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4. Lagringsform og spredningsmetode
Uma vez que já estabelecemos os pressupostos para a compreensão da relação dialógica entre a literatura hagiográfica e a teologia a partir da história. Referendando-se na obra de Jacopo, Legenda Áurea, que nos apresenta por meio de suas narrativas como que um modelo de vida de santos que podemos entrever pelos diferentes relatos da obra de literatura hagiográfica, queremos mostrar que, fruto do Brasil colonial, a obra de Matias Rodriguez parece conter inúmeros elementos que se identificam com os elementos propostos pela Legenda Áurea ao relatar a vida dos santos, de modo que nos é possível afirmar a existência desse modelo medieval e, por consequência colonial, brasileiro e que a vida ou a santidade do padre Malagrida por feita por Matias nessa mesma concepção.
Para começar essa aproximação, colhendo dos testemunhos de Ilário Govoni155 e de Victor Leonardi156 que afirmam de antemão o constante contato de Pe. Malagrida com grupos diferentes, sejam eles de indígenas ou de colonos, feitos em diversos locais do país, essa atitude nos revela um homem que vai ao encontro do povo e se deixa moldar pelo mesmo. De fato, o que parece ser feito por Malagrida é um verdadeiro incorporar-se à experiência espiritual do povo157 de modo que ele desperta para a prática da piedade popular, como por exemplo, à devoção a Nossa Senhora da Boa Morte158. Desde o período colonial e ainda hoje a América Latina reconhece o valor da piedade popular159. Não só a ausência do Estado de direito, mas também das estruturas da Igreja que permitissem a organização do trabalho jesuítico, e ao mesmo tempo, o imperioso apelo por anunciar a fé católica entre os colonos e gentios, faz com que missionários como Malagrida vejam nas devoções populares um eficaz método de evangelização.
Em Legenda Áurea, Jacopo apresenta uma preocupação com a etimologia dos nomes dos santos do qual se propõe a relatar a vida. Essa preocupação reflete uma tentativa de aproximar o leitor das personagens narradas. A técnica de dar um significa para o nome do santo, muito embora em Legenda Áurea esse significado nem sempre corresponda de fato, à etimologia do termo, tem como objetivo justamente facilitar a memorização, de modo a manter viva entre os ouvintes a narrativa da vida do santo. É quase que regra geral que todas as narrativas do Legenda Áurea comecem dessa forma160. Todavia, na obra de Matias Rodrigues, a narrativa da vida de Malagrida não começa assim. Aliás, nem é preocupação de Rodrigues aludir ao significa do nome de Gabriel Malagrida. Isso ocorre, sobretudo porque, como afirmamos, dar significado ao nome é trazer à memória a vida do santo. No caso de Malagrida, tal artifício não se fazia necessário uma vez que para Matias, a vida de Malagrida ainda era um fato recente, uma narrativa que ainda pertencia ao cotidiano.
O texto da obra Legenda Áurea foi, no início,
155 Cf. GOVONI, Ilário. Prefácio. In: RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp. 14-15.
156Cf. LEONARDI, Victor. Apresentação. In: RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp.17-27.
157Cf. GUTIÉRREZ, Gustavo. Beber em seu próprio poço: Itinerário espiritual de um povo. São Paulo: Edições Loyola, 2000. p. 44.
158 Cf. RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp. 126. 175-177.
159Cf.CELAM. Documento de Aparecida: Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino- Americano e do Caribe. São Paulo: Paulus, 2013. §258-265.
160 São exemplo: VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. pp. 162;177;480;778; entre muitos outros.
Uma coletânea hagiográfica que ficaria conhecida por Legenda áurea. Isto é, um conjunto de textos (legenda, literalmente “aquilo que deve ser lido”, também tinha o sentido de “leitura da vida de santos”) de grande valor (daí
áurea, “de ouro”) moral e pedagógico 161.
Ora, tal valor moral e pedagógico refere-se justamente a finalidade do texto. Havia por parte de Jacopo duas preocupações: fornecer material teologicamente correto, ou seja, sem o contágio de heresias para os sermões de seus confrades e, ao mesmo tempo, proporcionar um acervo que fosse também compreendido pelo povo, de forma agradável162, preocupação que Matias também tem. Vida do Padre Gabriel Malagrida possui linguagem acessível e está dividida em diversos e pequenos capítulos, como que pequenas perícopes da vida do lusitano.
Dessa forma, Matias Rodrigues parecia preocupado em narrar a vida de Malagrida nos moldes das narrativas hagiográficas que se ocupavam em instruir o povo a partir dos relatos, extraordinários ou não, da vida do santo. A hagiografia busca incutir os valores ou princípios cristãos da fé católica na medida em que quem tem contato com a literatura, vê uma cena cotidiana sendo convertida em um ensejo de aprendizado. É a transmissão de uma mensagem que impele à conversão cristã, à mudança de atitude, daí, portanto, seu valor moral e pedagógico.
Matias Rodrigues conta que, certa vez, em Recife,
Foram ao encontro a Malagrida que chegava, ainda fora da cidade, beijando a mão e as vestes e no meio das aclamações o conduzem ao templo principal chamado de Corpo Santo. Aqui o Ex.mo aguardava Malagrida, que feita a reverência, Malagrida de pés descalços ajoelhou-se ao altar, do lado do Evangelho, e o Bispo sentado no sólio, fez a pregação por uma meia hora ao povo que afluía. Com aquela singular eloquência de que era dotado, exortou que não desprezassem esta visitação de Deus, acorressem a ouvir a Palavra de Deus, amolecessem mais os endurecidos corações. (...) Feita a exortação e dirigindo-se a Malagrida ajoelhado, para que o ouvissem mais avidamente o cumulou com grandes louvores, e deu-lhe todo o poder sobre todos os
161 FRANCO, Hilário Jr. Apresentação In: VARAZZA, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 12.
pecados, para destruir a corrupção do povo, para chamar as ovelhas errantes ao caminho da salvação e inflamasse toda a virtude.
Como conclusão entregou-lhe a imagem de Cristo pendente da cruz com aquelas ardorosas palavras: “Apregoa o Cristo e o Cristo crucificado” 163.
Nesse trecho em que Malagrida é situado como um peregrino itinerante, aquele que vem em nome de Deus, e, portanto, já possuí fama de santidade 164, um fato comum que é a chegada em uma cidade, ganha novas cores. Embora ainda não milagreiro, o relato contém os recorrentes elementos do modelo hagiográfico que podem ser encontrados no Legenda Áurea, tais como a radical austeridade do santo que, viaja descalço e o reconhecimento da autoridade eclesiástica. Ora, sobre esse tema, Jacopo nos seus diversos relatos, nem sempre o trás de forma positiva. Muitas vezes a Igreja não reconhece as santas intenções ou a vontade de Deus nas atitudes do santo. Todavia, por várias vezes, também, a autoridade eclesiástica volta atrás, mesmo o papa, como foi no caso de São Domingos:
(...) Foi a Roma junto com Fulcro, bispo de Toulouse. Ali solicitou ao sumo pontífice Inocêncio que autorizasse a ele e seus sucessores instituir uma Ordem que se chamaria dos Pregadores. O pontífice mostrava-se reticente, quando de noite teve um sonho (...). Ao acordar, ele entendeu a visão e aceitou com alegria o pedido do homem de Deus165.
Em Legenda Áurea o santo é o homem de Deus, da mesma forma, o gesto de Malagrida de visitar Recife é visto pelo Bispo como uma “visitação de Deus166”, ou seja,
irremediavelmente o santo do modelo hagiográfico é alguém tão intimo de Deus que sabe e faz a Sua vontade.
Entretanto, nem mesmo para Malagrida a relação com a Igreja, enquanto instituição e representação em seus superiores, foi fácil. Mesmo porque, como veremos, o martírio de Malagrida se deu por meio de uma instituição que, pelo menos em tese, está ligada à Igreja de Roma, embora saibamos que não é assim no caso de Portugal e Espanha. De qualquer forma, o fato é que Malagrida, logo que se deu conta de sua vocação à vida religiosa, recebeu como
163 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp. 222,223.
164 Cf. Ibidem.
165 VARAZZA, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. pp. 616, 617. 166 Cf. RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p. 223.
resposta ao seu pedido de entrar na Congregação dos Padres Somacos a seguinte resposta: “Só posso responder com igual sinceridade. Devendo fazer grandes gastos para entrar na nossa ordem, não querendo acrescentar à tua família nova despesas, aconselho-te a procurar outra ordem religiosa167”. Só então, é que Malagrida irá decidir-se pela Companhia de Jesus. Matias diz que depois o padre superior que recusou-o arrependeu-se do que havia feito168.
Outro elemento e talvez um dos mais importantes que apareceram no trecho da obra de Matias supracitada em relação à chegada de Malagrida a Recife, é o povo. De fato, em todas as narrativas eles são as testemunhas oculares e muitas vezes os beneficiados ou os castigados pela ação de Deus e do santo.
Assim sendo, torna-se possível elencar alguns elementos básicos ou fundamentais presentes na maior parte das narrativas hagiográficas da Legenda, ou seja, o que compõe o modelo hagiográfico medieval-colonial. São eles:
a) Em primeiro lugar, o homem de Deus, o santo ou santa. A figura do santo é enaltecida não por elogios ou louvores ou mesmo pelos seus ditos, mas pelos seus gestos e atitudes. A narrativa hagiográfica é um relato onde as coisas acontecem, há ação constante onde o santo ou santa de Deus é quem “ocupa o papel principal”;
b) Depois, o que caracteriza o relato como hagiográfico é justamente a presença do extraordinário, milagroso ou não, ou seja, é aquele elemento que surpreende ou extrapola a realidade cotidiana, mas que se manifesta ou se dá a partir dela. Esses acontecimentos podem ocorrer com os santos, como por exemplo, quando são salvos milagrosamente da morte 169; mas também podem ocorrer com outros170. Podem ser feitos ou ocorridos bons, de benefício e salvação171, mas também podem ser de castigo e perdição172;
c) Segue-se como elemento fundamental na literatura hagiográfica a figura de uma autoridade ou instituição normalmente religiosa ou do estado que de alguma maneira, interagindo, corrobora ou opõe-se à atitude do santo;
d) O povo. Muito embora eles constituam elemento básico de uma narrativa hagiográfica, normalmente, o povo é tão somente aquele que presencia os fatos e a
167 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p. 68.
168 Cf. Ibidem.
169 Cf. VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 368. 170 Cf. Ib. p. 765.
171 Cf. Ib. p. 623. 172 Cf. Ib. p. 130.
interação entre o santo e a figura da autoridade ou instituição que se relaciona com ele. Em geral, o povo é aquele que sofre uma ação benéfica que os salva, orienta, ou é penalizado pela sua conduta pecadora.
Poderíamos até apontar outros elementos constituintes da literatura da vida de santos, mas aqueles que são recorrentes e relevantes na maior parte dos relatos, já foram aqui apontados.
Jacopo era frade dominicano, uma das ordens mendicantes do século XII e XIII. Isso significa que no cotidiano da vida, em contato direto com os leigos, utilizava-se mais das línguas vulgares do que do latim, e também de narrativas de fundo folclórico do que textos teológicos 173. A narrativa da vida de Malagrida é marcada pelo mesmo estilo. Aliás, como vimos, não há nesse período, nenhum discurso religioso para o povo que não seja de fundo devocional folclórico, ou seja, não há teologia.
Nessa perspectiva é que a necessidade da Legenda Áurea ser de fácil compreensão é justamente para combater as heresias de modo que a mensagem que os dominicanos e, de modo especial, Jacopo se preocupava em comunicar, fosse pelo povo, compreendida.174. De fato, as narrativas sobre a vida de Malagrida nascem na mesma necessidade “combativa”, tratam-se, portanto, de textos apologéticos de combate as “heresias”, ou ao menos aos erros que pudessem ser ditos da vida do padre Gabriel que o fizeram ficar esquecido na história, por assim dizer, oficial do Brasil175.
A Legenda Áurea está repleta de “exemplum”, que são relatos breves, dados como verídicos e feitos para serem inseridos em sermões de modo a transmitir uma lição, um ensinamento176. A história de Malagrida não pode ser considerada um exemplum, até por seu caráter longo, no entanto, seu relato biográfico está repleto de vários “exemplum” que permeiam sua narrativa e que poderiam ser utilizados com a mesma finalidade que os relatos de Jacopo:
(...) Certo homem muito pervertido a tal ponto se perdera loucamente de amor pela mulher que nem as frequentes admoestações dos párocos, nem avisos de amigos Enem as veementes vozes de pregadores puderam chamar
173 Cf. FRANCO, Hilário Jr. Apresentação In: VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 13.
174 Cf. Ibidem.
175 GOVONI, Ilário. Prefácio.In: RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp.14, 15.
176 Cf. FRANCO, Hilário Jr. Apresentação In: VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.13.
à razão e colocá-lo na linha, acerca de um costume muito perverso. (...) Morreu enfim a mui infeliz mulher (Até onde não leva os corações mortais, o ardor descontrolado da concupiscência!) ele, cego e com o amor louco que lhe restava exerceu sua luxúria e comunicação torpe e muito ardente com o cadáver da mulherzinha, antes que fosse enterrada. (...) Nem parou aí a invencível concupiscência do homem pervertido. Depois que o corpo foi enterrado, o ímpeto fez com que ela a arrancasse do túmulo para satisfazer sua concupiscência. Não realizou esta ignomínia somente uma vez, mas, para perpetrar mais vezes, depois disso. (...) Tinha-se passado um ano inteiro e quando abriram a urna sepulcral onde enterraram a mui infeliz mulher, para enterrar aí um novo cadáver, se precipitou ao triste espetáculo o torpe homem, em cujo peito ainda não se apagaram as chamas do fogo fátuo. Então, ao ser retirada da cova a horrível, amarelada e espantosa caveira, morada de vermes vorazes, espelho da vaidade e triste resto e espelho aos mortais, quem não choraria diante desta triste espetáculo? Quem não se espantaria? (...) O cego e torpe amante não se dobrou, não se espantou e nem se acalmou, mas ao contrário (ó coisa, nunca antes ouvida e que nem em futuro se haverá de ouvir!) ao se reacender a torpe chama arranca a terrível caveira e a leva pra casa e a guarda a seu prazer como um ídolo e com ela, de maneira que pode, renova por longo tempo o mui torpe e primeiro costume.(...) Por estes tempos Malagrida tomou conhecimento e falou tão pesadamente contra a luxúria e tão brilhantemente colocou diante dos olhos a monstruosidade do pecado que aquela pedra se deixou triturar. Apagou-se o vulcão e aquele cego iluminado pela Luz superior, lavou toda aquela torpeza endurecida por muitos anos com o sacramento da penitência e espontaneamente assumiu a penitência de acompanhar Malagrida nas suas expedições apostólicas e de se penitenciar para sempre. (...) Fez isso por seis meses, mas passado estes, caiu doente e entregou sua alma com não poucos indícios de eterna salvação177.
Nesse exemplum da obra de Matias Rodrigues, por exemplo, o tema da lição que é transmitida refere-se a prática da luxúria.
Ilario afirma que a hagiografia é um elemento cultural comum tanto para a elite quanto para o vulgo, diz que ela constitui-se em elo de união e cria a identidade de uma
177 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. pp. 240-241.
sociedade, embora possam co-existir diferentes maneiras de compreender e interpretar os relatos por ela apresentada 178. De fato, um dado cultural, muitas vezes quase que folclórico é assumido como parte integrante da identidade de uma sociedade, por isso é conhecido, quanto narrativa, por todos.
Diante das narrativas que podemos classificar de pertencentes à literatura hagiográfica, impõe uma questão que é justamente em relação aos relatos milagrosos, extraordinários ou, pelo menos, não ordinários da vida cotidiana da época. Em princípio, poderíamos classificar todos eles como fantasiosos ou mentirosos e reduzir toda a riqueza da literatura hagiográfica em lendas ou fábulas folclóricas. Todavia, não aceitar como verdade histórica os fatos narradas tanto na Legenda Áurea quanto na Vida do padre Gabriel Malagrida, não significa absolutamente não aceitar que há um certo tipo de verdade nessas narrativas. “Para Jacopo de Varazze, ‘verdadeiro’ não era a correspondência com a realidade externa, objetiva e concreta, e sim com tudo aquilo que escapava à esfera humana, que revelava o magnífico destino do santo simbolicamente anunciado por seu nome” 179. A narrativa da vida de Malagrida precisa
ser compreendida nessa mesma perspectiva, pois,
A verdade literária não se situa em sua exatidão histórica, mas na busca e compreensão do sentido da vida e do homem: isso não nega o belo, mas o integra (...) Na literatura, verdade e beleza não se excluem, mas integram-se e completam-se, em uma relação de afinidade (...) Isso não significa que é suficiente ser belo para ser verdadeiro. O que queremos afirmar é que, na literatura, a beleza e a verdade podem conviver, de tal maneira que uma não exclua a outra180.
De fato,
A obra de Jacopo de Varazze registrava a nova harmonia da dupla perspectiva, verbal e gestual. Com efeito, o Universo nascera através da palavra (‘faça-se a luz’ Gn 1,3; ‘no princípio era o Verbo’ Jo1,1), mas o ponto culminante da Criação dera-se com o trabalho manual de Deus (‘modelou o homem com terra’ Gn 1,7). O mundo conhecera a verdade
178 Cf. FRANCO, Hilário Jr. Apresentação In: VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. pp.14-15.
179 Ibidem. pp. 17.
180 MANZATTO, Antonio. Teologia e Literatura: Reflexão teológica a partir da antropologia contida nos
através da pregação de Cristo, mas tão importante quanto ela para definir a sociedade cristã foi seu gesto da divisão do pão entre os apóstolos e o rito decorrente de seu pedido para que aquilo fosse sempre repetido “em minha memória” Lc 22,19; 1 Cor 11, 24-25. Foi através de palavras e gestos que Deus encarnado propôs novos comportamentos e curou os homens individual (milagres) e coletivamente (salvação graças ao sacrifício da Cruz). Palavras e gestos multiplicados pelos verdadeiros seguidores de Deus, os santos, que pela sua própria pregação e seu próprio martírio reatualizavam palavras e gestos arquétipos181.
Malagrida não é uma exceção.
3.1.4 O Martírio em Vida do padre Gabriel Malagrida a partir do modelo