Após o questionamento do porquê de conhecer o menino, Riobaldo, diz “Adiante? Conto” (p.103). Provavelmente, seu interlocutor, o doutor, como qualquer ouvinte, ficou curioso e pergunta como será daí por diante? Ao que Riobaldo então se propõe a contar e dá inicio, nesse momento, à sequência linear do enredo, narra a morte da mãe e a ida para a fazenda do padrinho Selorico Mendes.
Como já visto, o início do enredo se dá quando Riobaldo está, adolescente, no porto do de-Janeiro. No entanto, na sequência narrativa, logo no começo do relato de Riobaldo, bem antes de marcar esse cronotopo revelador do ponto de partida do enredo, ocorre a primeira citação contendo a presença da mãe. É um acontecimento que, vindo antes na memória do narrador, revela o lugar dessa mãe para ele, ainda que, como reconhece, não pode atinar conscientemente para o motivo de suas lembranças e atitudes.
Essa primeira citação ocorre após o episódio em que Riobaldo salva Ana Duzuza de ser morta pelo bando, morte proposta por Diadorim. Antes de mencionar a mãe
explicitamente, menciona Ana Duzuza como sendo sua mãe. Nesse episódio, o bando estava no Chapadão do Pardo, saindo do que Riobaldo designa “recesso brenho do Vargem-da-cria” (de onde já se havia tirado ouro) e foi num lugar chamado Aroeirinha que se deu o encontro de Riobaldo com Nhorinhá, filha de Ana Duzuza que promoverá em Riobaldo um sentimento de reconhecimento de sua mãe com a mãe dela e instaura a lembrança da figura materna. Essa primeira vez que Riobaldo menciona explicitamente a mãe é para responder um questionamento de Diadorim44, que afirma, logo depois, não possuir mãe: “__ ‘Pois a minha eu não conheci...’ __ Diadorim prosseguiu no dizer. E disse com curteza simples, igual quisesse falar: barra – beiras cabeceiras... Fosse cego de nascença” (p. 39).
Quando Riobaldo conhece Nhorinhá, meretriz do sertão com quem se deita, terá por ela carinho especial: “Recebeu meu carinho no cetim do pêlo –alegria que foi, feito casamento, esponsal” (p.31). Nhorinhá é filha de Ana Duzuza, velha cigana que lê cartas e por quem Diadorim terá grande aversão, levada por ciúmes ao constatar que Riobaldo se deitou com a moça, filha de Duzuza, por quem o narrador terá grande afeição demonstrada ao longo de todo o romance, relatando a importância desse amor que ia além do amor carnal: “Segunda vez com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, [...]” (p. 487). Diadorim, no ímpeto de ciúmes, justificando a informação, relativamente confidencial, que Ana Duzuza fornece sobre os projetos de Medeiros Vaz, afirma que a velha faladeira devia morrer. Ao perceber a tentativa de Riobaldo em defender a velha, ameaçando sair do bando caso se desse a morte, Diadorim tenta demovê-lo instigando-lhe a fidelidade a Joca Ramiro:
Diadorim pôs mão em meu braço. Do que me estremeci, de dentro, mas repeli esses alvoroços de doçura. Me deu a mão; e eu. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas palmas. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira, e a má- vida da filha dela, aqui neste confim de gerais?!” – ele baixo exclamou (p. 35).
44 O nome Diadorim é o primeiro a aparecer na sequência narrativa, porem se tomarmos a sequência
linear do enredo, essa personagem aparece primeiramente como o Menino, depois como Reinaldo e num dado momento da estória, após o amor de Riobaldo já se tornar um tanto quanto explícito, Reinaldo diz se chamar verdadeiramente Diadorim. No momento dessa citação, tendo em conta a sequência do enredo, Reinaldo já era Diadorim.
No entanto, Riobaldo não aquiesce, questiona o poder de Joca Ramiro: “E tive ira. – 'Dou!’ – falei. Todo o mundo, então, todos, tinham de viver honrando a figura daquele, de Joca Ramiro, feito fosse Cristo Nosso Senhor, o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros” (p. 35).
Porém, Diadorim, tenaz não se dá por satisfeito:
Ser dono definito de mim, era o que eu queria, queria. Mas Diadorim sabia disso, parece que não deixava:
– “Riobaldo, escuta, pois então: Joca Ramiro era o meu pai...” – ele disse – não sei se estava pálido muito, e depois foi que se avermelhou. Devido o que, abaixou o rosto, para mais perto de mim (p. 35)
Após essa revelação Riobaldo titubeia um pouco, mas a voz da mãe fala mais alto que a voz paterna de Diadorim e ele se mantém contra a morte de Ana Duzuza, defendendo-a, mesmo sentindo que suas vontades estavam entregues a Diadorim e não entendendo por que contrariava o amigo e defendia a velha senhora:
Vontade minha foi declarar: – Redigo, Diadorim: estou com você, assente, em todo sistema, e com a memória de seu pai!... Mas foi o que eu não disse. Será por quê? Criatura gente é não e questão, corda de três tentos, três tranços. – “Pois, para mim, pra quem ouvir, no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse (p.36)
Riobaldo estabelece analogia entre sua mãe e Ana Duzuza e, embora, a figura de Ana Duzuza seja repulsiva – “Trem, caco de velha, boca que se fechava abobosa, de sem dentes. Raspava a rapadura com a quicé, ia ajuntando na palma da mão o farelo peguento preto; ou, se não, segurava o naco, rechupando, lambendo” (p. 34) – defende-a, indo contra o seu grande amor, Diadorim. O que falava alto e determinante em Riobaldo era a figura de Ana Duzuza como mãe. Via nela a mãe de Nhorinhá e, por isso, um pouco também de sua mãe. Por ela, irá contra Diadorim, defende-a de todos e por ela questiona a autoridade de Joca Ramiro e, ainda, não considera o fato da paternidade de Diadorim, não leva em conta a referência de autoridade que é a figura paterna para o amigo e também para ele, uma vez que admira e reverencia o chefe jagunço. Entretanto, o que fala alto é a autoridade da mãe. O narrador, aqui, não explica sua atitude conflituosa, não atina sobre o que o levou a determinada ação. Ação movida, portanto, por estratos inconscientes de sua personalidade, revelando a força, a voz de autoridade, a marca indelével deixada pela mãe que toma corpo em seu discurso.
Nesse momento, ocorre também um processo de conscientização do narrador em relação a sua dimensão particular - o que é irrepetível, único - em contrapartida com a dimensão coletiva, universal. Riobaldo compreende o caráter de universalidade de ser mãe, compreende que ser mãe é algo que se repete, não está só em uma. É essa explicação que ele dá quando Diadorim compreendendo a identificação feita por Riobaldo de Ana Duzuza com sua mãe, pergunta sobre ela: “Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela...” (p. 38), ao que ele responde:
Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade. E eu nunca tinha pensado nessa
ordem. Para mim, minha mãe era minha mãe, essas coisas. Agora eu
achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer. (p.38- grifo nosso).
Riobaldo percebe, depois do questionamento de Diadorim, que havia feito esse processo de identificação e que sua atitude de defender Ana Duzuza se devia à bondade de sua mãe marcada nele.
Esse processo do sujeito de se deslocar, olhar de outro ponto, ver sua dimensão individual no todo, é, podemos dizer, juntamente com Bakhtin quando analisa o excedente de visão na autoria do objeto estético (2000, p. 27), uma atitude que permite se reconhecer como autor e, não só como autor de um objeto estético, mas como um sujeito que se coloca numa posição estabelecendo uma atividade responsiva e responsável.
É também nesse episódio, nesse ponto da narrativa que Diadorim revela não ter conhecido a mãe. Nesse momento, é que Riobaldo fala então de sua condição de órfão de pai.
Por mim, o que pensei, foi: que eu não tive pai; quer dizer isso, pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. Não me envergonho, por ser de escuro nascimento. Órfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões (p. 39)
Riobaldo constata a ausência oficial do pai e dá um peso grande à presença da mãe, enquanto o ser que o iniciou, por assim dizer, no amor. Dessa maneira, carrega em si, decisivamente, a mãe.
O narrador apresenta uma mãe que soube amar dentro da necessidade de que ele, como filho, necessitava. A lembrança dela traz fantasia, uma experiência que remete à percepção estética dos fatos da vida, como a que se experimenta na contemplação da aurora que, para ele, é grandeza cantável, é música. Essa lembrança do amor materno o acompanhará durante toda a vida norteando, quase sempre, suas ações e sua visão de mundo.
Essa primeira cena em que a mãe é trazida explicitamente ocorre, assim, a partir de um questionamento de Diadorim, provocado pelo ciúme em torno da relação sexual, “esponsal”, que Riobaldo tem com Nhorinhá e revela o amigo Diadorim sendo órfão de mãe, Riobaldo órfão de pai e a compreensão do narrador de que a maternidade é algo que se repete em várias mulheres: ele consegue ver a mãe onde ela não está diretamente.
Há, ainda, nesse episódio, outro fato significativo, trazendo novamente o cronotopo de modo orgânico, isto é, a associação espaço/tempo em função do enredo, de maneira que o acontecimento narrado não poderia ter outro espaço/tempo, não poderia haver transferência, ele é único e irrepetível como o é o enunciado em questão. É o caso do lugar geográfico em que o bando se localizava no exato momento em que conhece Nhorinhá: eles estão no Aroeirinha. Contudo, antes de ali chegar, o bando, cruzando o chapadão, no pardo, saía do povoado dos pretos que exploravam faíscas de ouro no “[...] recesso brenho do Vargem-da-Cria – donde ouro já se tirou” (p. 30). Logo depois de sair desse lugarejo, chega no Aroeirinha onde conhece e se deita com Nhorinhá. A citação dessa várzea, aqui, não é fortuita, considerando que logo após essa cena, ocorrerá o episódio que deflagrará no narrador a lembrança da mãe. Esse nome recesso brenho do Vargem-da-Cria sugere o processo de nascimento, do parto, o momento em que o ser se aparta da mãe pra entrar no mundo. Recesso brenho significa recanto de mata espessa. Vargem ou várzea, terreno plano próprio para agricultura, geralmente terreno fértil. Essa associação das palavras vargem e cria sugere o local que dá frutos e associado a recesso brenho sugere a vida intra-uterina. Riobaldo narra o evento e localiza-se saindo desse recanto para conhecer Nhorinhá e sua mãe, sendo tomado de ternura e desejos por uma e respeito por outra, defendendo-a até a morte e situando sua mãe de outro ponto de vista, talvez mais distanciado de si mesmo: “E
eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era minha mãe, essas coisas.” (p. 38).
Na cronologia linear dos fatos, porém, antecede ao episódio narrado acima a vida de Riobaldo apenas com a mãe, o que será mencionado pela segunda vez na sequência narrativa, quando Riobaldo esclarece que, na pobreza do sertão, as famílias são desagregadas e que há muitos órfãos de pais. Cita o exemplo de um meeiro que está sempre mudando de lugar e de família. Ao final desse caso, afirma que ele não era assim, não abandonava a família, dava proteção, mas logo conserta dizendo que a sua proteção acontecia permeada pela divina e que essa proteção divina também não faltou à mãe, deixando subentendido que a proteção do marido ela não teve.
Eu dou proteção. Eu, isto é – Deus por baixos permeios... Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres, tapera dum sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o Verde que verte no Paracatu. Perto de lá tem vila grande – que se chamou
Alegres – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os
nomes eles vão alterando (p. 39)
Aqui é pertinente observar, como já mencionado, o espaço geográfico em que se situa o narrador e sua mãe, tapera dum sítio dito Caramujo. Caramujo remete ao animal ensimesmado, isolado do mundo. Nessa fase, parece que Riobaldo ainda estava na presença da mãe e, tão só com ela, num processo de simbiose, “[...] um tempo de caramujo, de relação dual com a mãe, de relação ‘simbiótica’ entre um corpo e sua casa, um corpo e um útero [...]” (MORAIS, 2008, p. 108). E a fase parece ser de felicidade, pois toda a descrição do lugar é positiva: Serra das Maravilhas, Serra dos Alegres, fontes do Verde, o Verde que verte no Paracatu, Vila que se chamou Alegres. A descrição traz a paz e o conforto do colo quente da mãe. O nascimento para o mundo ainda não havia ocorrido totalmente. É pertinente considerar também que, Freud (1975), acerca do simbolismo nos sonhos, afirma que os elementos ocos, tais como conchas e caramujos, entre outros, inclusive o elemento água, remetem ao elemento feminino. Pode-se dizer, assim, que nessa etapa, Riobaldo vivia no reino do feminino, no sítio do Caramujo. Como afirma Márcia Marques de Moraes (2001), num estudo em que faz uma leitura psicanalítica
do romance de Rosa, Riobaldo tinha, nessa etapa do sítio do Caramujo, uma convivência simbiótica com a mãe.
O início da transformação dessa fase ocorre com a mudança de Riobaldo e a mãe para outra localidade, próximo ao de-Janeiro, uma vereda do rio São Francisco. Essa mudança parece ser patrocinada por um homem, Gramacêdo Jidião Guedes, por quem Riobaldo nutre grande ódio, caracterizando a lembrança mais longínqua, em termos de tempo cronológico em sua memória.
O senhor sabe: a coisa mais alonjada de minha primeira meninice, que eu acho na memória, foi o ódio, que eu tive de um homem chamado Gramacêdo... Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe. Eu estava com uns treze ou quatorze anos... (p. 40).
Essa citação da mãe é a terceira na sequência narrativa e o ódio sentido pelo homem que o tirou, junto com sua mãe, do sítio do Caramujo, não é desenvolvido no romance, é um enigma, uma incógnita dentro do enredo. Esse Gramacêdo será citado uma outra vez, quase ao final do romance, quando Riobaldo, chefe do bando, se vê num conflito estabelecido entre o mal, figura do demo e Nossa Senhora, onde uma voz ordena que mate o fazendeiro Nhô Constâncio Alves e outra que ele não mate. Para decidir-se, determina que se o fazendeiro conhecesse o tal Gramacêdo, morreria. Isso denuncia o ódio por esse homem alimentado durante toda a vida.
3.4 Diadorim/Reinaldo e Riobaldo – verso e reverso em relação à mãe