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SIM Scenery

In document Norwegian Wood Innovation (sider 48-55)

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5.2.3 SIM Scenery

O tema e o título do filme ‘‘Janelas da Alma’’, produzido e dirigido por João Jardim e Walter Carvalho em 2002 e que vai mediar o nosso estudo, foi inspirado no artigo de Marilena Chauí: “‘Janelas da Alma’, espelho do mundo” que compõe uma coletânea de textos sobre o Olhar, e que se encontra em uma obra designada pelo mesmo título. No artigo, Chauí (2002) monta uma trajetória da construção dos significados que a palavra Olhar adota em vários contextos e épocas. A autora destaca que o cotidiano nos mostra o poder mágico atribuído aos olhos, tanto quando se diz do ‘amor a primeira vista’, tanto quando se fala do ‘mau olhado’, relacionando ao mau agouro. A forma de perceber o mundo e as opiniões que se tem sobre as coisas expressas como ‘visão de mundo’ ou ‘perspectiva’: o espanto é dito como ‘espetacular’; as relações entre os fatos e o que é sentido é pronunciado como tendo algo ‘a ver’ ou ‘não tendo nada a ver’; o vidente é alguém que consegue visionar um futuro. “Assim falamos porque cremos nas palavras e nelas cremos porque cremos em nossos olhos: cremos que as coisas e os outros existem porque os vemos e que os vemos porque existem.” (Chauí, 2002, p.32). Para a autora, apenas a audição é rival da visão quando considera os cinco sentidos. “Os demais, ou estão ausentes, ou operam como metáforas da visão” (p.37).

O filme trabalha com vários conceitos de Olhar em seus depoimentos. No documentário foram selecionados depoimentos de 19 pessoas que possuíam algum grau de deficiência visual (de uma miopia leve à cegueira total) para falar sobre o Olhar. Alguns depoimentos demonstram uma convergência de temática e conceitos, outros, uma variedade grande de significados que, ou se complementam, ou se contradizem em seus significados de olhares e percepções de mundo. Freire (2002), em uma crítica do filme, destaca que:

...o alvo dos Olhares da Janela da alma é propor a múltipla leitura do discurso imagético, para além da denotação, submetendo-nos ao Olhar convergente que extrapola o mero referencial. Nesse sentido, como documentário, Janela da alma vai ao encontro do conceito de Grierson, um dos precursores do gênero que definia esse tipo de filme como ‘tratamento criativo da atualidade’. Nada mais contemporâneo, portanto, que a discussão do Olhar, seleção e manipulação dos significantes dentro do universo audiovisual. (p.2)

Freire (2002) destaca em sua crítica que ‘‘Janelas da Alma’’ é uma expressão da contemporaneidade do Olhar, bem como ressaltar que ainda que seja considerado um documentário, o filme consegue ir além dos sentidos denotativos, provocando uma chamada diferenciada para a imaginação do espectador de ficção.

Ribas (2003) declara que ainda que o diretor manifestasse sua vontade de fazer um filme sobre miopia, foi sobre o Olhar que executou sua obra. O que queria descobrir e por que se interessava era como participantes se construíam a partir de uma miopia. “O filme ‘‘Janelas da Alma’’, de João Jardim e Walter Carvalho, um dos grandes fotógrafos da atualidade – declarou ‘ao vivo e a cores’ o seu desejo de fazer um documentário sobre a miopia. E a descoberta que havia feito um filme sobre o Olhar” (p.65). No filme, que seria sobre a miopia, não é sobre o que não se vê que é destaque, mas sobre as possibilidades que são colocadas pela impossibilidade de ver. Enquanto o que rege a vida é uma utopia realista em que o que é apresentado como verdade baseia-se no que é visto a partir de uma captura física do olho, os entrevistados do documentário relatam uma realidade que está mais além do que a lei física que rege a visão pode alcançar. O que é falado destaca uma interpretação interior e metafórica do processo de ver e adotar a verdade do dia-a-dia.

Inverossímil a crença teimosa de que para viver é preciso enxergar tudo como é, sem sequer desconfiar que o sentido pode sempre variar com relação ao que eu reconheço como verdadeiro. Que até a memória é inventada. Que o testemunho é uma artimanha do narrador. Que a rigor eu escrevo a alter-biografia. No entanto, é preciso viver não é preciso o que agora se entende por navegar. (Ribas, 2003, p.67)

Em síntese, o tema Olhar e “visão de mundo” vêm sendo explorados pela mídia e pela literatura (Chauí, 2002; Debord, 1997; Saramago, 1995). O verbo Olhar é carregado de sentidos metafóricos desde a Grécia e adota diferentes significados. Usamos o ver como sinônimo de conhecer, saber e entender. É comum usarmos a expressão “visão do mundo” para expressar o que achamos das coisas:

Falamos em visões de mundo para nos referirmos a diferenças culturais ou para caracterizarmos diferentes ideologias e estas foram descritas pelo jovem Marx a partir da retina e da câmara escura, onde imagens se oferecem invertidas, visão enganada. Falamos em revisão quando pretendemos dizer mudança de idéias, correção do rumo do pensamento ou da escrita, sem indagarmos por que referimos ao Olhar alterações de idéias, convicções, práticas ou dizeres. (Chauí, 2002, p.32)

Ao discutir sobre o Olhar, utilizamos construções metafóricas que adotam o ver como tema de percepção e ideologia de mundo. Neste referencial teórico ressaltamos os

temas relevantes para a compreensão do objeto de estudo proposto. O objetivo deste estudo é analisar a construção do conceito de Olhar por meio da descrição de permanências e modificações dos significados que o compõem em entrevista de histórias de vida, sobre a atividade de fotografar e após as participantes terem assistido ao filme “Janelas da Alma”. Para se alcançar esse objetivo, utilizou-se fotografia, entrevistas episódicas e narrativas para investigar o nível de desenvolvimento, quais foram as mudanças e como o processo se desenvolveu em relação ao conceito de Olhar. A importância desse estudo é de poder identificar os significados que constituem o conceito de Olhar.

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