4 CHAPTER : POSITIONS VERSUS ACTUAL VOTES
4.5 Summarising the Findings
A África se miscigenou no Brasil. Sob o mesmo dossel social e subjugadas pelo látego, as etnias afrouxaram suas amarras, permitindo casamentos “internacionais”. O resultado foram filhos sem apego à religião específica, ou, ainda, a prevalência de crenças comuns e genéricas dos povos. No Brasil existem mulatos, não nos Estados Unidos. Aqui, o mulato pôde, com o passar do tempo, se inserir na sociedade, marcadamente mais amestiçada do que a americana, onde uma gota de sangue africano era suficiente para qualificá-lo como “negro” (BASTIDE, 1985, pp. 159, 237). A tendência inicial do mulato de
“clarear o máximo a sua pele” para se identificar com o branco, como acontecia há pouco tempo, parece ter se tornado diametralmente contrária. Talvez não haja exemplo mais claro disso do que Barak Obama, filho de uma alva mulher branca, com um negro azulado. A globalização tem modificado a concepção brasileira. Em nossos dias, tornou-se raro se ouvir o designativo “mulato”, preterido em favor do “negro”. A atual tendência anti-racismo incentiva e favorece, com benefícios sócio-econômicos a identificação negra, a ponto de pessoas claras e com traços caucasianos se apresentarem como afro-descendentes (ALMEIDA, 2009/B, p. 7; BORGES, 2000, p. 7). Miscigenação e o conseqüente sincretismo foi uma espécie de “caldo de cultura” que fez das etnias indígena e negra a base do Brasil que conhecemos em nossos dias. O surgimento do povo não se deu por uniões legais, matrimônios estabelecidos e assumidos nos moldes da sociedade de tradição cristã. Antes, se deu através do sexo livre, no intercurso com índias nas matas, e dos senhores com suas negras e mulatas. Esse “gene sheik” de etnias não apenas as misturou, mas recombinou-as sem nenhuma receita. A promiscuidade popularizou as doenças venéreas, especialmente a sífilis, a ponto de Gilberto Freire chamar de sifilizada a civilização brasileira original. As marcas da sífilis eram exibidas como troféus pelos adolescentes, provas de suas experiências e proezas, puro sexismo juvenil (FREYRE, 2008, pp. 110, 111). Tal realidade contrasta com a moralidade do puritanismo da tradição católica vista no sertanejo, especialmente o do Contestado. Na opinião de Gilberto Freyre, o negro foi o grande elo entre o índio e o branco. Foi a cultura africana, abrasileirada do outro lado do Atlântico, assumindo o papel de mediadora, que foi capaz de unir culturas tão opostas e díspares quanto a ameríndia e a européia (FREYRE, 2008, p. 116). Na verdade, como veremos, a cultura negra foi a verdadeira responsável pela unidade nacional. O índio estava nas matas, o branco nas cidades e fazendas. O negro era o único que estava em todos os lugares, uma ponte trocando influências entre, e, com ambas, as culturas.
III.3.1 Índios
Os quilombos foram encontrados em quase todo o país, perto e longe de cidades. Interiorizaram-se procurando o abrigo das matas distantes, comumente entrando em contato com os índios. Como resultado, a interação racial e religiosa foi inevitável. O negro se espalhou por todo território nacional, sendo encontrado especialmente às margens dos rios da Amazônia. Portanto, onde se esperava encontrar o índio puro ou o híbrido com o português, aí também chegou o negro, “bandeirantes escravos”. Verificaram-se embates entre negros e índios. Todavia, foi maior a integração do que a rejeição. Lutando contra um inimigo comum, logo se viram irmanados na causa, na carne e no sangue. Sempre que o negro foi assimilado entre os índios, percebeu-se a submissão destes para com aquele, até o nível da escravidão, classe oprimida que se torna opressora. Outros tantos foram os casos
quando o negro era alçado à liderança política ou religiosa. Para evitar que somassem forças e por conveniência, o branco procurava levá-los à mútua oposição. Assim, quando havia ódio entre o negro e o índio era, geralmente, causado pelo branco. Eram estes que formavam grupos de ameríndios para rastrear negros fugitivos e, da mesma forma, comitivas de negros para caçar ameríndios. Negros e índios se mesclavam naturalmente nos quilombos, havendo, inclusive, preferência das índias pelo africano, em detrimento dos de sua própria etnia. Mesmo o mais famoso dos quilombos, Palmares, apresentava certo sincretismo com elementos indígenas (BASTIDE, 1985, p. 114, 129, 131, 132, 136; FREYRE, 2008, p. 108). A miscigenação entre negros e índios também pôde ser percebida na Região Contestada. Por ocasião da construção da Estrada de Ferro em 1906, o traçado dos trilhos alcançou São João dos Pobres, uma pequena vila constituída originalmente de negros. Contudo, por terem se misturado com os Xokleng, poucos resquícios restaram de sua população inicial. Deram origem ao primeiro grupo identificado de cafuzos catarinense. É nesta ocasião que se juntam a este grupo os ex-operários da construção da ferrovia que optaram por se internar no agreste, ao invés de retornar às suas localidades de origem. (THOMÉ, 2007, p. 84).
III.3.2 Catolicismo
Os quilombolas, embora fossem integrantes de um movimento contrário à dominação européia, misturavam elementos católicos às suas próprias cerimônias nativas e outras inventadas por eles, causando a gênese de novas religiões (BASTIDE, 1985, p. 130). É curioso observarmos que existe exatamente esse debate sobre a Religião Contestada. Era ela uma nova religião ou uma forma de catolicismo rudimentar? Maurício Vinhaz de Queiroz acredita que a Santa Religião se configurava como nova vertente religiosa, isto é, que não poderia ser enquadrada como “catolicismo”, enquanto outros autores, como Márcia Janete Espig, objetam, mostrando o contrário (ESPIG, 2008, p. 109). Trataremos dessa questão em momento oportuno. No campo, homens livres e escravos viam-se isolados devido às grandes distâncias. Conseqüentemente, as visitas de sacerdotes católicos eram raras e custosas. A preocupação dos brancos para com os negros era primordialmente com o corpo, não com a alma. Concebiam-lhes como ferramentas vivas para o trabalho. Na cidade, o negro camuflava-se na noite para o exercício de seus batuques, uma sobrevivência de sua herança africana. Os brancos, embora assistidos pelos padres, tinham vida secularizada. Destarte, relaxavam a responsabilidade de catequizar os escravos, negligência oportuna para que o negro perpetuasse sua própria religiosidade. O catolicismo imposto ao negro era, na verdade, um verniz sobre suas raízes. Tornou-se-lhe religião sobreposta, paralela às suas crenças naturais. Destarte, fosse o negro mulçumano ou o fetichista, mesmo submetendo-se ao batismo, continuava mulçumano ou fetichista. O negro orava aos santos
católicos identificando-os com os seus orixás. Conquanto, no início, a prática do catolicismo servia de disfarce para a prática das religiões africanas, com o passar do tempo, a máscara modelou a sua fisionomia, causando real sincretismo (BASTIDE, 1985, pp. 183, 184, 201, 229). Em outras palavras, os santos se tornaram negros no catolicismo praticado pelos africanos e seus descendentes escravos.
III.3.3 Islamismo
O islamismo negro não apenas se diluiu no contato com outras religiões, mas, praticamente, desapareceu. Esqueceram Alá e seu principal profeta, e assimilaram os deuses e o cerimonial de outras nações. Mais uma vez, fica patente não apenas a abertura sincrética acentuada, mas a tendência à assimilação. Além disso, outro fator que contribuiu para a sua extinção foi a sua truculência. A herança mulçumana fez dos negros islamitas os mais revoltosos, e, conseqüentemente, os que mais morriam. Os sobreviventes tinham dificuldade de propagar sua religião à busca de prosélitos. Na verdade, não havia preocupação missionária, apresentando-se, antes, sectária e discriminatória, acreditando serem superiores às demais etnias negras apegadas ao animismo fetichista. O resultado foi o afastamento e o isolamento. Derradeiro motivo para o fracasso do islamismo em nosso país é a idéia que passou a ser recorrente, de que a conversão ao catolicismo equiparava o negro à condição do branco, livre e soberano. No Brasil, nos “confrontos das religiões”, percebe-se que ocorreu o contrário do que se viu na África. Enquanto lá o islamismo superou o fetichismo e mesmo o cristianismo das missões, em nosso país ele desapareceu, e a liderança religiosa foi transferida para o gêge-nagô ou ao cristianismo (BASTIDE, 1985, pp. 207, 208, 217, 218).
III.3.4 Forças Contrárias
É curioso observar que a história, ao “bater” a massa das culturas causando a mútua interação, ao mesmo tempo, exerce sobre elas forças contrárias e distintas. Podemos dizer que exerce força centrífuga, que compele para fora da própria cultura, tendendo à aculturação. Todavia, outra força que incide na cultura, a centrípeta, atua contrariamente àquela, fazendo com que tenda ao centro ou eixo de rotação. De igual forma, embora toda interação entre culturas tenda à mistura, ao mesmo tempo, tende à fixação dos seus valores e práticas peculiares. Provavelmente seja isso o que Bastide quer dizer quando afirma: “O sincretismo é sempre mais ou menos „contra-aculturativo‟, e a aculturação mais ou menos „sincrética‟”. Assim, várias insurreições “estouraram” no Brasil nitidamente contrárias à dominação, não apenas física, mas religiosa do branco. A insurreição de 1809 na Bahia, quando haussas se associaram aos nagôs unindo escravos urbanos e rurais, foi uma revolta contra os brancos, tendo como base a religião. Certamente, esse foi o mesmo “mecanismo”
da Santa Religião. Mostrando contexto opressor semelhante, poder-se-ia dizer que, além das causas sócio-religiosas, também houve ali algum elemento racial? Aparentemente, o que era um tipo de complexo de inferioridade, transforma-se em ódio racial. O branco passou a ser uma espécie de ícone do inimigo, o protótipo dos “peludos”, o não adepto da Santa Religião. Mesmo o branco não era completamente favorável à catequese do negro, concebendo-a, provavelmente, como “um mal necessário”, pois, embora pretendessem “amansar” com ela os escravos, temia-se que pela imposição da religião dos brancos, viessem a se imaginar iguais (BASTIDE, 1985, pp. 139, 148, 149, 182). As insurreições promovidas pelos negros geralmente eram causadas pelos islamizados.