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A longa crise econômica iniciada em setembro de 2008 parece concretizar o que Milton Santos (2001) previa ao pensar a divisão da história do capitalismo por períodos entrelaçados por crises: parece que passamos por um momento que é um período e uma crise ao mesmo tempo. Trata-se de um período porque suas variáveis estão por toda parte e a tudo influenciam (a noção de globalização) e é uma crise porque as variáveis do sistema estão em choque e exigem redefinição. O resultado de tudo isso é uma crise permanente, mas com variações e especificidades locais.

Ao visualizar que a única crise que seria hegemonicamente preocupante seria a financeira, Santos (2001) parecia já antever a persistência da crise atual e seu impacto profundo sobre todas as demais crises. Em economias ligadas internacionalmente, ou globalizadas, a financeirização está mais do que arraigada no cotidiano e, exatamente por isso, as consequências de turbulências no setor se alastram e dificultam sua solução.

O dinheiro do setor financeiro é fluído, relativamente invisível e praticamente abstrato (SANTOS, 2001). Contudo, o que temos hoje é uma crise financeira mundial concreta, que dura mais de quatro anos e afeta diretamente as esferas da produção real econômica, social, política e também moral de praticamente todos os países do mundo.

Dentro do que Santos (2001) antecipava para os efeitos mais graves do aumento da internacionalização do dinheiro, o conceito de liquidez tão usado por Bauman (2010a) para descrever os fenômenos da modernidade parece fazer mais sentido neste contexto de crise. É a crise de uma sociedade de consumidores, da especulação excessiva, de instituições precárias e incapazes (ou desinteressadas) de fortalecer regulações e das informações superficiais e fugazes.

De uma forma geral, a crise financeira internacional começou nos Estados Unidos com a expansão do seu mercado imobiliário em 2001, com a disponibilidade de crédito barato em um cenário de redução das taxas de juros. Tais facilidades resultaram em um aumento da especulação

financeira e de um movimento de compra/venda de casas com dinheiro de empréstimos e crédito de bancos e empresas hipotecárias e financeiras.

Segundo Bauman (2010b), o grande problema surgiu a partir de uma característica muito típica do capitalismo, sua necessidade de continuar se expandindo para áreas até então inexploradas. Assim, o excesso de consumo no país começou a gerar créditos de alto risco e baixa qualidade – as chamadas hipotecas “subprimes” - para atrair grupos mais pobres para que passassem também a fazer parte da bolha consumidora.

Para o autor, desde a criação do cartão de crédito já havia a intenção de incentivar o consumo com base na crença de que se pode ter o que se quer, mesmo que não se ganhe o suficiente para obtê-la. O cartão de crédito e os empréstimos excessivos são, portanto, uma condição fundamental do capitalismo e dos lucros contínuos para os emprestadores, dado que “o ‘devedor ideal’ é aquele que jamais para integralmente suas dívidas” (BAUMAN, 2010b).

Nesse sentido, Zizek (2010) explica que a finalidade do capitalismo é evitar que as necessidades do consumidor sejam completamente satisfeitas e, para tanto, precisa continuamente induzir e ampliar novas necessidades e novos clientes. Para o caso dos empréstimos, sua função é criar e incentivar a necessidade de novos empréstimos, através de mais crédito.

Por isso, quando, a partir de 2006, o preço dos imóveis norte-americanos começou a cair e houve uma contração do crédito, de certa maneira, Zizek (2010) diria que estaríamos diante de uma evidência de que o capitalismo havia funcionado até aquele momento. Iniciava-se então uma nova conjuntura, em que o mercado imobiliário estava danificado e, consequentemente, também o estavam os antigos emprestadores (bancos e empresas hipotecárias e financeiras). Como resultado, bancos tradicionais e grandes empresas hipotecárias, a exemplo do Citigroup, do Bear

Stearns e do Lehman Brothers, começaram a sofrer os efeitos e entraram em processo de falências e concordatas. Inaugurava-se assim a crise financeira mundial.

De acordo com o autor, no entanto, as evidências já eram bem perceptíveis e um tanto discutidas nas reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM), com queixas contra o modo como os bancos criavam a ilusão de crescimento quando, na realidade, usavam um dinheiro de ficção. E até hoje, as soluções não são claras e nenhuma medida de salvamento é eficaz (ZIZEK, 2010).

Krugman (apud HACKER; PIERSON, 2012) é da mesma opinião e avalia com gravidade como, tantos anos depois do início da crise, a economia norte-americana continua

danificada, marcada por altas taxas de desemprego e baixas de crescimento. Ao entender que atualmente os Estados Unidos estão presos em uma “armadilha de liquidez”, pois suas taxas de juros já estão em baixos níveis, o autor explica que medidas comumente usadas para conter recessões, tais como uma nova expansão do crédito, não funcionam e entra em questão o papel dos gastos do governo como novo incentivo à demanda.

Logo, foi montado um cenário em que, com o crescimento do desemprego, o consumo foi reduzido e a economia foi prejudicada. Por sua vez, os bancos e investidores com menos capital e receio de emprestar, reduzem o crédito e outras condições de financiamento, o que também abala o nível de crescimento. E, para finalizar, os governos precisam gastar mais para salvar bancos e bancar dívidas privadas, além de lançarem medidas de estímulos às economias internas que finalizam o ciclo negativo em que os países crescem menos, gastam menos, cortam gastos se endividam mais.

E, no mundo globalizado, a extensão da crise financeira não parou nos Estados Unidos e logo se estendeu para os demais países. No caso da crise do Euro, a questão foi agravada por envolver um grupo de países heterogêneos com uma mesma moeda sem uma política fiscal/monetária comum a todos. Ou, segundo Krugman (in. Spiegel, 2012), sem um mesmo governo.

Ao entrarem para a União Europeia, países considerados “periferia”, como Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal, fizeram parte do seu ciclo de desenvolvimento e as baixas taxas de juros e a moeda unificada deram condições para picos de crescimento sem o risco de desvalorização das moedas nacionais. Como, além disso, o Euro previa baixas inflações, a situação do crédito também foi de expansão e, consequentemente, de expansão do endividamento.

Entretanto, com exceção de poucos países como a Alemanha, os custos de produção nacionais se encareceram e o excesso de consumo privado e de gastos do governo em um contexto de economia ineficiente, aumentaram as exportações e o financiamento por capital externo, ou seja, mais endividamento.

O mercado financeiro pouco regulado permitia que o dinheiro circulasse com facilidade e logo a “periferia da Europa” estava mais endividada. Para conter a situação, os governos locais se endividavam ainda mais em busca de conter a falência de seus bancos e o crescimento se reduzia, dando início a um novo ciclo negativo.

A dificuldade de solucionar uma crise dessa magnitude e entrelaçamento tornava-se mais grave. A União Europeia, em conjunto com o FMI, recomendam medidas de austeridade e novos cortes de gastos dos governos nacionais como medidas para contenção da crise do Euro o que, para os países periféricos da região representa uma sensível na sua situação.

Tomando o caso da Grécia como exemplo, os sucessivos calotes em sua dívida e o insucesso nas medidas de austeridade colocam o país numa contínua ameaça de exclusão da UE. Caso seja decidido por sua exclusão ou o próprio país decida pela sua saída, Krugman (in. Spiegel, 2012) adverte para a abertura de um precedente para os demais países periféricos que poderiam retirar o dinheiro de seus bancos, o que desmantelaria a zona do Euro, a não ser que o Banco Central Europeu esteja disposto a repor essas quantias.

Krugman é um crítico das medidas de austeridade e as considera uma fatalidade para as economias europeias, ou as compara com “zumbis” por continuarem sobrevivendo mesmo com as evidências de que não funcionam. Para o autor, a solução se encontra na expansão monetária até a recuperação da economia, com apoio do Estado e dos governos locais e um esforço para aliviar as dívidas hipotecárias privadas (in. Spiegel, 2012; apud HACKER; PIERSON, 2012).

Mas, qualquer que seja a recomendação, é fato que não se sabe ainda muito bem como lidar e muito menos como solucionar a crise financeira. Ou, conforme o pessimismo irônico de Zizek, como os mercados se baseiam em crenças, caso haja uma crença na eficácia de um suposto plano,

talvez tenhamos de rezar para que um acordo elaborado com uma mistura tóxica de interesses especiais, medidas econômicas mal direcionadas e ideologias de direita que produziram a crise possa, sabe-se lá como, levar a um plano de salvamento que funcione ou cujo fracasso não provoque danos excessivos (Stiglitz, apud ZIZEK, 2011, p. 22).

Constitui-se, desta maneira, um estado de emergência econômica, em que as medidas de corte de benefícios, redução de serviços gratuitos de educação e saúde marcam o fim do estado de bem-estar social e, mais, em que nos países até pouco considerados os mais ricos do mundo aumenta o nível de desigualdade social, e a economia se torna dominada pelo mundo do mercado financeiro e suas regras e técnicas que se justificam por si mesmas (ZIZEK, 2011; Stiglitz apud HACKER; PIERSON, 2012).

Se Milton Santos (2001) previa que haveria uma crise econômica que seria tanto uma crise quanto um período, a atual crise deixa bem claro que sua visão estava correta, é mesmo global e permanente. E é agravada ainda por outros fatores bastante incomuns em qualquer outra

crise global, principalmente quando comparada à outra grande crise (a de 1929), pois temos agora também que lidar com ameaças ambientais, com o aumento expressivo do excedente populacional e da pobreza mundial e com declínio dos sistemas morais e políticos que sempre deram certa coesão e estabilidade às instituições da modernidade (BAUMAN, 2010a).