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Observando os desdobramentos sobre a questão do centro e dos subcentros em formação, o Plano Piloto manteve-se como principal área central, concentrando em si não apenas o maior número de postos de trabalho, mas também os principais e mais bem pagos empregos do Distrito Federal. É consolidado e mantido como centro principal do espaço urbano de Brasília, mas torna-se também o centro principal da metrópole que ia surgindo e se consolida como centro regional da Região do Entorno de Brasília. Tal fator estava claramente associado

à presença da administração pública e sua consolidação no período, além dos serviços prestados diretamente aos trabalhadores deste setor.

Por outro lado, inicia-se o surgimento de novas centralidades internamente ao Distrito Federal, sendo, para o período, a mais marcante aquela que aparecia entre Taguatinga e Ceilândia. Estes subcentros/ nucleações tem seu surgimento atrelado às demandas de consumo destas satélites, sendo notável o crescimento do comércio, principalmente, nelas. Em trabalhos anteriores (CIDADE, 1999b; CARVALHO DE SOUZA, 2010), a partir do uso de dados sobre o consumo de energia elétrica, é possível perceber uma forte concentração do consumo no Plano Piloto. Carvalho de Souza indica também a preponderância referente ao uso comercial no Plano Piloto, vindo, em segundo lugar, Taguatinga. Paviani (1985), ao analisar dados sobre a distribuição dos postos de trabalho, indica uma concentração secundária em Taguatinga, na década de 1970 e, principalmente, na de 1980.

Em uma conexão com a realidade do que ocorria nos municípios vizinhos do Distrito Federal, Paviani aponta para a ocorrência de um processo interno ao Distrito Federal que se repete para tais espaços: uma contradição entre a concentração de atividades e o padrão disperso da população. Isto leva a que o modelo de polinucleamento já analisado no período anterior se mantenha e se amplie também para os municípios vizinhos.

Um dado que auxilia a compreender como tal dinâmica se desdobrou, ao fim do período, refere-se aos dados sobre o valor adicionado ao PIB pelos setores da economia, contidos na Tabela 7.3. Os dados apontam que importantes municípios com significativos contingentes demográficos aparecem com altos valores no setor agropecuário, como Unaí (52,88%). Além deste município, o setor agropecuário demonstra valores acima de 50% no percentual adicionado ao PIB em outros cinco municípios: Abadiânia, Cabeceiras, Padre Bernardo, Pirenópolis e Buritis. Já os setores industriais aparecem com maiores valores em municípios como Corumbá de Goiás (56,87%), Formosa (31,50%) e Planaltina (35,15%). No caso de Corumbá de Goiás, é notória a participação do setor de extrativismo mineral. Quanto ao comércio, este tem grande relevância nos percentuais adicionados de Cristalina (39,20%) e Unaí (13,12%). Finalmente, o setor de serviços tem um percentual elevado em Brasília (87,89%), muito puxado pela Administração Pública federal. Os valores neste setor são ainda significativos em Luziânia (52,35%).

Desta forma, o que se percebe é uma economia dedicada, em muitos dos municípios, à atividade da agropecuária, sendo alguns deles, como no caso de Unaí, alvo de investimentos do Polocentro. Dois outros casos chamam a atenção por estes dados: Formosa, que não apresenta evidente predomínio de nenhum dos setores; e Luziânia, onde os setores

associados ao terciário se demonstravam com percentuais mais elevados (isto era reflexo do processo de urbanização e integração à dinâmica metropolitana de Brasília que então ocorria).

Tabela 7.3 ± Valor adicionado bruto ao PIB municipal, em percentual, dos municípios do Entorno, por setor (agregado), 1985.

Sigla Município Agropecuária - valor

adicionado Indústria - valor adicionado Comércio - valor adicionado Serviços - valor adicionado GO Abadiânia 58,35 6,54 5,87 29,24 GO Alexânia 49,70 7,67 9,01 33,61 GO Cabeceiras 76,37 9,21 2,78 17,21 GO Corumbá de Goiás 17,68 56,87 6,80 18,65 GO Cristalina 33,84 4,60 39,20 22,35 GO Formosa 22,24 31,50 10,47 35,80 GO Luziânia 18,01 21,20 8,44 52,35 GO Padre Bernardo 60,17 7,56 10,50 21,78 GO Pirenópolis 60,38 8,19 12,99 18,44 GO Planaltina 23,94 35,15 12,16 28,75

GO Santo Antônio do Descoberto 48,83 5,11 7,52 38,55

MG Buritis 51,12 6,82 11,69 30,37

MG Unaí 52,88 8,63 13,12 25,37

DF Brasília 0,34 6,03 5,75 87,89

Fonte: IBGE apud IPEADATA (dados organizados pelo autor)

Em uma análise qualitativa do processo, e com outros dados, Margutti (1986) aponta, no caso dos municípios da Região de Brasília, para um processo mais claro de urbanização em descompasso com as condições de produção. Os dados da PEA para estes municípios demonstram ainda uma forte concentração deste contingente no setor primário. É apresentado ainda um crescimento do setor industrial neste grupo de municípios, porém com absorção relativa da PEA e baixa diversificação, predominando indústria de baixa tecnificação. Tais indústrias concentravam-se, desta forma, nos seguintes gêneros: alimentícios, minerais não metálicos, minerais metálico e de produção de mobiliário. Dada a concentração anteriormente posta no setor primário, e considerando o processo mais geral de modernização da atividade, Margutti aponta para uma absorção ainda tímida do espaço da Região de Brasília neste processo, identificando o município de Unaí-MG como protagonista neste processo. Nos outros municípios, predominava ainda a baixa produtividade e a produção voltada à subsistência.

Ainda por este mesmo estudo, Margutti demonstra uma quase absoluta concentração de serviços superiores em Brasília, com pouca ou nenhuma oferta nos outros municípios. No que tange à saúde o quadro não é muito diferente, com uma alta concentração

de leitos hospitalares em Brasília. Nestes dois setores, havia alguma participação significativa de Unaí e Formosa (além da prestação de outros serviços).

A análise das informações anteriormente postas permite afirmar que, se por um lado ia ficando mais claro o perfil metropolitano de Brasília (tema a ser retomado posteriormente), em termos de possíveis subcentros em formação, os elementos e dados não permitem claramente afirmar o surgimento de um subcentro regional, embora seja necessário destacar o caso de Luziânia. A preponderância que apresentou nos dados relativos à questão dos serviços e a participação destes nos valores adicionados ao PIB municipal indicam ainda um processo mais claro de urbanização. Por outro lado, considerando o crescimento demográfico e a incipiente concentração de alguns serviços, é possível afirmar que Luziânia possuía as bases necessárias para constituir-se como subcentro regional, algo que ficará mais claro nos próximos períodos. De forma distinta dos outros municípios, Luziânia demonstrava já potencial para a instalação de equipamentos de consumo e de prestação de serviços em nível maior, não se contentando em ser mera concentração produtiva.

Considerando o perfil produtivo da região, os dados não apontam para a formação de subcentros ligados ao apoio à produção, já que, apesar da visível concentração da economia da maior parte dos municípios no setor primário, as informações dos gêneros produzidos demonstram ainda uma reduzida produtividade, que culmina na dificuldade em alcançar escala com o produzido. Margutti (1986) é taxativo em afirmar que a produção da região de Brasília era ainda insuficiente para suprir as demandas do próprio Distrito Federal. Por outro lado, a produção era voltada à exportação e alguns municípios começaram a estruturar-se como YHUGDGHLUDV ³FLGDGHV GR DJURQHJyFLR´ FRORFDQGR-se como pontos de controle técnico da produção. Estes parecem ser os casos de Formosa e Unaí.

Este quadro parece ser corroborado pelas pesquisas do IBGE em torno das Regiões de Influência das Cidades no período. Uma primeira pesquisa, publicada em 1972 (IBGE, 1972), referente à divisão do Brasil em regiões funcionais, estabelece uma hierarquia urbana local estando Brasília sob influência de Goiânia (esta considerada um centro macrorregional). Na referente pesquisa, Brasília é considerada em um centro de nível 2a, que corresponde a centros urbanos com as seguintes características:

³ De 150 a 300 relacionamentos no total (dentro e fora de sua área de atuação dominante); 2) De 100 a 250 relacionamentos dentro de sua área; 3) Não tem atuação extra-regional, apenas relacionamentos com municípios limítrofes das áreas vizinhas; 4) Recebem bens e serviços para a economia e população de centros 2a ou mesmo 2b,

ou então pela posição geográfica tem forte penetração da metrópole na sua área de atuação; 5) De modo geral, 30 a 40% dos relacionamentos da área se fazem com centros de igual categoria ou centros de escalão inferior localizados em outras regiões PHWURSROLWDQDV &HQWURVVXERUGLQDGRVGHHVFDO}HVLQIHULRUHV´ ,%*(S 

Neste sentido, nesta pesquisa, Brasília aparece mesmo em nível inferior em relação a Anápolis, revelando seu processo de formação ainda precoce. Dos municípios da região de Brasília que posteriormente viriam a fazer parte da Ride-DF, aparece nesta hierarquia, como centro de nível 3a (imediatamente abaixo do de Brasília), a cidade de Formosa.

Posteriormente, no Estudo das Regiões de Influência das Cidades (IBGE, 1987 ± cuja coleta dos dados ocorreu em 1983), Brasília é classificada como capital regional, estando, por outro lado, ainda subordinada a Goiânia (aí considerada metrópole regional). Nesta pesquisa, a hierarquia era dada a partir da oferta de bens e serviços e as capitais regionais ofereciam os seguintes (IBGE, 1987, p. 18):

x Comércio varejista: móveis para escritório; material para dentista; oxigênio para hospitais; máquina de calcular; refrigeradores comerciais; material para indústria gráfica; caminhões FNM ou Mercedes Benz; lanchas e motores de popa; pratarias e cristais; livros para engenharia e/ ou medicina; máquinas para filmar e/ ou projetar.

x Comércio atacadista e representações: tecidos, cigarros, jornais diários.

x Serviços: médico oftalmologista, médico cardiologista, médico neurologista, exame de eletrocardiograma, faculdade de economia, faculdade de administração, faculdade de direito, instalações elétricas ou hidráulicas, escritório de arquitetura. A partir destas características, sob influência de Brasília e na Região do Entorno, aparecem como centros de zona os municípios de Luziânia, Formosa e Unaí. De certa forma, esta informação converge na perspectiva acima proposta: havia elementos de centralidade nestes municípios, porém ainda em estágio incipiente.

Esta segunda hierarquia proposta pode ser visualizada no mapa abaixo (Figura 7.2), proposto pelo IBGE para entender esta fração da hierarquia urbana nacional. A região sob influência de Goiânia possui uma peculiaridade interessante: não se vê um relacionamento direto de Goiânia em relação a Brasília. O mapa demonstra, assim, que Brasília possuía já uma rede sob seu comando em sua região imediata e ampliada, que atingia espaços do oeste baiano e mineiro, além do norte goiano e parte do atual território de Tocantins. O mapa também

demonstra como a perspectiva do Eixo Brasília-Anápolis-Goiânia ainda era algo distante neste período.

Relativo ao tema das desigualdades regionais, a análise da variação do valor total dos rendimentos recebidos em Brasília e nos municípios do Entorno permite verificar até que ponto o processo de desenvolvimento destas dinâmicas se reverteu na renda, o que pode ser visualizado na Tabela 7.4. É possível perceber um forte crescimento no valor total dos rendimentos nos municípios de Luziânia e Buritis, com variação percentual superior mesmo ao do centro principal, Brasília. Entretanto, à exceção destes dois municípios, todos os outros tiveram um crescimento nesta variável abaixo do centro principal. Nota-se, aqui, a importância, de um lado, das eventuais rendas obtidas a partir da expansão urbana e metropolitana (para o caso de Luziânia) e do processo de modernização agrícola. Entretanto, considerando o ritmo de crescimento abaixo do centro principal na maior parte dos municípios, sugere-se a tendência de concentração de renda e consequente aumento das desigualdades socioespaciais. Já no segundo intervalo, cujo recorte temporal se insere (em parte) no período em análise neste capítulo (1980 a 1991), nota-se uma queda geral no crescimento dos rendimentos, como efeito provável da crise econômica. Talvez por conta desta situação de exceção, o crescimento dos rendimentos médios do centro principal (Brasília) é reduzido, e o crescimento em outros municípios é mais expressivo, com destaque para Planaltina e Luziânia, para o período entre 1980 e 1991. É de se destacar ainda, neste período, a variação negativa nos municípios de Pirenópolis, Buritis e Unaí.

Figura 7.2 ± Região de influência de Goiânia, segundo o estudo da REGIC de 1987.

Fonte: IBGE, 1987

Tabela 7.4 - Valor Total dos Rendimentos recebidos ± variação, em percentual, entre os anos registrados UF Município 1970-80 1980-91 GO Abadiânia 108,68 47,00 GO Alexânia 191,89 26,71 GO Cabeceiras 139,08 63,18 GO Corumbá de Goiás 166,87 5,99 GO Cristalina 305,68 45,96 GO Formosa 314,70 71,96 GO Luziânia 767,88 131,54 GO Padre Bernardo 192,94 19,43 GO Pirenópolis 145,86 -14,51 GO Planaltina 378,15 193,69 MG Buritis 553,89 -25,80 MG Unaí 260,19 -15,65 DF Brasília 428,61 34,91

Fonte: IBGE apud IPEADATA (dados tratados pelo autor)

Desta forma, os dados apontam para uma tendência de concentração dos rendimentos justamente no período em que as políticas de desenvolvimento regional estiveram mais em ação. Analisando por município, houve uma participação sempre importante de Luziânia e Unaí, apontando novamente para a ocorrência dos processos de expansão metropolitana e implantação da agropecuária moderna. Com a crise e o desmonte destas políticas, os valores gerais foram sendo reestabelecidos, próximos dos valores de 1970 (apesar de uma concentração importante em Luziânia).

Estes dados servem para dar ideia da desigualdade produzida, em termos sub- regionais, do processo de desenvolvimento com base no Polocentro e Pergeb. Não sem motivos, este será um período de forte crescimento urbano em Brasília, motivado pela chegada de imigrantes, muitos deles vindos dos municípios vizinhos a Brasília não atendidos pelas políticas de desenvolvimento regional. A análise deste desdobramento revela, ainda, que os objetivos do Polocentro foram claramente mais atendidos que os do Pergeb: este programa pressupunha a fixação do homem no campo; entretanto, com o modelo de desenvolvimento agrícola proposto pelo Polocentro, que ganhou maior atenção do Governo, houve justamente o oposto.

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