A abordagem paramétrica tem por base a identificação da informação organizada por temas - ou parâmetros - com o objectivo de caracterizar e avaliar uma paisagem. O processo analítico permite a identificação de diferentes parâmetros e a categorização dessa informação em classes, as quais são utilizadas de forma independente relativamente à determinação de aptidões e outras características da paisagem. A informação é posteriormente sintetizada em grupos, que constituem diagnósticos parcelares e suportam a definição de uma proposta ou de várias propostas alternativas de intervenção na paisagem. Este tipo de abordagem permite lidar com grandes quantidades de informação, agregando-a e generalizando-a, pelo que possibilita, à primeira vista, lidar com uma escala mais vasta e/ou realidades mais complexas. É baseada no estabelecimento de fases de estudo bem demarcadas que consistem basicamente na análise, no diagnóstico e na proposta. A sequência destas fases é proveniente do método científico e pode, eventualmente, ser repetida para comprovação dos resultados, facto importante quando as propostas são submetidas a avaliações diversificadas como por exemplo a aprovação pública e por parte de entidades diversas.
As abordagens paramétricas surgiram na fase em que a arquitectura paisagista, estabelecida como área de conhecimento, procurava a sua aceitação na sociedade. A obra do arquitecto paisagista Ian McHarg foi um marco fundamental para este processo. Em Design with Nature (1969) o autor descreve uma abordagem metodológica baseada em dados parametrizados explicitando também um conjunto de princípios que continuam a ser uma referência, de base ecológica, mas também éticos e sociais. O método consiste na análise das componentes naturais e culturais da paisagem, com vista ao diagnóstico das aptidões que cada área do território comporta. Para este autor “a natureza é um processo, que é interactivo e que responde a leis. Esse facto permite o surgimento de um sistema de valores, com oportunidades intrínsecas e constrangimentos para o uso humano.”121 Lewis Mumford refere na introdução da edição de 1971 que Ian McHarg “é alguém que não olha meramente a natureza e as actividades humanas a partir do ponto de vista exterior da ecologia, é antes alguém que as olha a partir de dentro, como participante e actor trazendo ao mundo frio, seco e sem cor da ciência (…) a contribuição especial de (…) cores vivas e paixão, emoções, sentimentos, sensibilidades, prazeres estéticos e eróticos – tudo aquilo que faz com que a mente seja tão imensamente superior a um computador, ou a outras mentes que se subdimensionaram a elas próprias às limitações de um computador”.122 Isto porque apesar de ter desenvolvido uma metodologia essencialmente paramétrica esta baseia-se em critérios que estão intimamente relacionados com um sistema de valores. A implementação de um sistema de valoração é um dos passos essenciais desta metodologia. “Os processos naturais, unitários em carácter, deverão ser considerados no planeamento: mudanças em partes do sistema afectam o sistema inteiro; os processos naturais representam valores, e esses valores deverão ser tidos em conta num sistema de valoração único”.123 Esse sistema de valoração é integrado no
121 MCHARG, I. - “Design with nature”. New York: Natural History Press, 1971. p. 34.
122 Lewis Mumford na introdução de MCHARG, I. - “Design with nature”. New York: Natural History Press, 1971. p. vi. 123 MCHARG, I. op. cit.p. 65.
planeamento para que a distribuição espacial dos usos do solo reflicta a preservação dos valores e as opções de desenvolvimento. Seria assim possível preservar valores naturais, mas também culturais, sociais e a beleza da paisagem. De entre os primeiros McHarg destaca a terra, o ar e a água como recursos indispensáveis à vida e que por isso deverão ser preservados.
Apesar de reconhecer a degradação ambiental e a responsabilidade que uma certa visão antropocêntrica e economicista do mundo tem nessa degradação, McHarg mantém a esperança numa evolução positiva do homem no seu meio natural quando diz que “a percepção é a chave da simbiose e o homem é a mais perceptiva de todas as criaturas. Está aqui o seu potencial: percebendo e compreendendo a natureza, ele pode contribuir para o seu funcionamento, gerir a biosfera e, fazendo isto, aumentar a sua percepção, que com a simbiose, parece ser o caminho para a evolução.”124 McHarg vai mais longe quando reflecte sobre a individualidade e a responsabilidade individual no cuidado com um planeta que é de todos quando refere que “a liberdade é inerente à singularidade e às infinitas oportunidades providenciadas pelo ambiente, o que significa que os modos de existência e de expressão são ilimitados e que cada ser individual tem as suas oportunidades inerentes (…) [mas que] claramente cada indivíduo tem a responsabilidade pela biosfera inteira e é desafiado para se integrar em actividades criativas, cooperativas”.125
Para McHarg os diversos processos em acção num determinado lugar são expressos pela forma, já que o processo e a sua forma são aspectos indivisíveis de um fenómeno único.126 A forma é simultaneamente, expressão e comunicação, e a comunicação é a apresentação de um significado de modo a que este possa ser percepcionado.127 Sob esta perspectiva a forma da paisagem é um reflexo dos processos em acção e, simultaneamente o modo como a paisagem comunica o seu significado mais íntimo, que ao ser percepcionado pode ser preservado e mesmo potenciado, contribuindo-se assim para a sua evolução. Esta é uma justificação possível - segundo esta visão - para a importância da apreensão do carácter de uma paisagem. Analisando as componentes dos lugares MgHarg privilegia nitidamente os elementos vivos quando refere que “se alguém desejar trabalhar criativamente com elementos intemporais então o fulcro inevitável e central da sua paixão deve ser a vida, ou mais ainda a consciência”.128 É então possível formular a hipótese de que o carácter de uma paisagem pode residir em alguma medida na forma da paisagem, mas também nos seres vivos, nas pessoas, animais e plantas que a habitam.
Para McHarg o espírito do lugar, ou genius loci, “pode ser discernido como sendo composto de um conjunto de elementos discretos [ou seja tangíveis] alguns derivados da identidade natural do lugar e outros são artefactos [entendidos como elementos culturais com uma determinada história]. Estes elementos [naturais e culturais] devem ser avaliados como componentes da identidade do lugar, e também como processos em curso, que têm implicações em novas adaptações formais.”129 A sua metodologia para a apreensão do genius loci “assenta, como base inicial, na história geológica, no clima, fisiografia, solos, plantas e animais que constituem a história de um lugar e a base da sua identidade intrínseca.”130 Esta metodologia paramétrica permitiria uma caracterização aprofundada dos diversos parâmetros e lidar com grandes quantidades de informação, com o objectivo de estabelecer aptidões que possibilitem uma actuação informada na paisagem. Algumas críticas a este método referem que este não tem em conta a subjectividade do técnico observador nem a componente criativa do processo, não conduzindo a uma forma intencional. A metodologia de McHarg teve desenvolvimentos, resultantes do aprofundamento do conhecimento ecológico, e que se repercutiram na abordagem da paisagem como um ecossistema, com características e funções próprias que se poderá auto-regular dentro de determinados limites.
124 Idem, p. 122. 125 Idem, p. 123. 126 Idem, p. 163 127 Idem, p. 169 128 Idem, p. 172. 129Idem, p. 175-176.
25 Uma das obras de referência na continuidade desta linha metodológica é a que se descreve na obra de John Lyle, “Design for human ecosystems”. Aqui o autor realça a importância de uma paisagem que, tal como o meio natural, seja multifuncional. Defende o estudo pormenorizado dos ecossistemas que integrem o homem e os seus fluxos, por meio de modelos já que “cada ecossistema tem certos processos motivadores que definem o seu carácter essencial e que nos fornecem uma chave para a sua compreensão e para o trabalho com ele. Por vezes esses processos são óbvios desde o início, mas normalmente eles apenas emergem depois de uma análise cuidadosa.”131 O que interessa a este autor não é estabelecimento de modelos de zonamento mas sim de projectos de arquitectura paisagista propriamente ditos, em que a componente criativa esteja presente. A intenção “não é dominar a natureza mas sim participar criativamente nos seus processos”.132
Para concretizar esse objectivo estabelece uma metodologia de aproximação à paisagem que vai para além do método mais frequente até então de análise/diagnóstico/proposta, em que se realiza um estudo mais alargado que informa a fase de análise e se procede ao estabelecimento de passos intermédios e diversas alternativas e previsões, em função de diversos cenários possíveis, que então conduzirão a um plano. Esta metodologia assenta no pressuposto de que ao interagir criativamente com o meio natural não existe apenas uma única solução, mas sim um conjunto de soluções possíveis. Lyle refere que “temos de afastar de uma vez por todas a noção de que o design é, ou pode ser, uma ciência. A natureza do método científico requer que o mundo seja partido em pequenas partes para que seja compreendido. (…) O design lida necessariamente com todas as variáveis ao mesmo tempo, e não apenas para compreender mas também para projectar novas formas. (…) Embora usando o conhecimento obtido através da ciência, o objectivo do
design é reunir as coisas - por vezes coisas muito diferentes – sem nunca ter a esperança de uma certeza
absoluta. (…) Ainda precisamos da intuição e da imaginação.”133 Assim, apesar do desenvolvimento deste tipo de metodologias permitir a organização de grandes quantidades de informação e a concretização de diagnósticos parcelares que conduzem a um conjunto de propostas alternativas, é necessário o reconhecimento da importância da escolha dos critérios de avaliação e de selecção de cenários evidenciando-se o papel que uma componente mais criativa e subjectiva do indivíduo tem nessa escolha. O reforço da abordagem ecossistémica conduziu à criação e desenvolvimento de novos campos de conhecimento como a ecologia da paisagem, assim como à criação dos movimentos de ecological design e
ecological planning, em que a informação ecológica desempenha um papel central na definição das
estratégias de intervenção e no desenho da paisagem, “de modo a que as acções humanas estejam em sintonia com os processos naturais.”134 O movimento de ecological design refere-se ao uso desta compreensão com o objectivo de criar espaços de modo artístico e criativo, enquanto o ecological planning é a aplicação desta compreensão sobre a paisagem nas acções de decisão, particularmente em acções sustentáveis.135 Ndubisi refere que para proceder ao planeamento ecológico é necessário “compreender o carácter de uma paisagem tanto em termos dos seus processos naturais como em termos das relações recíprocas que se estabelecem entre as pessoas e a paisagem.”136 O conceito chave para este autor é o de relacionamento. Segundo este autor o sistema de crenças (ou seja, o enquadramento ético) que permite guiar a actuação na paisagem, no campo da arquitectura paisagista, “centra-se na ideia da necessidade de compreensão do carácter intrínseco de um território tanto na perspectiva ecológica como estética, como base para a avaliação e para o encontro das aptidões mais acertadas para uma paisagem, que permitam o uso
131 LYLE, J. - “Design for Human Ecosystems”, New York: Van Nostrand Reinhold, 1985. p.15. 132 Idem, p. 16.
133 Idem, p. 127.
134 NDUBISI, F. op. cit. p. 2. Neste âmbito é importante perceber o que a arquitectura paisagista entende por ecologia que, segundo a
visão de Teresa Andersen, é “a expressão de princípios científicos e ideológicos com um papel relevante para a compreensão das formas de possível relacionamento dos seres humanos com a natureza e consequentemente sobre a sua apreciação e o uso dos recursos naturais”. ANDERSEN, T. - “Para a crítica da paisagem”. Aveiro: Universidade de Aveiro, 1992. Tese de doutoramento. p. 44.
135 NDUBISI, F. op. cit. p. ix 136 Idem, p.4.
humano e o recreio.”137 Os movimentos de ecological design e ecological planning ganham importância principalmente a partir da década de sessenta do século passado, o que coincide com a gradual consciencialização da opinião pública relativamente aos efeitos nefastos dos abusos do homem em relação ao meio natural e à paisagem. No seguimento das abordagens paramétricas ao carácter da paisagem refere- se o trabalho de Carl Steinitz que iniciou a aplicação sistemática da tecnologia dos computadores ao planeamento ecológico, e o trabalho de Julius Fabos, que na Universidade de Massachusetts em Amherst desenvolveu uma abordagem própria ao planeamento regional, de base ecológica e apoiada em critérios económicos nas tomadas de decisão sobre planos e projectos de paisagem. A importância das componentes biofísicas na caracterização da paisagem esteve desde os anos sessenta bastante presente nos trabalhos dos arquitectos paisagistas, devido também aos importantes desenvolvimentos que nessa época se deram no campo da ecologia. O trabalho do ecologista Eugene Odum democratizou o conceito de ecossistema, e a sua obra “Fundamentals of Ecology” permitiu tornar compreensível esse conceito.
Actualmente as abordagens paramétricas são intensamente aplicadas e apoiadas pela evolução da facilidade de obtenção de informação, como fotografias aéreas de grande resolução e dados provenientes da detecção remota por meio de satélite. A informação que é possível destrinçar sobre uma determinada paisagem é muito vasta e normalmente é integrada em sistemas de informação geográfica que têm como função servir como ferramenta de suporte ao planeamento e gestão da paisagem. Com toda esta informação perde-se muitas vezes o essencial, o conhecimento da paisagem concreta, já que nos prendemos à imagem da paisagem que é facilmente obtida em qualquer parte do mundo sobre uma outra qualquer parte do mundo, em vez de nos ligarmos à própria paisagem, ao espírito do lugar. A utilização e explicitação clara de critérios de valoração continua a ser um passo essencial neste tipo de abordagens, se bem que nem sempre seja nitidamente identificada, umas vezes porque o passo de avaliação não é convenientemente consubstanciado e outras porque esses critérios de valoração se perdem no meio de toda a informação. Se a importância das componentes biofísicas na identificação do carácter de uma paisagem é um dado adquirido, a integração dos factores culturais ao nível da abordagem paramétrica é uma concepção mais recente, já que na tentativa de reconciliar o uso humano com o meio natural os processos humanos de apropriação dos lugares têm sido por vezes esquecidos. No entanto os factores culturais, que estão relacionados com o modo de vida nas paisagens de uma forma característica de cada lugar, são profundamente reveladores do seu carácter. Falta muitas vezes nos processos de caracterização paramétrica de uma paisagem, uma compreensão profunda das “experiências acumuladas das pessoas numa paisagem particular, dos significados associadas a essas experiências, e do modo como ambos evoluem ao longo do tempo.”138
Na Europa a importância dada aos factores culturais na definição do carácter de uma paisagem é mais expressiva do que nos E.U.A. e está relacionada com a percepção da singularidade de modos de relacionamento do homem com a paisagem mais tradicionais e sustentáveis, como a agricultura de minifúndio ou de produção extensiva mas multifuncional. Estes tipos de paisagem são actualmente quase tão raros como as áreas naturais pelo que constituem valores a ser tidos em conta na intervenção e gestão das paisagens. Para Luís Ribeiro “os métodos de apreensão da paisagem desenvolveram-se de uma abordagem paisagística para uma abordagem paramétrica, enfatizando-se os atributos físicos e naturais da paisagem, até à inclusão dos recursos culturais e históricos. Os arquitectos paisagistas têm defendido a expansão dos métodos de apreensão com metodologias históricas, ecológicas e naturalistas (tais como entrevistas e a observação participante), para alcançar uma apreensão compreensiva das paisagens culturais”.139 É esta expansão dos métodos de apreensão do carácter da paisagem que se pretende ensaiar nesta investigação,
137 Idem, p.13. 138 Idem, p. 32.
27 com a utilização conjunta, numa abordagem holística, de dados provenientes de metodologias paramétricas, paisagistas e fenomenológicas.