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6.5. Selfangst og småhvalfangst Selfangst
O padre missionário do período colonial era formado num contexto de Igreja, que acontece num processo histórico. Vultos como Vieira, Malagrida, Anchieta oferecem uma impressão da qualidade da formação presbiteral no período pós tridentino. O perfil desejado do candidato às ordens sacras, sobretudo da Companhia de Jesus, estava dentro deste processo, já que a formação dos ministros eclesiásticos sempre foi uma preocupação para a Igreja. Desde os primórdios há testemunhos a esse respeito, dos quais se tem imagens do Antigo Testamento, como a formação de Samuel, e do Novo testamento, como a convivência dos Doze com Jesus, Timóteo junto a Paulo, como na Igreja do primeiro milênio.
O problema da formação presbiteral está intimamente relacionado a aspectos da formação cristã propriamente dita. Depois da era apostólica, esta discussão vai aparecendo na medida em que os cristãos vão entrando em contato com um mundo não só hostil, mas ao mesmo tempo interessante. Não é à toa que a palavra kósmos pode ser traduzida não só como mundo, universo, como também enfeite, adorno. S. Justino abre caminho rumo à Filosofia. Taciano combate este caminho em seu escrito “Discurso contra os Gregos”. Mais à frente,
dois teólogos também se debruçam sobre o assunto: Basílio e Crisóstomo. Neles está presente o debate do papel da formação grega, chamada de Paideia, no contexto formativo do jovem cristão.
Este modelo formativo é constituído por dois blocos de conhecimento: o trivium (gramática, lógica e retórica) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), que formam o estudante nas artes liberais, isto é, naquilo que é próprio do homem livre. As obras são: Carta aos Jovens de como tirar proveito da Literatura Pagã, de Basílio, e Sobre a Vanglória, de Crisóstomo. Pelos enunciados, já se percebe a posição que cada um deles tem sobre o assunto. Dos dois, a proposta de abertura é a que ganha mais aceitação na Igreja, que assumiu, como herdeira do mundo clássico em meio ao universo bárbaro, a formação liberal, sobretudo para os que queriam entrar nas fileiras sacerdotais.69
Diferentemente de Crisóstomo, que vê no estudo dos clássicos apenas alimento para a vaidade, além do uso das palavras para expressar obscenidades, o papel destes na formação cristã, na defesa de Basílio, é que eles podem auxiliar o jovem a ter critério. Em sua linguagem, usa a imagem da abelha que, mesmo pousando sobre todas as flores, sabe distinguir o veneno do mel.70
Tendo isto em mente, com a ruína do Império em 476, a Igreja assume a herança da Roma pagã como a espoliatio egyptorum71, que aconteceu com as bênçãos do próprio Criador. Nesta licença, a formação vai caminhar, ao longo da Idade Média, em dois certames: a formação escolástica, junto às catedrais, que visam a formação de filósofos, teólogos, canonistas e até mesmo clérigos, e uma formação monástica, que visava a educação do jovem à vida comunitária. A seleção de textos para compor as bibliotecas destas diferentes instituições tinha por critério seus objetivos, mas tanto uma como a outra se reportava à tradição pagã, às Escrituras e aos Padres.
Numa Europa de ambiente predominantemente rural, a formação dos padres nestes moldes, obviamente, não alcançou uma extensão universal. A confecção de livros era cara e rara, além de não parecer uma prioridade em tempos de reestruturação da civilização
69 LECLERCQ, J. O amor às Letras e o desejo de Deus. São Paulo: Paulus. 2012
70BASÍLIO MAGNO, Oratio ad adolescentes . Paris: Les Belles Lettres. 1935. p. 46. A citação segue-se em grego “ k
’
” Tradução: é inteiramente da imagem da abelha que devemos tomar partido destas obras. Elas não vão da mesma forma a todas as flores; além disso, àquelas sobre as quais voam, não tentam transportar tudo: pegam apenas o que é útil ao seu trabalho e, quanto ao resto, adeus!
ocidental frente às investidas bárbaras e suas antigas práticas pagãs. Fora de um contexto de paz, pensar em formação intelectual e teológica não entra nas listas de prioridades.
Neste contexto, a formação sacerdotal, segundo testemunho de Bento XIV, sempre existiu, não com o mesmo rosto, mas com a mesma finalidade. A respeito deste tema, cita o Segundo Concílio de Vaison, de 529, que diz:
É autorizado, a todos os presbíteros que estão instituídos nas paróquias, segundo o salutar costume que sabemos ter sido instaurado em toda a Itália, acolher em suas casas os jovens leitores não casados, alimentando-os como bons pais espirituais, a fim de instruí-los no canto dos salmos, nas leituras divinas e na lei do Senhor, para que desse modo preparem para si próprios dignos sucessores72.
Às vésperas da Idade Média, no Império carolíngio, esta instituição doméstica de ensino cresce e ganha força, com a determinação do Concílio de Tours, em 813, insiste que ninguém seja ordenado sem que tenha passado por essas casas de disciplina eclesiástica: “maneat in Episcopio, discendi gratia officium suum, tandiu donec possint et mores et actus ejus animadverti73”. Várias outras decisões conciliares ou sinodais apontam para a formação sacerdotal, quando consultados. Isso mostra que a instituição do Seminário como casa de formação não começa com Trento, muito menos com São Carlos Borromeu. A este coube a universalização desta medida, visto que a proposta de Lutero ganhou adeptos não só entre príncipes, como também dentre o povo mais simples e do clero. O cisma ocidental deu a força que nem as práticas pagãs, nem o confronto com os mouros conseguiram dar ao aspecto da formação dos futuros padres.
Formado este modelo de Seminário, com o propósito de combater o movimento protestante, logo a Igreja o coloca nas mãos de religiosos, sobretudo os inacianos. O plano de estudos jesuíta era formado pelos Exercícios Espirituais, as Constituições da Ordem, o Ratio Studiorum, o Trivium e o Quadrivium, Humanidades, Filosofia e Teologia. Com variações, este programa de estudo visava formar o inaciano para carregar consigo o maior volume de
72‹Bento. XIV, Synd. Dioec. vol. I, lib. V. cap. XI apud El Seminarista. Vergara: El Santisimo Rosario, 1905 p.09 "sucessoresPlacuit, ut omnes Presbyteri qui sunt in Parachiis constituti, secundum consuetudinem, quam per totam Italiam satis salubriter teneri cognovimus, juniores Lectores, quantoscumque sine uxore habuerint, secum in domo, ubi ipsi habitare videntur, recipiant; et eos quomodo boni patres spiritaliter nutrientes, Psalmos parare, Divinis lectionibus insistere, et in Lege Domini erudire contendant, ut et sibi dignos successores provideant, et a Domino proemia aeterna recipiant.”
73 Cf. Bento. XIV, Synd. Dioec. vol. I, lib. V. cap. XI. apud El Seminarista. Vergara: El Santisimo Rosario, 1905 p.09
informação possível, já que, devido aos problemas de deslocamento nas missões, livros eram, de modo geral, inviáveis.
A admissão do jovem, de acordo com Cum adolescentium aetas, deveria se dar em torno dos onze anos. A partir daí, começava o processo de formação que só terminaria por volta dos vinte e cinco anos. A base humanística é bem sólida, como pode se ver nos sermões de Antonio Vieira, em seus escritos e, de forma indireta, em sua defesa perante o tribunal do Santo Ofício. Cita de memória trechos da Sagrada Escritura, autores clássicos, Padres da Igreja, autores medievais, enfim, mas sempre em fundamentação de sua postura. Este poder de articulação das ideias é fruto de sua capacidade com os elementos fornecidos pela sua formação. A formação sacerdotal, neste período específico, contempla todos estes elementos da cultura recebida da antiguidade em função da construção do homem.
Portanto, a formação cristã, neste caso específico, para o sacerdócio ministerial, está ligada ao seu tempo e ao seu espaço. Neste período, a opção de formar padres está ligada a um modelo de perfeição cristã vindo da Idade Média, que esteja disposto a imitar a Cristo em todos os sentidos, buscando as coisas do alto e, no caso inaciano, fazer tudo ad maiorem gloriam Dei. Padre Malagrida é formado neste contexto, numa época que se vê herdeira de toda uma cultura ocidental milenar. Formar padres era formar homens que pudessem levar em si tal tradição, sobretudo humanística. Textos clássicos de autores pagãos, de Padres da Igreja, elementos das artes liberais e científicas, tudo isto deveria estar dentro da alma de um missionário que, dependendo do lugar de apostolado, não teria nada disso em mãos. Neste sentido, a formação jesuítica e até mesmo a iniciativa dos grandes Seminários se servirão bem deste modelo a partir do século XVI.
Entretanto, na contextualização do século XVIII, sobretudo no que se refere à relação Igreja-Estado, quando pretendemos situar a vida do padre Malagrida, a formação por ele recebida lhe proporciona um posicionamento no mundo. A efervescência cultural do Iluminismo e a hegemonia do governo pombalino marcam o conturbado pano de fundo onde se encontra o padre Gabriel Malagrida. Os jesuítas, simbolizados sob a figura de Malagrida, serão taxados pelo iluminismo pombalino como obscurantistas, como a razão do atraso de Portugal. É nesta perspectiva que este capítulo se justifica. De fato, quando os jesuítas chegam ao Brasil, trazem consigo esta concepção humanística herdada da Idade Média. Por isso, sem uma aproximação histórica, não é possível perceber os critérios de suas escolhas no processo de evangelização do Brasil.
Gabriel Malagrida viveu para as missões jesuíticas do Brasil Colonial. Seus biógrafos, conterrâneos, situados no mesmo período histórico, é que, segundo a compreensão em vigor do que se entende por “santidade”, farão as suas narrativas que além de apologéticas, buscam atestar a santidade de vida de Magrida.