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5.2.2 Recommendations for Further Studies

[…] e el foi pêra lá e viu-a seer mui fermosa e mui com vistida e namorou-se logo dela mui fortemente e préguntou-lhe quen era e ela lhe disse que era üu molher de muito alto linhagen, e el lhe disse que, pois era molher d’alto linhagen, que casaria com ela, se ela quisesse, ca ele era senhor daquela terra toda […] 58

Um dia, numa floresta próxima das costas da Normandia, um nobre cavaleiro encontra uma donzela "de grande beleza e vestida com fatos reais." O cavaleiro é Henno dos Dentes Grandes, e esta é a história do seu casamento com uma desconhecida achada nos montes. Chorando, a donzela diz ter escapado do naufrágio do navio que a levava para a corte de França, onde devia casar com o rei. Henno apaixona-se de imediato, casam-se e tiveram "uma bela prole" 59.

A mãe de Henno (a "sogra" dos contos populares) repara que a nora nunca está presente no princípio e no fim das missas, evita a água benta e não vai à comunhão. Intrigada, espreita-a quando ela se fecha para tomar banho e descobre que ela toma a forma de um dragão para se banhar e depois despedaça com os dentes "um manto novo". A citação de Jacques Le Goff não o diz, mas o "manto novo" certamente seria em peles variegadas (vair) ou simplesmente pele de esquilo (petitgris), tão novo que ainda conservaria o peculiar odor de peles, despertando o instinto sanguinário do "dragão" predador. Depois de estraçalhar o manto, a criatura recupera a forma humana. Com a ajuda de um padre, a sogra e o marido aspergem-na com água benta. Levando consigo uma serva donzela, a mulher de Henno solta um urro e desaparece nos ares. Ela é um avatar da serpente alada – uma "fada" da estirpe de Melusina.

Este episódio tem semelhanças com a lenda do castelo de Esperver 60. Embora não conste que tome a forma de um dragão, a dama de Esperver é também um espírito diabólico que não tolera os ritos cristãos – missa, água benta, hóstia consagrada – tal como a Dama Pé-de-Cabra não tolerava o persignar de D. Diogo. Jacques Le Goff cita também a história de Raimond de Chateau-Rousset 61, contada por Gervais de Tilbury: o senhor de Chateau-Rousset encontra um dia junto ao rio Arc uma bela dama, também ela "magnificamente vestida", que o chama pelo nome. Mas nem só nos trajes ricos ela

58 Citação do Livro de Linhagens, in Teófilo BRAGA, Contos Tradicionais do Povo Português, Vol. 2,

op. cit., 2002, p. 88.

59 Walter MAP, De nugis curialium (1181-1193), ed. M. R. James, Oxford, 1914, citado por Jacques LE

GOFF, in Para um novo conceito de Idade Média, op. cit., pp. 289-290.

60 Diocese de Valence, França.

61 Jacques LE GOFF, Para um novo conceito de Idade Média. Tempo, trabalho e cultura no Ocidente, op.

se assemelha a outras damas achadas na floresta: tal como a Dama Pé-de-Cabra, ela conhece o nome, "a linhagem" do cavaleiro que quer seduzir. Promete-lhe prosperidade e progenitura ilustre se casar com ela. E também insiste num interdito: o marido deve renunciar a vê-la nua. Cedendo à curiosidade, o senhor de Chateau-Rousset espreita e vê a dama no banho em forma de serpente. Desobedecido o interdito, a serpente some na água. Só as amas a ouvem de noite a rondar, quando vem ver os filhos: ela sente a angústia da mãe longe da prole, tal como a fada Melusina.

Por volta da mesma época em que escreveram Gervais de Tilbury e Map (cerca de 1200), o cisterciense Helinand de Froimont contou a história do casamento de um nobre com uma mulher serpente, cujo texto se perdeu, mas foi retomado um século depois pelo dominicano Vincent de Beauvais: "Na província de Langres, um nobre encontrou, na mais espessa das florestas, uma bela mulher vestida com preciosas roupagens, mulher por quem se apaixonou e desposou […]62". O resto segue como as histórias precedentes, variando em pormenores sem importância.

Cerca de dois séculos depois, a literatura erudita produz duas obras: A Nobre Historia de Lusignan, de Jean d'Arras, escrita em prosa para o Duque de Berry e sua irmã Maria, Duquesa de Bar, publicada entre 1387 e 1394, e outra, O romance de Lusignan ou de Parthenay, em verso, de Couldrette, livreiro parisiense, publicada entre 1401 e 1405, também conhecida como Melusina. Jean d'Arras menciona como fontes "as verdadeiras crónicas" que o Duque de Berry e o Conde de Salisbury lhe apresentaram, entre outros textos como o de Gervais de Tilbury, assumindo que completou o texto segundo a tradição oral da região de Poitou e noutros lugares – como virá a fazer Alexandre Herculano ao reportar a inspiração ao Livro de Linhagens. Couldrette invoca dois livros em latim encontrados na Torre de Magrebon e outro texto fornecido pelo Conde de Salz e de Berry, e pelo Conde de Salisbury, que Jean d'Arras também cita como informador. Também Couldrette tomou conhecimento de Melusina pelos textos da literatura erudita 63.

Facto documentado é que a beleza das Fadas, tal como a das nobres damas mortais, assenta invariavelmente na profusão de tecidos raros, peles valiosas, adornos pesados e jóias cintilantes, (Fig. 2.4) mesmo quando, ao banharem-se nuas na fonte das Fadas, ou na margem do rio que separa este mundo do "Reino Maravilhoso", elas

62 Idem, ibidem.

63 Jacques LE GOFF, “Melusina maternal e arroteadora”, in Para um novo conceito de Idade Média.

abandonam na relva as ricas roupagens, à mercê da astúcia de cavaleiros errantes. Assim entendeu Hugo de San Victor:

Olha o mundo e toda a realidade existente: existem muitas coisas belas e deleitosas… O ouro e as pedras preciosas brilham de modo diverso, a beleza do corpo humano tem muitos atractivos, as tapeçarias de cores variadas e as vestes resplandecentes têm o seu fascínio 64.

64 Hugo de SAN VICTOR, Soliloquium de arrha animae, PL 176, Col. 951-952; citado por Umberto

Figura 2.4

"La Dame à la licorne" (1484-1538). Nestas tapeçarias, interpretadas como alegorias dos sentidos, o vestuário e adornos das Damas e Donzelas estão representados em grande detalhe. Cores, texturas e motivos dos brocados e veludos são realçados pelo desenho minucioso dos toucados, véus, fitas e cabelos entrançados. Cintos com pendentes, fivelas, colchetes e broches com pérolas e pedraria engastadas, pulseiras e colares, sublinham a importância das jóias na construção de uma imagem da beleza feminina. Na figura a dama entretece uma coroa de cravos brancos e vermelhos, testemunho da linguagem simbólica das flores na arte medieval: os cravos simbolizam compromisso nupcial. A riqueza da indumentária e a codificação das atitudes evocam figuras femininas lendárias.

Fontes:

Pierre BELVÈS, Les yeux ouverts sur l'art, Hachette, Paris, 1972, pp. 60-61.

La tapisserie de la Dame à la Licorne, L’Odorat, (1484-1500) musée de Cluny, Paris. (http://www.musee- moyenage.fr/collection/oeuvre/la-dame-a-la-licorne.html) – Acesso: 5-2016