• No results found

Interação face a face Interação a distância (espaço-temporal)

Planejamento simultâneo ou quase simultâneo à produção

Planejamento anterior à produção Criação coletiva: administrada passo a passo Criação individual

Impossibilidade de apagamento Possibilidade de revisão

Sem condições de consulta a outros textos Livre consulta

A reformulação pode ser promovida tanto pelo falante como pelo interlocutor

A reformulação é promovida apenas pelo escritor

Acesso imediato às reações do interlocutor Sem possibilidade de acesso imediato

O falante pode processar o texto, redirecionando-o a partir das reações do interlocutor

O escritor pode processar o texto a partir das possíveis reações do leitor

O texto mostra todo o seu processo de criação O texto tende a esconder o seu processo de

criação, mostrando apenas o resultado Fonte: FÁVERO, ANDRADE & AQUINO, 2005, p. 74.

Ao observar os textos produzidos pelos alunos, percebe-se que as condições propostas acima foram em grande parte contempladas, pois houve:

No texto oral:

• interação face a face;

• planejamento simultâneo à produção;

• criação coletiva, que assim como a interação face a face, deu-se a partir do debate inicial sobre o tema proposto;

• impossibilidade de apagamento, pois as opiniões eram gravadas em fitas de áudio, à medida que o aluno falava;

• sem condições de consultas a outros textos; • acesso imediato às reações do interlocutor;

• o texto mostra, em si, todo seu processo de criação.

No texto escrito, foram encontradas as seguintes condições:

• interação a distância, pois os alunos retomaram algumas idéias expostas no debate coletivo;

• planejamento anterior à produção, pois por se tratar de um texto escrito, os alunos tinham condições de planejá-lo antes de redigir uma versão final;

• criação individual;

• possibilidade de revisão tanto no momento quanto após a escritura do texto; • livre consulta, uma vez que os alunos poderiam buscar outros conhecimentos

acerca do tema em debate;

• a reformulação é feita apenas pelo escritor, pois somente o aluno que escreveu o texto poderia reformulá-lo;

• sem possibilidade de acesso imediato.

Para efeitos desta investigação, acredita-se que, além dessas condições, é de grande relevância que sejam realizadas também no ambiente escolar operações de transformação do texto falado para o texto escrito, uma vez que esse tipo de transformação é “imprescindível para um melhor domínio da produção escrita que se tem evidenciado muito problemática entre nossos estudantes”. (FÁVERO, ANDRADE & AQUINO, 2005)

Reiterando o que fora exposto no parágrafo anterior, os autores acima citados pontuam que:” a aplicação de atividades que envolvem a organização de textos falados e escritos permite que os alunos cheguem à percepção de como efetivamente se realizam, se constroem e se formulam esses textos”. (p. 83)

Estudos realizados por Marcuschi (2007), tanto no âmbito da linguagem oral quanto da escrita reforçam e ampliam as idéias apresentadas pelos autores acima destacados. Marcuschi (2007) denomina essas atividades como sendo atividades de retextualização, nas palavras do autor, a retextualização consiste na passagem do texto falado para o texto escrito e destaca que:

não é um processo mecânico, já que a passagem da fala para a escrita não se dá naturalmente no plano dos processos de textualização (...) é um processo que envolve operações complexas que interferem tanto no código como no sentido e evidenciam uma série de aspectos nem sempre bem compreendidos da relação oralidade-escrita. (p. 46)

Apoiando-me nos estudos realizados por Fávero, Andrade & Aquino (2005); Marcuschi (2007) e Koch (2005, 2006) foi iniciada em março de 2007 esta pesquisa.

A primeira atividade de produção textual realizada (com a turma 2 do ProJovem de Brazlândia) aconteceu no dia 20/03/2007. Essa atividade foi gravada em fita de áudio, num gravador da marca Panasonic-VAS-RN-305 (lado A), e a duração das falas dos alunos variou entre 1 e 2 minutos (aproximadamente).

Nesse dia, foi realizada junto a essa turma uma discussão acerca do aborto. O tema foi introduzido por mim (professora-pesquisadora) que procurei contextualizá-lo no tempo e no espaço. Em seguida, foi lançada a seguinte questão aos alunos: Qual a sua opinião sobre o aborto? Nesse instante, todos os alunos começaram a falar ao mesmo tempo, e eu, então, tive que intervir, solicitando que respeitassem a vez de cada participante falar. Dessa forma, tivemos que organizar o turno3 das falas para que pudéssemos entender e compreender

melhor as contribuições que estavam sendo colocadas naquele momento.

Depois desse debate, pedi aos alunos que produzissem um texto de opinião4 (evento

de letramento) sobre o aborto. Enquanto eles escreviam, eu ia gravando a opinião que cada um possuía acerca do tema em debate (evento de oralidade). Para gravar a opinião dos alunos, eu pedia a cada estudante que deixasse de escrever e me acompanhasse até o lado de fora da sala, a fim de que pudéssemos ter uma maior privacidade, e para que ele se sentisse mais à vontade para expor sua opinião.

Quando da realização das produções orais individuais, buscou-se a não interferência do interlocutor (a professora pesquisadora, no caso, sou eu) e, por isso, há um grau menor de dialogismo, já que a intenção era o desenvolvimento do tópico somente por um dos interlocutores, visando ao desenvolvimento do texto por esse falante, em duas situações distintas: uma primeira que foi a elaboração oral de um texto de opinião sobre o tema abordado, e uma segunda que foi a construção de um texto escrito explorando o mesmo tema. Essa atividade teve como objetivos:

1. Fazer com que os alunos falassem sobre um tema polêmico como o aborto sem medo do julgamento que os demais alunos, que estavam na sala, poderiam fazer.

2. Perceber se, a discussão coletiva interferia nas produções: oral e escrita (individuais) sobre o aborto.

3. Perceber se as estratégias utilizadas no texto oral também eram utilizadas no texto escrito.

A partir das construções realizadas pelos alunos, passa-se agora à análise das produções orais estabelecendo uma comparação com os textos escritos. Para isso, será utilizado um quadro comparativo entre os textos das duas modalidades, partindo do modelo de retextualização do texto oral para o escrito, proposto por MARCUSCHI (20075), bem como um diagrama das principais ações que poderão ocorrer nessa passagem. Além dessa sugestão de

3O turno é definido como a produção de um falante enquanto ele está com a palavra, incluindo a

possibilidade de silêncio. Na conversação, há uma alternância dos participantes, ou seja, entre os sujeitos existe uma troca de papéis entre falantes e ouvintes. (FÁVERO, ANDRADE & AQUINO, 2005)

4 Texto de opinião: texto em que o redator expõe sua opinião sobre um determinado tema. 5 A proposta de análise sugerida por Marcuschi (2007) será adaptada a este trabalho, bem como as

análise e desse modelo sugerido por Marcuschi (2007), também serão consideradas aqui, as estratégias encontradas no texto falado colocadas por Koch (2005). No entanto, é relevante ressaltar que as estratégias sugeridas por Marcuschi (2007) e as estratégias oferecidas por Koch (2005) serão adaptadas à proposta desta pesquisa.

Em seus estudos sobre a construção do texto falado, Koch (2005) aponta algumas estratégias que são comuns a esse tipo de processamento textual. Dentre as estratégias possíveis de ser encontradas num texto falado, a autora dá especial atenção à inserção e à reformulação que pode ser retórica ou saneadora. Para efeitos desta investigação, essas estratégias serão chamadas aqui de: estratégia de inclusão (para as estratégias de inserção) e a estratégia de reformulação (será chamada de estratégia de reforço - para o uso de repetições e reparadora - para a estratégia saneadora).

Em relação à inserção (neste trabalho, denominada de inclusão), a autora (op.cit.) afirma que essa estratégia parece ter a macrofunção cognitiva de facilitar a compreensão dos parceiros. O locutor suspende temporariamente o tópico em andamento e insere algum tipo de material lingüístico, com o intuito, entre outros de: (1) introduzir exemplificações ou justificativas; (2) fazer alusão a um conhecimento prévio; (3) apresentar ilustração ou exemplificações; (4) introduzir comentários metaformulativos. (Koch, 2005, p. 84-85)

Além dessas características, a inserção (inclusão) para a autora (op.cit.) pode apresentar uma função interacional capaz de despertar ou manter o interesse do parceiro. Para isso, o locutor recorre às seguintes estratégias: (1) formulação de questões retóricas, (2) introdução de comentários jocosos; (3) suporte para a argumentação em curso; (4) introduz ressalvas.

Quanto à reformulação, essa pode ser classificada em saneadora ou retórica. A reformulação retórica (ou estratégia de reforço) visa retomar alguns elementos já expressos no texto (Koch, 2005), se realiza basicamente através das repetições e parafraseamentos e tem como função primordial reforçar a argumentação. Esse tipo de estratégia fundamenta-se basicamente pelo seu aspecto interacional.

Já a estratégia saneadora (ou reparadora) ocorre através de correções ou reparos, os quais acontecem pela necessidade de o locutor solucionar imediatamente algum problema na sua produção lingüística, por ele mesmo detectado (koch, 2005). No segundo caso, quando se tem uma estratégia reparadora que ocorra através de paráfrases saneadoras ou de repetições, essas são provocadas pelo interlocutor.

O referencial teórico oferecido por Koch (2005) é de grande significado para este estudo, visto que ao observar os textos orais produzidos pelos alunos, encontramos algumas

estratégias apontadas pela autora. Uma das que aparece com muita freqüência é a repetição. Entende-se que, dentre as várias possibilidades, as repetições encontradas nos textos orais dos alunos têm como principal função reforçar seus argumentos.

Além da observância desse referencial, serão consideradas algumas ações, traçadas na passagem do texto oral para o escrito, sugeridas por Marcuschi (2007) que podem ser descritas a partir do diagrama a seguir:

TRANSCRIÇÃO