Part II: Concept Evaluation
7. The Simula Concept
Na mesma perspectiva crítica à filosofia metafísica, o povo latino- americano procura afirmar o homem concreto como objeto de amor e como critério fundante para o juízo moral. Ao romper com a ontologia idealista, que impunha princípios universais e eternos, dá-se lugar à uma ética relativa à situação. Como considera Santa Ana (1970): “A única coisa que se pode afirmar, levando em consideração o estado atual da discussão sobre ética, é que as decisões e as ações humanas não têm valor universal, pois estão inter-relacionadas e dependentes das
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variadas circunstâncias nas quais se originam” (p.114). Isso implica que uma ética da libertação deve levar em conta as condições históricas e materiais da situação.
Essa nova ética, segundo Silva Gotay (1985), “é uma ética determinada pela análise científica das condições objetivas na situação concreta e dirigida a fundamentar a conduta moral apropriada para a criação de uma nova sociedade e de um homem novo” (p. 252). Desse modo, é uma ética aberta para o político, constitui uma reflexão crítica do cristão sobre sua fundamentação moral em favor de sua libertação.
A primeira coisa que aparece nessa nova ética é que o homem vem ocupar o lugar central da atividade da fé. O religioso é valorizado em função de seu significado para o homem. Na nova ética, o homem é o fundamento dos valores e não o Deus transcendente da teologia idealista. Nesse sentido, escreve Silva Gotay (1985): “O homem é o ponto de encontro entre Deus e o cristão. É ali que a relação amor-justiça se dá, onde se encontra o Deus”: assim, deve-se entender a espiritualidade da fé cristã, a experiência pessoal do “pecado”, o “perdão”, a “comunhão” etc. “não se trata que o social venha eliminar a dimensão pessoal e interior da fé, como alegam os defensores do pietismo platônico, mas trata-se de situar a dimensão pessoal e a responsabilidade interior da prática da fé em contexto bíblico: a relação do homem com o próximo em contexto bíblico” (p. 266).
Frente aos dilemas e complexidades da vida cotidiana, o homem assume uma nova postura pautada por novos valores. Essa nova postura decorre da nova percepção da situação, como afirma Bonino (1982): “O ponto grave da situação que atravessamos consiste em que, em sua maioria, as respostas clássicas a estas perguntas se mostram inadequadas, carentes de sentido ou inoperantes. Tudo parece mais difícil e complexo” (p.23). As perguntas que o autor se coloca estão vinculadas à questão do “que fazer?” em face às diversas situações da vida; evidencia-se, assim, uma nova percepção da situação e a procura de uma nova resolução para os problemas.
Essa mudança ética, adverte Bonino (1982), advém da modernidade: “os mesmos fatos históricos que nos aproximam e vinculam aos homens no mundo moderno puseram em estreito contato as diferentes culturas e tradições, mostrando a diversidade de critérios e normas morais, concepção éticas”. Desse modo, torna-
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se inevitável a pergunta: “por que não poderiam também nossas normas morais mudar, inverter-se, caducar?” (p.32).
O cristão, diante dessas circunstâncias, convencido de que o evangelho tem a última resposta às indagações da vida humana, resistirá a entregar-se ao relativismo. É consciente que o bem e a verdade não constituem simples convenções ou caprichos humanos, mas a vontade de Deus criador, manifestada em Jesus Cristo. Não obstante, com base nessa perspectiva, “costuma produzir-se uma lamentável confusão, historicamente compreensível, mas plena de graves conseqüências negativas tanto para os cristãos como para o restante da comunidade humana. A confusão consiste, muito simplesmente, em identificar esse firme fundamento, que é o Evangelho, com as normas e valores, ou pior ainda, com as convenções e costumes de nossa sociedade” (BONINO, 1982, p.39). Um exemplo banal dado por Bonino (1982):
A identificação da pompa e da aparência pessoais desenvolvidas pela cultura burguesa com a „decência‟, a „limpeza‟ e até a honestidade; identificação que tem levado muitas congregações cristãs, e inclusive autoridades civis, a exigir o cabelo curto, a barba feita, a gravata e o paletó como passaporte de honorabilidade. (p. 39).
Um outro exemplo menos evidente é
a convicção com a qual muitos cristãos defendem a idéia capitalista da propriedade privada dos meios de produção como se fosse um postulado da fé, quando é evidente que está ausente por completo do panorama geral do pensamento bíblico, e que surge em condições econômicas e sociais mui posteriores e é fortemente resistida por toda uma tradição teológica. (BONINO, 1982, p.39-40).
Observe-se que o teólogo demonstra como os valores cristãos misturam- se aos valores burgueses e são resignificados, legitimando, muitas vezes, a exploração das classes menos favorecidas, característica do sistema capitalista.
A Igreja exerceu, e ainda tem exercido, acentuada influência na formação da sociedade e de suas leis. As instituições, leis, normas e valores da cultura ocidental resultam do seu encontro com a tradição cristã e da evolução que se seguiu. Os cristãos, com freqüência, vêem-se envolvidos na defesa da tradição e, quase sem perceberem, defendem as instituições vigentes, a censura, a coerção etc. Escreve Bonino (1982) nesse sentido: “da defesa da fé passamos, quase insensivelmente, para a defesa do estado de coisas vigentes” (p. 40). O cristão erra
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em crer que o evangelho de Jesus Cristo coincide com as instituições, as leis e a ordem moral imperantes na sociedade.
Diante da questão “que fazer?” e das necessidades temporais imediatas, surge uma formulação mais profunda: o que significa ser homem?
Para os teólogos da libertação, o significado cristão do ser homem se perdeu; a realidade original é aquela dada na criação do homem à imagem e à semelhança de Deus – “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou” (Gn, 1, 27) – o desvio decorre do pecado que encontrou o primeiro homem e agora penetra toda a existência humana. Como verificou-se anteriormente, a concepção de pecado vincula-se à pobreza; assim, esse pecado que penetra na humanidade por meio do primeiro homem apresenta-se em uma situação imediata, como a pobreza e a opressão dos latino-americanos.
Uma vez perdido, esse homem precisa encontrar sua verdadeira existência que é “aquela na qual um homem livre e cheio de gozo, sobre barreiras e limitações convencionais, além do que demanda ou exige a lei, inclusive talvez muito além do que a lei permite, solidariza-se com a necessidade do próximo e responde a tal necessidade” (BONINO, 1982, p. 53).
A noção de um novo homem, pautado em novos valores, que emerge entre os teólogos na América Latina, fundamenta-se em uma reinterpretação da palavra bíblica. O novo homem seria um retorno da condição humana original.
Assim, o anúncio do novo homem é a primeira e fundamental resposta da fé cristã ao problema ético; no entanto, essa não é a última resposta. Quando um cristão se defronta com um problema ético, ele deve pautar-se também na lei, como assinala Bonino (1982): “O resumo da lei de Israel, a vida e dos ensinamentos de Jesus Cristo, o convite à imitação do Senhor, a lei de Cristo, a perfeita lei de liberdade ou vida no Espírito, tudo isso coincide e converge neste foco: o amor” (p.92). Desse modo, quando essa nova criatura defronta-se com uma decisão ética e resolve com um comportamento concreto de amor, está sob a direção de Deus, presente na comunhão dos discípulos, no caminho do Reino.
Ainda importa assinalar que essa nova criatura não é um individuo isolado, mas a comunidade reconciliada e reunida nessa nova forma de homem inaugurada
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em Jesus Cristo e aberta para fé. Ou seja, a vida moral dos cristãos concretiza-se na comunhão dos crentes.
Em última análise, o novo homem em Cristo participa de modo alegre da transformação de todas as coisas, assumindo uma atitude de permanente revolução e rebeldia à toda situação estática.