Há que entender-se isso sutilmente: a humanidade de Jesus, pelo fato de ser considerada contraída no homem Cristo, ipso factu deve também entender-se como unida à divindade. Unida a ela, é absoluta em grau máximo; enquanto Cristo é considerado como aquele verdadeiro homem, ela está contraída, de modo que devido à humanidade, é homem. Destarte, a humanidade de Jesus representa o meio entre o totalmente absoluto e o totalmente contraído. De acordo com isso, ela [humanidade] só foi corruptível relativamente, mas incorruptível em sentido absoluto, No sentido de temporalidade, na qual esteve contraída, ela era corruptível; e incorruptível enquanto independente do tempo e acima do tempo e unida à divindade. (CUSA, 2002, p. 199)
É Cristo aquele que faz o “meio” o Infinito Absoluto e o Infinito Concreto. Não meio no sentido de não ser nenhum nem outro, ao contrário, ele é meio exatamente por ser os dois em si: Infinito Absoluto e Finito Absoluto. Infinito enquanto fora do tempo (não concretizado enquanto homem), mas Finito Absoluto no sentido de ser a maximidade que o humano por ser, ou seja, reúne em si mesmo toda a humanidade e a ela representa. Sua corruptibilidade “relativa”, portanto, não é no sentido de imperfeito, incompleto, mas no sentido de manifesto no tempo, no mundo do corruptível.
Porém, por estar complicado (em ato) em si a própria Absoluta divindade (ele próprio é o Infinito Absoluto), logo sua incorruptibiliade que é absoluta supera toda e qualquer temporalidade (relatividade), já que nesse movimento ele em si coincide os opostos: tanto o
a mortalidade e imortalidade, pois preciso ser “liberto pela morte da possibilidade de morrer”, surgindo “um corpo verdadeiro, glorioso”. Esse é o resultado da “união hipostática” (divindade e humanidade) que só pôde ser possível em Cristo. Só assim as “coisas humanas coincidem com as divinas” definitivamente (CUSA, 2002, p. 196-197).109
O Máximo Concreto, sendo o Jesus Cristo – Deus encarnado – “é ao mesmo tempo, criador e criatura, infectus e factus.” Ele é o Absoluto complicado (complicatio) e concretizado (contractum) ao mesmo tempo. “Jesus não é somente o Deus que desceu do céu, ele é também o homem que se eleva para o alto. É o filho de Deus de natureza divina e de natureza igual à nossa” (ULLMANN, 2002, p. 30).
À saciedade está demonstrado que o universo somente existe de modo contraído como pluralidade a qual existe de tal sorte em ato que nenhuma coisa alcança o máximo simplesmente. Acrescentarei, ademais, que, se pudesse dar-se o máximo contraído numa espécie subsistente em ato, então ele, segundo a espécie dada de contração seria em ato tudo que pudesse existir na potência daquele gênero ou espécie. Pois o máximo absolutamente é absolutamente em ato tudo quanto é possível; e nisso é o máximo absolutamente infinitíssimo contraído em gênero e espécie. Da mesma forma, o máximo, contraído em gênero e espécie, é em ato a perfeição possível, segundo a dada contração, na qual, visto não poder dar-se algo maior, ele é infinito abrangendo toda a natureza da contração dada. (CUSA, 2002, p. 176).
Ou seja, Cristo é o máximo contraído possível de existir de forma perfeitíssima. Nele a espécie humana está representada de forma plena enquanto gênero e espécie, ou seja, aquilo que conhecemos parcialmente, e por isso classificamos, em Cristo todo o conhecimento nele está contido. E nele está manifesto em ato tudo que absolutamente poder ser concretizado no mundo. É Cristo a máxima “união” entre o Máximo Absoluto e o mundo concretizado, entre o
complicatio e o explicatio, é a coincidentia oppositorum manifesta em “carne e osso”. E o
salto qualitativo que nenhum ente pôde dar em sua finitude, isto porque esse salto qualitativo só poder ser feito pelo próprio Máximo Absoluto, pelo próprio Deus-Cristo: O Máximo Concreto. Pensar “essa união admirável superaria todo o nosso entendimento” (CUSA, 2002, p. 177).
É por isso que esse conhecimento nos foge muito mais do que os limites impostos que a epistemologia apofática nos revela, pois nega não aquilo que o conhecimento busca ou afirma, antes nega todas as condições de possibilidade de conhecer, já que sugere um salto na fé.
109 Sem dúvidas este é a parte em De Docta Ignorantia em que Nicolau de Cusa mais reflete seu lado teológico,
O contraído subsistiria de tal modo no absoluto, de modo que, se o concebêssemos como Deus, nos equivocaríamos, já que o contraído não muda a natureza. Se o imaginássemos como criatura, enganar-nos-íamos, uma vez que a maximidade absoluta, que é Deus, não abandona a natureza. Mas, se julgássemos composto por ambas as coisas, estaríamos laborando em erro, visto ser impossível uma composição de Deus e criatura, de contraído e do maximamente absoluto. (CUSA, 2002, p. 178)
Para chegar a esse conhecimento do Máximo Absoluto Concreto, a negação nos dois primeiros livros em De Docta Ignorantia apontou para: as limitações do conhecimento finito humano, para as contradições conceituais e simbólicas geradas por esse conhecimento, as oposições (mesuráveis e quantificáveis) existentes entre os entes, a distância qualitativa do finito para o Infinito, ou seja, dos entes para com o Máximo Absoluto (Uno), assim como para a diferença do Máximo Absoluto de complicatio para ele como explicatio: como Universo infinito privativo. Só assim é possível compreender que o Máximo Concreto é a máxima negação de todas essas negações, e só por esse motivo ele pode ser visto também como afirmação (positivo).
Porém se Jesus reúne em si toda a negação e ao mesmo tempo toda a afirmação, a negação em Jesus e a máxima negação que pode ocorrer, seja no âmbito epistemológico como no ontológico. Jesus é a necessidade que o salto intuitivo – intellectus – deve dar para que toda a coincidência máxima - a dos entes, dos conceitos, dos símbolos - ocorra. Jesus a negação de qualquer delimitação, e portanto intuição que foge a qualquer especulação, mesmo a apofática.
Em Nicolau, Jesus é o Deus sobrenaturalmente (“hipostaticamente”) contraído no mundo, aquele que em si reúne sua própria criação e a faz retornar.
Deus e homem: depois de assumida a humanidade criada, na medida mais suprema em sua unidade, por assim dizer como contração universal de todas as coisas, unida hipostaticamente e pessoalmente com a igualdade de ser tudo, de modo que ela exista por Deus, o simplesmente absoluto, mediante a contração universal, que é a humanidade. (CUSA, 2002, p. 183)
E Jesus deve ser buscado exatamente por esta limitação que temos de conhecer o Absoluto, o divino. Pois se há intelecto absoluto que ascende ao Absoluto, esse está em Cristo, segundo Nicolau, oposto a todo o intelecto em potencial, que é o de cada um de nós, entes finitos.
O intelecto de Jesus, visto ser o mais perfeito existindo de modo pleno em ato, não pode fundar-se pessoalmente senão no intelecto divino que unicamente é tudo em ato. Em todos os homens o intelecto é tudo em potência, passando gradualmente de
(CUSA, 2002, p. 186)
Para Nicolau a única forma de sair da própria limitação intelectual, seja ela catafática ou apofática, é a própria fé no Cristo. “Todo aquele que deseja elevar-se ao saber necessita crer naquilo sem o que não logra elevar-se. Diz Isaías: ‘Se não credes, não entendereis’. A fé portanto encerra em si todo inteligível” (CUSA, 2002, p. 212). É esse o desfecho dado pelo cusano para aquele que deseja ascender, saindo de toda a contradição, limitação, paradoxo que o intelecto nos impõe. Cristo é a negação de toda e qualquer limitação.