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Nicolau de Cusa encontra em Cristo a união, a mediação entre Deus e sua própria criação, esse é o elo que a especulação filosófica não pode conceituar. Como afirma Nicolau

Deus, porém, como é a igualdade de ser tudo, é criador do universo, porquanto ele foi criado para ele mesmo. A igualdade suprema e máxima de ser tudo absolutamente seria aquela à qual se unisse a natureza da humanidade, de sorte que Deus, mercê da humanidade assumida, assim seria tudo contraidamente na humanidade, como é a igualdade de ser tudo absolutamente. (CUSA, 2002, p. 181) É Cristo o Deus Absoluto que em si concretiza tudo para si mesmo pela união entre o Absoluto Infinito e o Absoluto Concreto. Essa relação Nicolau diz ser da seguinte forma:

97 Cf. ANDRÉ, João M. Da mística renascentista à racionalidade científica pós-moderna, 1995. Neste trabalho

Deus criador, Deus e o homem, e o próprio Deus contraído. Porém ele alerta que isto não deve ser visto como sucessão temporal, mas “acima do tempo e anterior a tudo” (CUSA, 2002, p. 183). Significa que é Deus enquanto Uno, Deus enquanto Máximo e Mínimo Absoluto, Deus como Cristo concretizado no mundo. “Deus-homem Jesus, uniram-se o absoluto máximo e o maximum contractun, isto é, o universo que, no gênero humano, e só nele, encontra sua unidade” (ULLMANN, 2005, p. 196). Cristo é a concretização e união máxima entre o Deus e sua criação, é a plenitude concreta da coincidentia oppositorum. “Em Cristo Jesus a humanidade compensou todos os defeitos de todos os homens”, toda sua limitação frente ao Uno, a Deus (CUSA, 2002, p. 194).

Assim como o intellectus é o salto ascendente intuitivo em direção ao Uno, assim é aquele que acredita em Cristo como o Deus concreto. Esse salto é a fé. A isto Nicolau diz: “Daí porque a verdade de nossa fé, enquanto aqui peregrinos, não pode subsistir senão no espírito de Cristo” (CUSA, 2002, p. 221).

Esse terceiro livro debate, na figura da trindade, as diferenças que permanecem ligadas por uma unidade. O Deus Pai, Filho e Espírito, ainda que distintos enquanto pessoas da trindade, são Um. Reinholdo Ullmann recorda que para Nicolau a trindade não pode ser encerada como uma simples numeração ou distinção conceitual, pois “mesmo os nomes Pai, Filho e Espírito Santo têm ressaibos de paternidade e filiação física, como os termos na geração humana” (ULLMANN, 2003, p. 434).

Esse discurso religioso é prefigurado também na pessoa de Cristo, uma vez que para Nicolau é possível uma união de diálogo entre as religiões – como cristã ocidental, oriental, islâmica – se entendermos que Cristo é o que reúne as diferenças em si mesmo. Inclusive elogia o conceito “judaico de indeterminação completa” de Deus que “constituía algo superior” enquanto visão de conhecimento sobre Deus em relação aos cristãos adeptos à Teologia Positiva (ULLMANN, 2003, p. 434). Não significa que Nicolau é a favor de um tipo de sincretismo religioso, mas ele acredita ser possível que em um diálogo entre as diferentes religiões, todas possam ver em Cristo a união de todos. “Assim por meio de seu Filho, nosso Deus será tudo em tudo, e cada um estará no Filho e, por meio dele, com Deus e com todos, para que haja alegria plena sem qualquer inveja e defeito” (CUSA, 2002, p. 222).

Nicolau de Cusa admite nesse seu terceiro livro que toda sua argumentação a respeito da Trindade e de Cristo isto é um mistério.

A douta ignorância apresentada nesse terceiro livro como Teologia Apofática é uma forma de estabelecer uma nova linguagem a respeito de Deus a fim de esgotar todas as possibilidades epistemológicas a respeito dele. Isso porque uma Teologia Positiva, segundo

Nicolau de Cusa, não seria capaz disto. Mas esse esgotamento terminológico é sempre no sentido crítico, negativo, pois a Teologia Negativa por definição nega conceitos, sem nunca afirmar nada a respeito de Deus que não seja analogamente. Ainda segundo Reinholdo A. Ullmann em seu artigo Nicolau de Cusa: “a teologia negativa é tão necessária para a teologia afirmativa que sem ela Deus não seria cultuado como Deus infinito, mas antes como criatura”. Porém, “tanto a teologia positiva como a negativa não exprimem uma proportio entre criatura e criador”, as duas possuem seus limites de ascensão cognoscitiva em relação a Deus (Uno) (ULLMANN, 2002, pp. 179-187)

E uma vez que essas duas linhas teológicas se esgotam em suas possibilidades explicativas a respeito de Deus, Cristo é o absoluto concreto que em si reúne todo e qualquer conhecimento no mundo finito (concreto) possível a respeito de Deus. Cristo é o conhecer sobre Deus na forma concreta absoluta. Como dito no próprio subtítulo do terceiro livro, Cristo é “o máximo contraído que é o máximo Absoluto, criador e criatura” (CUSA, 2002, p. 175).

O homem em Nicolau recebe um olhar especial, como pode ser visto na figura de Cristo nesse terceiro livro em De Docta Ignorantia. Uma visão antropológica mais otimista, mergulhada no humanismo renascentista. Ernst Cassirer recorda que o humanismo está repleto de concepções de mundo. “Sob essa tendência fundamental e estão agrupadas humanismo e da nova ciência da natureza retórica e lógica, gramática e psicologia”, que por sua vez estabelece essa visão de mundo olhando para o homem, não mais como um na criação ou na hierarquia celestial, visto na escolástica, por exemplo, mas, “normalmente visto na concepção do indivíduo e da nova posição e valor que é atribuído” a ele. Essa é “a verdadeira linha divisória que separa o Renascimento da Idade Média”, (CASSIRER, 1993a, p. 112), e que Nicolau representa nesse terceiro livro.

Visto que em Nicolau o homem possui um papel ainda mais importante na criação, uma vez que ele também é “criador” de símbolos (conceitos, linguagem, etc.), mesmo que não sendo como Deus, segundo afirma Reinholdo A. Ullmann: “Do homem o Cusano sempre teve uma visão otimista como secundus deus ou um deus creatus com responsabilidade sobre o universo. Ao homem cumpre orientar-se sem cessar para Deus.” (CUSA, 2002, p. 36). Portanto o homem, para Nicolau, é o exemplar do universo, ou seja, é a representante da

complicatio como criador de símbolos, é o microcosmos uma vez que a partir dele todo

universo, tudo que é criado por ser representado. Essa representação de tudo que existe no universo, feito pelo homem, é vista na pessoa de Cristo, que seria a representação máxima de Deus concretizada enquanto humano. “Jesus para o Cusano é o autorretrato de Deus. Nele o

Absoluto se tornou concreto. Em Cristo o Deus absconditus torna-se visível” (CUSA, 2002, p. 36). Veja que para Nicolau de Cusa simbolizar, assim como concretizar o absoluto divino, se dá a partir dele mesmo na pessoa de Cristo. Deus é o Máximo Absoluto e ao mesmo tempo é o máximo que se complica enquanto ser humano.

Nesse terceiro livro da De Docta Ignorantia é possível ver Nicolau de Cusa debater a respeito da Trindade olhando sempre para o ser de Deus enquanto homem – Cristo. Essa é a forma encontrada por Nicolau para apresentar qual o relacionamento máximo de Deus com sua criação, uma vez que se não é possível conhecer o Absoluto, o Uno, porém torna-se possível estabelecer um contato concreto a partir do ser humano-divino, a saber: Cristo. Deus por ser Absoluto, logo não alcançável, se mostra (se concretiza) na sua criação (Universo infinito privativo), porém sua maior concretização é o Máximo Concreto. É ele próprio quando toma forma humana, “porque é Deus e homem” Cristo (CUSA, 2002, p. 214).

Jesus Cristo, para Nicolau, é a união máxima entre o Máximo Absoluto e o Universo concretizado. O elo entre o que está complicatio com o que está explanatio. Tudo que se encontra entre esses dois polos qualitativos é Cristo (o Máximo concretizado). A pessoa de Cristo é mais perto que se pode chegar da revelação divina, pois é em Cristo que Deus está

complicatio. Cristo é Deus concretum. Contudo esse é um mistério, pois “seria mister

conceber pela mente tal ser como Deus, de modo que também seja criatura, e concebê-lo de tal modo como criatura que também seja criador, e como criador e criatura sem mistura nem composição (CUSA, 2002, p. 178).

Vale lembrar que essa é a parte mais teológica que podemos ver em De Docta

Ignorantia, uma vez que esse não é o intuito dessa obra. Não obstante, Nicolau de Cusa nunca

negou seu fundamento especulativo que é o próprio cristianismo. Da mesma forma, não seria o intuito desta dissertação entrar minuciosamente no terceiro livro dessa obra.

Porém para compreender toda está coincidentia oppositorum que Deus faz a partir de si mesmo na pessoa de Cristo, “seria mister conceber pela mente tal ser como Deus, de modo que também seja criatura, e concebê-lo de tal modo como criatura que também seja criador, e como criador e criatura sem mistura nem composição” (CUSA, 2002, p. 178). Esse é um entendimento impossível para a razão, que Nicolau admite alcançar somente pela fé.

Diante dessa exposição feita por todo este capítulo, sigamos adiante para conhecer qual a “função da negação” no desenvolvimento de um a epistemologia apofática.