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O debate sobre a necessidade de outros modelos (de pensamento, de desenvolvimento, de sociedade, etc.) nos leva a interrogar se há realmente o declínio do paradigma da ciência moderna ocidental e da forma de produção capitalista. Nessa linha, o momento de crise financeira mundial levanta a questão: é parte de uma mesma história e de sua típica violência ou é sua irrupção decisiva no sistema que possibilita uma nova história e a concreta transição para um novo paradigma?

Embora esta última visão seja consideravelmente otimista, ainda que plausível, o mesmo paradigma parece ser o que sempre continua, particularmente porque a crise financeira mundial não significa o fim do capitalismo, mas talvez o do paradigma da modernidade e de uma relação bastante próxima e frutífera entre eles.

Segundo Sousa Santos (2001), a ciência moderna surgiu antes mesmo de o capitalismo ter-se tornado dominante e, a partir de então, se cruzaram, convergiram e se beneficiaram mutuamente. O autor destaca que, apesar de a modernidade não tê-lo pressuposto como modo de produção inerente, tal modelo econômico cresceu e se fortaleceu na sua forma moderna, o (neo)liberalismo.

O mais importante é que, em um período de transição paradigmática, o mais provável é que o capitalismo mantenha sua força, enquanto a modernidade deve perder sua posição dominante, principalmente como parte de um processo de superação e obsolescência. É um caso de superação “na medida em que a modernidade cumpriu algumas de suas promessas, nalguns casos até em excesso. É obsolescência na medida em que a modernidade já não consegue cumprir outras de suas promessas” (SANTOS, 2001, p. 49).

Por isso, faz sentido lembrar Sousa Santos (2001; 2005) e Canclini (MATO, 2005), para quem o sucesso e a manutenção do paradigma da modernidade acontecem em grande parte em função da sua capacidade de esconder a importância de seus fracassos. No mesmo caminho, para

Zizek (2011), a grande diferença do capitalismo em relação a outros modelos econômicos e da sua tecnicidade embutida é exatamente a de não precisar esconder seus fracassos, pois seu sucesso já é justificativa suficiente.

A crise financeira mundial mostra que se, de um lado, o capitalismo continuará e é dele que serão derivadas as possíveis soluções, de outro, sua relação com os pressupostos da ciência moderna ocidental já não funcionarão do mesmo jeito, em muito porque – tamanha a grandeza da crise – não é mais possível esconder a importância de seus fracassos.

Característica basilar da modernidade, o domínio do conhecimento-regulação em detrimento da emancipação é marcado por uma orientação para o mercado e para a técnica em detrimento do princípio do bem-estar social. Podemos entender que a força dessa assimetria é uma das causas da crise financeira atual, pois a hegemonia e a confiança exagerada no poder de autorregulação do mercado acabam com qualquer questionamento ou possível “caos” além do autorizado pela onipresença mediadora do mercado e suas tendências à eficiência e cientificização excessivas. (SOUSA SANTOS, 2001; MARTÍN-BARBERO, 2002).

A ausência de regulações e os estímulos ao endividamento para uma criação contínua de novos consumidores só se tornam possíveis porque há um Estado neoliberal, que não só permite, mas que também trabalha para proteger os grandes nomes do mercado financeiro (seja pelas desregulamentações e flexibilidades na lei, seja pelas medidas de salvamento prioritárias dos bancos). É um Estado que defende e atua em defesa do cânone do mercado.

Os fundamentos do paradigma da modernidade – o perfeccionismo intelectual, a moral rigorosa e impiedosa e, principalmente, a racionalidade atraente para quem buscava a hierarquia e a estabilidade através de regras universais – explicam por que os grupos voltados para as vantagens econômicas encontravam (e encontram) na ciência moderna e em seu corolário técnico o respaldo teórico para convalidar suas práticas. Assumem que o único futuro possível é o do progresso contínuo e da ênfase na técnica (SOUSA SANTOS, 2006).

A matéria da Figura 15 mostra em texto escrito e em texto imagético a insatisfação da população com as medidas de salvamento da crise que mantêm suas próprias causas. Enquanto o jornalista explica que “com a crise bancária nos Estados Unidos, que levou à montagem de um pacote de salvamento com US$ 700 bilhões em dinheiro público, a era do liberalismo financeiro parece ter chegado ao fim” e que no futuro as instituições financeiras serão mais rigidamente

controladas, a fotografia representa a insatisfação da população pelo direcionamento do dinheiro público para medidas de salvamento dos bancos.

Mais claramente, a revista Carta Capital descreve como a crise “expõe o dilema crucial da civilização ocidental, que é tanto econômico quanto político” (Figura 16). Com relação ao dilema econômico, a situação da Grécia, homo sacer da crise financeira, coloca em evidência a fragilidade do pilar da regulação e a violência decorrente do processo e da manutenção do dogma do mercado. E trata-se de um dilema político porque expõe as relações íntimas dos sistemas de governo com o incentivo ao mercado financeiro e, mais especificamente no caso grego, com o uso de ferramentas para esconder as verdadeiras condições do endividamento do país – para Sousa Santos (2001), a grande importância desse fracasso.

A sociedade é a principal prejudicada. A entrada da Grécia para a zona do Euro trouxe os benefícios da moeda única, mas aumentou os custos de produção nacionais e, com a crise, o país perdeu praticamente todas suas atividades produtivas e está sob o poder de decisão soberana do FMI e do Banco Central Europeu. Daí decorrem as manifestações “enfurecidas com o próprio sistema” e o evidente caos/fracasso, que tanto o pilar da regulação quer esconder. Note-se que em seu discurso ao parlamento, Georgios Papandreou afirmou que “o sistema do mercado financeiro

Fonte: O Estado de S. Paulo, 28 de setembro de 2008, p. B3 Figura 15. Crise dos EUA atinge liberalismo financeiro

é mais forte que o parlamento, mais forte que a vontade do povo” – o que denuncia a ênfase no pilar da regulação e a liberdade e o domínio excessivos do mercado.

Para Lins Ribeiro (GRIMSON, 2004), crises frequentemente são relacionadas aos contextos socioculturais em que acontecem e marcadas por uma ruptura, seguida por fases de desordenamento e posterior reordenamento. Isto é, se avaliarmos que todas as crises representam uma época de desestabilização e caos, elas se mostram efetivamente inerentes ao sistema.

Contudo, precisamos destacar que, no âmbito da crise iniciada em 2008, a situação é diferente. Faz parte de um cenário de esferas econômicas interconectadas, ou da designada “globalização”, em que a rapidez com que uma crise se propaga e se instala é inédita e, no fim, temos mais um sinal de que não se trata de uma simples ruptura seguida pelo desordenamento e pelo reordenamento. Agora, não há o reordenamento, e a universalização parece cada vez mais distante.

O modelo da modernidade ocidental em sua pretensão de homogeneidade e universalização acaba por excluir os demais valores, narrativas e modos de racionalidade (e de não-racionalidade). No caso, a crise financeira indica as fragilidades do paradigma e demonstra que tal pretensão tem dois movimentos de causa-efeito. Primeiro: ao ignorar a diversidade de contextos do mundo, o neoliberalismo cria problemas diferentes para cenários diferentes. E,

Fonte: Carta Capital, 04 de julho de 2011, pp. 60-62 Figura 16. Democracia ou Catástrofe

segundo: os pacotes e as receitas aplicados de maneira igual, sem avaliações sobre cada cenário, criam igualmente efeitos distintos, mas também sem solucionar as questões iniciais.

Relacionando a tese de Bauman de que “o capitalismo se destaca por criar problemas, e não por solucioná-los” (2010b, p. 7) e a de Sousa Santos (2006), para quem vivemos com dificuldades (decorrentes da não realização de suas promessas) para as quais não temos soluções modernas, a crise financeira atual nos dá uma boa evidência de que a premissa dos autores era de fato verossímil. Foram criados transtornos nessa nova fase financeira do capitalismo, e suas promessas de melhores condições de vida/renda/moradia não foram cumpridas. Ao contrário, há evidências de uma crescente desigualdade no mundo, e seus próprios fechamentos – pacotes de austeridade, mais força no setor bancário – não avançam na melhoria da situação.

Por isso, quando o jornal Folha de S. Paulo anuncia o efeito desestabilizador da crise econômica sobre o modelo ocidental através de uma fotografia de manifestações de franceses pedindo por melhorias sociais (Figura 17), está vinculando a falência do modelo à sua incapacidade de satisfazer as necessidades da população, ou à redução do direcionamento das políticas públicas para essa postura. Cada manifestação representa o questionamento da homogeneidade, e cada questionamento em si já é uma falha no sistema e abre espaço para mais desestabilizações.

Na matéria, o historiador britânico Tony Judt explica que a crise financeira tem consequências não só sociais (como as manifestações contra o crescimento do nível de desemprego na zona do Euro): tem efeitos de “brutal perda da fé no que até pouco atrás eram clichês inabaláveis sobre as virtudes do livre mercado”.

Os mencionados clichês referem-se às receitas do neoliberalismo quanto ao melhor funcionamento da economia e, principalmente, quanto à sua capacidade de fornecer o único modelo de solução de problemas e de futuros possíveis. Nessa situação, o FMI e o BCE perdem seu papel de definidores e soberanos, e as políticas nacionais se fecham cada vez mais em nacionalismos, extremismos e fechamentos culturais.

Não só na Europa, no mundo inteiro, aprofundam-se as linhas visíveis e invisíveis que separam o outro até seu desaparecimento,

Tudo aquilo que é produzido como inexistente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção considera como sendo o Outro. A característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da copresença dos dois lados da linha [...] para além dela há apenas inexistência, invisibilidade e ausência não-dialética (SOUSA SANTOS, 2010, p 32).

O pensamento abissal é uma característica da modernidade ocidental, mas parece estar cada vez mais acentuado no durante/pós-crise. Por exemplo, temos de um lado o aumento da xenofobia e das leis mais restritas de imigração e, de outro, os processos de exclusão na Semiosfera da economia. Enfim, a cada momento do estado de exceção econômico, as linhas (abissais) que separam novos países homini sacri se tornam mais flexíveis. Enquanto Grécia, Portugal e Espanha já estão nessa nova condição, outros até pouco tempo inabaláveis, como a França das manifestações que clamam por medidas sociais, estão sempre sob ameaça de novas exclusões.

Fonte: Folha de S. Paulo, 02 de março de 2009, p. A12

2.5 Fotografias de manifestações contra a crise: memória ou esquecimento?

Referências notáveis para as notícias sobre a turbulência financeira, as fotografias de manifestações são interessantes por representarem grande parte do arquivo visual e da memória sobre a crise, composto essencialmente por blocos de imagens de quebra de bancos e impactos no mercado financeiro; manifestações contra a crise e retratos da nova pobreza. Nessa lógica, ao sugerir que as imagens fotográficas criam um arquivo visual na memória, com referências para o conhecimento do mundo, Kossoy (2002) ajuda a compreender o processo de formação da memória da crise como parte do objeto pensante que é a cultura (LOTMAN, 1998).

Conforme Lotman, a cultura é capaz de conservar, transmitir e transformar informações para produzir novas mensagens e “cada um destes elementos tem seu volume de memória; cada um dos contextos em que se insere, atualiza em certo grau a sua profundidade”14 (1998, p. 162). E cada elemento que compõe e a memória faz parte de um conjunto maior – a Semiosfera, um organismo vivo em contínuo processo de (re)atualização que permite sua ligação com a memória da cultura. Assim, cada texto é capaz de reconstruir partes da cultura, restaurar lembranças e produzir algo novo.

Para Lotman (1998), a Semiosfera possui uma profundidade diacrônica que permite que os textos possam ser conservados e atualizados ao longo do tempo e, principalmente, que possam ser compreendidos tanto sincrônica quanto diacronicamente. Tal processo, texto escrito ou fotográfico, é não só gerador de novos significados, mas também condensador da memória cultural (Ferreira apud JACOBINI, 2009).

A memória da cultura é entendida, desta forma, como internamente variada, com sentidos que se conservam e crescem. Não como um depósito de informação, e sim um mecanismo de regeneração de si mesma e formação de textos, pois os símbolos que se guardam na cultura carregam informação sobre seus contextos, linguagens e auditórios e, quando colocados em novos contextos, transformam a informação:

Assim, a informação que se reconstrói se realiza sempre no contexto do jogo entre linguagens do passado e do presente. Quanto mais firmemente está ligado o símbolo a uma só linguagem no passado (por exemplo, na situação de uma

14 “cada uno de estos elementos tiene su volumen de memoria; cada uno de los contextos en que se inserta, actualiza

alegoria), menor é o campo do jogo semântico e menor ainda é produtivo como gerador profundo da memória15 (LOTMAN, 1998, p. 157).

É fundamental entender como a cultura, enquanto memória da coletividade, passa a ser um mecanismo de organização e conservação de determinadas informações, com um impacto importante sobre a forma como são lembradas ou esquecidas. Destaca-se que o fenômeno do esquecimento também faz parte da memória pois, ao mesmo tempo em que alguns textos são excluídos da cultura e retirados da sua memória, outros estão em constante processo de criação. (FERREIRA, 1995)

Contudo, sempre há a possibilidade de o esquecimento ser utilizado como mecanismo de uma instituição hegemônica, visando à exclusão de elementos indesejáveis da memória coletiva. E, no mesmo sentido, sempre há a possibilidade de a lembrança também ser utilizada como mecanismo de uma instituição hegemônica: a questão é saber a que contribui cada divulgação sobre a crise financeira mundial.

Assim, quando Kossoy (2002; 2007) argumenta que as imagens fotográficas compõem um arquivo visual na memória, está apresentando os textos dinâmicos e fluidos que permitem a (re)atualização ligada à memória da cultura. As fotografias sobrevivem aos acontecimentos; manifestações acabam e novas são organizadas, e as imagens continuam atualizando a lembrança do que foi a crise.

Por isso, o autor, ao defender o papel de documentação dos fatos, visualiza seu potencial de grande impacto para a memória, principalmente porque “as imagens fotográficas, por sua natureza polissêmica, permitem sempre uma leitura plural, dependendo de quem as aprecia” (KOSSOY, 2002, p. 44). para o autor, isso acontece porque as imagens já trazem pré-concepções e já possuem filtros incorporados, propiciando leituras diferentes para leitores diferentes.

E, em tal condição, podem ser usadas para adaptações ou interpretações convenientes para determinado interesse, conforme abordado por Ferreira (1995). Ou seja, por mais que a imagem fotográfica seja carregada de “realismo”, não necessariamente corresponde a uma verdade histórica. É apenas um registro carregado de interesses e ambiguidades, uma pretensa representação de algo ou a substituição de eventos por cenas (KOSSOY, 2002; FLUSSER, 2009).

15 “Así pues, la información que se reconstruye se realiza siempre en el contexto del juego entre los lenguajes del

pasado y del presente. Cuanto más firmemente está ligado el símbolo a un solo lenguaje en el pasado (por ejemplo, en la situación de la alegoría), tanto menor es el campo del juego semántico y tanto menos productivo es él como generador profundo de la memoria”. Tradução da autora.

Embora Kossoy entenda que “fotografia é memória e com ela se confunde” (2002, p. 132) ou que possa ser utilizada como fonte para reconstituição e reatualização de fatos na história, recomenda certo cuidado, porque em função da natureza polissêmica da imagem e do seu processo de produção, cada reconstituição implica um processo de novas criações e construções. Ou, de acordo com Flusser, o propósito das imagens é serem mapas de mundo e fornecerem direções para o concreto, mas atuam mais como biombos (2009, p. 9) que só mostram uma parte selecionada da realidade.

Cada fotografia de uma manifestação contra os efeitos da crise financeira mundial ou contra as medidas recomendadas pelos organismos multilaterais é carregada de pretensão de verdade e de intenção de exibição/conhecimento de uma parte do mundo, mas é sempre uma obra produzida e carregada de intenções (SONTAG, 2004). Cada fotografia é produzida por um fotógrafo e selecionada por um editor para compor a notícia de um veículo: seja a manifestação de norte-americanos contra a ajuda aos bancos em O Estado de S. Paulo; a manifestação francesa em defesa de benefícios sociais na Folha de S. Paulo; ou a manifestação grega contra o rumo dos acordos do governo com o FMI e o BCE na revista Carta Capital mostrada acima.

As imagens, por seu caráter polissêmico, podem, mais uma vez, ser lidas de diferentes maneiras. Dessa forma, imagens retratando violência como as que caracterizam manifestações e enfrentamentos contra a polícia carregam uma leitura negativa e, nesse momento, mostra-se mais importante sua relação com o texto escrito. Ou seja, para não sejam interpretadas como demonstrações gratuitas de violência ou até como uma rebeldia infundada contra a situação de crise, é crucial a contextualização no espaço-tempo.

O diálogo entre texto escrito e imagem dá mais complexidade para cada conjunto e, enquanto o texto explica a imagem, é esta que dá a possibilidade de (re)codificação e “mágica” àquele. São duas mediações/biombos entre o homem e o acontecimento (FLUSSER, 2009) que, ao serem deslocadas de seus contextos ou separadas uma da outra (fotografia e texto escrito), podem ter seus sentidos completamente alterados.

Gruzinski (1991; 2001a) previa que, por sua flexibilidade, uma imagem pode ser usada tanto para afirmação de um poder quanto para a criação de modos de resistência. Nesse sentido, as escolhas e os recortes realizados em todo seu processo de produção, resultantes dos interesses envolvidos, podem contribuir para o que Ferreira (1995) discute sobre a dinâmica entre a memória e o esquecimento, e cada fotografia de manifestação, principalmente se

descontextualizada, pode servir para construir a memória da insatisfação da população com as condições criadas pelo paradigma da modernidade e pela ênfase no mercado financeiro.

De outro lado, se descontextualizada ou padronizada em excesso, cada fotografia de crise é neutralizada e se torna uma curiosidade inofensiva ao apresentar informações que se tornam neutralizadas, criando apenas uma sensação de reconhecimento (MIGNOLO; ESCOBAR, 2010; GRUZINSKI, 2001a; MARTÍN-BARBERO, 2000). Por fim, a imagem pode apagar todo o sentido de revolta com os problemas produzidos pelo paradigma da ciência moderna ocidental e pela crise financeira e determinar seu esquecimento, para deixar apenas a memória da violência gratuita da população.

2.6 (Des)estabilizações no estado de exceção econômico

Acompanhando Bauman (2010a), a crise financeira nos dá a oportunidade de reflexão não só sobre a trajetória para chegarmos a essa época de turbulências duradouras, mas sobre como deixamos que todos os novos problemas indicados acima se tornem tão normalizados. É uma expectativa otimista, que vê a chance de produção de novos conhecimentos, de novas perguntas e, urgentemente, de revisão e contestação dos quadros teóricos dominantes.

Embora a rapidez da expansão da crise e seu domínio dos mais diversos espaços tenham sido inéditos, é provável que sua recuperação não seja capaz de seguir a mesma brevidade temporal. E de fato não tem sido, o que é perceptível por seus quase quatro anos de duração. Por tal razão, poderíamos adotar a opinião de Santos (2001), para quem temos uma crise permanente formada por várias sucessivas.

Pelo fato de a crise econômica se mostrar mais duradoura e persistente, parece se encaixar bem na analogia de Agamben de que vivemos em uma época de estado de exceção ou na de Zizek, para quem hoje temos um novo “tempo de estado de emergência econômica” (2011, p. 7). E tal estado de exceção ou de emergência pode refletir a crise do paradigma como um todo

As linhas de separação que compõem o estado de exceção são cada vez mais móveis e parecem fazer parte da definição de Lotman (1996) sobre a Semiosfera. De acordo com o autor, dentro de cada Semiosfera, há uma divisão entre centro e periferia, que contém dinâmicas internas num movimento de intercâmbio ativo. Enquanto a periferia é local de realização de processos semióticos intensos, em constantes trocas e estímulos das manifestações criativas em

relação ao seu núcleo, este, por sua vez, é estável e baseado em uma metalinguagem autodescritiva. Dessa divergência de orientações decorre a irregularidade semiótica.

Isso é, por haver a troca entre o núcleo e os eixos periféricos, não exatamente objetos diretos de uma descrição por parte daquele, ainda que através de uma gramática não-pertencente, há um maior movimento de intercâmbio de informação. Ou, tal qual avalia o autor, uma maior rapidez no desenvolvimento cultural, com facilidade de absorção e transformação de si mesmo (LOTMAN, 1996).

Portanto, é curioso que, ao observarmos as matérias sobre as crises financeiras, notamos