No século XIX, Alexandre Herculano insere na sua antologia de Lendas e Narrativas o conto "A Dama Pé-de-Cabra", inspirado no relato do mito fundador da linhagem nobre da família dos Haros, na versão do Livro de Linhagens, de D. Pedro, Conde de Barcelos (1340 -1344). Reza assim essa passagem 43:
Este dom Diego Lopez era muy boo monteyro, e estando huum dia em sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco ouuyo cantar muyta alta voz huuma molher em çima de huuma pena: e el foy pera lá e vioa seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorousse logo della muy fortemente e preguntoulhe quem era: e ella lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ell lhe disse que pois era molher d'alto linhagem que casaria com ella se ella quisesse, ca elle era senhor naquella terra toda: e ella lhe disse que o faria se lhe prometesse que numca sse santificasse, e elle lho outorgou, e ella foisse logo com elle. E esta dona era muy fermosa e muy bem feita em todo seu corpo saluamdo que auia huum pee forcado como pee de cabra.
43 Nobiliário do Conde D. Pedro de Barcelos. Os Livros de Linhagens foram publicados no século XIX
por Alexandre HERCULANO em Portugaliae Monumenta Historica, Volume: Scriptores. pp. 258-259. Consulta em abril 2016 na Biblioteca Nacional Digital:
Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.
Esta tradição, que veicula a crença na origem sobrenatural da linhagem dos Haros, aparece-nos, na sua estrutura, paralela às lendas melusianas, prolificamente registadas na literatura medieval, nomeadamente francesa e alemã. Le Goff diz-nos como os autores medievais representavam Melusina 44 (essa outra "fada" iniciadora de linhagem nobre), identificando-a com "um demónio súcubo, uma fada assimilada aos perdidos pelo pecado" 45.
Os pés caprinos também relacionam a dama com a imagem do bode das feiticeiras, mas, no caso do conto "A Dama Pé-de-Cabra", quando o texto estende o aleijão aos dois pés, será para dar legitimidade a essa diabolização ou para encaixar a imagem na iconografia dos faunos. Vejamos outro testemunho: Teófilo Braga, que atribui como fonte da sua versão de "A Dama Pé-de-Cabra " ao Livro de Linhagens, p. 258, transcreve: "E esta dona era mui fermosa, e mui bem feita em todo seu corpo salvando que [auia] um pé forcado como pé de cabra 46. Trata-se de um só pé forcado, o que coloca esta figura na linha imagética de Régine Pédauque e de Berthe au Grand Pied 47, e não do "demo" ou dos "faunos".
Antigas invocações aos Santos, ainda há poucas décadas em uso no Alentejo, reafirmam superstições em que o pé tem o protagonismo, o pé fasto, o direito, o único digno de ser mencionado nas orações, como nesta oração a Santa Bárbara para afastar as trovoadas da devoção da minha avó, recolhida por mim em Moura, Baixo Alentejo:
Santa Barbra se alevantou Seu pezinho dereto calçou Meteu-se ao caminho S. Gerónimo encontrou – Onde vás Barbra bendita Que no céu estás escrita. – Vou espalhar a trovoada.
44 Jacques LE GOFF, “Melusina maternal e arroteadora”, in: Para um novo conceito de Idade Média.
Tempo, trabalho e cultura no Ocidente, Editorial Estampa, Lisboa, 1980, pp. 289-310.
45 Idem, p. 304.
46 Recontado por Teófilo BRAGA, Contos Tradicionais do Povo Português, op, cit, Vol. 2, pp. 88-90. 47 A Rainha Pédauque, tipo iconográfico da segunda metade do século XII na Borgonha, representa uma
rainha mítica originária da cidade de Toulouse, capital do reino Visigodo (413 -508). O nome deriva de "pè d'auca", (pé de ganso em occitano). A sua imagem aparece esculpida nos portais de igrejas e abadias de várias regiões de França. Cf. Reine Pédauque, portal da abadia de S. Benigne (destruído), in Dom Urbain Plancher, Histoire de Bourgogne, I. (Dijon, 1739), p. 499. Bertrade ou Berthe, Duquesa de Laon, (720-783), conhecida por "Berthe au Grand Pied", dama da aristocracia franca da época carolíngia, esposa de Pepino, o Breve e mãe de Carlos Magno.
– Espalhá lá p'ra bem longe Onde não haja eira nem beira Nem raminho d'oliveira Nem gadelhinha de lã Nem alminha cristã Ámen, ámen, ámen Padre-nosso Ave-maria Três vezes Barbra se benzia. 48
Teófilo Braga, cuja erudição se completava com uma fina intuição para entender a cultura peninsular nas vertentes erudita e popular, cita longamente O auto das fadas que Gil Vicente fez representar para D. João III, de onde destacamos este excerto:
[…]
E traga as fadas asinha. Ó Senhora Ladainha. Ajudade-me ora vós; Cabra preta vai por vinha, Vai por vinha mana minha,
Te rogamus, audi nós.
Começava a delinear-se o retrato desta fada, e com ele toda a uma paisagem literária que, nos recônditos mais nostálgicos e rurais do nosso imaginário, ia, com a língua portuguesa, correr mundo:
[…] se esculturava o corpo inteiro quando uma haste verde – atravessada na boca paciente – era mastigada não com os dentes mas com o tempo; e era então uma cabra de pedra, tinha nos olhos bem imprimidos dois traços de tristeza, cílios longos e negros, era nessa postura mística uma cabra predestinada […] 49
48 Entre outras variantes, anotamos a que se segue, recolhida em Vila Real de Trás-os-Montes, por J.
Leite de VASCONCELLOS, in Tradições populares de Portugal, Porto, 1882, p. 65. Citado em Guia de Recolha de Literatura Popular, M. Viegas GUERREIRO, Lisboa, 1976, p.43: "Santa Bárbara bendita/ Se vestiu e se calçou/ Ao seu caminho se botou/ A Jesus Cristo encontrou/ E Jesus lhe preguntou:/ – Tu Bárbara, aonde vás? / – Vou espalhar as trovoadas/ Que no céu andam armadas. / Deitá-las p'ra serra do Marão/ Onde não haja palha nem grão/ Nem meninas a chorar/ Nem galos a cantar." Nesta versão a santa calça-se, mas o "pé direito" não é mencionado.
Figura 2.1
Amadeo de Souza-Cardoso copiou e ilustrou o conto de Gustave Flaubert inspirado nos vitrais de Rouen que recontam a lenda de São Julião o Hospitaleiro, segundo a Legenda Aurea de Giacomo de Voragine, documentada nos textos clássicos da literatura religiosa: exemplo do périplo de uma figura em trânsito constante entre arte e literatura. Os elementos gráficos que compõem as figuras dos bodes selvagens desenhados por Souza-Cardoso contribuem para representar ao mesmo tempo o dinamismo animal e o misticismo do seu destino sacrificial.
Fontes:
SOUZA-CARDOSO, Amadeo, A lenda de São João o Hospitaleiro de Flaubert, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2016
FLAUBERT, Gustave, Três Contos, Teorema, Lisboa, s/d.