Alexandre Herculano, quando refere a história dos progressos literários de Portugal, adverte mais uma vez os leitores:
[…] Esta nova edição deve ser julgada principalmente com attenção ao seu motivo, á prioridade das composições nella insertas, e á precisão em que, ao escrevê-las, o auctor se via de crear a substancia e a fórma; porque para o seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos. 53
No parágrafo seguinte, o autor anota que é lícito supor que tais tentativas "inspiraram outras análogas", referindo obras de autores a quem as Lendas e Narrativas serviram de modelo, entre as quais o romance de Luiz Rebello da Silva, Odio Velho não cança, que aqui citamos, dando testemunho do gosto pela ambiência medieval que esses modelos divulgaram.
Rebello da Silva, ao dedicar a Alexandre Herculano o romance Odio Velho não cança, começa por dizer: "Este romance foi imaginado e quase todo escripto no seu ermitério da Ajuda" 54. E explica na introdução que encontrou o tema do romance "abrindo em um capítulo o Nobiliario, attribuido ao conde D. Pedro […] ". No segundo parágrafo, faz questão de dar testemunho das visões que colheu da leitura do Livro das Linhagens, como recorreu à atmosfera recreada nos painéis flamengos – remetendo o leitor a um olhar exterior à narrativa, como uma ilustração em segundo grau:
[…] Logo á primeira leitura acha-se o sabor rústico, mas agradável, das historias populares, contadas ao pé da fogueira, com a ingenuidade do velho estilo patriarcal. Os quadros do Livro das Linhagens lembraram-me os painéis flamengos, aonde, com muita naturalidade quase sempre, as figuram se destacam, parecendo viver e conversar ao serão, allumiadas pela chamma, cuja labareda affogueia as gothicas chaminés. 55
Reforça assim o ambiente que a versão de A. Herculano nos mostra na sua introdução, como atrás foi dito: a leitura virtual à lareira, convocando imagens do elemento fogo na sua feição benéfica, e o testemunho de que as visões da arte correm paralelas aos registos da história e da literatura.
53 Alexandre HERCULANO, Lendas e Narrativas. op.cit. pp. VI-VII. "Advertencia da primeira edição". 54 Luiz REBELLO DA SILVA, Odio Velho não cança, Lusitana Editora, Lisboa, 1848, pp. 9-10.
A arte medieval, das iluminuras dos figuras dos livros de horas às esculturas dos tímpanos das igrejas românicas, restitui-nos as visões genuínas das gentes cujas vidas decorriam dentro e ao redor de castelos como o de D. Diogo Lopes. Não se trata de ficções 56. Trata-se da iconografia que define uma época. Era assim que viam e sentiam os povos que nos deixaram esses testemunhos.
As narrativas dos cronistas, as tradições orais, os registos de autor de lendas áureas podem ser reformulados a bel-prazer de poderosos ou desfiguradas pelas retransmissões orais. Mas nas pedras das velhas abadias, mesmo corroídas pelo implacável buril do tempo, se não tiverem sido desajeitadamente "restauradas", podemos confiar. Ainda que o escultor lhes tenha dado um cunho, um estilo e uma marca original, a par do inimitável saber técnico, elas eram a expressão do gosto e da crença das confrarias dos misteres e a materialização dos sonhos dos clérigos e príncipes que as consignavam.
A lenda "A Dama Pé-de-Cabra" está inserida na compilação de textos diversos que A. Herculano reuniu em 1851, volume a que deu o nome de Lendas e Narrativas, como ele próprio refere na primeira página da "Advertencia da primeira edição". Este conto tinha sido publicado pela primeira vez em 1843, na revista O Panorama, 2ª série, 2º Vol, 88, 2-9, setembro de 1843. Recontos orais e manuais escolares 57 apropriaram-se da narrativa, resumindo-a mais ou menos assim:
Decorria o século XI, durante a ocupação moura da Espanha. D. Diogo Lopes, senhor da Biscaia, andava um dia à caça, quando lhe chegou aos ouvidos um mavioso canto, vindo das profundezas da mata. Guiado pela voz, deparou com uma donzela de grande formosura. Ao saber que ela era também de sangue ilustre, propôs-lhe casamento dando-lhe conta da vastidão das suas terras e do grande número dos seus vassalos. A dama aceitou, garantindo também a nobreza do seu nascimento, mas impôs uma condição: D. Diogo nunca mais poderia benzer-se, como lhe ensinara sua mãe. Casamento consumado, o rico-homem apercebeu-se que a dama tinha os pés forcados como os das cabras (algumas versões orais dizem "um pé de cabra"). O defeito aziago não obstou à prosperidade do domínio e à continuidade do nome: viviam felizes e tinham dois filhos: Inigo Guerra e Dona Sol.
Um dia, durante o repasto, D. Diogo atirou um osso ao seu alão favorito, mas a podenga preta da Dama matou-o para lhe roubar a comida. Surpreendido com a inusitada ferocidade da podenga, ao matar o grande cão de caça com uma só dentada, D. Diogo benzeu-se. A Dama soltou um grito e elevou-se nos ares, levando a filha. Saíram por uma fresta e sumiram dos olhos dos presentes.
D. Diogo foi confessar-se, e o padre deu-lhe como penitência guerrear os mouros tantos anos quantos os que vivera em pecado. O fidalgo assim fez, acabando por ficar cativo em Toledo. Em grande aflição, D. Inigo resolve procurar
56 Cf. Mircea ELIADE, Imagens e símbolos, Arcádia, Lisboa, 1979, pp. 16-20.
57 Por exemplo, Contos (para o 3º ano liceal) Lendas e Narrativas de Herculano (para o 4º ano liceal),
a mãe e pedir ajuda para resgatar o pai. Invocada a Dama, esta dá ao filho um onagro, que o leva até Toledo. Aí chegados, o onagro abre a porta da cela com um coice e assim liberta D. Diogo do cativeiro. Cavalgando dia e noite, passam por um cruzeiro de pedra numa encruzilhada, o que faz o onagro estacar. Ouve-se então uma voz instruindo o animal para evitar a cruz. Ao reconhecer a enfeitiçante voz da Dama Pé-de-Cabra, sem saber da aliança do filho com a mãe, D. Diogo benzeu-se, o que fez com que o onagro os cuspisse da sela. A terra tremeu, abriu-se uma fenda mostrando o fogo do Inferno, que traga o onagro. Cheios de terror pai e filho perderam conhecimento.
Esta versão diz-nos que D. Diogo, nos poucos anos que ainda viveu, ia todos os dias à missa e todas as semanas se confessava. Porém, D. Inigo nunca mais entrou numa igreja. Invencível nas pelejas, criou fama de ter um pacto com o Diabo. De sua mãe nunca mais se soube; segundo uns era uma fada, segundo outros, uma alma penada, e há quem jure que era o diabo em pessoa. A beleza, a voz maviosa, os ricos atavios e a inauguração de uma linhagem, dão-lhe, de pleno direito, pergaminhos de nobreza no reino das Fadas.
Figura 2.3
Dama e Cavaleiro. Ilustração de Amadeo de Souza-Cardoso para La légende de Saint Julien l' Hospitalier, de Flaubert, no Verão de 1912, na Bretanha, exemplar único publicado nas exposições de Lisboa e Porto em 1916.
Fonte:
SOUZA-CARDOSO, Amadeo, A lenda de São João o Hospitaleiro de Flaubert, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2016.