A fenomenologia surge no início do século XX, decorrente da necessidade de integrar a objectividade e a subjectividade na análise. Este campo filosófico não pretende explicar o mundo, mas sim entender o modo como este se torna evidente à consciência, “a maneira como as coisas começam a surgir na nossa
173 RIBEIRO TELLES, G. - “Paisagem Global” in ABREU, M.C. (coord.)” - Paisagem”. Lisboa: DGOTDU, 1994. p. 39. 174 CANCELA D’ABREU, A. et tal [2005].
175 NASSAUER, J. I. - “Landscape care: perceptions of local people in landscape ecology and sustainable development” in SCHMID,
33 experiência directa e sensorial.”176 O seu fundador, Edmund Husserl inicia a temática abordando o mundo da experiência como inteiramente subjectivo, como um reino mental habitado por diversas subjectividades, que correspondem aos diversos sujeitos que sentem um determinado fenómeno. Distinguem-se assim fenómenos inteiramente subjectivos - as minhas aspirações ou sonhos, por exemplo - dos fenómenos que apesar de subjectivos são experienciados por diversos sujeitos, aplicando-se a estes últimos o conceito de intersubjectividade. A percepção de uma determinada paisagem seria então um fenómeno intersubjectivo, e a procura de objectividade científica na análise dessa paisagem corresponderia à busca do maior consenso intersubjectivo sobre um determinado fenómeno.177
A experiência do sensível por meio da percepção - que integra de forma sinestésica os diversos sentidos físicos e não apenas a visão - é o modo de abordagem da fenomenologia que pretende responder a questões que, no século XXI e no campo da arquitectura paisagista, se colocam de apreensão do carácter da paisagem de forma multisensorial e a uma escala adaptada à especificidade de cada lugar. Isto porque “o
mundo real em que nos encontramos – o próprio mundo que as nossas ciências lutam por abarcar – não é
um puro objecto, não é um datum fixado e acabado de que todos os sujeitos e todas as qualidades pudessem ser retiradas, mas é antes uma matriz entrelaçada de sensações e percepções, um campo colectivo de experiência inteiramente vivida de muitos ângulos diferentes.”178 Sem pretender negar a ciência, Edmund Husserl pretende antes demonstrar a forma como esta se encontra enraizada na nossa vida quotidiana e funciona como expressão humana basicamente qualitativa, apesar de todos os critérios que possam ser mensuráveis.
Merleau-Ponty continuou o discurso fenomenológico deslocando o centro da experiência para a dimensão corporal. Para este filósofo o fundamento do acto de percepção reside na reciprocidade, na contínua interpelação entre o sujeito e fenómeno, que se influenciam mutuamente. A objectivação científica serve para imobilizar um fenómeno, para o impedir de interpelar o sujeito e por isso ser mais facilmente analisado. No entanto com este procedimento perde-se o envolvimento e troca de informação que a relação com o fenómeno nos confere. Se o objectivo for descrever o fenómeno – o carácter de uma paisagem, por exemplo - sem reprimir a experiência sensível, então é importante exprimir através da linguagem o envolvimento directo sentido com esse fenómeno, com a paisagem viva e animada. O que se pretende, então, é redescobrir o modo como os fenómenos se encontram presentes na consciência, de um modo puramente intuitivo e descritivo.179
A imaginação é, para a fenomenologia, um atributo dos sentidos, o modo como estes têm de ultrapassar aquilo que é imediatamente percepcionado e pôr o sujeito em contacto com os aspectos mais subtis da dimensão sensível do fenómeno. No entanto, “essas antecipações sensoriais e essas projecções não são arbitrárias; respondem regularmente a sugestões oferecidas pelo próprio sensível.”180 A imaginação não é fantasia, já que consiste na percepção de uma realidade que ainda não se encontra totalmente disponível, e não em invenção do real. Como modo de expressão desse acto de criação imaginativo temos a linguagem, que deverá ser expressiva do modo como a paisagem se apresenta à consciência, por meio da experiência sensível, e que poderá ser escrita mas também gráfica. A literatura e as outras artes gráficas são, portanto, um meio de expressão mas simultaneamente de apreensão do carácter da paisagem. Por meio da abordagem fenomenológica será possível integrar não só dados procedentes do objecto - da paisagem - como também do observador, num todo que se considera ser mais revelador do que a análise
176 ABRAM, David - “ A magia do sensível: percepção e linguagem num mundo mais do que humano”. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2007. p. 35.
177 A percepção é o “acto da mente com que se toma conhecimento de um objecto no mundo sensível (…) [mas também] o processo
activo de construção de uma certa “imagem” ou esquema mental que satisfaz a exigência de tornar coerente o mundo da experiência, “conciliando em síntese superior” os diversos elementos da experiência e tornando-a compreensível e passível de ser comunicada.” GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGESA E BRASILEIRA. Lisboa, Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, 1936-1960. Vol. XXI, p. 79.
178 ABRAM, D. op.cit. p.39.
179 MAGALHÃES, M. (2001) op. cit. p. 274. 180 ABRAM, D. op.cit. p. 59.
compartimentada de factores. Pretende-se deste modo aumentar a capacidade de percepção já que, como refere Merleau-Ponty, é com o contínuo diálogo entre fenómeno e sujeito que a realidade concreta se revela. Um dos autores que mais trabalhou a relação do observador com a arquitectura e com a paisagem através da fenomenologia foi Christian Norberg Schulz. No “Système Logique de l´architecture” Schulz procede a uma análise do objecto arquitectónico por meio do método científico, como se de um objecto das ciências naturais se tratasse. Chega à conclusão que este tipo de metodologia não é o mais indicado para este objecto de estudo, uma vez que ao proceder-se à abstracção esquece-se o carácter concreto do meio, e acima de tudo esquece-se “aquela qualidade específica” que é objecto de identificação pelo homem.181 Para combater esta lacuna introduz na sua obra “Existence, space and architecture” o conceito de espaço
existencial que se refere às relações que se estabelecem entre o homem e o meio. O espaço existencial
seria composto por duas vertentes, o espaço e o carácter, a primeira relacionada com a função de orientação e a segunda com a função de identificação.182 A obra de Schulz de maior importância para o estudo do carácter da paisagem é “Genius Loci: paysage, ambiance, architecture”. Nesta obra o autor ensaia uma abordagem a uma “fenomenologia da arquitectura”, uma teoria que pretende apreender a arquitectura - e a paisagem - em termos da sua dimensão existencial. Segundo o autor “o principal objectivo desta obra é a conquista da dimensão existencial. Após décadas de trabalho abstracto, científico, parece-nos urgente retomar a uma concepção fenomenológica, qualitativa da arquitectura”.183 Para ultrapassar as restrições das metodologias analíticas e científicas propõe a utilização do método fenomenológico que pretende um “retorno às coisas” por oposição à abstracção e às construções mentais. Este método parte das coisas concretas para reconhecer os significados que estas comportam.
Schulz começa por elaborar uma aproximação ao fenómeno do lugar. Refere que certos fenómenos constituem o meio onde outros fenómenos surgem.184 O termo concreto para definir o meio é lugar. O lugar é algo mais do que uma localização abstracta, tem uma substância concreta: a sua própria forma, cor, textura, cheiro, som, e a sua própria dinâmica. O conjunto de todas estas características é expresso por uma determinada “ambiência”, que define a essência do lugar. Mas essa “ambiência” pode considerar-se, conforme refere Manuela Magalhães, um pseudo-símbolo, uma vez que representa a síntese de vários significados,185 que podem ser apreendidos por diversos observadores. Para Schulz “o lugar é um fenómeno total qualitativo, que não pode ser reduzido a qualquer uma das suas propriedades características, como por exemplo as suas relações espaciais, sem perder de vista a sua natureza concreta”.186 Consequentemente o lugar - ou a paisagem - apesar de ser constituído por diversos elementos não pode ser descrito exclusivamente por estes, já que deste modo se perderia a visão da unidade que é a expressão do concreto, do fenómeno.
Segundo este autor a estrutura do lugar deve ser analisada nas categorias de espaço e carácter. Enquanto o espaço indica a organização tridimensional dos elementos que compõem o lugar e está relacionado com a função de orientação; o carácter denota a “atmosfera geral” ou “ambiência” que compreende tanto a forma concreta como a substância, o conteúdo, e se relaciona com a função de identificação.187 Para Schulz o carácter é determinado pela maneira como as coisas são, e é ele que nos oferece uma base para o estudo dos fenómenos concretos - que podem ser objectos arquitectónicos ou paisagens - da nossa vida quotidiana. Para este autor é esta a metodologia de apreensão do genius loci, ou espírito do lugar. No entanto “A estrutura de um lugar não é uma condição fixa, eterna: regra geral ela transforma-se, por vezes muito
181 SCHULZ, C. op. cit. p.5. 182 Idem, ibid.
183 SCHULZ, C. op. cit. p.6.
184 Por exemplo uma casa, uma floresta, uma cidade ou uma ilha podem ser considerados fenómenos onde outros fenómenos – uma
árvore, animal ou homem – surgem.
185 MAGALHAES, M.(2001) op. cit. p. 41. 186 SCHULZ, C. op.cit. p.7.
35 rapidamente. Isto não significa que o genius loci deverá mudar, ou mesmo perder-se. (…) os lugares conservam a sua identidade por um certo período de tempo. A estabilidade do lugar é uma condição necessária à vida humana. Como é que essa estabilidade pode ser compatível com a dinâmica da transformação? Cada lugar deve ter a capacidade de receber conteúdos diversos, dentro de certos limites. Um lugar adaptado a um único propósito é inútil. Um lugar pode ser interpretado de diferentes maneiras. Proteger e conservar o genius loci significa concretizar o sentido do lugar, num contexto histórico sempre novo. Pode-se assim dizer que a história de um lugar se deverá auto-realizar.”188
Em relação aos lugares naturais Schulz refere que é graças à interacção do relevo, da vegetação e da água que se formam totalidades características ou lugares, que constituem os elementos de base da paisagem. As variações da superfície do relevo engendram uma série de lugares com nomes familiares (monte, vale, montanha, baía, ravina) com características fenomenológicas bem precisas. “A ilha, por exemplo, é um lugar por excelência que se apresenta como uma figura isolada e exactamente definida. No plano existencial a sua presença provém do elemento primeiro da Génese, e conduz-nos assim às origens. A palavra península significa quase ilha; a linguagem comunica as características da sua estrutura espacial. Mesmo a baía é um lugar arquétipo que se pode definir como o reverso da península.”189 No entanto, mesmo para compreender as paisagens altamente intervencionadas pelo homem e cujo elemento cultural é preponderante - como uma cidade por exemplo - há que ter em consideração e como ponto de partida o meio natural, e uma escala mais vasta do que o próprio objecto-cidade.190 Assim, as características ecológicas e geográficas de base são sempre o sustentáculo de uma paisagem por mais cultural que esta seja. A aplicação da fenomenologia à arquitectura paisagista, e especificamente aos jardins, com o objectivo de analisar o seu significado, foi concretizada por Cristina Castel-Branco, tendo em conta as características dos lugares onde estes se inscrevem como espaço geográfico.191
O homem instala-se no meio natural e procede à implantação de estruturas por ele construídas, à apropriação cultural do meio. Os elementos construídos, quando significativos, contribuem para a revelação dos sentidos potenciais do meio. Esta é uma das funções da apropriação cultural do meio natural. “A identificação é a base do sentimento de pertença a um lugar, a orientação faz com que o homem se desloque, que evolua a partir da sua natureza. Durante muito tempo o homem exaltou a sua condição nómada, quis ser livre e conquistar o mundo. Actualmente começa a perceber que a verdadeira liberdade pressupõe a pertença, que habitar significa pertencer a um lugar concreto.”192 Este autor refere ainda que a alienação das grandes cidades se deve ao esquecimento da necessidade de identificação com o meio. Para ele a identificação significa tornar-se amigo do meio, amizade essa que consiste numa correspondência entre o mundo exterior e o interior de cada pessoa. Esta identificação com o lugar é uma consequência da experiência – individual ou de um grupo social – do espírito do lugar. Para a apreensão da essência ou “espírito” da paisagem Schulz privilegia as contribuições para a sua descrição dadas pela literatura contemporânea e outras artes. São valorizadas as impressões artísticas assim como as descrições dos habitantes dos lugares, e dos seus visitantes. Os dados obtidos são analisados usado uma abordagem experiencial, que integra métodos fenomenológicos e a hermenêutica.193 Para este autor os lugares são
188 SCHULZ, C. op.cit. p.18. 189 Idem, p.39.
190 Idem, p. 97.
191 CASTEL-BRANCO, C. op. cit. p. 5-6. 192 Idem, p.22.
193 A hermenêutica é um dos ramos das ciências humanas que pretende conduzir à compreensão de uma determinada realidade por
meio do entendimento dos significados intrínsecos à linguagem. A hermenêutica contemporânea iniciada por Heidegger é mais do que um modo de interpretação e compreensão de textos, é apreensão do sentido através das coisas concretas, quer sejam elas imagens, símbolos ou textos. Para este autor a compreensão apresenta uma estrutura circular já que “toda interpretação, para produzir compreensão, deve já ter compreendido o que vai interpretar". No entanto já anteriormente Wilhelm Dilthey teria afirmado que "Esclarecemos por meio de processos intelectuais, mas compreendemos pela cooperação de todas as forças sentimentais na apreensão, pelo mergulhar das forças sentimentais no objecto." RAMBERG, B.; GJESDAL, K. - "Hermeneutics" in “The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2009 Edition)”, Edward N. Zalta (ed.) [on line] . [consulta em 07/07/2011] Disponível
nomeados por substantivos, são as coisas existentes, enquanto o espaço é marcado pelas preposições. O carácter é dado pelos adjectivos ainda que um único adjectivo raramente poderá abarcar a complexidade do espírito de um lugar.194
Esta linha de investigação pode ser articulada com a de Kevin Lynch, um estruturalista que na obra “A Imagem da Cidade” refere que a imagem do meio ambiente pode ser analisada em três componentes: identidade, significado e estrutura.195 A legibilidade de uma paisagem reflecte “a facilidade com que as partes podem ser reconhecidas e organizadas segundo um esquema coerente”196 sendo que a solução referida por este autor para permitir que o significado de uma determinada imagem (ou paisagem) se torne explícito é investir em tornar essa imagem legível e permitir que o significado se desenvolva a partir dessa acção. Um outro conceito definido por este autor é o de imaginabilidade, que diz respeito “àquela qualidade de um objecto físico que lhe dá uma grande probabilidade de invocar uma imagem forte num dado observador”.197 Este conceito poderia corresponder ao de carácter da paisagem, desde que alicerçado no equilíbrio ecológico e na preservação da identidade cultural.198 Uma estrutura coerente e por isso legível e com imaginabilidade poderá ser um dos atributos de uma paisagem com carácter. Lynch refere a importância da legibilidade da paisagem para criação de laços afectivos e de um relacionamento harmonioso com ela, mas também a importância da imagem se manter aberta para incorporar novos significados e se desenvolver.199 A abordagem estruturalista teve diversos desenvolvimentos dos quais se destaca a escola italiana e Aldo Rossi, numa procura da forma, do lugar e da história como modo de contextualização das intervenções.200 O estruturalismo consolidou-se como modo de intervenção nos lugares e na paisagem com recurso à teoria dos tipos, em que se procura a formação de tipologias e a inclusão de elementos da paisagem em categorias a que se dá o nome de tipos,201 que constituem um meio-termo entre a abstracção e a concretização.
As abordagens fenomenológica e estruturalista da paisagem foram usadas pelos arquitectos paisagistas do início do século XX que adoptaram a posição da gestalt. Esta teoria, com base na fenomenologia, privilegia os dados intuitivos mas articula-os no campo perceptual que deverá ser dotado de sentido, ou seja, faz a ponte entre a fenomenologia e o estruturalismo. Através da abordagem gestalt a paisagem é percepcionada como um todo unificado, evitando-se a decomposição da realidade em componentes, e consequente abstracção que daí advém. O termo está relacionado com o conhecimento experiencial retirado da experiência directa do todo e não da análise abstracta de factores independentes como a fisiografia, tipo de solo e vegetação. O método gestalt pretende ser integrativo envolvendo a descrição directa de uma experiência sem restrições ao que é permissível dizer nessa descrição.202 Para aplicar o método gestalt o arquitecto paisagista procede a observações pessoais da paisagem durante períodos de tempo mais ou menos longos, e em diferentes alturas do dia. Procede-se a uma identificação de padrões de paisagem ou áreas homogéneas, assim como de qualidades únicas da paisagem e expressam-se essas informações através de uma linguagem directa.203 A abordagem fenomenológica, apesar de surgir frequentemente associada às abordagens paramétrica e paisagista poucas vezes foi especificamente concretizada e inserida em estudos sobre paisagem mais abrangentes em Portugal. As excepções são os estudos concretizados
emhttp://plato.stanford.edu/archives/sum2009/entries/hermeneutics/ e hermenêutica emhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Hermen%C3%AAutica na mesma data.
194 SCHULZ, C. op.cit. p.16.
195 LYNCH, K. - “A Imagem da Cidade”. Lisboa: Edições 70, 1996. (1ª edição 1960) p.18. 196 Idem, p. 13.
197 Idem, ibid. O autor acrescenta que “o conceito de imaginabilidade não tem, necessariamente, conotações com algo fixo, limitado,
preciso, unificado ou ordenado regularmente, embora possa, por vezes, ter estas qualidades. Também não significa visível, óbvio, evidente ou claro” (p.13) o que o aproxima ainda mais ao de carácter da paisagem.
198 Ver conceito de carácter da paisagem segundo Luís Ribeiro, p.18. 199 MAGALHAES, M. (2001) op. cit p. 201.
200 Idem, p. 221. 201 Idem, p. 222.
202 THE NEW ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Micropaedia (ready reference).1993.Vol. 5 p. 226. 203 LYLE, J. op. cit. p.242; NDUBISI, F. op. cit. p. 37;
37 pela equipa de Alexandre Cancela d’Abreu relacionados com a Convenção Europeia da Paisagem.204
Naveh e Lierberman defendem também a aplicação do método gestalt à paisagem e referem a necessidade de se utilizar meios de representação da paisagem (modelos, imagens, discurso) que se adeqúem à realidade concreta do que se está a representar. Mencionam a importância da linguagem como “órgão” de consciência e são apologistas do uso da linguagem natural, característica do método gestalt, para a aproximação à paisagem.205 Segundo Pankow “a linguagem natural tem a capacidade de representar não apenas os objectos mas também a si própria, é auto-transcendente e qualquer sistema auto-transcendente é um sistema gestalt.”206A linguagem natural é aquela que é utilizada para exprimir sensações e sentimentos sobre uma paisagem, por exemplo.207 As linguagens formais, por outro lado, não se podem representar a elas mesmas mas apenas objectos exteriores, são as linguagens das ciências e da matemática. O método
gestalt seria o mais apropriado para descrever os sistemas gestalt, que podem ser abstractos, como é o caso
de um poema ou de uma melodia (que são mais do que as palavras ou notas individuais que os caracterizam), naturais, como é o caso de uma floresta ou de um lago, ou feitos pela mão humana, como é o caso de um relógio, por exemplo.208 Utilizando a linguagem natural, a análise da paisagem por meio do método gestalt evidencia a unidade do todo que é a paisagem e a importância da beleza como reflexo do equilíbrio e integridade dos ecossistemas. É assim possível atingir “a percepção única, que só a poesia e as novas ciências interdisciplinares partilham, de que em cada uma das manifestações da vida e da sua beleza se pode ler o próprio universo, que tudo está de facto ligado por laços que só se vão tornando visíveis à sensibilidade dos poetas e à descoberta dos sábios.”209 Alguns autores referem que o uso desta abordagem se encontra limitado a situações de pequena escala,210 uma vez que à medida que aumentam as áreas de estudo e a complexidade das variáveis terá de ser concretizado algum trabalho de análise-diagnóstico- síntese, que não é integrado neste tipo de abordagem. No entanto, “a análise Gestalt encontra-se integrada [ainda que como um passo de uma metodologia mais vasta] na maior parte das metodologias de planeamento”211.
A tentativa de integração da percepção da paisagem em estudos de planeamento e gestão seguiu, desde os anos setenta do século passado, duas correntes que nem sempre se afiguraram compatíveis: a primeira baseada em métodos descritivos, concretizados por técnicos e especialistas; a segunda baseada em métodos que procuram conhecer as preferências e opiniões do público, especialmente empregues por parte da geografia cultural. A opção, nesta investigação, é integrar as duas correntes, ou seja, proceder a um descrição da paisagem do arquipélago utilizando a linguagem natural; e incluir as preferências e opiniões do público por meio de dois inquéritos: um que incide sobre as características da paisagem e vegetação natural