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Ao explicitarmos a importância de articulação dos elementos – ações tutorais e estilos - na vida profissional do professor, apontamos que deva ser entendida a sua inter-relação, pois os saberes de orientação dos professores apontam uma ação tutoral que delimita um estilo de orientação.

A forma de orientação empregada pelos professores formadores influencia o trabalho formativo de quem vive o processo educativo. Logo ao assumir uma determinada ação tutoral, um caminho, uma intervenção, o professor formador acaba por precisar mobilizar saberes que delimitam tambem formas de pensar a docência e a própria orientação.

Assim as ações tutorais e os estilos de orientação configurados como processos de orientação podem gerar e contribuir com os saberes pré-profissionais dos futuros professores e, concomitantemente para com os professores formadores e com os professores em serviço.

Num estudo realizado pelo “Council of Graduate Schools,” foi apontada a necessidade de as universidades investirem mais na promoção de processos de orientação chamados de ações mentorais “mentoring”, realizadas pelos professores formadores que auxiliem os alunos que estão realizando cursos de graduação e pós-graduação, alunos que realizam seus estágios, como também no acompanhamento e orientação aos professores recém contratados da instituição.

É apontada a necessidade de se rever a importãncia deste trabalho formativo dos professsores formadores que, por vezes, são criticados por dedicarem muito do seu tempo trabalhando diretamente com os alunos e não investindo mais tempo nas pesquisas científicas. Cremos que este problema aconteça aqui no Brasil também, por percebermos que nas avaliações institucionalizadas os bons professores são aqueles que possuem inúmeros trabalhos científicos publicados. Isto no mínimo é estranho, pois quando o profissional é

contratado por alguma universidade para dar aula numa determinada disciplina ele é contratado como docente e não apenas como pesquisador daquela área específica. Parece que a docência é uma atividade menor, que não precisa ser pensada, refletida e pesquisada pelo próprio profissional.

No estudo “Council of Graduate Schools”, é apresentado o papel dos mentores protagonizados pelos professores formadores que desencadeiam ações específicas junto aos alunos ( tanto nas atividades de sala de aula, como nos estágios) como também junto aos professores recém contratados na instituição. Assim, a concepção que perpassa a idéia do mentor é daquele professor que orienta tanto no âmbito profissional como pessoal .

Se estabelecermos correlações com esta pesquisa, o professor formador que orienta as atividades de prática de ensino e estágio é o mesmo que o mentor; pois ambas as definições apontam para alguém que é capaz de dividir com os outros seus saberes profissionais e suas reflexões frente às atitudes tomadas; assim como os saberes experênciais, tendo a capacidade de acolher e de se dispôr a atender e auxiliar o aluno.

Estas características potencializam e possibilitam uma boa relação entre orientador e orientado sendo, por este motivo, necessário o desenvolvimento dos saberes de ouvir cuidadosamente os alunos sem julgamentos e interpretações precipitadas e errôneas; o saber relacionar-se com o outro de forma que haja um clima afetivo relacional que predisponha à abertura e no acolhimento; o saber dividir os próprios conhecimentos e experiências com outros professores, colegas e alunos e saberes que auxiliem os alunos a potencializarem sua carreira profissional, por meio de contatos com outros profissionais, orientações para a realização de cursos específicos e indicações para novos empregos.

O professor formador, ao desencadear nos processos de orientação uma atitude de respeito mútuo entre ele e os seus alunos, favorece e institui:

a) O respeito ás questões apresentadas pelos alunos por mais simples e óbvias que possam ser;

b) Permite que os alunos construam seus caminhos, suas respostas orientando-os e oferecendo sugestões;

c) Usa de franqueza e clareza nas orientações feitas;

d) Auxilia os alunos no desencadear dos próprios feedback;

e) Convida outros professores, colegas pares para darem auxílio ao desenvolvimento de outras habilidades nos alunos;

f) Conhece os desafios, problemas e perspectivas que norteiam a vida do aluno;

g) Trabalha com o aluno em diferentes ambientes: laboratório, sala de aula, escritório, lanchonete da faculdade...

h) Incentiva os alunos a trabalharem de forma coletiva, articulando temáticas e projetos correlatos;

Frente a isso, é necessário que os professores formadores desenvolvam saberes de orientação que potencializem e mobilizem conhecimentos, habilidades e atitudes específicas, neste campo de atuação docente.

Assim, as Universidades têm uma grande responsabilidade na promoção dos processos de orientação e dos saberes de orientação aos professores formadores , pois estas ações podem vir a contribuir como fomento à experiência estudantil, pré-profissional e profissional, auxiliando na organização, no planejamento e na colocação para o mercado de trabalho.

Entretanto, esta questão é delicada, pois as universidades como também os órgãos governamentais necessitam valorizar estes saberes e os processos de orientação que os acompanham, pois estas ações precisam ser também recompensadas incorporando o peso desta função docente no quadro de avaliação e desempenho dos professores e na progressão funcional.

Infelizmente, não há experiências nas universidades brasileiras que desenvolvam mecanismos para operacionalizar e institucionalizar a ação dos professores formadores. Além disso, os mecanismos impostos pelo MEC, desde 1995, reforçam a valorização da produtividade dos docentes, presidida pela racionalidade técnica, distanciando a ação docente reflexiva que envolve sabere docentes e de orientação.

Cunha (2006) já apontava a necessidade de repensarmos os rumos que as políticas públicas vem direcionando na ação profissional dos professores universitários, pois a lógica da avaliação externa do trabalho docente e da própria instituição formadora acaba por produzir: a classificação (idéia de hierarquia); competição (idéia de concorrência), seleção (idéia de excelência); padronização (idéia de generalização) gerando a exclusão dos próprios docentes e das instituições formadoras, numa guerra por índices de produtividade e eficiência duvidosas.

A idéia que perpassa o contexto universitário é a de que a contratação dos professores se dá pela lógica mercantilista de valoração a titulações e publicações. Não há uma preocupação

institucionlizada de se contratar professores com experiências na docência e nem há uma política institucional que valorize a formação permanente destes professores tanto no âmbito de atuação para a formação de professores como para cursos de bacharelado.

Entretanto no livro intitulado “Advisor, Teacher, Role Model, Friend: on being a mentor to studentes in science and engineering“ (1997) há recomendações claras e precisas de como as instituições podem vir a qualificar o trabalho de orientação dos seus professores formadores. A seguir apontamos algumas destas sugestões (1997; p.66):

a) Traçar o progresso de estudantes para fornecer informação sobre as experiências na carreira dos pós-graduandos;

b) Desenvolver um formulário da avaliação docente e pedir que os alunos completem, avaliando quão bem seus tutores/ mentores ( ou os membros do corpo docente) contribuíram para sua formação como pessoa e profissional. Um exemplo está disponível no Web site do NRC http://www.nap.edu/readingroom/books/mentor; c) Coletar dados dos estudantes atuais, relativos às suas percepções do desempenho dos

docentes em relação aos processos de orientação que foram desenvolvidos pelo professor formador;

d) A universidade deve assumir um papel mais ativo na escolha dos seus professores formadores no sentido de garantir que aqueles com boas habilidades, conhecimentos e atitudes tutorais sejam incluídos ao quadro docente;

e) Fornecer formação permamente para novos professores formadores incluindo reuniões, oficinas, encontros sistemáticos com professores formadores mais experientes;

f) Disponibilizar outros tutores que estejam em contato com os alunos e professores, para o oferecimento de informações atualizadas sobre oportunidades profissionais, incluindo estágios, empregos parciais, trabalhos voluntários, parcerias entre as diferentes instituições, organizações, indústrias, empresas;

g) Patrocinar mais discussões sobre tópicos relacionados à ação tutoral, como padrões profissionais,valores éticos, equilíbrio entre carreira e vida pessoal;

h) Oferecer ao estudante um guia de ação tutoral, descrevendo as responsabilidades de cada um, incluindo descrições relevantes do papel de cada um no processo formativo; i) Monitorar abusos de poder pelos docentes, através de supervisão departamental,

j) Manter seminários anuais de atualização dos docentes nas recentes tendências de emprego, oportunidades de estágios; bem como relação professor-aluno, assuntos culturais e éticos;

k) Desenvolver requisitos para as disciplinas optativas que alargassem as habilidades e versatilidade dos estudantes;

l) Criar um prêmio institucional para professores formadores tutores/mentores de destaque.

Acreditamos que o professor formador tem função educativa e não apenas informativa. A função social do professor universitário é de educar, ou melhor, de contribuir para a educação integral, abarcando aspectos psicopedágicos, profissionais, sociais e preventivos vivenciados pelos alunos.

Ao afirmarmos isso, nos apoiamos na análise de Rojo ( 2003; p. 37-38)

Los cuatro pilares donde se apoya la educación, segun el informe de la Unesco, coordinado por Delors son: aprender a conocer, aprender a hacer, aprender a vivir juntos ey aprender a ser Las personas humanas tengamos la edad que sea, no terminamos de aprender a ser, porque el desarrollo de la personalidad de la autonomia personal , del juicio y de la responsalidad no se termina nunca.

Os saberes docentes e de orientação dos professores formadores devem potencializar aprendizagens que favoreçam a apreensão de conhecimentos não mais multifacetados, descontextualizados e anti-éticos; aprendizagens que contribuam para a as relações inter e intrapessoais incentivando o viver junto; aprendizagens que contribuam para o aprender a fazer de forma crítica, contextual e reflexiva e aprendizagens que elevem o ser humano à categoria de ser Humano.

Maltana (2004), destaca o papel formativo do professor formador responsável pelos estágios, que deve estimular tanto o uso de conhecimentos no curso, como a produção de novos conhecimentos na academia e na escola campo de estágios, via trabalho voltado para o acompanhamento, assessoramento e avaliação dos alunos nas suas atividades docentes.

A autora acrescenta, ainda, a importância que as instituições formadoras devem ter com os professores formadores, supervisores de estágios, pois pensar um supervisor, segundo Maltana (2004), é perceber que este profissional necessita desempenhar funções educativas específicas que apontam :

a) Conhecer o trabalho efetivo no curso, tanto no âmbito de conteúdos, como de metodologias, posturas;

b) Acompanhar e orientar os alunos estagiários no sentido de integrar estas experiências em formação, ao desempenho requerido pela prática em situação real de atuação profissional;

c) Desafiar seu aluno a construir novos conhecimentos, tendo como elemento desestabilizador a reflexão sobre a prática em realização;

d) Incentivar os estagiários a registrarem suas práticas, a refletirem sobre elas e a partilharem esses registros;

e) Construir saberes, tanto pelo que se apropria da vasta e rica produção teórica da área, como pela reflexão sistemática e sistematizadora que faz da sua própria prática.

Ao encontro desta ideía, Zeichner (1992) e Richardson-Koehler (1988) destacam a importância que os orientadores dos estágios possuem na vida dos estagiários, pois a ação desses professores os auxiliam no trabalho que precisam desempenhar, neste período desafiador.

Acreditamos que os estágios são elementos fundamentais, tanto para o processo de ensinar a aprender, como para o aprender a ensinar; pois o futuro professor precisa desenvolver conhecimentos, atitudes e habilidades que lhe permitam desenvolver a capacidade de aprender e de saber ensinar de forma inter-relacional. Paralelo a este fato, o estágio torna-se um espaço formativo também para o professor-formador que necessita desenvolver saberes de orientação que o capacitem inclusive para ensinar e orientar seus estagiários.

Pensamos que, o ato de ensinar e de orientar os futuros professores nos seus exercícios de prática de ensino e de estágio curricular supervisionado podem vir a ser pontos fundamentais nos cursos de formação de professores, porque:

a) Mobilizam professores-formadores da importância dos seus estilos de orientação junto aos estagiários;

b) Promovem a reflexão criteriosa de orientar futuros professores para o exercicío profissional;

c) Mobilizam professores formadores da importância da construção, reconstrução e ressignificação dos saberes docentes, necessários para ensinar e orientar os futuros professores;

d) Oportunizam um espaço de desenvolvimento profissional dos professores- formadores;

e) Redimensionam o papel das práticas de ensino e dos estágios, dentro dos cursos de formação de professores, na medida, em que o foco de ensinar e aprender estarão voltados, também, para o professor e não somente para o aluno;

f) Potencializam a prática de ensino e o estágio como espaços de parcerias entre professores-formadores e professores em serviço.

Os saberes de orientação são bem mais amplos e constituidos de significados quando, junto a eles, apontamos os processos de orientação impregnados em suas atividades, seus estilos de ser pessoa e profissional do ensino. Os saberes que servem de base para o ensino constituem-se como existenciais, sociais e pragmáticos e denotam a dimensão sócio temporal de ensino. Assim, o corpo de saberes que emergem dos professores no ato docente estão em constante movimento, influenciando e sofrendo influência do meio onde estes professores atuam.

Os professores formadores orientadores das atividades de Prática de Ensino e dos Estágios Supervisionados possuem grande responsabilidade também na formação dos futuros professores, pois não basta apenas que eles mobilizem os saberes da docência, mas concomitantemente mobilizem, também, os saberes de orientação por meio de um processo que delimita o ser e o atuar do docente, ou melhor, seu estilo de ser professor e de ser orientador.

Esta idéia é fundamental, pois muitos professores podem ser bons professores e mobilizarem com propriedade inúmeros saberes docentes, mas isso não os qualifica e nem os capacita para orientarem seus alunos nas atividades de prática de ensino e nos estágios supervisionados.

Frente a isso, a ação tutoral do professor é algo extremamente importante no desenvolvimento pleno e sadio do aluno, sendo necessário o desenvolvimento de saberes de orientação educativa que os capacitem, por um lado, a melhor orientarem seus alunos e, ao

mesmo tempo, desencadearem ações formativas que atinjam os alunos de forma a garantir seu pleno crescimento, desenvolvimento e autonomia.

Nos processos de orientação, os professores precisam guiar seus alunos sobre: a) âmbitos profissionais;

b) os processos de ensino-aprendizagem;

c) prevenção para o desenvolvimento e para a diversidade.

Mas, para isso, os professores necessitam de, na ação tutoral, mobilizarem saberes de orientação percebendo que ele deva desempenhar a atitude de um tutor na educação integral do seu aluno, orientando, assim, não apenas sobre determinado ponto acadêmico, científico, mas também orientando-o para a vida.

Em vista do exposto, focaremos esta pesquisa/tese na idéía dos saberes de orientação que os professores formadores do Curso de Licenciatura em Química declaram na mobilização das ações tutorais realizadas; e, na sequência, apresentaremos o contexto institucional no qual estes professores atuam. Para finalizar faremos um relato da trajetória metodológica vivenciada pela pesquisadora para a coleta dos dados e para a organização das categorias de análises.

4. PERCURSO METODOLÓGICO DESTA PESQUISA: SUJEITOS, ESPAÇOS E