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A figura 5 traz uma fotografia do rio Sapucaí no município de Paraguaçu em 1958.

Figura 5 - Rio Sapucaí na cidade de Paraguaçu. 1958. Foto de Tibor Jablonsky O atual município de Paraguaçu, área desse projeto de pesquisa, abriga em sentido amplo cinco rios, sendo que dois deles também aparecem na cartografia ora como rio ora como ribeirões: o rio Machado, o rio Verde, o rio Dourado e o rio Ouvidor, todos tributários do rio Sapucaí, que também passa por este território.

Quando a antiga freguesia do Carmo da Escaramuça71 tornou-se município em 1911 (COSTA, 1970), emancipando-se do município de Machado, e adotou a toponímia de Paraguaçu, que em tupi significaria “mar grande”, muitos a atribuíram à fartura das águas fluviais no município.72

O município de Paraguaçu insere-se no baixo vale do Rio Sapucaí.

Acredita-se que o nome de Sapucaí dado ao rio seja uma referência à árvore sapucaia, abundante em seu vale, e hoje em risco de extinção73.

O rio Sapucaí recebeu este nome pela abundância de sapucaias existentes em suas margens. Sapucaias são

71 Washington Peluso Albino de Souza no texto “A Lição das Vilas Mineiras e Cidades de

Minas Gerais”, de 1977, informa que a origem do povoado do Carmo da Escaramuça se deve à luta entre os ciganos e a população local, hipótese que não se confirma uma vez que o povoado já possuía denominações anteriores como Arraial do Carmo do Douradinho (Mapa da População de 1839); Carmo dos Tocos; e só veio a ser designada oficialmente como Carmo da Escaramuça quando de elevação à freguesia em 1840. O Mapa de População de 1839 é do fundo do Arquivo Público Mineiro e as demais informações são de Waldemar Barbosa (1971).

72 Com a instituição do Estado laico após a Proclamação da República (1889), houve uma

tendência de substituição da toponímia de conotação religiosa pela de referência às línguas indígenas. Este movimento é chamado por muitos de descristianização da toponímia mineira. (MATA, 2002)

73 O Dicionário Histórico Brasil Colônia e Império (2002) traz a expressão sapucaia como

“denominação dada a uma pequena cadeia, que não possuía janelas.” (BOTELHO; REIS, 2002, p. 169)

árvores da família das lecticidáceas74. Produzem frutos

oleosos e comestíveis, semelhantes à castanha do Pará. Sua madeira é dura, pesada e resistente, usada para dormentes, na construção civil e naval. Em tupi ïasapuka‟í significa “fruto que faz saltar o olho”, que “grita”, que “canta”. (BERALDO et al, 1996, p. 22)

No poema de Joaquim José Lisboa, de 1806, intitulado “Descripcão curiosa das principais produções, rios e animaes do Brazil, principalmente da Capitania de Minas Geraes”, e reeditado pela Fundação João Pinheiro, em 2002, há a seguinte nota sobre a fruta:

A sapucaia é um pouco menor do que um coco, mas muito rija; tem dentro amêndoas de tão excelente gosto, que se assemelham muito às amêndoas de Portugal. (LISBOA, 2002, p. 59)

A figura 6 traz ilustrações sobre a árvore e seu fruto.

Figura 6 - Árvore Sapucaia. Fonte: Lorenzi. 2001

Eurico Teixeira, autor de “Frutas do Brasil”, de 1954, traz o seguinte elogio à sapucaia:

Não vou cantar em hinos o valor da sapucaia, mas ... seu fruto é todo aproveitado: a caçamba é marmita, pote, vasilha, enfim: a polpa é comível, medicinal, altamente alimentícia; as sementes ou castanhas-de-sapucaia têm bom paladar, dão magnífico óleo, são alimento substancial; a

74 Segundo Lorenzi, “a sapucaia (lecythis pisonis Camb.) tem ainda outros nomes

populares como castanha-sapucaia, sapucaia-vermelha (ES), cumbuca-de-macaco, marmita de macaco, caçamba-do-mato. (LORENZI, 2000, p. 141)

folha em cinzas emprega-se como bom adubo; as raízes têm aplicação terapêutica. (TEIXEIRA apud SILVA, 1996, p. 224)

Além do rio Sapucaí, há, como já dito, mais quatro rios que cortam o município de Paraguaçu.

O rio Machado, por percorrer território da comunidade diretamente atendida pela Fazenda-Escola Fundamar, tem um capítulo exclusivo já apresentado nesta dissertação. Neste território ele foi represado pelo lago de Furnas (1957), já em meados da década de 60.

O rio Dourado nasce no município de Espírito Santo do Dourado (MG) e encontra-se com o rio Sapucaí, em sua margem esquerda, no limite entre o distrito de Guaipava, em Paraguaçu, e o atual município de Machado.

Segundo o pesquisador machadense, Ricardo Rebello, a Câmara da Vila da Campanha da Princesa, respondendo em 1825 a quesitos do Conselho do Governo, informou haver na Freguesia do Douradinho [hoje distrito de Douradinho, em Machado], os rios Dourado e Machado, que “entram” no Sapucaí. E acrescentou: “os quais são todos pequenos, e só navegáveis p.r pequenas canoas, e na maior parte bordados de matos”. (REBELLO, 2006, p. 877)

O “Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes”, de 1927, no mapa do município de Paraguaçu, indica a confluência do rio Dourado com o rio Sapucaí no limite entre Pouca-Massa, antiga denominação de Guaipava, e o distrito de Douradinho, já então pertencente ao município de Machado.

Neste mesmo mapa, o rio Ouvidor encontra-se com o rio Sapucaí, na margem esquerda deste, na divisa entre o distrito da cidade de Paraguaçu e o distrito de Pouca-Massa, hoje, Guaipava.

É possível também observar o trecho navegável do rio Sapucaí, a montante da sede do município, até a cachoeira de Cubatão. O rio Sapucaí era o marco de divisão administrativa entre Paraguaçu e os municípios vizinhos de Elói Mendes a leste, e de Três Pontas e de Campos Gerais, a norte. Identifica-se também o traçado da Estrada de Ferro Sul-Mineira, que já havia incorporado à época, à Estrada de Ferro Muzambinho, contígua ao leito do rio Verde e ao do rio Sapucaí. Os temas das estradas de ferro e da navegação serão abordados em outros momentos deste mesmo capítulo.

No mapa de 1927 foi assinalada a posteriori pela pesquisadora a foz do rio Verde no rio Sapucaí, na divisa entre o município de Paraguaçu e de Três Pontas. E ainda o Porto de Cubatão75, ponto final da navegação do rio Sapucaí, em função da cachoeira homônima, e ainda a ponte sobre o rio em Pouca Massa (hoje Guaipava), temas ainda a serem desenvolvidos nesta dissertação.

A Figura 7 traz o mapa referido.

75 O Dicionário Toponímico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de

Figura 7 - Mapa do Município de Paraguassu. Album Chorographico Municipal. Secretaria de Estado da Agricultura de Minas Gerais. 1927

O rio Verde encontrava-se com rio Sapucaí, na margem direita deste, no distrito de Pontalete, pertencente a Três Pontas, município vizinho a Paraguaçu. O rio Sapucaí seguia até o rio Grande, no então distrito de São José da Barra do município de Alpinópolis. Com o represamento do rio Grande pela Usina Hidrelétrica de Furnas em 1957, o lago também atingiu a foz do rio Verde no Sapucaí em Pontalete.76

A figura 8 traz o Mapa de Viação de Minas Gerais de 1928, onde foram assinaladas a posteriori pela pesquisadora a foz do rio Verde no Sapucaí e a foz do Sapucaí no rio Grande.

76 A prospecção do desenho desse território conta com uma fonte preciosa, que é o

“Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes” de 1927, primeira representação cartográfica da República, editada pelo Serviço de Estatística, sob a coordenação de Teixeira de Freitas (1890-1955), responsável pela criação do Instituto Nacional de Estatística, atual IBGE, em 1934. Este Album traz a divisão administrativa do estado anterior a 1923.

A figura 9 traz fragmento do mapa do Estado de Minas Gerais, de 1953, antes do barramento de Furnas. Nele se vê a foz do rio Sapucaí no rio Grande, na divisa entre os municípios de Passos e de Guapé. O distrito de São José da Barra, então pertencente a Passos, foi incorporado em 1938 ao município de Alpinópolis, quando de sua criação, mas, curiosamente, não figura no mapa de 195377. Nele foi assinalada a posteriori pela pesquisadora, a foz do rio Verde no município de Paraguaçu, e ainda a foz do rio Sapucaí no rio Grande, que viria a ser submersa por Furnas naquela mesma década.

77 São José da Barra era distrito do município de Passos por lei estadual n. 2.260 de 30

de junho 1876. Foi incorporado ao município de Alpinópolis por decreto-lei n. 148 de 17 de dezembro de 1938. Tornou-se município pela lei n. 12.030 de 21 de dezembro de 1995. (COSTA, 1997). Alpinópolis, por sua vez, foi distrito criado com a denominação de São Sebastião da Ventania, pela lei estadual nº 2, de 14 de setembro de 1891. Pertenceu ao município de Carmo do Rio Claro, voltando novamente a Passos, até que em 1901, criando-se o município de Vila Nova de Resende, foi integrado nele. Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, o distrito de São Sebastião da Ventania figura no município de Vila Nova de Resende. Pela lei estadual nº 622, de 18 de outubro de 1914, o distrito de São Sebastião da Ventania passou a denominar-se Alpinópolis. Nos quadros de apuração do Recenseamento Geral de 1º de setembro de 1920, o distrito de Alpinópolis (ex-São Sebastião da Ventania) figura no município de Vila Nova de Resende. (FERREIRA, 2010)

As fontes apresentam várias interpretações sobre o número de rios que cortam o município de Paraguaçu.

O “Annuario Histórico Chorographico de Minas Gerais”, datado de 1918, e organizado por Nelson de Senna, traz na descrição física do município, quatro rios e vários ribeirões:

O território é em geral plano, se bem que apresente serras elevadas, até 1.200 metros de altitude, como as da Matinada e do Chapeo de Sol, cortando o município vários rios, quaes o Sapucahy, Verde, Machado e Dourado, e alguns ribeirões (dos Porcos, Carmo, Macaco, Açude, Chico Calado, Ouvidor, da Matta, Córrego Fundo, Macuco, etc.) (SENNA, 1918, p. 1048)

Almanaque intitulado “Paraguassu”, presumivelmente datado de 1923, informa:

Os principaes cursos de água que deslisam no município são: o Rio Sapucahy, que recebe, em território do município, o Dourado e o Ouvidor, e o Rio Machado. A uma légua da cidade o Sapucahy forma uma bella cachoeira denominada Itaipava78. (PARAGUASSU, [1923 ?], s/p)

O Dourado e o Ouvidor aparecem como rios no “Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes”, de 1927. Mas em textos mais recentes, ambos figuram como ribeirão. No Almanack Sul Mineiro, para 1874, de Bernardo Saturnino da Veiga, o Dourado aparece com a denominação de Douradinho.

Victor da Silveira, no Almanaque “Minas Geraes em 1925” traz a seguinte descrição sobre os rios do município de Paraguassu:

RIOS – Os principais são: o Sapucahy, que recebe o Dourado, Ouvidor e Machado, formando, a uma légua da cidade, uma bella cachoeira denominada Itaiapava [sic]. (SILVEIRA, 1926, p. 1000)

78 Não identificamos a denominação Itaipava em nenhuma das cachoeiras do rio Sapucaí

em Paraguaçu. No “Annuario Estatístico de Minas Geraes” de 1924, editado pela Secretaria de Agricultura do Estado é apenas mencionada a Cachoeira da Escaramuça. Os pesquisadores de Paraguaçu referem-se, entretanto, à Cachoeira do Cubatão. A proximidade de Cubatão a Escaramuça sugere tratar-se da mesma cachoeira.

O Almanaque “Brasil – Município e Comarca de Paraguassu [...]” de 1939 refere-se apenas a dois rios no território:

O município é banhado pelos rios Sapucaí e Machado, ambos navegáveis para embarcações de pequeno calado e bastante piscosos, neles se encontrando [...] variedades de peixes como dourados, jaús, piracanjubas, mandis, traíras, bagres, surubis, cascudos e piabas. (BRASIL [...], 1939, s/p)

O Catálogo Telefônico de 1950 traz a seguinte imagem sobre o território do município de Paraguaçu:

O Município tem a forma de uma península, cercado de rios, exceto um trecho de 2km, e que são: Sapucaí, Dourado e Machado, que nos separam dos municípios de Campos Gerais, Três Pontas, Eloi Mendes, Machado e Alfenas. Existe um riacho – Ouvidor.79