Os 503 inventários do estrato dos 50% menos ricos da amostra registram 512 ocupações de inventariados. São apenas 8 entradas com registros de ocupações secundárias. Destacam-se produtores rurais que também receberam rendimentos como proprietários e investidores (2) e comerciantes também como industriais, artesãos e prestadores de serviços (2). Nesse estrato, a tendência de
11 BEIGUELMAN. A formação do povo no complexo cafeeiro, p. 115-117. CANO. Raízes da
concentração industrial em São Paulo, p. 47-50, 126-127. HALL. The origins of mass immigration in Brazil, 1871-1914, p. 165-168.
quase todos os grupos de ocupações foi de declínio e o alto percentual de inventariados sem ocupações declaradas indica pouco cuidado no registro de informações no processo judicial, prevalecendo o interesse tributário na transmissão das propriedades. No conjunto do período, os produtores rurais somam 120 ocorrências, os proprietários e investidores 72, os comerciantes 42, mesmo número de industriais, artesãos e prestadores de serviços, o grupo de ocupações diversas 38 e o grupo de ocupações sem declaração e identificação, 198 (Tabela 6.5).
Tabela 6.5 – Ocupações entre os 50% menos ricos, Campinas, 1870-1940, em número e %
1870-1890 1895-1915 1920-1940 Totais No. % No. % No. % No. Produtor rural 23 23,5 21 17,1 76 26,1 120 Proprietário e investidor 25 25,5 21 17,1 26 8,9 72 Comerciante 15 15,3 16 13,0 11 3,9 42 Industrial, artesão, prestador serviços 6 6,1 19 15,4 17 5,8 42 Ocupações diversas 2 2,0 10 8,1 26 8,9 38 Sem declaração e identificação 27 27,6 36 29,3 135 46,4 198 Totais 98 100,0 123 100,0 291 100,0 512
Fonte: inventários TJSP–Campinas. Nota: Ocupações diversas: administrador de fazenda, carroceiro, comerciário, jardineiro, ferroviário e operário.
Os percentuais de produtores rurais declinam de 23,5% para 17,1% em 1895-1915, subindo para 26,1% em 1920-1940. Dos 23 registros de 1870-1890, 9 são cafeicultores, 3 agricultores combinaram cafezais com lavouras de milho, arroz, feijão e frutas, 2 cultivavam milho e hortaliça e 9 não tiveram as roças definidas. Dos 21 casos do período seguinte, 6 são cafeicultores, 4 combinaram café com cereais da base acima citada, 3 produziam cereais, tubérculos e cana- de-açúcar e em 8 casos não se tem a roça especificada. Em 1920-1940, 9 são cafeicultores, 12 combinaram café com cereais, frutas e eucalipto, 3 produziram cereais e tubérculos, e em 52 não foi possível identificar as culturas. O aumento do número de inventários nesse último período deve-se aos casos de pequenos produtores rurais, sobretudo de gêneros para o mercado interno.
Os resultados do grupo de proprietários e investidores têm tendência de declínio: partem de 25,5%, alcançam 17,1% em 1895-1915 e atingem 8,9% do total em 1920-1940.
O grupo de comerciantes também apresenta tendência de queda relativa entre os 50% menos ricos. Em 1870-1890, eles são 15,3% do total, passam para
13% em 1895-1915 e caem para apenas 3,9% em 1920-1940. Entre os 15 registros do período inicial, 4 são da área de alimentos e bebidas, 3 da área de vestuário e tecidos, 1 de ferramentas e montarias e em 7 não foi possível identificar o ramo comercial do inventariado. Em 1895-1915, 8 são da área de alimentos e bebidas, 3 da área de vestuário e tecidos, 1 de ferramentas e montarias e há 4 estabelecimentos comerciais sem os ramos identificados. Já em 1920-1940, 5 são da área de alimentos e bebidas, 2 de vestuário e tecidos, 1 de lenha e 3 sem os ramos comerciais declarados.
Os industriais, artesãos e prestadores de serviços tiveram crescimento do primeiro para o segundo período, mas declinam no terceiro (6,1%, 15,4% e 5,8%, respectivamente). Dos 6 registros de 1870-1890, 4 são da área de construção civil, 1 prestador de serviços de vestimentas e 1 de hospedagem. Entre os 19 inventários de 1895-1915, 6 são da construção civil, 2 da área metal e mecânica, 1 de alimentos e bebidas, 1 de lápis e material de escritório, 7 são prestadores de serviços de hospedagem e alimentação, 1 de vestimentas e 1 empresário não teve a atividade declarada. Os artesãos, manufatureiros e prestadores de serviços participam com 5,8% do total. Dos 17 casos de 1920-1940, 3 são da área de alimentos e bebidas, 2 da construção civil, 2 de metal e mecânica, 1 de fogos de artifício, além de 6 prestadores de serviços de alimentação, 2 de vestuário e tecidos e 1 sem declaração e identificação.
Os grupos de ocupações diversas e de ocupações sem declaração e identificação são os únicos a apresentar tendência crescente ao longo das décadas. No caso das ocupações diversas, eles partem de 2% em 1870-1890, atingem 8,1% no período seguinte e chegam a 8,9% em 1920-1940. Os 2 registros do período inicial são de 1 professor e 1 dentista. Dos 10 casos de 1895-1915, 3 são construtores, 3 condutores de veículos e 1 registro cada de dentista, procurador municipal, professor e agente dos Correios. Dos 26 casos de 1920-1940, 6 são ferroviários, 4 professores, 2 casos cada de jornalistas, operários, serventuários e servidores públicos, além de 1 registro cada um de bombeiro, porteiro, construtor, carroceiro, administrador de fazendas, comerciário, jardineiro e barbeiro.
As quedas percentuais de produtores rurais, de proprietários e investidores, de comerciantes e de industriais, artesãos e prestadores de serviços e as contrapartidas de aumentos percentuais de inventariados de ocupações diversas ou sem identificação parecem sintomáticas de um estrato social em processo de
diversificação, sobretudo de assalariados e de funcionários públicos, que passaram a fazer parte do seleto grupo de proprietários de bens.
6.2. Considerações finais
A análise das ocupações da amostra de inventários confirma a presença majoritária da elite de Campinas na produção cafeeira, bem como nas diversas oportunidades econômicas surgidas a partir de investimentos do capital agrícola em empresas industriais, comerciais e de créditos financeiros desde 1870. Entre os 5% mais ricos, os percentuais de produtores rurais e de proprietários e investidores são ainda maiores, reforçando o perfil agroexportador da elite econômica. Mesmo assim, nota-se o interesse das grandes propriedades nas lavouras de alimentos, talvez menos lucrativas que o café, mas também constituindo uma opção rentável de cultivo devido à expansão da demanda dos núcleos urbanos. Por sua vez, os resultados mostram que a inserção de colonos imigrantes no mercado de trabalho, após 1886, ampliou significativamente a presença de lavouras para o abastecimento local, sobretudo no período final deste estudo.
Por volta de ¼ das ocupações dos inventariados dos segmentos intermediários e inferiores era de produtores rurais, uma proporção inferior portanto ao observado entre os mais ricos (em torno de 33%). Contudo, os números desses segmentos apresentam uma tendência diferente da observada na elite, ou seja, se na elite a queda da participação dos produtores rurais é constante, entre os demais estratos ocorre um aumento dos produtores rurais, decorrente da difusão de pequenas e médias propriedades agrícolas, a partir da fundação dos Núcleos Coloniais Campos Salles, Nova Veneza e Nova Odessa, na virada do século XIX até o fim da década de 1910. Os primeiros inventariados com propriedades registradas nessas colônias aparecem justamente no período 1920- 1940, quando as primeiras gerações de proprietários desses lotes começam a ser registradas nos inventários de Campinas.
Um declínio relativo também ocorre entre os comerciantes e os industriais, artesãos e prestadores de serviços. No caso dos comerciantes, observa-se estabilidade nas primeiras décadas, para declinarem nas décadas 1920-1940. No caso dos industriais, artesãos e prestadores de serviços, a diferença é que os percentuais vinham em ascensão antes de declinarem no último período. É possível
que tais resultados indiquem as mudanças de profissionais especializados e capitalizados para São Paulo, com um refluxo de mão de obra e de investimentos do interior do estado para a capital.
Por sua vez, entre os grupos intermediários e inferiores houve aumento na presença de profissionais urbanos, sobretudo em ocupações relacionadas com serviços públicos, profissionais liberais, operários e ferroviários. Estes grupos, portanto, assumiram um perfil mais urbano do que rural, diferenciando-se da elite também por essa razão.