C.3 Detaljkapitler for veger
C.3.3 Utforming av planskilte kryss
C.3.3.3 Akselerasjonsfelt
Novamente reafirmando que não há a intenção de formar uma nova totalização, destacamos que, embora as discussões acima sejam voltadas para o contexto da América Latina, é inegável que cada país possui uma realidade específica, com manifestações culturais particulares e outras diferenças igualmente significativas. E, em se tratando de uma conjuntura de crise financeira mundial, é ainda mais importante ressaltar que se trata da percepção de uma economia – neste estudo, a brasileira–, não do continente generalizado e homogeneizado.
De causas externas, a crise iniciada em 2008 é uma turbulência, de certa maneira, importada. Contudo, em um mundo globalizado, em que o comércio internacional está interligado, seria difícil fugir totalmente dos impactos e efeitos prejudiciais à vida local. E o mais marcante é que sua origem financeira – e abstrata – teve realmente capacidade de atingir a vida cotidiana, aparentemente distanciada de qualquer aspecto bancário ou especulativo.
Mas o fato é que, com a intensificação da crise, rapidamente o setor real foi afetado: o crescimento da economia, o nível de emprego e os fluxos de comércio e investimento. No Brasil não foi diferente. É interessante observar, nas matérias abaixo, a evolução da crise e de seus canais de transmissão, da esfera do mercado financeiro mundial, para as bolsas de valores brasileiras e, finalmente, para a esfera da vida real.
Ao estarem na capa dos jornais, são as notícias de maior destaque e parecem anunciar a gravidade do impacto e a certeza da inevitabilidade e da extensão da crise. Temos abaixo exemplos da evolução da crise pelo mundo e sua chegada ao Brasil, via mercado financeiro e queda nos investimentos estrangeiros.
Começamos com as capas da Folha de S. Paulo para os primeiros dias logo após as quebras dos principais bancos de investimentos dos Estados Unidos, divididas em dois grupos: em primeiro lugar, o das notícias relativas ao mercado financeiro e, em segundo lugar, o grupo que abordava as opiniões do governo brasileiro sobre os possíveis impactos e as medidas de contenção.
A fluidez e a invisibilidade do dinheiro financeiro ficam concretizadas através da esfera fotográfica que, segundo Sontag (2004), faz sentir que o mundo é muito mais acessível do que na verdade é. Enquanto mostra números, movimentos do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA) diante da desvalorização do seu principal índice (o iBovespa), a capa com o título “Crise financeira derruba Bolsas e paralisa créditos” (Figura 22) traz para o universo do leitor a dimensão até então distante, tanto de uma crise externa, quanto de uma crise abstrata.
A notícia engloba a crise pelo mundo e seu efeito sequenciado de queda de confiança, mas a fotografia mostra mais. Deixa de ser uma mera ilustração do texto e adota uma postura decisiva na capacidade de informação: mostra um mundo modelado, um mundo que aproxima a virtualidade do financeiro à realidade cotidiana (KOSSOY, 2007).
Por isso, quando a crise se aprofunda na Europa (Figura 23 - “Crise se aprofunda na Europa e espalha pânico pelos mercados”), a matéria já passa a incorporar as opiniões locais sobre seus reais efeitos na economia brasileira. Os então ministro da Fazenda (Guido Mantega) e presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) não mais apresentam preocupação apenas sobre os já esperados impactos na Bovespa ou da alta do dólar: passam a incorporar o discurso defensivo das reais condições do País, sua solidez econômica e as medidas que seriam tomadas internamente.
As expressões de preocupação contrastam com a segurança das falas que atestam a força da economia brasileira e, dado que é premissa do uso da fotografia dar maior grau de objetividade à notícia, “ao ser utilizada nos jornais, a foto adquire um status de fiel reflexo da realidade, que impede qualquer questionamento com respeito a sua veracidade” (ITURRIZA; PELAZAS, 2001, p. 46), passa a dar mais ênfase à gravidade da situação. Mesmo que o discurso dos personagens (transcrito pelo jornal) diga o contrário.
Burke (2004) questiona precisamente o uso da fotografia baseado em uma crença de que a câmera nunca mente e que auxiliaria na comprovação de uma “verdade histórica”. Contudo, sabemos que toda fotografia é uma escolha, um recorte que contribui para enfatizar a ideia de que, embora todos os mecanismos de defesa econômica do País sejam consideráveis – conforme dizem o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central –, a crise é inevitável e imediata. E mais, vai além do financeiro e se espera para logo que seja concreta.
Diante de tal perspectiva, temos que a crise chegou ao Brasil através de vários canais, como suas contas externas, o próprio sistema financeiro e certa deterioração de expectativas já anunciadas em “Crise financeira derruba Bolsas e paralisa crédito”.
No primeiro caso, a desaceleração da economia mundial e a queda dos preços internacionais das commodities exportadas pelo País levaram a uma inversão da balança comercial e a uma fuga de capitais pela conta financeira e, consequentemente, a uma desvalorização do real (IPEA, 2010).
A transmissão da crise via mercado financeiro é resultado do seu caráter sistêmico, após as perdas dos bancos com as hipotecas “subprimes”27. Segundo o Ipea (2010), a crise no setor bancário brasileiro foi diferente, porque os grandes bancos brasileiros não haviam se envolvido com ativos de alto risco e optaram por alternativas mais seguras e rentáveis, como títulos públicos. A terceira via de transmissão é decorrente das anteriores, da crise de confiança mundial que afetou essencialmente as decisões de investimento e consumo (ainda que temporariamente).
27 Capítulo 2.
Fonte: Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2008, p. A1
Fonte: Folha de São Paulo, 07 de outubro de 2008, p. A1
Figura 22. Crise financeira derruba Bolsas e paralisa crédito
Figura 23. Crise se aprofunda na Europa e espalha pânico pelos mercados
Pelas matérias acima já vemos que, ao chegar ao Brasil, a crise financeira mundial teve um reflexo direto na bolsa de valores nacional, com uma forte queda nos mercados acionários e com a retirada de dinheiro a partir de um comportamento de aversão ao risco. E, quando faltam recursos para novos investimentos, a crise aumenta. O que levou a um novo fluxo de retirada de dinheiro, principalmente em um país ainda considerado como investimento de risco.
Diante desse cenário, a crise realmente chegou ao Brasil, mas o que mudou na visão dos meios de comunicação, foi sua gravidade e a eficácia dos métodos de contenção. Na matéria da revista Veja da Figura 24, a fotografia não é aleatória e seriam possíveis múltiplas interpretações sobre o que a revista pretendeu com tal recorte. Uma hipótese é que a imagem poderia se referir ao que o periódico considerava ser uma passividade do governo diante das ameaças externas e que o título, pelo fato estampar o termo “vendaval”, apontaria para a gravidade da crise financeira mundial, aparentemente não levada a sério pelo governo quando Lula a ela se referiu como “marolinha”.
Fonte: Veja, 10 de dezembro de 2008, pp. 60-61 Figura 24. O vendaval se aproxima
De acordo com “O vendaval se aproxima”, ainda não há uma recessão no País, mas os primeiros sinais negativos já são sentidos, particularmente nas áreas mais beneficiadas pelo uso do crédito. Para Kossoy, os recortes e escolhas nunca são inocentes ou gratuitos, fazem parte de um objetivo e
toda fotografia, seja qual for o referente que a motiva, é sempre um retângulo que recorta o visível... o quadro da câmera é uma espécie de tesoura que recorta aquilo que deve ser valorizado, que separa o que é importante para os interesses da enunciação do que é acessório, que estabelece logo de início uma primeira organização das coisas visíveis (2007, p. 76)
Do autor, podemos entender que, ao escolher tal fotografia, tal título e contrastar com o discurso do governo, a revista teve o objetivo de não só questionar a perspectiva otimista, mas de tentar comprovar o contrário. Poderíamos inclusive entender que, em uma perspectiva que compreende um paradigma econômico dominante (e globalizado), não haveria maneira de se evitar a referida crise.
Veja não estava totalmente errada, e logo a crise chegou ao Brasil, também com efeitos graves mais diretos, como a queda nas exportações devido a um menor poder de compra internacional e à dificuldade de captação de recursos no exterior, o que fez com que empréstimos ficassem mais raros – e caros – e houvesse um impacto específico nas grandes obras, geradoras de emprego e renda. Além disso, quando houve uma contração do crédito, houve também uma contenção no consumo das famílias e nos investimentos das empresas, o que diminuiu o ritmo de crescimento do país. A alta do dólar, por sua vez, encareceu os produtos importados, prejudicando a balança comercial brasileira, que já perdia capacidade de exportar, e pressionou a inflação. Temos assim a expansão da crise para a esfera real.
A revista Carta Capital, na matéria “A crise ficou mais real” abaixo (Figura 25), apresenta o que foi um exemplo brasileiro das manifestações típicas do estado de exceção econômico dos países homini sacri (Grécia, Espanha, Portugal, entre outros). Devido ao aumento do desemprego no fim de 2008 e início de 2009, a revista explica que tudo parecia indicar que a crise continuaria a reduzir o número de vagas e que as empresas prosseguiriam anunciando novos cortes, mesmo diante das medidas compensatórias do governo de redução da taxa de juros, empréstimos de bancos públicos e aumento das obras públicas.
Diferentemente das medidas de austeridade defendidas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, o Brasil optou por uma outra direção – uma certa reinvenção dos mecanismos econômicos tradicionais, adaptados a partir do conhecimento local–, a saber, a de
atenuar os efeitos da crise externa e também de fortalecer o potencial de crescimento do mercado interno. Para tanto, houve um reforço da política social vigente em busca do fortalecimento da transferência de renda. E, com a redução da desigualdade de renda, havia também o reforço ao mercado interno pela ampliação do poder de compra das camadas de baixa renda (IPEA, 2011).
As matérias abaixo, todas de O Estado de S. Paulo, reforçam como a crise foi contida (ou não aconteceu) em termos de consumo e mercado interno. Em “Crise? Não no mercado popular” (Figura 26), a entrevistada no bairro do Brás, da cidade de São Paulo, chega a dizer “Crise? Que crise? Aqui não tem nada disso”. Os impactos, primeiramente financeiros, depois passando pela esfera real – principalmente, pela esfera da expectativa negativa – são entendidos pelas matérias como contidos pelo mercado interno, o “que vai atenuar a desaceleração da economia” (“O mercado interno segura a economia” – Figura 27).
Assim, a economia brasileira foi responsável por desenvolver seus mecanismos específicos, direcionados ao seu contexto e por romper com a premissa do paradigma ocidental de proporcionar a prescrição e o uso de seu próprio receituário para suas próprias crises. Ao explorar a amplitude de uma demanda até então não preenchida, a política econômica aproveitou para revigorar o mercado interno através de mecanismos de fortalecimento da renda das classes
Fonte: Carta Capital, 28 de janeiro de 2009, pp. 22-24 Figura 25. A crise ficou mais real
mais baixas como reajustes do salário mínimo acima dos índices inflacionários, controle da inflação e outras medidas de estímulo às compras.
No entanto, analisando criticamente, o consumo em si é também uma faceta do capitalismo ocidental e até, conforme explicou Bauman (2010a), uma das causas da crise financeira. Ou, retomando Agamben (2007), é uma das manifestações das separações improfanáveis criadas pelo capitalismo. Mas, considerando o receituário do FMI, do Banco Mundial e da União Europeia, o incentivo à formação de uma classe consumidora a partir de políticas de expansão da renda rompeu com as medidas de austeridade usadas na Europa para contenção da crise. Ou seja, é possível dizer que, usando uma separação até então não profanável, rompeu com outras separações improfanáveis do capitalismo mundial.
Para tanto, de acordo com o Ipea (2011), em busca de estratégias para suprir a demanda interna por crédito, o Banco Central do Brasil começou uma nova trajetória de redução da taxa básica de juros. Foi prioridade também dar apoio ao sistema produtivo através de políticas de redução fiscal para determinados segmentos da indústria, o que teve impacto novo positivo na manutenção do emprego e da renda.
Contudo, mesmo o sucesso relativo na contenção da crise e de recuperação de certa trajetória de crescimento, “essa experiência negativa trazida pela deterioração do ambiente externo evidenciou que a economia brasileira se encontrava, e ainda se encontra, muito
Fonte: O Estado de S. Paulo, 11 de maio de 2009, p. B9 Fonte: O Estado de S. Paulo, 14 de
dezembro de 2008, p. B8 Fonte: O Estado de S. Paulo, 04 de janeiro de 2009, p. B1 Figura 26. Crise? Não no
comércio popular Figura 27. Mercado interno segura a economia
Figura 28. Crise afeta menos a base da pirâmide
Figura 26. Crise? Não no comércio popular
Figura 27. Mercado interno
vulnerável aos efeitos de oscilações nas variáveis externas como o mercado de capitais e a demanda externa por exportações brasileiras” (IPEA, 2011, p. XX).
Pode-se dizer então que a crise brasileira não foi tão grave quanto a que afetou países muito mais ricos e que foi possível evitar uma ruptura financeira, porém, ainda há necessidade de mais esforços para apoiar a atividade produtiva. O crescimento baixo, não só brasileiro, como do comércio internacional, é prejudicial às exportações brasileiras de commodities, das quais o país é extremamente dependente.
Temos abaixo dois exemplos de opinião sobre a eficácia das medidas de defesa da economia brasileira, com praticamente o mesmo título. No primeiro caso, a revista Veja questiona se a o Brasil é mesmo “À prova de crise?” (Figura 29), enquanto Carta Capital afirma que é, sim, “À prova de crise” (Figura 30).
Entretanto, as duas são bem semelhantes ao discorrerem sobre os benefícios da ascensão dos novos consumidores no Brasil, vindos das classes C, D e E e, enquanto Veja afirma que “o Brasil resiste de maneira inédita aos choques da crise externa e festeja o aumento do crescimento e o recorde nos investimentos” (p. 94), Carta Capital prega que a crise fez mesmo é parte das notícias da mídia.
Fonte: Veja, 17 de setembro de 2008, pp. 1, 94-95 Figura 29. As defesas da supereconomia
Conforme o Ipea, “com esta última crise, o receituário padrão de governos centrais e organismos internacionais dominantes para o desenho e a execução de políticas de crescimento entrou em questionamento, abrindo espaço para maior ativismo governamental em questões como política industrial e, até mesmo, políticas sociais mais amplas” (2011, p. XVIII). Ou seja, a reação brasileira diante da crise dá ao País não só a oportunidade de se recolocar na ordem mundial e fazer parte das transformações que diminuem as distâncias – e até mesmo as nomenclaturas – entre países considerados desenvolvidos e em desenvolvimento/emergentes, mas principalmente de mostrar que é possível uma alternativa ao paradigma econômico imposto, particularmente no que se refere aos receituários usados para a contenção de crises.
Ao identificar o dualismo e a oposição como parte da dinâmica centro-periferia, que acompanha a noção linear de progresso, Santos (2005) parece prever o caminho para um desenvolvimento centrado em índices puramente econômicos e na redução das complexidades a uma diferenciação entre países considerados desenvolvidos e em desenvolvimento (e subdesenvolvidos). E, atualmente, uma época de crise financeira como a atual contribui exatamente para desmontar os mesmos mitos. A crise age para questionar se há uma fórmula pré- determinada e universal que funciona para levar um país a ser desenvolvido, ou para sair da crise.
Condizentes com o que se espera da crise do paradigma da modernidade ocidental, seus receituários possuem cada vez mais consequências inesperadas, para as quais realmente não existem soluções modernas. Dessa maneira, quando teorias com tendências totalizantes (que consideram todas as realidades sociais como homogêneas) são transportadas para além de seus contextos de criação, suas consequências podem ser diferentes das previstas, e suas soluções
inadequadas, e “os casos são mais extremos quando os conhecimentos são descontextualizados e se tornam absolutos em realidades distantes e imprevisíveis” (JACOBINI, 2009, p. 99).
Não devemos esquecer que a noção de crise já comporta as ideias de turbulência da estabilidade e da unidade (García, In: GRIMSON, 2004), também relacionadas ao contexto sociocultural em que ocorrem e ao fato de que tais abalos nunca acontecem do mesmo jeito. Não na América Latina e muito menos no suposto todo, que é o mundo da ciência moderna.
A matéria do jornal O Estado de S. Paulo abaixo (Figura 31) parece confirmar o que Martín-Barbero (2005) sugere sobre a América Latina, que sempre possuiu um ambiente de conflitos e tensões: é possível dizer que a crise (ou as crises) no Brasil são constituintes. Em uma sociedade aberta, em que a troca e a diferença são interessantes para a formação de uma cultura móvel, crises são também fundamentais para manter a multiplicidade diferenciante que permite não só o conhecimento situado, mas a abertura para todos os outros conhecimentos e experiências (VIVEIROS DE CASTRO, 2010).
Em entrevista ao jornal, o presidente da Nestlé no Brasil, Ivan Zurita, afirma que “as crises fazem parte do DNA brasileiro. É uma crise a mais” e que, por isso mesmo, o País lida de uma maneira diferente que faz com que, inclusive, continue atrativo para fazer negócios e propicie a superação de metas ousadas, impossíveis em outros cenários. Zurita faz essa afirmação pensando na Semiosfera econômica, mas não deixa de ser uma realidade para muitas outras esferas brasileiras.
Até por tal razão, não há uma única percepção nem uma única experiência de uma (da) crise. Apesar da unificação de todas as histórias em uma única grande narrativa ser parte do paradigma da ciência moderna ocidental e resultar da redução da complexidade do mundo a uma versão neutralizada e de perspectiva única, os sistemas plurais de conhecimento típicos da América Latina dão abertura para vozes plurais e tratamentos distintos pelos meios de comunicação. Assim sendo, receitas para um país se encaixar num determinado conceito linear de desenvolvimento ou para sair da crise não funcionam.
Talvez até por isso o Brasil também não se enquadre na extensão das metáforas propostas por Agamben para a esfera da crise. Não é homo sacer, nem soberano. Na realidade, pode ser também considerado uma mistura: pelas turbulências em sua constituição, é um país que vive as crises permanentes e contém uma chocante quantidade de muçulmanos. E, por conseguir romper com as estruturas separatórias, é igualmente agente profanador.
Fonte: O Estado de S. Paulo, 28 de agosto de 2009, p.B21