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6 CHAPTER : EVALUATIONS AND FURTHER RESEARCH

6.3 Alternative Explanations

II.2.1 As Batalhas e o Abandono de Taquaruçú

O primeiro ataque a Taquaruçú foi um fiasco total. Arquitetado por Lebon Regis, então Secretário Geral do Estado de Santa Catarina, as forças deveriam atacar simultaneamente, partindo de locais diferentes, a saber, Caçador, Campos Novos e Curitibanos. Ao todo, eram 210 praças, somados de alguns piquetes de civis e guias recrutados na área. O destacamento de Campos Novos, espavorido, fugiu, antes mesmo de encontrar o adversário. O que vinha de Caçador, debandou depois de rápida escaramuça. O mesmo se deu com o que partiu de Curitibanos. Aparentemente, o comandante deste tentava “amansar” a jagunçada, enviando a Taquaruçú bentinhos e retratos de santos, comprando a parcimônia em caso de ser aprisionado. Do lado dos “pelados”, a “batalha” foi comandada pelo menino-deus Joaquim. Fortalecidos por sua retumbante vitória, os adeptos da Santa Religião continuaram viver vida tranqüila em Taquaruçú. Pela declaração de dois espiões enviados ao reduto, havia lá cerca de 600 pessoas, das quais a metade era

constituída de combatentes. Continuavam entusiasmados com as próprias crenças e afeitos à monarquia. Joaquim permanecia “em contato” com José Maria, transmitindo suas ordens aos Doze Pares, também conhecidos como “apóstolos de São Sebastião”. Além disso, relataram que era intento dos adeptos construir um palácio no alto de um monte próximo na propriedade do Coronel Francisco de Albuquerque, onde o menino-Deus Joaquim seria proclamado chefe de governo (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 121-125).

No início de janeiro de 1914, Quinzinho recebeu um dos “telegramas do céu”, no qual José Maria dava ordens expressas e urgentes para o abandono de Taquaruçú e a transferência da cidade e do Quadro Santo para Caraguatá, pois era iminente um ataque do governo que não poderiam suportar. Destarte, O menino-deus, Euzébio e Chico Ventura deixaram o reduto, e se transferiram para Caraguatá. Junto com eles, metade do povo que estava em Taquaruçú, inclusive, quase todo o contingente armado. Os que permaneceram, ficaram sob o comando de Anacleto Ribeiro, assessorado por um negro chamado Antonio Linhares. Além de conselheiro, este também fazia dispor o filho, agraciado também com as capacidades de “menino-de-deus”, para o benefício dos que decidiram ficar (FELIPPE, 1995, pp. 140, 146; VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 123, 124). Se admitirmos que o modelo de possessão era permitido, o filho de Antonio Linhares poderia encontrar uma perfeita sinergia do seu encargo com a religião de seus pais. Se a primeira tentativa de atacar o reduto se mostrou malfadada, a segunda foi uma hecatombe. A maior parte dos que preferiram não ir para Caraguatá era constituída de mulheres e crianças. Muitas delas integravam as famílias dos combatentes que foram para o novo reduto, acreditando que as forças federais não atacariam população quase indefesa. Aparentemente, esse era o pensamento dos que ficaram, pois mesmo avistando as forças inimigas, continuaram calmamente na lide diária. No entanto, o medo e o risco da emboscada provavelmente eram maiores do que o receio de causarem um massacre. Mesmo não percebendo nenhuma movimentação hostil, apenas o som de crianças brincando e cachorros latindo, despejaram pesada artilharia sobre o arraial.

Durante a destruição de Taquaruçu, em 8 de fevereiro de 1914, os canhões do exército brasileiro despejaram 175 tiros de granadas explosivas sobre o reduto. Fustigados pelo pesado fogo inimigo, os habitantes, isto é, mulheres e crianças, portanto, aqueles que não podiam combater, deixaram as suas casas e buscaram refúgio na igreja, no centro do povoado, dedicada a José Maria. Entrincheirados, os poucos combatentes campesinos que haviam permanecido no reduto, não conseguiam erguer a cabeça para fora do refúgio escavado, devido às salvas de metralhadora que não davam trégua (VINHAS DE QUEIROZ, 1981. p. 131). A igreja, ao invés de refúgio seguro, tornou-se sepultura coletiva para o que ali esperavam pelo livramento. A certeza da participação no reino celestial do monge e na ressurreição certa era, provavelmente, o combustível da fé que demonstravam,

exteriorizadas nos gritos e salvas. Em chamas, a igreja veio a desabar, silenciando as vozes dos adoradores que iam perecendo. Os gritos de “Santo José Maria” foram diminuindo e escasseando. O clamor da fé sertaneja foi sufocado, confinado às gargantas. Onde era a igreja, agora, só escombros. O crepitar das chamas foi a única coisa que se passou a ouvir, nos intervalos dos estampidos das armas. Os jagunços, por sua vez, combatiam da forma que podiam. Fanatizados, interpretavam mesmo o revés como mostra de vitória iminente. Com armas em número e capacidade inferiores ao inimigo, não representaram risco aos que os atacavam. Foi um massacre, não um combate. Os parcos projéteis disparados pelos combatentes do reduto, devido à grande distância, quase não alcançavam o front adversário, e, quando chegavam, estavam já em final de trajetória. A única esperança estava na ação sobrenatural. Assim, desfraldavam suas bandeiras brancas ao ar, descrevendo três vezes a cruz, pois acreditavam que, cada vez que completavam este rito, cinqüenta soldados adversários tombavam mortos. No dia seguinte, percebendo que os poucos sobreviventes haviam abandonado o local, os soldados invadiram o reduto. O cenário era de completa destruição. As únicas coisas vivas que encontraram foram cães desnorteados e porcos do mato fuçando os cadáveres (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 131; FELIPPE, 1995, p. 142). O massacre de Taquaruçú acendeu o ódio do sertanejo contra as forças federais. A partir de então, procurariam a vingança, que se manifestaria inclemente e implacável.

II.2.2 A Cidade Santa

Aparentemente, logo se encontrou uma explicação espiritual para legitimar a derrota em Taquaruçú: os que ficaram não teriam crido na profecia de Joaquim, o menino-Deus, sobre a necessidade do abandono da localidade que cairia destruída, bombardeada pela força federal. A derrota se torna a afirmação da fé. As ameaças de enfrentamento impunham ao povo a necessidade de sair à procura da “terra prometida”. Nisto, os sertanejos do Contestado se assemelhavam não apenas aos hebreus, fugidos do Egito, mas, ainda, aos Tupi, à procura da “Terra sem Males”. Caraguatá, o novo reduto, foi fundado Cidade Santa de São Sebastião. Aparentemente, tal homenagem idolátrica era mais do que honraria, talvez um artifício. Vinculando o nome da cidade ao santo, era sua honra que estava em jogo na continuidade e proteção da cidade, algo semelhante aos caminhoneiros hodiernos que estampam a figura da Nossa Senhora ou de Jesus Cristo à frente do veículo, uma espécie de “escudo espiritual”. Se é ou não deliberado, o que fica é: eles que se cuidem, pois, em caso de colisão, são eles que “vão” primeiro. Assim, destruída Taquaruçu, as atenções se voltam para o reduto de Caraguatá, na área de Perdizes Grandes. Para lá já havia se dirigido o Exército de José Maria, que teria chegado em meados de janeiro de 1914, antes da destruição de Caraguatá. O objetivo era participar da

Festa de São Sebastião, marcada para iniciar em 20 de janeiro. Entretanto, as festividades tiveram que ser suspensas, pois Perdizes, localidade contígua a Caraguatá, era lugar aberto e descampado e pairava o medo de que pudessem ser atacados pela força inimiga, durante as festividades. Tal fato ocasionou o fortalecimento do reduto, que passou a concentrar o movimento e tornou-se o maior baluarte da crença no monge. Todavia, o incremento populacional logo trouxe problemas de infra-estrutura e abastecimento. (FELLIPPE, 1995, p. 140; VINHAS DE QUEIROZ, 1981, p. 133).

II.2.3 Surge Maria Rosa

O surgimento da virgem Maria Rosa se deu em meio a uma “possessão”. Era filha de Elias de Souza, grande devoto de João Maria e admirador de José Maria. Tinha em sua sala de visitas, em lugar privilegiado, um altar erigido por sua esposa, todo enfeitado com papeizinhos coloridos, dispondo também de velas e paramentos. Ali estavam, ainda, figuras de João Maria, São Miguel, São Sebastião e São Jorge. Todos os dias, reuniam-se para prestar culto aos seus santos. Foi em meio a um deles, em plena oração, que Maria Rosa, adolescente de 15 ou 16 anos, caiu ao chão, em transe. Amparada pelos pais, desfigurada, fala como se fosse José Maria, o qual anuncia que ela seria, doravante, a sua virgem preferida. A ordem incluía a continuidade da devoção diária naquele recinto, vaticinando a iminência de acontecimentos muito importantes. Com o passar dos dias, a virgem determinou a seus pais a urgência em se mudarem para Caraguatá, local onde ela receberia orientações vitais para a continuidade do movimento (FELIPPE, 1995, p. 148).

Chegando ao reduto, logo lhe foi atribuído o prestígio profético, e, assim, ascendeu à liderança espiritual. O moral do Exército de José Maria andava baixo. Visivelmente abatidos, necessitavam de uma “recarga” de ânimo. Tal se deu, porque o líder do exército, o velho Euzébio jamais ficou curado do ferimento na perna da primeira batalha, e Joaquim, o menino-Deus, também não conseguiu recuperar sua credibilidade profética. Caraguatá passou a receber importantes incrementos de contingente, como foi o caso de Venuto Baiano e Conrado Grober, este, um alemão acaboclado, ambos com seus capangas. Além disso, aparentemente, a maior parte dos que sobreviveram ao massacre de Taquaruçu, refugiou-se naquele reduto. Curiosa era a forma de recrutamento utilizada por Baiano. Anunciava ser portador de ordens expressas de José Maria e São Sebastião para fazer guerra contra o governo e a polícia. A recusa à adesão ao movimento resultaria experimentar trevas por três dias (VINHAS DE QUEIROZ, 1981, pp. 134, 137, 143). O uso de “maldições” para “encorajamento” assumiu contornos bastante definidos, especificando o governo estabelecido como o inimigo a ser vencido.

É provável que a Virgem Maria Rosa não tivesse vocação celibatária. Há quem diga que a visita do Capitão Matos Costa ao reduto do Bom Sossego, sob disfarce de adepto do

movimento, causou lhe certo frisson. Era homem íntegro, que gozava do bom testemunho daqueles que o conheciam. Sob o comando de 200 homens, responsáveis por proteger os trabalhos de construção da ferrovia, tinha aguçado discernimento para distinguir entre os maus elementos oportunistas e o sertanejo sincero que buscava amparo em sua fé rústica. Tendo planejado visitar o reduto, procurou o bodegueiro José Lima, que comerciava com os revoltosos, para acompanhá-lo em sua visita. Cabelo raspado, indumentária adequada e fita branca em chapéu de pano, lá foi o valente oficial. Dirigindo-se à casa de Eliazinho, embora seu vocabulário o denunciasse, seus modos logo inspiraram a confiança do seu anfitrião. Confessando sua real identidade, patente e intenções, tentou costurar um armistício com o pai da virgem, se é que o movimento, já tão esfarrapado em sua liderança e propósitos, o permitia. Certamente, para a tão moça e virgem Maria Rosa, o contato com o jovem capitão, no mínimo, lhe causou muito boa impressão. Acostumada com o trato rude e, muitas vezes, tosco, do sertanejo do Contestado, o contraste com a polidez e a instrução do oficial dificilmente não entusiasmaria seus sentimentos. Contudo, tal encontro acabou por se mostrar danoso para ambos os lados. O sumiço repentino dos “mascates”, após o parlamento com Eliazinho e a virgem, despertou grande desconfiança no matuto sertanejo. Logo, o Moraes e o Eusébio despacharam um piquete ao encalço deles, com a missão de rastreá-los e prendê-los. Sob o comando de Chico Alonso, homem truculento e impiedoso, não conseguiu interceptá-los ainda na fuga, mas conheciam onde o bodegueiro José Lima morava. Não encontrando o oficial no local, assassinou o caixeiro, saqueou e incendiou o estabelecimento. De regresso ao reduto, Chico afirmou ter recebido uma revelação de João Maria, junto a uma cruz de cedro que havia mandado fazer em seu lugar de pernoite, junto a uma fonte. Precedido por tal informação, sua chegada ao Quadro Santo foi a recepção a um “apóstolo de João Maria”. Aparentemente, tão crente quanto ingênuo, Elias Moraes, o pai da virgem, o exaltou Comandante Geral de todos os redutos (FELIPPE, 1995, pp. 167-169). Assim, o prestígio e a influência de Maria Rosa foram, de vez, sepultados.

II.3 Ritos Crenças e Objetos Sagrados