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A referência ao quilombo do Sapucahy é freqüente na literatura sobre o tema, sendo, contudo, ainda controversa sua localização. Clóvis Moura no livro “Os quilombos e a rebelião negra”, de 1987, inclui o quilombo do Sapucahy entre os nove principais quilombos de Minas Gerais.120

118 Antonio José da Franca e Horta foi governador de São Paulo entre 1802 e

1808.

119 O Sul de Minas será até a ditadura de Getúlio Vargas (1937) área de litígio

entre Minas Gerais e São Paulo. A questão foi definida pela Lei Federal n. 375 de 07 de janeiro de 1937. Seu único artigo diz: “Art. 1º Fica approvado o convenio sobre limites celebrado em Bello Horizonte, a 28 de setembro de 1936, entre os Estados de São Paulo e Minas Geraes, e ratificado, respectivamente, pelas leis n. 2.694 e 115, de 3 de novembro do mesmo anno, dos referidos Estados.”

120 Os quilombos relacionados pelo autor são apresentados na seguinte ordem:

Ambrósio (quilombo Grande); Campo Grande; Bambui; Andaial, Sapucaí, Careca, Morro de Angola, Parnaíba, Ibituruna. (MOURA, 1987, p. 39)

A historiadora Carla Anastasia, no livro “Vassalos Rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira metade do século XVIII”, em que trata dos motins de 1746 e 1751, levanta, contudo, a hipótese de que a expressão quilombo talvez tivesse significado mais amplo, do que uso corrente contemporâneo. E sugere que a expressão quilombo do Sapucahy referia- se na realidade aos motins do Sapucahy.

Diz a historiadora:

Como a revolta da Campanha aparece várias vezes nos documentos como se fora um quilombo, a expedição [de Gomes Freire de Andrade] pode ter tido como alvo o reduto dos revoltosos nos barrancos do rio Sapucaí. (ANASTASIA, 1998, p. 120)

E esclarece:

O termo quilombo, não obstante a especificidade que hoje lhe é atribuída foi usado por autoridades portuguesas para denominar levantamentos, que, apesar de contarem com a presença de brancos, mostravam-se totalmente fora de controle metropolitano, da mesma, forma que, por exemplo, as revoltas dos escravos. (ANASTASIA, 1998, p. 120)

A partir dessa hipótese, as informações aqui apresentadas, sobre os quilombos do Sapucahy, talvez refiram-se também aos motins do Sapucahy.121

O Arquivo Público Mineiro (APM) dispõe de códices referentes aos combates ao quilombo do Sapucahy. O primeiro é a carta de 03 de dezembro de 1751 sobre o levante provocado pelo chefe do quilombo Sapucahy em que foram expulsos os donos das lavras. Este códice ainda inclui a petição para que sejam capturados os alevantados.122

121 O “Vocabulario Portuguez Latino” (1712-1721) não traz o verbete “quilombo”.

Disponível em: <http:

http://www.ieb.usp.br/online/dicionarios/Bluteau/buscaDicionarioLetra.asp?vletra=m> Acesso em 21 dez. 2010.

122 Revista do Arquivo Público Mineiro. Repertório de fontes sobre a escravidão. Anno

Segundo esta carta, o levante teria ocorrido “no districto de São Gonçalo do Rio Verde, junto ao Ryo Sapucahy”.

O segundo documento, datado de 14 de novembro de 1759, é a carta do Governador José Antonio Freire de Andrade123 sobre as providências tomadas quanto à destruição do quilombo do Campo Grande e às dificuldades para a destruição do quilombo do Sapucahy.

E o terceiro é a carta referente à destruição do quilombo do Sapucaí, datado de 26 de novembro de 1760.

O Dicionário Histórico Brasil: Colônia e Império (2002) ao tratar do verbete quilombo do Sapucaí parece conferir tanto o sentido clássico de refugo de escravos quanto de motim. E relata que em vista da violência o Governador Gomes Freire determinou em 16 de junho de 1746 a organização de uma expedição para combater o quilombo, financiada pelos Senados da Câmara de Vila Rica, de Mariana, de São José (atual Tiradentes), Sabará e Vila Nova da Rainha (atual Caeté). E acrescenta:

Para essa expedição as câmaras contribuíram com 2750 oitavas de ouro, ficando responsáveis pela manutenção dos integrantes, enquanto o rei de Portugal forneceu armas, pólvoras e balas. Destruído por volta de 1759, esse mocambo parece ter sido [...] um dos mais povoados – mais de 600 negros – e o mais antigo da Capitania. (BOTELHO; REIS, 2002, p. 148)

A principal fonte de referência cartográfica sobre os quilombos do Sul de Minas seria o mapa “do Capitão França” cuja data estimada seria de 1765, portanto posterior à destruição do quilombo do Sapucaí. O livro organizado, em 2007, por Antônio Gilberto Costa, já referido, traz as seguintes informações sobre este documento:

123 O 1º Conde de Bobadela, José Gomes Freire de Andrade, foi governador da capitania

de Minas nos períodos de: 1735–1736; 1737–1752 e 1759–1763. Seu irmão, José Antonio Freire de Andrade, o 2º Conde de Bobadela foi governador no período de: 1753- 1758.

Mapa de todo o campo Grande124 [...] que traz a localização

detalhada desses inúmeros quilombos, construídos nas cabeceiras e ao longo de vales de afluentes do Rio Grande, “com maior concentração nos vales dos rios Sapucahy, Pardo e Da Conquista. Tanto no mapa quanto em sua legenda, há informações sobre a expedição que realizou a entrada e a conquista dessa região, sob o comando do Capp.am. Antonio Francisco França de Burena e ordenada pelo Ilmo. Sr. Conde de Bobadela, cujo irmão, José Antonio Freire de Andrade, governava Minas. (COSTA, A., 2007, p. 194) (grifo nosso)

A figura 14 traz o mapa referido.

124 Este mapa encontra-se sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros (USP). Existe

outra versão sob a guarda do Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro. O título completo é: “Mapa detodo o campo Grande tanto daparte da Coquista, q‟parte com a Campanha do Rioverde, e S. Paulo, como de Piuhy Cabeceyzas do Rio de S. Francisco, e Goyazes Naentrada que se fez pa. os certoes das conquistas do Campo grande por ordem do Illmo. Sr. Conde de Bobadela como se ordenou ao Capp.am. Antônio Francisco França. (COSTA, A., 2007, p. 232)

Este mapa traz a rosa dos ventos no sentido não convencional da cartografia contemporânea. O norte indicado está no sentido da parte meridional do mapa. A partir dessa informação, é possível se entender que o mapa traz a representação dos cursos dos rios de forma invertida à da tradicional.

Nas marcações dos quilombos é registrado o número de casas ou de povoados de cada um deles e as ligações entre os diversos núcleos. Foram marcados a posteriori pela pesquisadora a barra do rio Verde no Sapucaí, a barra do Sapucaí no rio Grande e o quilombo do Cascalho, localizado em Três Pontas125. E ainda a rosa dos ventos.

A correta compreensão sobre os quilombos e motins do período no vale do Sapucahy aguarda ainda o esclarecimento do uso corrente da expressão quilombo nos documentos do período colonial, como sugere Carla Anastasia.