Quando afirmamos haver um mundo feminino presente no discurso de Riobaldo em Grande sertão: veredas, consideramos imprescindível esclarecer qual o conceito de feminino que abordamos. A diferença entre essas categorias (feminino e masculino) longe está de ser tarefa fácil e sua complexidade abarca diversas abordagens sob várias perspectivas. Aqui vamos abordar a diferença que se constrói, a despeito da anatomia e fisiologia, tomando em conta os aspectos sociais que redundam no discurso.
Segundo Freud, no texto Organização genital infantil – Uma interpolação na teoria da sexualidade (1975), a criança ao distinguir a diferença entre o pai e a mãe, ela não o faz, a princípio, pela diferença do sexo biológico, mas por uma quantidade de signos exteriores que remetem à diferença dos gêneros51. Esses signos que determinam uma distinção de gênero não são naturais, isto é, não são determinados pela fisiologia ou anatomia, mas constituem uma criação histórica, baseada nas relações sociais no estabelecimento de poder, determinando o que é feminilidade e masculinidade, o que nem sempre corresponde a mulher e homem biológicos.
Portanto, conforme esclarecido no primeiro capítulo dessa pesquisa acerca do signo ideológico, não há como refletir sobre a construção do conceito de gênero sem considerarmos que toda construção humana se fez na e pela linguagem. Como já visto, assim, a linguagem é tomada como atividade que emerge de uma interação e
51 Segundo Freud, no texto “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os
sexos”, as diferenças anatômicas sexuais levam a algumas consequências comportamentais diferenciadas em homens e mulheres no que diz respeito ao sentimento de castração. Há, segundo ele, uma disposição em ambos para a bissexualidade e, que, feminilidade e masculinidade são construções teóricas de conteúdo incerto. Embora tenha trazido contribuições definitivas nos conceitos de gênero e sexo, é oportuno acrescentar que esse texto de Freud já foi algumas vezes criticado por alguns teóricos, sobretudo as feministas, que consideram a abordagem do psicanalista comprometida com uma visão machista e trata a sexualidade feminina com certa estreiteza. Reiteramos, então, que o sexo é biológico e, não obstante, trazer consequências comportamentais, o gênero (feminino e masculino) é construido social e culturalmente.
de uma atitude ativamente responsiva e valorativa em relação à realidade, ao mundo. Essa concepção traz embutido o caráter inexoravelmente ideológico da linguagem.
A atribuição ao que é feminino se justifica através do processo histórico no que diz respeito à organização social e em relação aos valores religiosos greco-judaico- cristãos que nortearam o desenvolvimento da sociedade ocidental. As relações sociais, a cultura criaram padrões de comportamento específicos a cada gênero, estabelecendo modos próprios de agir na sociedade. A maneira de falar e, portanto, pensar, bem como a maneira de portar-se, trabalhar, dirigir, vestir etc. são distintos para homens e mulheres.
Esse modelo de feminilidade se fez, ainda, em relação às formas corporais da mulher. Através da preferência de um tipo de corpo feminino pelos homens se institui modelos de corpos considerados tradicionalmente femininos representados na literatura, nas artes plásticas, etc. Gilberto Freyre (1987) descrevendo o que denomina “imponências de formas da mulher tradicionalmente feminina”, afirma que as ancas alargadas são o atributo definidor de uma feminilidade, sobretudo, da mulher brasileira. Atesta ainda que a dignidade de certas matronas, senhoras da casa grande, se legitimava por portar grandes ancas:
[...] não devem ter faltado a senhoras, muitas delas, vindas para a Corte, de casas-grandes rurais, onde a tradição é terem reinado, sobre essas casas, matronas, quase todas, de amplas e imponentes formas. Quase nunca, descadeiradas ou de quartos caídos. Pois os quartos caídos, ou a escassez de cadeiras, poderiam comprometer, segundo convenções da época, em senhoras dessa espécie, sua própria e importante dignidade senhorial (FREYRE, 1987, p. 67).
Não é excessivo argumentar que a dignidade masculina nunca dependeu de suas formas físicas, como ocorreu ao longo da história humana, e ainda ocorre, com a imposição de padrões de beleza física para a mulher.
No século XVI, em Didática magna, Comenius defendeu que a educação devia ser ministrada igualmente às mulheres, pois estas não poderiam ser privadas da instrução e, para isso, apelou para que não argumentassem contra com as palavras de Paulo: “Não permito, porém, que a mulher ensine” (Paulo, TM II apud Comenius, 2006, p. 92) ou a de Hipólito em Eurípedes: “Odeio a mulher douta, e que em minha
casa/Nenhuma haja que saiba mais do que convém a uma mulher[...]” (Eurípedes apud Comenius, 2006, p. 92), afirmando que a sua defesa para a educação da mulher não se opunha ao pensamento veiculado por Paulo e Eurípedes, pois
[...] visto que não defendemos a instrução das mulheres para induzi-las à curiosidade, mas à honestidade e à bem-aventurança. Sobretudo com relação às coisas que lhe convêm saber e obrar: para administrar bem a casa e para promover seu próprio bem, o do marido, dos filhos e de toda família (Comenius, 2006, p. 92).
Vemos assim que ao longo da história humana a mulher foi direcionada substancialmente para a função materna, o cuidado com a família, o espaço privado e à vida religiosa. As diferenças de gênero foram construídas nas práticas discursivas, tendo em vista a supremacia masculina e no registro histórico da humanidade, empreendido preponderantemente pelos homens, as mulheres aparecem enclausuradas, excluídas, diminuídas, silenciadas e, muita vez, invisíveis. Elas aparecem, ainda, em grande parte da literatura como figuras passivas, angelicais, submissas (Brandão, 2006), através da voz masculina, representadas pelos padrões viris aos quais, muita vez, serviram de paradigma para conformação do que vem a ser modelo de feminilidade. O que comumente é atribuído como feminino é, portanto, uma construção discursiva a partir do olhar masculino com a aquiescência da atitude feminina. Essa construção se fez no âmbito das artes, da religião e da ciência, quase sempre a partir da voz masculina comprometida com valores da sociedade patriarcal, deitando, delineando conceitos acerca do que é ou não feminino.
A Bigri em Grande sertão: veredas reflete essa realidade na medida em que revela a condição sócio-histórica da mulher brasileira mestiça e pobre, e, também, por ser uma voz feminina que se materializa através do discurso de um narrador masculino que não lhe dá voz ativa, uma vez que Riobaldo não faz citação direta da palavra materna, apenas cita sua presença, como veremos no último capítulo deste trabalho. No entanto, considerando a totalidade, a arquitetônica do romance, podemos observar o papel decisivo que a figura materna (função) ocupa no corpo discursivo do narrador, evidenciando a preponderância da mãe na travessia efetuada por ele. Se por um lado (poder sócio-econômico) a mulher é inexpressiva por conta de uma interdição na esfera pública – o que está na superfície do discurso de Riobaldo – por outro (na lida doméstica) ela parece exercer uma autoridade, uma ditadura
matriarcal, onde o acesso do homem é quase impedido, pois a esfera privada, destinada à vida doméstica, às decisões “menos importantes”, sem grandes (ou nenhuma) intervenções políticas e públicas era o reduto em que a mulher reinava e, mesmo submetida ao poder do homem, não se pode negar a existência de um poder construído no exercício da maternidade, aliado ao elemento sagrado enquanto fonte de vida e nutrição. Esse poder deixa marcas indeléveis na constituição do ser, como pode ser visto mais adiante na abordagem acerca da presença subliminar da mãe no discurso de Riobaldo. Dessa maneira, é imprescindível notar como é útil para a arquitetônica e o enredo do romance que a figura materna apareça indiretamente e de forma marcante, revelando um contexto sócio-histórico-ideológico e, consequentemente, a constituição, o ponto de vista desse narrador.
É possível ler no discurso de Riobaldo traços desse mundo feminino que, podemos dizer, revela uma visão de mundo muito próximo do universo feminino, qual seja, a maternidade, a religiosidade, a bondade, as cantigas de festas e o cuidado maternal. Muito significativa a nostalgia de Riobaldo, como chefe do bando, Urutu Branco:
Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na idéia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigri minha mãe me ralhando; os buritis dos buritis – assim aos cachos; o existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-croa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília (p. 483).
Aqui nota-se um chefe jagunço diferente, um homem que mesmo na liderança da guerra, um mundo vetado às mulheres, lista elementos de seu imaginário que levam para uma visão de mundo feminina. Ou seja, os elementos objetos de sua fruição estão relacionados ao universo feminino que remete à infância (Bigri ralhando, meninos nus atrás das mães), ao lúdico (cantigas, os buritis dos buritis, o pássaro galante), a alegria gratuita (mulheres sem tempo para grandes tristezas), a religiosidade (imagem de Nossa Senhora). Aqui é importante mencionar que novamente aparece a cantiga de Siruiz que Riobaldo conheceu quando esteve pela primeira vez com o bando jagunço e reencontra o menino, agora Reinaldo. Essa canção, como já mencionado, atravessa a narrativa e revela, entre outras coisas, o olhar lírico do narrador deflagrado pela canção que jamais o abandonará, será “[...] um eco da poesia que percorre o espaço todo do sertão.” (ARRIGUCCI, 1995, p.
475). A cantiga está associada à trajetória de Riobaldo, ao reencontro com o menino, a todo o lirismo e romance que se desdobram no enredo, e o fato dessa canção aparecer vinculada à lembrança da mãe não deixa dúvida da força da presença materna nesse discurso.
Em algumas cenas com Diadorim, Riobaldo compartilha uma percepção estética da natureza, próprio, segundo o narrador, de um jeito feminino de ser. O jagunço vê beleza nos pássaros e não mira de caça.
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: – “É formoso próprio...” – ele me ensinou. Do outro lado, tinha vargem e lagoas. P’ra e p’ra, os bandos de patos se cruzavam. – “Vigia como são esses...” Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. – “É aquele lá: lindo!” Era o manuelzinho-da-crôa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea – às vezes davam beijos de biquinquim – a galinholagem deles. – “É preciso olhar para esses com um todo carinho...” – o Reinaldo disse. Era. Mas o dito, assim, botava surpresa. E a macieza da voz, o bem-querer sem propósito, o caprichado ser – e tudo num homem-d’armas, brabo bem jagunço – eu não entendia! Dum outro, que eu ouvisse, eu pensava: frouxo, está aqui um que empulha e não culha. Mas, do Reinaldo, não. O que houve, foi um contente meu maior, de escutar aquelas palavras. Achando que eu podia gostar mais dele. Sempre me lembro. De todos, o pássaro mais bonito gentil que existe é mesmo o Manuelzinho-da-crôa (p.134).
Percebe-se no discurso de Riobaldo uma construção do que se consideram atitudes femininas e masculinas. Do homem espera-se valentia, praticidade, a guerra, a luta. Da mulher a sensibilidade, a percepção da beleza, a apreciação desinteressada, a fruição. Riobaldo, macho e machista, ao ver o amigo olhar os pássaros com tal delicadeza não o considera parecido com um homem nem jagunço e denuncia o conflito instaurado pela identidade do sentimento que nutria, uma vez que percebendo o olhar feminino do amigo, aceitava-o, achando que podia gostar mais dele, intuindo uma feminilidade que o atraía, como já explicitado, por que revelava uma marca da figura materna em si, o que foi deflagrado especialmente ao ver a doçura dos olhos de Diadorim. Cumpria uma demanda de si, como afirma próprio Riobaldo: “O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende.” (p. 28).
Esse mesmo olhar, vindo da mãe, conferido, aprendido com Diadorim, encaminhará Riobaldo para Otacília: “Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão
em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele assunto de Deus, Diadorim era quem tinha me ensinado.” ( p. 177). Otacília, a encarnação do feminino, tanto em aparência quanto em substância, repete o padrão de feminilidade e religiosidade da Bigri, como demonstraremos mais adiante, contribuindo para o enamoramento do narrador por ela.
A relação mãe/filho é corporal, um é parte do corpo do outro e por mais que a vida os distancie, o corpo carrega as marcas do corpo materno. “Dor do corpo e dor da idéia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio.” (p. 20). Finalizamos assim esse capítulo, concluindo que o relato de Riobaldo revela seu corpo, é visceral, faz nascer o ser que corporifica sua relação com a mãe. A Bigri encontra-se desenhada de forma preponderante no discurso de Riobaldo influenciando a forma como o narrador conduz o enredo, revelando-a como uma voz autoritária, constituinte, determinante na travessia por ele empreendida. A seguir situamos, no relato de Riobaldo, o contexto histórico em que a Bigri é forjada e a importância desse legado para o narrador.
CAPÍTULO - 4 - O CONTEXTO HISTÓRICO EM QUE FOI FORJADA A
BIGRI E A FORÇA DE SEU LEGADO PARA RIOBALDO
“Mulher é gente tão infeliz...” (Riobaldo/Diadorim – G. Rosa) “Com alguns homens fui feliz, com outros fui mulher” (Caetano Veloso)