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Sentrale begreper og variabler anvendt i analysene

2. Datagrunnlag, definisjoner og regionale inndelinger

2.1. Sentrale begreper og variabler anvendt i analysene

Por dialética e apofática,98 serão conceitos explanados ao longo deste capítulo. Eu os utilizarei diversas vezes de forma composta (dialética apofática) para dar ênfase à negação (apofática) que está a todo instante presente na obra De Docta Ignorantia na forma dialética, com ênfase no viés epistemológico (e ontológico). Porém diante mão, se posso dar uma rápida definição desses conceitos: é movimento de negação que a partir da realidade que se impõe dialeticamente entre Infinito e finito, nega o conhecimento absoluto, nega os limites impostos pela ratio e a total separação entre os opostos resultando na coincidência deles no Infinito, que por sua vez continuando negando todo finito infinitamente. Uma dialética que permanece em constante negação o que permite identificar o múltiplo diante do Uno, e os múltiplos (entes) diante deles mesmos, bem como o conhecimento que perpassa a esfera dialética do múltiplo, para só então coincidir no Uno.

Porém, essa negação não pode ser entendia como “negativa”. A negação em Nicolau de Cusa se apresenta de forma positiva. Pois ela não nega o conhecimento, a busca pela verdade ou expressa um caráter pejorativo na dialética como uma indefinição relativista. Ao contrário, essa negação se pretende como libertadora dos limites impostos pelo que é finito, incentivando a busca pelo saber, ao passo que preserva a identidade que cada ser finito deve ter diante do Infinito Absoluto. Uma vez dada as primeiras definições, sigamos na explanação dessa epistemologia apofática. Para João Maria André, “o pensamento e a linguagem constitui autêntico paradigma do seu discurso filosófico” de Nicolau de Cusa (ANDRÉ, 1993, p. 371). Significa que Nicolau utiliza dos recursos simbólico-conceituais para expor sua epistemologia, ainda que não seja possível afirmar categoricamente que ele tenha uma Filosofia da Linguagem. Sua filosofia ainda poderia ser comparada com a “epistemologia tradicional”,99 como diz Luiz Henrique de Araújo Dutra, porém se for considerar a definição,

98 Nicolau de Cusa não usa exatamente esses termos. São temos que utilizo para acentuar a função dialética que

aparece na relação entre Infinito e finito, Uno e múltiplo, complicatio-explicatio, ratio-intellectus, e as consequências destas relações conceituais em sua obra De Docta Ignorantia. Portanto o enfoque é na “função” que a negação exerce.

99 Pode ser entendida também a Teoria do Conhecimento que Nicolau apresenta, como aquela que “não necessita

de justificação baseada em outras” anteriores, ou seja, ele parte de uma dedução, que em seu caso, é a intuição no Uno. Cf. OLIVA, Alberto. Teoria do Conhecimento, 2011, p. 52-53

epistemologia foge desse padrão chamado de “tradicional” (mais comum talvez à escolástica). Sendo assim o que temos em Nicolau é uma filosofia bem peculiar, uma epistemologia apofática que se apresenta de forma dialética.

Em Nicolau a dialética negativa é a complicatio-explicatio do ponto de vista ontológico, que terá consequências epistemológicas. Uma dialética que preserva a identidade individual de cada ente ou a identidade Infinito frente ao finito (como citado aqui no início). Os entes se mantêm sempre os mesmos, “apesar da diferente participação”100 que cada ente possui em relação ao Uno (CUSA, 2002, p. 79). Por exemplo, um ente como a pedra, terá uma “participação” como Uno diferente da de um ente animal cachorro. Do mesmo modo um conceito abstraído a partir do mesmo ente cachorro terá uma “participação” diferente de um número ou de uma figura geométrica. Assim como o homem (o único com função epistemológica no mundo, visto anteriormente no cap. II), terá outra forma de “participação” no Uno da dos demais entes.101 Contudo, todos permanecem na mesma distância qualitativa (ontológica) diante do Uno, com suas respectivas participações. “Daí provém que os acidentes [finitos] são tão mais nobres quanto mais participam da substância [finito]” (CUSA, 2002, p. 79). Essa nobreza está relacionada à sua relação “participativa” com o Uno, e não na sua essência, pois qualitativamente todos participam enquanto coincidentia oppositorum.102

Como foi possível ver no capítulo anterior, Nicolau de Cusa na sua obra De Docta

Ignorantia, apresenta desde início sua dialética diante do próprio ato de conhecer. Pois sua

epistemologia parte do princípio que conhecimento só se eleva quando se reconhece ser ignorante diante do que se pretende conhecer: o Absoluto (Infinito). E uma vez admitido isto, aquele que almeja ascender ao conhecimento, passa a ser douto: um “douto ignorante”.

Isso fica evidente já no Livro I (vide capítulo anterior), quando Nicolau busca demonstrar a relação entre: o Máximo Absoluto e toda a multiplicidade; em que “tudo é finito e limitado com relação a ele” (CUSA, 2002, p. 52). A relação contraditória entre o Máximo e os entes que se revela na equação finito-Infinito. Continuando pelo Livro II, na relação entre o Universo e entes; o Universo diante dos entes se apresenta como infinito em relação aos entes, ele (Universo) é limitado – privativo - em relação ao Máximo Absoluto.

100 Nicolau de Cusa utiliza em outras obras, como em De coniecturis o conceito de “participação que promove

uma tríade: imparticipado, participado, participantes”. O conceito de participação é utilizado para falar da comunicação do Uno “sem aumentar ou diminuir nada do seu ser” (D’AMICO, 2008, p. 291).

101 A palavra mundo estará sempre ligado o explicatio (desdobramento) de Deus. Ou seja, tudo o que foi criado

por Ele. Nesse conceito está também o Universo privativo, que também é “mundo”, mas o Universo não é uma concretude, antes é a complicatio dos entes concretos. Todo ente está no Universo, contudo sem ser o Universo.

102 A ideia de participação de Nicolau difere da de essência. Enquanto a primeira não possui essência própria, por

isso participar da essência de Deus (Uno); a segunda só Deus pode possuir, pois essência, para Nicolau, corresponde ao que é simples, e o único que possui simplicidade pura é Deus.

Visto o universo abranger tudo que não é Deus, ele não pode ser infinito, em sentido negativo, ainda que não tenha limite, e assim é privativamente infinito (...) todavia o universo não pode ser maior, porque a possibilidade de ser ou matéria, que não pode ser estendida ao infinito, opõe resistência. (CUSA, 2002, p. 111)

Essa contradição dialética entre Máximo Absoluto, Universo privativo e entes finitos permanece por toda De Docta Ignorantia, balizada pela linguagem simbólico-matemático, uma vez que essa linguagem seria única forma de fundamentar essa epistemologia apofática, conforme visto no capítulo anterior. É através dessa ciência mais exata possível (a matemática) que Nicolau utiliza para fazer um paralelo entre o mundo dos entes (que é finito) com o Máximo Absoluto (que é infinito). Dessa forma a matemática será a linguagem, além da especulação conceitual, utilizada em vários momentos para auxiliar na explanação dessa epistemologia.

Dessa forma o que temos é uma dialética apofática que se desmembra negativamente de várias formas na especulação cusana: 1) o conhecimento que nega para então conhece; 2) o Máximo diante de toda alteridade que a nega para coincidir com ela; 3) o Uno que nega toda multiplicidade para se unir a ela; 4) o Universo que nega toda limitação ôntica (entes) para nela subsistir (concretizar-se); 5) e então: o Máximo Concreto (Jesus Cristo), que esse último no Livro III, nega a absoluta separação entre criatura e Criador na condição de mistério: “a fé, portanto, encerra em si todo inteligível (...). Os maiores e mais profundos mistérios de Deus (...) ocultos aos sábios que andam nesse mundo, são revelados aos pequeninos e aos humildes na fé em Jesus” (CUSA, 2002, p. 213-214).

Voltando então à definição dada no início: essa epistemologia é se não uma dialética apofática, onde a “função da negação” se apresenta intrínseca a todo instante. É o conhecimento que surge a partir do explicatio-complicatio divina. O complicatio (potência) que se manifesta como explicatio (ato) para então tornar-se conctractio (concretizar). Estando o Uno em tudo e tudo no Uno, numa infinita “coincidentia oppositorum ou contradictorum” (ULLMANN, 2002, p. 9). E é para essa admirável busca pelo conhecimento diante da contradição, que nos deparamos com o inefável, diante desse mundo tão complexo e diverso. E é por esse próprio mundo que ele (Deus) quer que busquemos o conhecimento, segundo Nicolau. “Ele também quer que por essa tão admirável máquina do mundo sejamos levados à admiração; esta tanto mais ele a oculta a nós quanto mais a admiramos” (CUSA, 2002, p.

Apofática”. 103

Para Reinholdo Ullmann esse é “o princípio tido como o mais certo de todos, isto é, o da contradição” (ULLMANN, 2002, p. 9).104 Para Ernst Cassirer a “docta ignorantia enfatiza negativamente a oposição entre o absoluto e toda forma de conhecimento racional, lógico- conceitual, ao mesmo tempo ela encerra em si uma exigência positiva”, que é a “visão intelectual” (CASSIRER, 2001, p. 24). Assim temos com princípio epistemológico a própria contradição que operando negativamente aponta para uma intuição que permanecerá dialeticamente se contrapondo ao empírico, ao racional, e ao mesmo tempo coincidindo com eles no infinitamente. Assim Claudia D’Amico dirá que

Nicolau de Cusa vai apelar não só para coincidências dos opostos, mas a negação destas mesmas fórmulas, do tipo “ipse nec est et non est” [ele é ele não é] ou, como em um de seus últimos trabalhos, com o nome enigmático “non aliud” para referir- se à divindade que é sempre inefável. (MACHETTA; D’AMICO, 2007, p. 179)105

Assim se constrói toda a “Filosofia Apofática” em Nicolau de Cusa, uma epistemologia, como diz, mais uma vez, Ernst Cassirer, que

“se refere de uma forma negativa do conceito de Deus e do conceito de conhecimento. Negando e progressivamente excluindo toda determinação [limitação] do próprio conhecimento e do seu objeto finito, é que assim chegamos a uma determinação do conteúdo absoluto” (CASSIRER, 1993a, p. 65)

Ou seja, conhecer é sempre caminhar no fundamento da negação dialeticamente, infinitamente. Um movimento que não cessa, que não para nos limites da razão ou da contradição, que absorve todas as possibilidades de conhecimento acessíveis, mesmo na negação, mesmo diante do inacessível, pois

(...) acerca do verdadeiro [o Uno] nós não sabemos outra coisa a não ser que não é compreensível com exatidão como ele é. A verdade constitui-se em necessidade absolutíssima, que não pode ser maior ou menor do que é, e nosso intelecto constitui-se em possibilidade. (CUSA, 2002, p. 47)

103 Nicolau de Cusa usa este termo em De Docta Ignorantia como “Teologia Apofática”, assim como maior parte

dos seus comentadores, porém darei preferência para o conceito como Filosofia Apofática pela ênfase dada ao conceito epistemológico de negação, sem abrir do caráter teológico implícito.

104 “Nicolau de Cusa sugere um princípio a partir do qual pode ser lida tanto a sua última obra quanto toda a sua

especulação” (NETO, 2011, p. 53).

105 Cf. CUSA, Nicolau. Acerca de lo no-otro o de la definición que todo define. 2008. Nicolau nesta obra utiliza

o conceito non-aliud (não-outro) para enfatizar ainda mais o caráter inefável de Deus (Uno), reforçando ainda mais o uso da negação enquanto função conceitual no seu pensamento.

ignorância, sempre na possibilidade, na potencialidade de conhecer o que é verdadeiro, o que é Absoluto (Uno). Assim a negação se fará sempre presente, pois só negando a possibilidade de conhecimento torna-se presente, com diz Luiz. Felipe Pondé, em alusão à especulação apofática.

Tal comportamento cognitivo implica um tipo de consciência que, esvaziando-se das possibilidades positivas (testadas ou superadas), atinge uma percepção (não em sentido metafórico do termo) daquilo que apesar de estar para além da trama de palavras articuladas (fora da representação), permanece em estado de realização cognitiva. Trata-se da ideia clássica de uma ignorância que conhece. A chegada a este estágio negativo (...). (PONDÉ, 2003, p. 83)

Vejamos mais adiante a função da negação e seus desdobramentos conceituais.