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Como vimos até aqui, há diversos elementos do modelo de santidade medieval- colonial presente na Legenda Áurea que está também contemplado na obra de Matias Rodrigues.

De fato, ele chega a afirmar que Malagrida

Empreendeu jejuns três vezes por semana e outros gêneros de mortificações (...). Às vezes, quando à mesa com os outros alunos de Retórica, era trazido algo de mais delicado recusava as trutas fluviais e peixes agraveis ao paladar que lhe eram apresentados. (...) Nas missões muito apropriadas para exercer seus ardores, conduzia sempre uma vida muito austera beirando até a morte, o que todos admiravam. Ninguém o podia imitar (...) 182.

181 Cf. FRANCO, Hilário Jr. Apresentação In: VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 21.

182 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p. 441.

Quase sempre ia de pé descalço em qualquer estação ou caminho que enfrentasse, o que na América são, pelo comum, muito longos e repletos de toda a fadiga 183.

Essa vida austera, descrita por Matias, que Malagrida levava também o é pelos santos da Legenda. Das mais diversas formas, os santos demonstram o desapego aos bens materiais e a austeridade no estilo de vida.

Gregório,

(...) por fim, quando perdeu seu pai, mandou construir seis mosteiros na Sicília e um sétimo em Roma, este em homenagem ao apóstolo Santo André, utilizando para tanto sua própria herança. Desfez-se então de seus trajes de seda, carregados de ouro e pedrarias, para vestir o humilde hábito de monge. Em pouco tempo alcançou tão elevada perfeição, que desde o início de sua conversão estava entre os melhores do mosteiro 184.

Quanto aos seus feitos, Rodrigues afirma:

Era tão industrioso e ardente o zelo de Malagrida que não só convertia os pecadores por um momento ao justo caminho da salvação, mas inventava para o futuro vários e muito úteis caminhos para que não caíssem de novo nos vícios quando ele saísse ou morresse de uma vida sem pecado quando não fossem tocados pelo veneno do pecado mortal 185.

E elenca: “Na Vila de Camutá, não longe do rio Amazonas, iniciou um seminário186”,

“fundou um seminário também no Maranhão187”, “elevou desde as fundações, no mesmo

Maranhão, um convento em que se recolhiam honestas mulheres cuidando de sua salvação188” entre muitas outras. Correspondentes em Legenda Áurea é o que mais se tem: “Enquanto

183 Ibidem p. 443.

184 VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.280-281. 185 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p.431

186 Cf. Ibidem. p. 433. 187 Cf. Ibidem. 188 Cf. Ibidem.

permaneceu em Acaia, o beato André fundou numerosas igrejas e converteu muita gente à fé de Cristo”189.

Entretanto, nosso olhar se volta agora para aquele ponto em que as duas obras, para além das correspondências possíveis que já demonstramos, falam-nos daquilo que é um elemento fundamental para que um homem ou uma mulher, na maioria das vezes, seja considerado santo ou santa: o seu Martírio.

Narra-se que já em Portugal,

O agente régio (...) ordenou que Malagrida e os (...) Padres fossem colocados em coches cercados de soldados armados e daí conduzidos no cárcere, como se fossem os autores da célebre conjuração: crime totalmente falso. (...) A verdadeira causa foi outra: o ódio implacável que tinham alguns potentados do Palácio contra a Companhia por suas razões particulares, pelas quais como para se vingar contra a Companhia se enfureciam para expulsá-la de Portugal, com os principais luminares da mesma Companhia, como o Padre Malagrida. Desejavam vexá-la com vergonhosas calúnias, denegrir e extinguir. Só assim poderiam conseguir suas vantagens, honrarias e satisfazer livre e tranquilamente sua cobiça190.

Malagrida é preso injustamente pelo Estado. De fato, sua narrativa possuí muitos elementos históricos verdadeiros visto que quando foi escrito, faziam poucos anos que esses fatos tinham ocorrido. Da mesma forma foi preso São Longino191, São Jorge192, São Cosme e São Damião193 e muitos outros.

O fato é que Malagrida acaba por ser transferido para o Tribunal da Inquisição, lá,

Os justíssimos Ministros do Tribunal da Fé ao conhecerem a acusação contra Malagrida (elaboradas pelos seus adversários) ficaram atemorizados pelo castigo não merecido, e (embora alguns Inquisidores e todos os das outras ordens religiosas entendessem corretamente e os juízes fossem bem dispostos) quando ouviram tantas testemunhas gritando contra Malagrida,

189 VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 62. 190 RODRIGUES, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p.400.

191 Cf. VARAZZE, Jacopo. Legenda Áurea: Vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.296. 192 Cf. ibidem p. 365.

pronunciaram a sentença de “autor e mestre de heresias” e o rebaixaram do estado eclesiástico, vestiram-no com “grande herege” e o entregaram ao braço secular. (...) Os seculares do Palácio e os Ministros da Suprema Corte seguindo os passos dos Inquisidores e levada e submetida a causa aos cumes do direito, condenaram falsamente Malagrida com morte ignominiosa, vestido com hábito de réu; precedido por um pregoeiro nas públicas praças da cidade de Lisboa; levaram-no até o Largo do Rossio, para ser estrangulado, seu cadáver queimado e reduzido a pó e cinzas, a fim de que não sobrasse alguma lembrança dele e de sua sepultura 194.

A morte injusta e trágica é o que cela a narrativa hagiográfica do padre Malagrida, muito embora Matias passe a dedicar vários capítulos ainda a mostrar que padre Gabriel morreu injustamente, resultado de falsas acusações e de calúnias. Naturalmente, como jesuíta, Rodrigues pretende mostrar o quanto sua Companhia foi percebida no regime pombalino e o quanto isso está ligado a condenação de Malagrida.

Porém, é inegável que sua narrativa situe a vida e os feitos de Malagrida dignos de veneração e que a partir do seu estilo de escrita hagiográfica que segue o modelo de santidade estabelecido para a época, Padre Gabriel Malagrida, deva ser chamado de santo.

194 RODRIGUEZ, Matias. Vida do padre Gabriel Malagrida. Belém do Pará: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010. p.401.

CONCLUSÃO

A pesquisa apresentada envolveu longo tempo de trabalho. Todavia, depois de tudo isso, o que temos é a certeza de que foi dada apenas uma palavra em relação ao resgate histórico da figura do padre Gabriel Malagrida. De fato, o primeiro passo consiste em compreender de forma crítica o contexto cultural da época colonial brasileira de modo a identificar na raiz de muitas das práticas econômicas, culturais e religiosas vigentes entre os colonos, aquilo que de alguma maneira provinha da Coroa portuguesa. Tal época histórica destaca-se como um período peculiar em que em 300 anos, o distanciamento físico da Metrópole, contribuiu para que o Brasil pouco ou nada mudasse em sua maneira de organização.

Na ausência de grandes estruturas de controle eficiente do Estado e com grande presença de missionários jesuítas, a Companhia destacou-se em sua atuação em terras brasileiras na medida em que, por muito tempo, era tão somente ela, a Igreja, a única, por assim dizer, “fonte” de civilização, ou melhor, a única instituição organizada. Não que o Estado não tivesse uma organização, mas a tinha no sentido de exploração, de controle para que a riqueza não se perdesse por aqui.

A presença de Malagrida, de odores de santidade, pelas terras brasileiras não passou despercebida. Logo depois de sua morte, narrativas de sua vida como santo foram escritas. Quando, no segundo capítulo, investigamos as diversas biografias que existem sobre a sua vida, não tencionamos defender ou não a sua santidade. Buscamos compreender o conceito de santidade por trás das narrativas. De fato, essa concepção ao longo dos anos possa por um processo de maturação, em que o paradigma de santidade se modifica.

Nessa perspectiva, nossa discussão em torno da problemática da santidade, o terceiro capítulo, nos leva a crer que há um modelo de santidade medieval colonial vigente na época, em que as narrativas de Malagrida foram constituídas, sobretudo a de Matias Rodrigues, em que esse modelo está em função de uma ideia que se quer propor. Diante da perseguição contra os jesuítas e a paixão de Malagrida, a pintura do fato com as cores da causa apologética torna-se consequência lógica diante dos últimos acontecimentos. Com estas referências é que percebemos a formação da mentalidade religiosa do século XVIII, suas referências de santidade herdadas da Idade Média, a relação Igreja-Estado em Portugal e Brasil face ao

fenômeno Iluminista que estão presentes também nos aspectos da vida e sobretudo, na figura de Malagrida.

A partir da investigação de suas biografias, sobretudo da obra Vida do padre Gabriel Malagrida de Matias Rodrigues, é que encontramos um esquema narrativo proposto pelos seus biógrafos que em muito se enquadra com o estilo hagiográfico, um estilo modelo da literatura hagiográfica medieval existente na obra de Varazze, Legenda Áurea.

Esse esquema de modelo de santidade da literatura hagiográfica é formado pelo santo propriamente, pelo fato extraordinário, ou seja, aquele que foge do que é o ordinário, do cotidiano da vida, mas se manifesta a partir dele, uma autoridade, instituição ou outro elemento que interagem, normalmente com o santo ou santa e, por fim, o povo que testemunha o desenrolar narrativo. A ideia não é destruir as biografias já existentes, nem desmitificá-las, mas demonstrar a interpretação dos fatos por parte dos seus contemporâneos e aproximar tais narrativas para entrever que é possível uma interpretação a partir da hagiografia que permita situar a história de Malagrida de modo a compreendê-la na perspectiva de homem santo do período colonial. O relato de um personagem que possibilita uma interdisciplinaridade.

A figura de Malagrida e a de Marquês de Pombal, assim como a da Coroa e da Igreja, da forma como relata Matias Rodrigues, sintetizam em si elementos da Revelação presentes no Evangelho, sobretudo no desenrolar das escolhas feitas pelos personagens: Jesus Cristo, Império e Templo, Pilatos e a Igreja nascente. E tal representação não se pode entender como uma cópia ou um plágio, mas como leituras a partir de um paradigma, que é a Revelação, pois se o homem é um ser que sai em busca, é por não ter as respostas em si mesmo. E a resposta é dada, desde sempre, pois Deus não muda.

Utilizando o termo “figura” se entende algo como uma marca impressa, um “tipo” (typos), nuança já percebida nas escolas exegéticas de Alexandria e de Antioquia. Esta categoria teológica está presente nos personagens da narrativa. Malagrida segue o padrão de Cristo, enquanto Pombal, do Anticristo, no palco que é o mundo. Nos texto, há personagens dos quais ninguém pode ficar sem tomar partido. Ninguém é neutro. O Cristo ou o Inimigo. Tais características são presentes na leitura da História. Os mártires são typoi de Cristo.

A ênfase de mostrar o nível de formação de Malagrida ilustra que ele não era um tolo, alguém incapaz de tomar partido ou decisões, de se posicionar diante do cenário eclesial. Sua postura diante da Igreja, tanto em favor de indígenas quanto de colonos abandonados à própria sorte, e diante do primeiro-ministro, não foram acidentais.

Isto nos ajuda a compreender o modelo antropológico presente num sistema de pensamento tipológico. O homem, não sendo compreendido um ser dividido em corpo e alma, mas numa tensão entre pecado e graça, precisa se posicionar no mundo. Seu posicionamento é externado em atitudes: missão, Inquisição, humanismo, acepção, diálogo, intolerância. Neste aspecto, evangelizar é ajudar a se posicionar num mundo sempre em conflito de mudanças. Nisto, Malagrida foi coerente em suas opções. Neste ponto se entende que o ser humano não muda. Sempre precisa de salvação. Neste ponto se entende também a imutabilidade de Deus: ele sempre oferece salvação.

Tudo isto nos leva a compreender uma dimensão da Teologia, num diálogo constante com as outras áreas do conhecimento, num sentido de alargamento da compreensão de si mesma. Ler uma obra como a de Matias Rodrigues, que por seu estilo setecentista pode parecer um pouco carregada aos leitores do século XXI, abre um leque para a investigação teológica: a interpretação da hagiografia como gênero literário próprio possibilita ver a continuidade da tradição interpretativa da Revelação na história da Igreja, isto é, ler um texto religioso como literatura trouxe elementos que ajudam a entender melhor a própria Teologia. Deus não muda seu desejo de salvação. O homem não muda em sua necessidade de ser salvo. São dois paradigmas impressos e projetados em tudo o que fazem, pelo fato de tais obras projetam as estruturas de seus criadores: as atividades do homem, neste caso, manifestam o desejo de salvação (às vezes às apalpadelas, como quem anda no escuro) e, ainda, a salvação oferecida por Deus de forma gratuita, refletida na história.

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