Como mencionado Vigotski (2000, 2001) dedicou uma parte de seus escritos aos estudos sobre a formação de conceitos, dividindo-os em: cotidianos e científicos. O estudo do desenvolvimento dos conceitos é uma forma de entender como se desenvolve o pensamento verbal, uma vez que para Vigotski (2001) o desenvolvimento de conceitos só pode acontecer a partir de uma palavra e na resolução de problemas concretos. Neste estudo, então, vemos a necessidade de identificar os significados que formam o conceito sobre o Olhar e a enunciação de novos significados das quatro mulheres participantes, a partir da introdução de ferramentas mediadoras como as atividades de fotografar, de assistir ao filme que trata do conceito em estudo e de co-construção de conhecimento em entrevistas semi-estruturadas.
Vigotski (1998) destaca a formação de conceitos como:
...mais do que a soma de certas conexões associativas formadas pela memória, é mais do que um simples hábito mental; é um ato real e complexo de pensamento que não pode ser ensinado por meio de treinamento... Em qualquer idade, um conceito expresso por uma palavra representa um ato de generalização. Mas os significados de uma palavra evoluem.... O desenvolvimento de conceitos, ou dos significados das palavras, pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais: atenção deliberada memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar. Esses processos psicológicos complexos não podem ser dominados apenas através da aprendizagem inicial. (Vigotski, 1998, p.104)
É na atividade que os conceitos vão sendo modificados e reconstruídos: atividades cotidianas, esporádicas, científicas, contínuas. As atividades culturais possibilitam manifestações e leituras dos cânones sociais de um determinado grupo e que, dialeticamente, influenciam as mudanças por que passam e por elas são influenciados.
De acordo com Van Der Veer e Valsiner (1999), Vigotski começou a se interessar pela formação e desenvolvimento dos conceitos por volta de 1927 e continuou esse estudo durante todo o seu percurso intelectual até sua morte em 1934. Destacam-se várias fases de seu pensamento sobre esse processo: uma primeira sobre os desdobramentos do trabalho de Ach com os conceitos e uma segunda sobre os experimentos de Piaget. Esse interesse se deve pelas posições teóricas de Vigotski enfocarem, principalmente, a construção do pensamento e da fala. Tendo em vista as teorizações de Vigotski (2001a) e Volosinov (1992) sobre o assunto, pensamos que a construção de conceitos ocorre nos contextos interacionais vivenciados ao longo da vida, pois as trocas entre os interlocutores e as atividades desenvolvidas possibilitam a mobilização dos significados e lógicas de organização do conhecimento em gêneros do discurso potenciais nas diferentes culturas.
Para Luria (1979) os processos de mudanças não apenas ocorrem na fase infantil, mas percorrem toda a vida humana, bem como em sua história de evolução e desenvolvimento cultural e, conseqüentemente, social. Inicialmente, na infância, desenvolvem-se os conceitos comuns, que dizem respeito à evocação de um objeto representado, ou conceito concreto, uma vez que esse tipo de conceito trabalha diretamente com a relação palavra-objeto, em uma situação concreta de uso do objeto referido. Vigotski (2001) denomina esse tipo de conceito de cotidiano.
Os conceitos científicos, diferentemente dos cotidianos, apontam para uma relação na qual, primeiramente, se tem uma descrição do conceito, depois dos objetos e das
questões cotidianas. O conceito científico é recebido pronto e, aparentemente, não possui uma relação com o objeto concreto ou prático e só depois é que o indivíduo estabelece uma referência mais concreta a partir desse conceito, se o conceito permitir esse tipo de relação. Os conceitos científicos são passados por meio de uma educação formal, como conceitos de número, frações, de tempo. Em nossa sociedade, por exemplo, aprende-se o que é número teoricamente para depois identificar, na medida em que se avança no processo de escolarização, o que são os números, quais são eles e quais suas funções. Nesse tipo de conceito, há um processo de abstração diferente, pois há uma relação teórica primeiro para depois haver uma identificação na prática desses conceitos, por isso, são desenvolvidos mediante uma evolução no processo educacional.
Neste estudo, centramos nosso objetivo no desenvolvimento dos conceitos cotidianos em adultos. No adulto, a palavra desempenha funções diferentes no pensamento verbal do que na criança, os dois tipos de conceitos – cotidianos e científicos - se relacionam e fazem parte de um complexo na forma de memorizar, raciocinar e organizar as idéias. Não temos uma forma única de lidar com os conceitos apreendidos e nem usamos apenas um tipo de conceito, científico ou cotidiano, em nossas operações mentais. Há uma interação entre os tipos de conceitos acerca de um construto para que possamos raciocinar e agir sobre e com eles, transformando as atividades. Além disso, um conceito pode estabelecer várias relações com os objetos e as idéias representados, além das relações metafóricas que pressupõem uma abstração maior da língua e da palavra. Sirgado (2000) nos lembra que esta relação complexa do pensamento adulto só é possível “graças a sistemas de mediação altamente complexos, produzidos socialmente” (p.41). Nesse sentido, Ratner (1998) também destaca que a produção dos conceitos é puramente social e a organização psíquica é modelada pelos conceitos sociais e culturais. Para o autor, a memória dos fatos ou das percepções das cores, por exemplo, é evidenciada pelos significados sociais que esses eventos possuem no contexto cultural. Um outro fator que contribui para a construção psíquica do mundo vivenciado é a comunicação social. A “memória de cores depende da maneira como as cores são usadas na comunicação social” (Ratner, 1998, p. 458). A construção dos conceitos é complexa e, certamente, não engloba apenas a relação da palavra com o objeto, mas todas as construções simbólicas que envolvem esses conceitos e que são comunicados socialmente. As redes de comunicações,
tanto as pessoais como as de massa (rádio, televisão, jornais, internet, cinema), que envolvem os grupos fazem parte do elaborado complexo cultural (Sirgado, 2000; Ratner, 1998).
Acreditamos que o processo e desenvolvimento dos conceitos é uma atividade criativa. Vigotski (2001) destaca que “um conceito não é uma formação isolada, fossilizada e imutável mas, sim, uma parte ativa do processo intelectual, constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução de problemas.” (p.67). Vigotski (2001), citando Ach, destaca que o processo de formação de conceitos não é passivo e mecânico, mas ativo e criativo. A ligação mecânica entre a palavra e o objeto não é suficiente para o desenvolvimento de um conceito, uma vez que, a formação do conceito estabelece-se por meio da resolução de um problema que envolve a ação, portanto, o conceito surge como uma das alternativas para o problema apresentado. Ao tentar resolver os problemas, o sujeito reflete, age e constrói novas formas de pensar um mesmo problema.
A formação de conceitos e as transformações na organização dos significados, lógicas de pensar e agir, exigem operações mentais e funções de abstração e generalização muito flexíveis. Esta flexibilidade é adquirida pelo desenvolvimento do processo de imaginação (Vigotski, 1998). A formação de conceitos, então, é uma atividade que envolve a criatividade como habilidade de resolver problemas. (Alencar, 1993; Ayman-Noley, 1992; Hayloc, 1987; Wallas, 1970; Weschsler, 1988), em que a criatividade seria também a capacidade de resolvê-los. A posição que Vigotski ressalta é de que os conceitos surgem a partir da execução de uma ação para resolver um problema. De acordo com Antsiferova (1997), a atividade criadora e a atividade adaptativa dos animais “aparece como a forma fundamental de existência” (p.37). Para a autora, a atividade criadora faz parte da própria atividade psíquica, como uma unidade que envolve uma ação reflexiva (interna) e uma ação executiva (externa). Assim, a formação de conceitos seria um processo de criatividade humana em que uma novidade poderia provocar a reflexão e a mobilização de uma nova organização.
Steiner e Moran (2003) destacam que a teoria de Vigotski tem um foco importante na criatividade e no desenvolvimento, pois ressalta a relação do sujeito com os objetos e suas relações culturais e sociais: a criatividade é vista como uma produção na relação das construções dos significados. Para Vigotski, a criatividade é dialética e
influencia o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Segundo os autores, a teoria de Vigotski destaca a criatividade como um processo da imaginação e da cognição. É por meio da imaginação que se começa a operar com conceitos, ou seja, operar com conceitos faz parte da mente imaginativa e conseqüentemente do processo criativo. Teóricos da criatividade (Amabile, 1983, 1990; Csikzentmihalyi, 1999) de outras vertentes, também desenvolveram teorias que enfatizam a criatividade como produto da interação social e têm uma visão congruente às propostas pelos teóricos russos, embora não enfatizem os aspectos históricos.
Van Der Veer e Valsiner (1999) destacam que os pensamentos são formados por conceitos e Rubinstein (1978), por sua vez, define pensamento como operações; assim, estudar a transformação dos conceitos é, também, estudar a transformação dos significados e das operações que constituem as resoluções de problemas. Deste modo, o conceito não é apenas uma relação da palavra com o objeto, mas constitui uma forma de abstração e, para nós, marca formas de operar sobre o mundo em diferentes contextos comunicacionais. Para Vigotski (2001), a formação de conceitos acontece a partir de seqüência de ações (atividades); ao entrar em contato com um problema, tentamos achar uma solução, e é na operação complexa do pensamento verbal, na relação entre cognição e afetividade que os conceitos são construídos.
O conceito é impossível sem palavras, o pensamento em conceitos é impossível fora do pensamento verbal; em todo esse processo, o momento central, que têm todos os fundamentos para serem considerados causa decorrente do amadurecimento de conceitos, é o emprego específico da palavra, o emprego funcional do signo como meio da formação de conceitos. (Vigotski, 2001, p.170)
Ao estudarmos a construção de conceitos percebemos que a atividade criativa, como processo do desenvolvimento humano, se faz presente.