evidencia uma triangulação estabelecida entre ele, a mãe e Diadorim. O início do enredo é a mãe que o leva ao local onde conhecerá o menino que será o mote de toda sua epopeia, deixando claro para o interlocutor que ali é o início, a origem, da estória. E a primeira citação explícita da mãe na sequência narrativa ocorre por um questionamento feito por Diadorim, provocado pelo ciúme da moça Nhorinhá.
Diadorim, a feminilidade interditada, a orfandade de mãe, qual cego de nascença, órfão de luz, deflagra a presença materna. Isso ocorre não só da primeira vez, mas nas outras dezesseis vezes em que a mãe é citada explicitamente, cinco estão relacionadas a Diadorim e a última menção à mãe no romance parece ser uma resposta dada a uma crítica de Diadorim, quando, em dado momento da chefia de Riobaldo como Urutu Branco, diz que se a mãe estivesse viva acharia que ele tinha recebido malefício de alguém.
Essa menção ocorre após o suposto pacto com o Demo, Riobaldo, já chefe do bando, tem um diálogo com Diadorim que revela ter mandado um recado para que Otacília rezasse por ele, ao que Riobaldo pergunta se ele carecia de suas rezas para ajudar, e Diadorim responde:
- “Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...” Mor, mor, aí, recebi surto de meu sangue, forte, no corpo da cara e na beira das orelhas, e logo doeu no meu beiço o que e estava me mordendo, assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
- “Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades...” – ainda eu maldisse, me apartando (p. 451).
Riobaldo fica enfurecido quando Diadorim o reprova, afirmando que sua mãe faria o mesmo. Nos momentos seguintes, demonstra tristeza profunda. “Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosas nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e raivoso. Tristonho.” (p. 451). Essa contrariedade deixa claro o peso da aprovação materna para ele, pois essa tristeza se fez exatamente pela crítica do amigo que assevera que a mãe o reprovaria da mesma maneira que ele (Diadorim).
Quase ao final do romance, a citação de Riobaldo sobre a mãe, não deixa dúvida acerca da autoridade dela em sua consciência: “Minha mãe vivesse e viesse, ela mesma por nenhum descuido mero não havia de poder me reprovar” (p. 535). Essa referência à mãe ocorre no Paredão, quando o bando já havia sequestrado a mulher do Hermógenes e Riobaldo cometido vários desmandos pelo sertão, com o intuito de vingar a morte de Joca Ramiro para agradar Diadorim. Essa citação, ainda que feita em outro momento da narrativa, parece ser uma resposta à crítica proferida por Diadorim anteriormente: “Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe,
mesma, que estivesse viva, achava...” (p. 451). O narrador demonstra que dá importância ao julgamento que a mãe faria de suas ações e faz referência à sua possível aprovação, mesmo que possa haver dúvida dessa aprovação para seu interlocutor ou para ele mesmo.
Primeiramente, Riobaldo, marcado pela bondade da mãe em sua infância, ausente do pai, parece ter um olhar feminino para a vida, para o amor, identificando naquele menino algo que nele parecia escondido, vetado, mas denunciava o que, em Riobaldo, estava latente, mas inteiramente aceito. Talvez por isso Diadorim fosse uma neblina para ele: “Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina...” (p. 23). Diadorim era a sua outra face, o outro lado da moeda, representava algo que poderia ser, mas estava oculto e interditado, enquanto em Riobaldo o feminino era a ressonância de uma voz que o envolvia desde sempre, a voz materna. Essa voz faz de Riobaldo o homem com capacidade de amor que se diferencia da maioria dos jagunços do sertão, inclusive de Diadorim, marcado pelo ódio e pela esterilidade na impossibilidade de ser mulher efetivamente. Riobaldo suspeita que ele e Diadorim traçavam caminhos opostos: “Diadorim carecia do sangue do Hermógenes e do Ricardão, por via. Dois rios diferentes – era o que nós dois atravessávamos?” (p. 331). Riobaldo, segundo Rosenfield (1993), traz a metáfora materna, a evocação do feminino, das mães e das madrinhas e, principalmente, de Nossa Senhora, figura maior da feminilidade para o mundo masculino e guerreiro do sertão.
Outro aspecto que também parece evidenciar a oposição feminino/masculino entre Riobaldo e o menino é o aspecto da aparência material dos dois, pobreza de um e riqueza de outro. Acerca desse encontro no de-Janeiro, afirma Roncari:
Ali, em quase tudo, eles eram opostos e complementares: Riobaldo só tinha mãe, era pobre, estava esmolando, ainda que fosse para pagar promessas, mal vestido, era tímido, medroso e indeciso na hora de enfrentar as situações; Diadorim tinha um pai que era tudo, era rico, estava ali com o tio, comprando o que lhes faltava, arroz, estava bem vestido, com roupas boas e chapéu de couro novo, era corajoso, sabia mandar e tinha autoridade, era seguro e enfrentava com virilidade as ameaças que surgiam. (2004, p. 67).
Nota-se, nesse sentido, posturas nos dois jovens que remetem aos princípios masculino (ativo/positivo) e feminino (passivo/negativo) que se desdobram nas
diferenças apresentadas entre os papeis assumidos pela mulher e pelo homem, em que este produziu e deteve, ao longo de grande parte da história humana, riquezas e a mulher esteve numa condição de dependência ou penúria. Riobaldo está associado à mãe, à mulher, à carência, e Diadorim ao pai, à opulência, ao ser masculino, que se impõe e interdita o feminino.
Encontra-se, assim, corporificada no discurso de Riobaldo, essa evocação do feminino, revelando uma mãe que assume a função materna, embora sem função social de prestígio, traz encarnada em si valores da maternidade, de ser um ente para a vida, para dar amor, dedicação e nutrição ao rebento. A de ser aquela primeira que mediará e traduzirá o mundo para o ser que pariu, deixando nele marcas indeléveis de seu olhar e sua voz, fazendo parte de seu corpo discursivo. Essa postura de mãe é de extremo poder. Um poder, estabelecido ingênua e sabiamente. Sabiamente por que engendrado por leis naturais, ingenuamente por se submeter às contingências masculinas de dominação, poder, destruição e morte.
Diadorim traz para Riobaldo a mãe ou o amor da mãe o leva para Diadorim? O certo é que a ligação dessas duas figuras existe no discurso de Riobaldo e, como já mostrado em outras pesquisas45, há uma relação especular entre Riobaldo e
Diadorim. Os olhos de Reinaldo/Diadorim o levam para a doçura do olhar da mãe. E, se assim podemos inferir, esse olhar feminino que constitui Riobaldo o leva a descobrir o feminino oculto em Diadorim e com ele se identificar e se encantar, uma vez que o apaixonamento é também um reconhecimento de si no outro ou um reconhecimento do que se quer ser no outro.
45 Citamos, entre outras pesquisas, MORAIS, Marcia Marques de. A travessia dos fantasmas –
literatura e psicanálise em Grande sertão: veredas. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
ROSENFIELD, Katrin. O problema da homossexualidade em Grande sertão: veredas. In: JOBIM, J. L (org). As palavras da crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
MENEZES, Adélia Bezerra de. Cores de Rosa – Ensaios sobre Guimarães Rosa. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2010.
Citamos também, a título de exemplo, as dissertações: MORAIS, Rosane. A lei do pai: leitura de
Grande sertão: veredas a partir da função paterna em psicanálise. 2003.100f. Dissertação
(Mestrado em Estudos Literários) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2003. FARIA, Maria Celeste Lima de Barros. Circuito pulsional em
Grande sertão: veredas. 95f. 2003. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2003.
A respeito desse aspecto especular do apaixonamento, afirma Carotenuto (1994) que o envolvimento amoroso decorre do encontro de duas solidões. A paixão se faz no reconhecimento da própria solidão no outro, “Em última análise, na dimensão amorosa o encontro ocorre sempre entre duas solidões, porque é como se estivéssemos continuamente diante da nossa própria imagem desejosa” (1994, p. 60). Riobaldo encontra em Reinaldo uma solidão complementar, ausência paterna de um e materna de outro.
No momento da narrativa em que Riobaldo assume estar amando o amigo Reinaldo46, está atordoado, confuso e tenta justificar para o doutor que era homem, que não tinha vícios desencontrados (p. 137), cita novamente a mãe. Narra a afinidade que tem pelo amigo, a vontade de estar perto. “Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era?” (p. 137). Continua a narração, informando que deveriam atravessar o rio, passar a Serra-da- onça e encontrar com a travessia do Jequitaí. Narra o fato de estar gostando do momento, de estar fruindo o prazer da companhia do Reinaldo – “Os dias que passamos ali foram diferentes do resto de minha vida” (p. 138). Num dado momento descreve uma cena bastante bucólica, com pôr-do-sol, coqueiros, macaúbas, pássaros felizes e peixe pescado do rio. Via o amigo alegre e sereno e nesse momento há uma jura de amizade entre os dois: “− Riobaldo, nós somos amigos, de destino fiel, amigos? − Reinaldo, pois eu morro e vivo sendo amigo seu! – eu respondi. Os afetos” (p. 138). Após essa jura, Riobaldo afirma:
Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo. Como no tempo em que tudo era falante, ai, sei. De manhã, o rio alto branco, de neblim; e o ouricuri retorce as palmas. Só um bom tocado de viola é que podia remir a vivez de tudo aquilo (p. 203).
Riobaldo enuncia com clareza que vê a doçura dos olhos da mãe nos olhos de Reinaldo/Diadorim e isso o faz ver as cores do mundo e o momento só poderia ser traduzido na música – um bom tocado de viola. Novamente associa a mãe à música, tal como na página 228, em que afirma o desejo de que a mãe cantasse para ele a canção de Siruiz. Fato bastante significativo, pois a música é linguagem universal, arte primordial.
46 Nesse ponto do enredo, Riobaldo ainda não havia recebido o esclarecimento quanto ao verdadeiro
Desse modo, é pertinente considerar essa canção, tanto porque a lembrança dela está associada às poucas vezes em que a mãe é citada, quanto porque se revela conectada com fatos importantes e estruturais da narrativa de Riobaldo. Luiz Roncari (2004) analisando a canção dentro do romance assevera que a lembrança da cantiga é recorrente, prediz e resume a história do narrador que vai ganhando sentido à medida em que Riobaldo vai vivendo e relembrando a canção. Roncari analisa a letra da canção de Siruiz47 cotejando-a com alguns fatos importantes da narrativa, demonstrando como ela resume a travessia de Riobaldo, revelando nos últimos versos a natureza do narrador: “Os dois últimos versos falam do que guiava a sua vida e da sua natureza cordial, coração [...]” (RONCARI, 2004, p. 83. Essa natureza cordial, será melhor esclarecida mais a frente como um legado materno, quando tratarmos dos aspectos femininos materializados no corpo discursivo de Riobaldo. Aqui apenas enfatizamos que a análise de Roncari, acerca da canção, corrobora nossa tese de uma preponderância da mãe tanto no que diz respeito ao desenvolvimento do enredo quanto nas marcas discursivas do narrador.
Em relação ao fato de Diadorim trazer os olhos da mãe, é oportuno considerar a função do olhar no processo de sedução e o papel materno dessa linguagem que antecede a palavra. Afirma Carotenuto que todos experimentam logo depois do nascimento a comunicação do olhar, a única possível para o recém nato que encontra, via de regra, outros olhos,
[...] é aí, a meu ver, que tem origem a sedução através do olhar; esta parece ser uma das emoções fundamentais de nossa existência. Não posso evidentemente descrever o que sente uma mulher, mas posso dizer que não há nada mais perturbador para o homem do que encontrar o olhar de uma mulher que ele deseja. Isso porque as nossas mais antigas experiências de meninos são com uma mulher, como aliás é também para a menina. [...] no momento em que como adultos voltarem aqueles olhos, reviverão um instante que para eles foi fundamental. Através do olhar se consegue viver a imensa intensidade do desejo de comunicar o que desde criança foi frustrado.[...] O olhar permite viver qualquer experiência: e eis então que, através da sua profundidade, os olhos da mulher amada, aproximam o mundo. E aqui reencontramos o desejo insatisfeito (1994, p. 60, 61).
47Urubu é vila alta,/ mais idosa do sertão:/ padroeira, minha vida
–/ vim de lá, volto mais não... Vim de lá, volto mais não?.../ Corro os dias nesses verdes,/ meu boi mocho baetão:/ buriti –água azulada,/ carnaúba – sal do chão.../ Remanso de rio largo,/ viola da solidão:/ quando vou p’ra dar batalha,/ convido meu coração...(ROSA, p. 111).
Essa afirmação vem corroborar a conexão estabelecida entre a mãe Bigri e Reinaldo/Diadorim, tornando ainda mais claro o papel determinante dessa figura materna na condução do enredo, da travessia do narrador. E ainda, é pertinente acrescentar que os nomes Bigri e Diadorim guardam uma relação de semelhança como afirma Aguiar:
[...] o nome Bigri tem associações com o de Diadorim. Bi lembra duas vezes e di também lembra dois. Mas compõem uma associação por complementaridade, pois o “dois” do Di de Diadorim remete em primeiro lugar à idéia de divisão, conflito, enquanto o Bi de Bigri remete à idéia de duplicação, mãe que é vicariamente pai, fusão de dois seres diversos (1998, p. 90,91)
O evento, conhecer o menino e com ele passear nas águas do São Francisco, dividirá a vida do narrador em duas partes. É um momento iniciático, um rito de passagem. É o momento em que Riobaldo deixa a infância, transfere o amor, o desejo pela mãe para outro objeto: “Só era bom por estar perto do menino. Nem em minha mãe eu não pensava. Eu estava indo a meu esmo” (p. 97). A conjunção nem não deixa dúvidas acerca da forte presença e da importância da mãe para ele. Transfere ou troca ou estende, se assim podemos dizer, o amor pela mãe para o menino com quem se identifica. O menino era diferente de todos os demais, mas para Riobaldo havia uma semelhança, os olhos desse menino traziam a doçura dos olhos da mãe, traziam sentimento de pertencimento: “O que entendi em mim: direito como se, no reencontrando aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família.” (p. 130, 131).
A partir desse encontro e do reencontro com o menino já homem feito, o Reinaldo, Riobaldo inicia a travessia que implica atravessar o mundo realizando-se no ato e no relato de ser, estar, fazer no mundo concomitantemente executando a travessia de um estado de meninice ao de homem maduro, ir a caminho de seu esmo, a um rumo incerto determinado por si. Aqui notamos o paradoxo de “meu esmo”, revelando a perspectiva de um sujeito que mesmo na empreitada de se fazer, sabe que o processo será sempre de inacabamento, não haverá certezas, embora possa ser senhor, será “[...] senhor de certeza nenhuma” (p. 331).
Riobaldo se engaja no mundo jagunço para estar ao lado desse menino, agora rapaz, o Reinaldo. É o que admite conscientemente, entretanto parece haver outro motivo, pois ele sabe que o padrinho Selorico Mendes tinha simpatias pela jagunçagem.
Semanas seguintes, meu padrinho só falou nos jagunços. Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado: muitos iguais não nascem assim – dono de glórias! Aquela turma de cabras, tivesse sorte, podia impor caráter ao Governo. Meu padrinho levara aquele dia todo no meio deles. Contava: o cuidado nos arranjos, as coisas todas regradas, aquele dormir de ordem, aquela autoridade enorme no entremeamento. Nem nada faltava. As sacas de farinha, tantas e tantas arrobas de carne-de-sol, a munição bem zelada, caixote com pães de sabão para cada um lavar a roupa e o corpo. Até tinham um mestre-ferrador, com sua tendinha e os pertences: uma bigorna e as tenazes, fole de mão, ferramenta exata; e capanga de alveitar, com vários sortidos flames de sangrar cavalos adoecidos. E as mais coisas meu padrinho descrevia com muito agrado, de que tinha ouvido sincera narração (p. 112 e 113).
Os dois motivos, um confesso, o outro apenas sugerido, parecem estar servindo à questão edipiana, estão a serviço da travessia de se fazer homem, constituindo-se em consciência cujo processo implica significar (superar) processos inconscientes. Nesse caso, ocorre o desejo por Diadorim que remete ao desejo edipiano e ocorre o engajamento na jagunçagem que remete à identificação paterna. O momento crucial desse processo, representando uma travessia completa – entre muitas do romance – ocorre, pode-se dizer, na batalha final quando Diadorim luta com o Hermógenes e Riobaldo desmaia, não é capaz de interferir nessa luta, rende-se, não sente força para sustentar o desejo de ter Diadorim, de estar com ele na luta final contra o Hermógenes. Ele abandona Diadorim a sua própria sorte, mergulha num processo de inconsciência, o caos não organizado e que mesmo depois de atravessado, não conseguirá nomear. Riobaldo vacila, devaneia, delira, perde a consciência e, no fim, se vê depois da tempestade, dando conta de si afinal:
Entendi. O senhor me socorre.
Conheci o que estava para ser: que os dele e os meus tinham cruzado grande e doido desafio, conforme para cumprir se arrumavam, uns e outros, nas duas pontas da rua, debaixo de forma; e a frio desembainhavam. O que vendo, vi Diadorim – movimentos dele. Querer mil gritar, e não pude, desmim de mim-mesmo, me tonteava, numas ânsias. E tinha o inferno daquela rua, para encurralar comprido... Tiraram minha voz.
Como vinham de lá e de lá, em contra-ranchos, a tomar armas, as cartucheiras de tiracol. Atirar eu pude? A breca torceu e lesou meus braços, estorvados. Pela espinha abaixo, eu suei em fio vertiginoso. Quem era que me desbraçava e me peava, supilando minhas forças? – “Tua honra...
Minha honra de homem valente!... “ – eu me, em mim, gemi: alma que
queixo e com os peitos. Eu vi minhas agarras não valerem! Até que trespassei de horror, precipício branco. Diadorim a vir – do topo da rua, punhal em mão, avançar – correndo amouco... Ai, eles se vinham, cometer. Os trezentos passos. Como eu estava depravado a vivo, quedando. Eles todos, na fúria, tão animosamente. Menos eu! Arrepele que não prestava para tramandar uma ordem, gritar um conselho. Nem cochichar comigo pude. Boca se encheu de cuspes. Babei... Mas eles vinham, se avinham, num pé-de-vento, no desadoro, bramavam, se investiram... Ao que – fechou o fim e se fizeram. E eu arrevessei, na ânsia por um livramento... Quando quis rezar – e só um pensamento, como raio e raio, que em mim. Que o senhor sabe? Qual: ... o Diabo na rua, no meio do redemunho... [...]
Assim, ah – mirei e vi – o claro claramente: ai Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes... Ah, cravou – no vão – e ressurtiu o alto esguicho de sangue: porfiou para bem matar! Soluço que não pude, mar que eu queria um socorro de rezar uma palavra que fosse, bradada ou em muda; e secou: e só orvalhou em mim, por prestígios do arrebatado no momento, foi poder imaginar a minha Nossa-Senhora assentada no meio da igreja... Gole de consolo... Como lá embaixo era fel de morte, sem perdão nenhum. Que engoli vivo. Gemidos de todo ódio. Os urros... Como, de repente, não vi mais Diadorim! No céu, um pano de nuvens... Diadorim! Naquilo, eu então pude, no corte da dor: me mexi, mordi minha mão, de redoer, com ira de tudo... Subi os abismos... De mais longe, agora davam uns tiros, esses tiros vinham de profundas profundezas. Trespassei.
Eu estou depois das tempestades (p. 555 e 556).
Quando Riobaldo desperta, Diadorim havia morrido e se revela como mulher para ele, uma mulher agora impossível. Essa morte parece ser a resolução do complexo edipiano e a finalização de uma travessia empreendida.
Diadorim, Diadorim – será que amereci só por metade? (559)
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero (560).
Aqui a estória se acabou. Aqui, a estória acabada. Aqui a estória acaba.
Resoluto saí de lá, em galope, doidável. Mas, antes, reparti o dinheiro, que tinha, retirei o cinturão-cartucheiras – aí ultimei o jagunço Riobaldo! Disse adeus para todos, sempremente (p. 561).