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Em relação à influência do PRA nos docentes utilizou-se as seguintes perguntas orientadoras: “Você sente que sua participação no PRA influenciou o surgimento de novos conteúdo ou enfoques nas suas aulas? E novas metodologias e/ou didática utilizadas durante as aulas? Sua experiência no PRA contribuiu para sua atuação profissional? Estas questões foram alvo de conversas com oito professores e todos eles argumentaram positivamente sobre pelo menos algum tipo destes impactos e exemplificaram em seguida.

Sobre a incorporação de novos conteúdos ou enfoques durante suas aulas, seis professores responderam positivamente e os outros dois especificaram outros tipos de impactos mas não abordaram especificamente sobre este. Esta influência nas aulas se deu de diversas maneiras conforme estes professores exemplificaram. As motivações citadas para este fato foram o maior contato com os MS do campo, com os assentados, com os extensionistas que viraram estudantes do Curso de Especialização e com os professores de outras áreas. Veja um exemplo destes depoimentos:

Acho que com certeza contribuiu por inúmeros motivos, pelo contato que a gente teve muito direto com as áreas de assentamento, com o contato enorme com professores de diversas universidades desta área, [...] então foram novas leituras, novas áreas do conhecimento, metodologias, a discussão do cenários nacional, da questão agrária nacional, então isso enriqueceu demais minhas práticas como docente nestas áreas.(Professor 12).

Influência para sala de aula, tranqüilo!, a extensão é este exercício, uma forma que a gente exercita isso, e à medida que a gente vai vendo coisas novas a gente vai trazendo e mostrando pro alunado como isto se dá no campo. [...] A questão da agroecologia por exemplo, na disciplina de Brasil, a gente hoje está trazendo um mapa agroecológico mostrando onde tem novas experiências de agroecologia no Brasil, onde tem experiências, e isso é fruto desta relação com Programa. (Professor 6).

A maior influência na atuação profissional destes professores demonstrada durante as entrevistas foi em dois deles que compõe o “núcleo duro” do PRA e ainda não tinham um grande contato com os MS do campo, um deles pertence ao grupo dos que ainda não possuíam um efetivo comprometimento com a questão dos povos do campo e da Reforma

Agrária e o outro já tinha o compromisso mais o contato com estes sujeitos ainda era inicial. Observe a expressiva fundamentação e exemplos que os dois trazem desta influência nas suas aulas:

[...] a partir daí, desta minha participação no Programa a gente já começou até a, digamos, tratar as disciplinas com que a gente trabalha nestes cursos de maneira um pouco mais diferenciada [...], a estatística por exemplo é uma disciplina que a gente precisa cumprir o programa [ementa], e não tem muita... [muita flexibilidade], então sobra pouco espaço para gente fazer outras discussões na sala de aula, mas na medida do possível a gente vai procurando, nos exemplos, embora quantitativos que a estatística requer, mas sempre trazendo alguma coisa a mais além dos números, por exemplo, se a gente vai mostrar uma tabela de distribuição de freqüências a gente procura trazer uma tabela que retrate um pouco a questão fundiária do Brasil, e vai dando uma pincelada nos temas que, aparentemente, não tem ligação com a estatística mas que a gente procura trazer um pouco esta discussão, pelo menos [...] para os alunos irem percebendo a existência de uma outra agricultura, de uma outra forma de trabalhar, porque essa disciplina é do segundo semestre, então já começa aí pelo menos ouvindo falar da questão da Agricultura Familiar, da concentração de renda. Com certeza, estimulou novos enfoques nas aulas, eu posso dizer que nas disciplinas a gente tem o antes e o depois da minha entrada no PRA, a forma como elas são ministradas em sala de aula. (Professor 2).

Este exemplo das alterações na disciplina de estatística ministrada por este professor é significativa, mostra além do ganho didático pelo uso de exemplos tão atuais e aplicados ao público discente, uma maneira criativa de introduzir temas relevantes e pouco abordados durante os cursos das Ciências Agrárias. Como o próprio professor disse, é uma maneira dos estudantes, ainda no início do curso, por meio das disciplinas bases, que normalmente são dadas de forma desvinculada das futuras disciplinas, irem despertando para a realidade, para os desafios que os aguardam, para as contradições que terão que enfrentar. Acredita- se que há um ganho inestimável para estes estudantes que passam a poder, por meios de disciplinas que, normalmente, são dadas de maneira conservadora e não aplicada, começar a desenvolver um pensamento crítico e contra-hegemônico. Este é um ganho não só para os estudantes, mas para o CCA, para UFC, para o futuro público que será atendido por estes profissionais. No mesmo sentido são dados outros depoimentos também de grande relevância:

dá para gente introduzir [na disciplina] coisas relativamente novas que às vezes num primeiro instante parece não ter relação direta mas a gente procura sempre fazer esta relação, então a gente já trouxe, para esta disciplina de Economia dos Recursos Naturais, por exemplo, uma professora para falar para os alunos sobre a questão de gênero nos assentamentos de Reforma Agrária, aparentemente não tem nada a ver com o meio ambiente, mas a partir do momento que a gente trabalha o ambiente como todas as questões, as relações sociais, econômicas e ambientais propriamente ditas, como sendo componente deste todo, então a gente acaba encontrando um espaço dentro de sala de aula. (Professor 2).

Outro Professor coloca:

nas minhas aulas alguns conteúdos que entravam mais nos seminários passaram a fazer parte do programa da disciplina, melhorou mais o enfoque, a gente adentra mais na realidade, não fica só no acadêmico, na literatura, mas entra na realidade, então capacita e potencializa mais a gente na sala de aula. [...] Sem dúvida, porque uma coisa é quando a gente conhece o outro pela revisão de literatura, outra quando a gente conhece o outro, escuta a fala do militante pelo militante, do que quando escreve sobre ele, diferente de você sentir, ouvir, participar. Daí quando você fala numa aula, e escuta uma visão bem preconceituosa do estudante, daí você tem um elemento mais forte, não é só do acadêmico, daí a gente fala com mais propriedade de causa, com mais tranqüilidade. (Professor 2).

Ainda sobre este ganho ela comenta que passou a trabalhar melhor nas suas aulas a questão da destituição dos preconceitos aos MS do campo, sobretudo ao MST. A professora detalha um exemplo de atividade que passou a realizar:

pergunto “quando vocês escutam ‘cerveja’ o que vem na cabeça de vocês?” Daí eles respondem: “gelada, Brahma...”, “e quando escutam movimentos sociais?” daí vem logo MST, e tem uns que falam: “MST, um grupo de vagabundos!”. Daí eu falo que iremos ver nas aulas vários MS do campo, inclusive o MST. Mas porque eles só lembram do MST?, falo para eles “porque está na mídia, e o que a mídia fala?”, daí aparece de tudo, daí quando a gente consegue leva eles para conhecerem o assentamento, aí voltam com outra visão. [...] Socializamos mais os conceitos e ajudou a destituir os preconceitos que são muitos. [...] Agora, na turma deste semestre saiu cada coisa bárbara, eles disseram: “professora, esta historia de Reforma Agrária é uma perca de tempo”, eu só escuto e depois digo “vocês já leram quantos livro sobre o tema?” nenhum, “já conversaram com algum militante?” ninguém, “já visitaram algum assentamento?”, ninguém! Daí eu pergunto: “da onde vem toda esta opinião de vocês?”, eles respondem que da mídia, de revistas, daí eu pergunto: “vocês não acham que esta opinião de vocês é recheada de pré- conceitos?” aquele silêncio que quer dizer sim . (Professor 4).

Outra professora cita que esta influencia se deu não apenas nas suas aulas mas também em outros espaços que atua profissionalmente, no caso ela é presidente do CONSEA do estado do Ceará e também coordena uma câmera temática sobre Produção e Abastecimento:

Por incrível que pareça, para minha atuação no CONSEA a minha experiência no PRA foi decisiva, [...] inclusive eu estou coordenando uma câmera temática de produção e abastecimento, e a visão que eu tenho sobre Agricultura. Familiar, ela se consolidou muito no PRA, a metodologia de trabalho, de interlocução, fez uma diferença enorme, eu diria que a visão que eu tenho hoje do Programa de Abastecimento quando eu vou pros municípios fazer as discussões e tudo, eu tenho uma maturidade que quem me deu foi o PRA. (Professor 3).

Além destes depoimentos sobre os conteúdos abordados durante as aulas e seus enfoques surgiram depoimentos sobre mudanças na metodologia das aulas e avaliação das disciplinas:

Sim, principalmente em relação à avaliação, antes a gente seguia rigorosamente o proposto pela universidade, não que a gente agora seja um fora da lei, mas agora a gente procura fazer esta avaliação de forma diferenciada, então a gente abre para que eles também façam esta auto- avaliação, avaliação de trocas entre eles, então cada um se avalia e avalia a turma como um todo, na questão por exemplo da condução das disciplinas em sala de aula [...] então cria-se este vínculo de responsabilidade com o grupo, entre ele, e foi uma coisa que eu vivenciei no PRA, puxa vida, muito bom isso, embora tenha essa coisa mais engessada tem como a gente fazer de forma diferente, então tem tanto esta modificação de conteúdo como esta modificação de comportamento na sala de aula que foi enriquecedor. (Professor 2).

Para mim uma coisa que modificou muito, se eu não tivesse tido esta convivência, se eu não conhecesse os militantes, eu nunca teria levado meus estudantes para dentro de uma ocupação do INCRA, primeiro que eu não teria esta idéia, segundo que eu pensaria, será que vai dar certo, hoje eu tenho a maior tranqüilidade, eu já levei várias vezes, primeiro eu pergunto se eles querem ir, são 4 turmas, [disciplina de extensão rural] explico, falo as vantagens: “uma coisa é ver de perto outra é escutar o que os outros falam”, deixo aquele gostinho de desafio e pergunto quem topa?, quem se habilita?, a maioria, se não todos vão, e foi ótimo. Peço para um militante fazer uma fala de recepção, e depois solto eles lá para eles conversarem com os acampados, eles vêem os setores, da saúde..., eles ficam chocados com a organização, eles começam a ver uma ordem no meio daquela desordem, e depois levo a discussão para sala. Eu jamais levaria eles para uma ocupação se eu não tivesse tido a vivência, se fosse só pela literatura eu pensaria, será que eu posso? devo?, será que vai dar certo? (Professor 4).

Outra professora fala da percepção sobre o tema de maneira geral: “tem professor que criou vínculo com o assentamento e hoje leva seus alunos para esses assentamentos todo ano para visitarem, então ficou um aprendizado”. Em seguida comenta de maneira mais pessoal sobre o enriquecimento do material didático utilizado nas aulas: “Com certeza, uso textos , que foram usados pelos professores do Curso [de Especialização], uso filmes, com certeza sim”. (Professor 1).

Outra professora colocou que a contribuição para ela como profissional e com efeitos diretos nas suas disciplinas foi intensificar um processo de auto-crítica a partir das suas experiências no Programa:

Eu passava por um processo de auto-crítica muito grande e esta auto-crítica foi muito fruto da experiência do PRA, auto-crítica no sentido da contribuição, enquanto dentro do PRA a gente falava como deveria ser, as possibilidades, enquanto professora é outra historia, é transformar teoria em prática , então eu acho que eu passei por este processo de critica grande, de auto-crítica para eu tentar dar coerência ao que eu falava. (Professor 12).

Assim, pode-se visualizar pelos depoimentos expostos que o PRA não traz aprendizados apenas aos estudantes mas também aos professores, mesmo quando estes já possuem contato e trabalhos anteriores com os MS do campo e com as temáticas da Reforma Agrária e da Agricultura Familiar. As contribuições vão desde a incorporação de

novos materiais didáticos nas aulas, mudanças nos conteúdos, enfoques, metodologias e posturas nas disciplinas, amadurecimento profissional e pessoal que extrapolam as salas de aula e perpassam seus outros espaços de atuação.

4.6.2 Ampliação da Articulação entre os Professores que participaram do Programa