 11 entre brasileiros e estrangeiros e 2 entre estrangeiros de diferentes etnias. De acordo
29 Como concluem Carlos Bacellar e Eni Mesquita Samara, já citados, foi para retardar esse processo de divisão judicial de riquezas que parte da elite paulista adotou relações matrimoniais de consanguinidade.
30 TJC, 2º Ofício, n.5569, 1875; 3º Ofício, n.7394, 1880; 3º Ofício, n. 8307, 1930; 4º Ofício, n.4740, 1880.
com as datas dos registros nos inventários, do total de casamentos, 2 são anteriores a 1870, 4 ocorreram no período 1870-1890, 4 em 1895-1915 e 3 no período 1920-1940. Os casos ilustrativos são de Anna Carolina de Vasconcelos, casada com Antônio Hercules Florence, oitavo filho do francês Hercules Florence; do italiano Afonso Massaroto com Alice Cesarino; da alemã ou suíço-alemã Bertha Gradvohl com Carlos Theodoro de Siqueira e Silva; e da alemã ou suíço-alemã
Julia Richter com o italiano Luiz Monzani.31 Os 13 casos, mas em universo maior
de 77 inventários, indica a baixa integração social por matrimônios entre diferentes nacionalidades também no estrato intermediário.
As relações matrimoniais mais numerosas tendem a confirmar um processo mais amplo de interação, o que não ocorreu entre os inventariados e
inventariantes mais ricos de Campinas.32 No entanto, é preciso observar o padrão
dos 50% menos ricos para avaliar de maneira mais segura o comportamento geral da amostra.
Os italianos se caracterizam pelo crescimento constante e claramente superior aos demais estrangeiros na participação do estrato intermediário, pois partem de uma presença nula e alcançam, nos períodos seguintes, 19,5% e 29,8% de participação no total no grupo. Não se percebe esse mesmo resultado entre os demais estrangeiros. Outra característica dos italianos é a tendência por ocupações urbanas. No período 1895-1915, há sobrenomes que também são encontrados nas atas de fundação e dos primeiros anos de funcionamento do antigo Circolo Italiani Uniti33. São os casos, entre outros, do construtor Adolpho Massagli, dos
comerciantes Alexandre Sbraglia, Victorio Milani e Braz Bellinfante, do proprietário Felicio Christofani, do seleiro João Perrin e do marceneiro José Ceccarelli. Entre os
poucos produtores rurais, destacam-se José de Lucca e João Tedeschi.34
A lista de italianos é extensa nos anos 1920-1940 e há outros inventariados que também aparecem nas atas da referida entidade da colônia italiana. Nesse período, no entanto, nota-se elevação do número de produtores rurais, aparentemente refletindo a entrada de imigrantes para o trabalho nas lavouras de
31 TJC, 2º Ofício, n.5915, 1915; 3º Ofício, n.320, 1930; 3º Ofício, n.7133, 1870; 5º Ofício, n.1437, 1940.
32 TRUZZI, Oswaldo M. Serra. Padrões de nupcialidade..., p. 180. 33 Atual Casa de Saúde Campinas, entidade original fundada em 1881.
34 TJC, 1º Ofício, n.7418, 1910; 1º Ofício, n.7712, 1915; 2º Ofício, n.5679, 1895; 2º Ofício, n.5681, 1895; 2º Ofício, n.5747, 1900; 3º Ofício, n.7829, 1905; 4º Ofício, n.6681, 1910; 4º Ofício, n.7109, 1915; 4º Ofício, n.7111, 1915.
café. Nesse caso, a amostra de inventários confirma as oportunidades econômicas dos contratados inicialmente como colonos e de seus filhos. Entre os casos encontrados que se enquadram nessa situação estão os de Antonio Pantano, Antonio Andretta, Jeronymo Stecca, Giacomo Pavan e do casal Rosa Giordan e Angelo Grosso.35 Entre os italianos com habilidades ligadas ao meio urbano,
destacam-se o construtor Afonso Massarotto; os comerciantes Thereza Funari Volpe e Caetano Volpe; os fabricantes de chapéus Maria Settangelli e João Ciuccio; Maria Barsotti Graziani, esposa do médico Palieux Graziani; e do mecânico Luiz Monzani.36
Os alemães e suíço-alemães se distinguem pelo crescimento nas suas participações relativas do primeiro para o segundo período e pelo declínio do percentual deste para o último período. Esse resultado é observado também em relação aos perfis econômicos urbano e rural. O período 1870-1890 registra os casos do produtor rural Roberto Armbrust, do marceneiro Jacob Kretti e de Ana
Maria Wiebech, esposa do prestador de serviços funerários Guilherme Wiebech.37
No período 1895-1915 encontram-se os casos dos comerciantes Eduardo Forster e Carlos Rittner, de Francisca Exel Kobner, esposa do industrial de bebidas Misael Kobner, bem como dos proprietários rurais Guilherme e Anna Reiser e Otilia
Hergert, esposa de Max Hergert.38 O período de 1920-1940 indica leve
superioridade de produtores rurais, entre os quais, Luiza Baumgartner, esposa de Jacob Baumgartner; Frederico Homann; e Guilhermina Haeitmann, esposa de Guilherme Haeitmann. Entre os alemães de perfil urbano, estão o comerciante
Adolpho Rabe e os proprietários Henrique Mayer e a viúva Anna Schmutzler.39
O grupo de outras nacionalidades se diferencia dos demais pelo declínio da participação relativa até 1895-1915, acompanhada de crescimento percentual em 1920-1940. No início, este grupo reúne 2 franceses e 1 registro cada de dinamarquês, norte-americano ou britânico, espanhol e português. No período intermediário são 2 portugueses e 1 francês. O período 1920-1940 confirma a
35 TJC, 2º Ofício, n.6000, 1920; 4º Ofício, n.1012, 1925; 4º Ofício, n.3251, 1935; 5º Ofício, n.104, 1935; 5º Ofício, n.1453, 1940.
36 TJC, 1º Ofício, n.7933, 1920; 1º Ofício, n.8567, 1925; 3º Ofício, n.320, 1930; 3º Ofício, n.6387, 1935; 5º Ofício, n.1437, 1940.
37 TJC, 1º Ofício, n.4497, 1875; 3º Ofício, n.7258, 1875; 3º Ofício, n.7598, 1890.
38 TJC, 1º Ofício, n.7425, 1910; 2º Ofício, n.5920, 1915; 3º Ofício, n.7976, 1915; 4º Ofício, n.6682, 1910; 4º Ofício, n.7103, 1915.
39 TJC, 1º Ofício, 14823, 1940; 2º Ofício, n.5999, 1920; 2º Ofício, n.6145, 1925; 2º Ofício, n.6272, 1930; 3º Ofício, n.8185, 1925; 4º Ofício, n.420, 1920.
diversidade étnica no estrato, com 16 portugueses, 3 espanhóis, 2 franceses, 2 russos, 2 sírio-libaneses e 1 norte-americano ou britânico.
Na apreciação do conjunto dos três períodos analisados, algumas nacionalidades tendem a exibir um perfil econômico urbano. São os portugueses, representados pelos ferroviários Manoel Gonçalves e Francisco de Oliveira; os franceses ou suíço-franceses, com o ferreiro Jorge Closel; e os sírio-libaneses, com os comerciantes José Elias Dahur e Said Dahur. Os norte-americanos circulam pelos meios rural e urbano, como exemplificam os casos do produtor rural Alexandre Fenley e do comerciante Alberto Bratfisch. O perfil exclusivamente rural fica por conta dos russos Leon Naligastky e Eva Kugel e do dinamarquês Carlos
Magnussem.40
Em resumo, o estrato intermediário da riqueza em Campinas tendeu a apresentar maior participação das colônias estrangeiras. Os italianos não aparecem no período inicial, mas seus percentuais crescem significativamente nas décadas seguintes, superando os de colônias mais antigas e anteriormente mais numerosas, como a alemã. Por seu turno, o aumento de casos de outras nacionalidades entre 1920-1940 revela a maior diversidade étnica de trabalhadores urbanos e rurais na economia cafeeira do Oeste paulista.