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2.2.4 Hammerfest!Basin!

O jornal local do município de Paraguaçu era dirigido por Oscar Prado, prefeito no período de 1951 a 1955, filiado ao PSD, partido do presidente Juscelino Kubitscheck.

No cotejamento das edições do jornal no ano 1960, selecionamos os seguintes fragmentos e informações, que vão do ufanismo com o empreendimento até a decepção com as promessas não cumpridas de atendimento às reivindicações locais:

Em fevereiro terá início a construção da barragem. Em ritmo veloz os trabalhos da Grande Central Elétrica. (O PARAGUASSU, 31 jan. 1960, p. 1)

Em edição do mês seguinte, o jornal traz a relação das reivindicações da região atingida: construção da BR-32 no trecho Poços de Caldas- Caxambu; da Rodovia de Furnas, de Passos a Fernão Dias, a criação da Universidade do Sul de Minas, agrupando as Escolas Superiores existentes nesta região, a organização da Hidrominas, sociedade de economia mista para cuidar das estâncias hidro-minerais do Estado; da Universidade do Trabalho, com a reunião em um só estabelecimento de várias escolas do sul de Minas; eletrificação rural; construção de cidades industriais; relocação da Rede Mineira de Viação; fábrica de tratores; reflorestamento; assistência médico-social à zona de Furnas, entre outros. (O PARAGUASSU, 20 mar. 1960, p. 1)

O jornal noticia a presença do Presidente da República, Juscelino Kubitscheck, do Governador de Minas Gerais, Bias Fortes (1956-1961), e do presidente da empresa, John Cotrim e comitiva, em Furnas, no dia 9 de março, para comemorar o desvio do rio Grande para os túneis. Na solenidade foi aprovado por Juscelino Kubitscheck o Grupo de Trabalho para atendimento às reivindicações dos municípios afetados. Uma das

reivindicações era a construção da ferrovia entre Varginha e Poços de Caldas, “de finalidade econômica estratégica”. (O PARAGUASSU, 20 mar. 1960, p. 1)

A figura 4 reproduz a ilustração disponível na página eletrônica da empresa, da visita de JK às obras de Furnas.

Figura 4 - Visita de Juscelino Kubitscheck às obras de Furnas

No dia 10 de abril, o jornal “O Paraguassu” informa sobre o Plano de Assistência Sanitária à Região de Furnas, discutido pelos 32 representantes dos municípios atingidos com autoridades, na Capital da República. O Plano contemplaria a instalação de Postos de Higiene e Puericultura, Hospitais, Maternidades e outras obras assistenciais “em toda a região mais sacrificada de Furnas” (O PARAGUASSU, 10 abr.1960, p. 1)

No dia 30 deste mesmo mês, o jornal relembra o discurso do então candidato Jânio Quadros à Presidência, em Alfenas, quando prometeu que as terras dos atingidos por Furnas seriam desapropriadas pelo valor justo. E comenta: “A promessa já estava sendo esquecida e os prejudicados se desesperando de vê-la cumprida”. (O PARAGUASSU, 30 abr.1960, p. 1) A mesma edição noticia ainda o encontro em Belo Horizonte, em 17 do mesmo mês, de uma comissão de Prefeitos, Vereadores e Chefes Políticos dos municípios afetados, e liderada pelos deputados Manoel Taveira e Geraldo Freire, com o novo Governador do Estado, Magalhães Pinto (1961-1966).

Em depoimento sobre o tema, o político paraguaçuense, Cristiano Otoni do Prado, informou que ambos deputados eram da UDN e deram incondicional apoio aos fazendeiros impactados por Furnas. No lado oposto, ficaram os deputados Pimenta da Veiga, Uriel Alvim, e prefeitos filiados ao PSD, como Dr. Antonio Silveira, de Alfenas, Dr. Joaquim Vilela, de Boa Esperança e Pedro Pinto Filho, de Fama. E conclui:

Não comento o lado sentimental do problema, pois como chefe político do PSD, eu era cem por cento favorável à construção de Furnas, mas não concordava que os habitantes da região fossem espoliados em seus direitos.62

Na edição de 17 de julho de 1960, o jornal “O Paraguassu” é enfático:

[...] a Central de Furnas está pagando apenas 50% do valor atual das terras desapropriadas. O preço corrente neste município de terras de cultura e [de] meia cultura é de

Cr$60.000,00 por alqueire e os de cerrado por

Cr$40.000,00, o que dá em média, Cr$50.000,00. Pois bem: - Furnas paga somente Cr$23.000,00 por alqueire! (O PARAGUASSU, 17 jul. 1960, p. 1)

Em 27 de janeiro de 1963, o jornal, agora sob a denominação de “A Voz da Cidade” traz artigo de João Eustachio de Andrade (futuro, prefeito de

62 PRADO, Cristiano Otoni. Depoimento escrito em 6 de junho de 1995 a Maria Lúcia

Paraguaçu entre 1973-1977) criticando a insensibilidade política dos empreendedores:

Dentro pois de 50 dias a população desta região verá pela frente um grande lago, cinco vezes maior que a baía da Guanabara que inundará Fama, Rochas, e também em nosso município os bairros da Mata, Mamonas, Cachoeira e até o Bairro dos Santos (Chico dos Santos).

O que decepciona, causa estranheza e até certa revolta que uma obra de tamanha expressão de grandiosidade fracasse nos planos de compensação, quanto às indenizações e

deficiências dos meios de transporte das regiões

sacrificadas. O grito de protesto é geral. Fama terá o seu município decepado, a sede separada da zona rural que é o Bairro dos Rochas. Não cogitam da construção de pontes. Assim como em Paraguassu, o bairro próspero da Cachoeira de que há muito prometem a ponte do Estreito, no Sapucaí. (ANDRADE, João Eustachio, 17 jan. 1963. p. 1)

Outra região afetada em Paraguaçu foi Pontalete, na divisa entre o município e Três Pontas, onde há a confluência do rio Verde com o rio Sapucaí. A estação de Pontalete da Estrada de Ferro Muzambinho foi inaugurada em 1896.

O pesquisador “antiquário” de Três Pontas, Paulo Costa Campos, assim refere-se ao distrito de Pontalete, antes e após a inundação de Furnas:

Na gestão do prefeito Azarias de Azevedo (1947-1951) iniciou-se a construção de duas pontes de concreto, uma sobre o Rio Verde e outra sobre o Rio Sapucaí, interligando o povoado, e os municípios de Elói Mendes e Paraguaçu. Com a construção da Represa de Furnas, parte do povoado e as pontes ficaram submersas, prejudicando bastante o distrito. Atualmente, existe uma balsa que possibilita a travessia desde o povoado até a margem esquerda do Lago de Furnas, permitindo a interligação, por estradas de terra, a Elói Mendes e Paraguaçu. (CAMPOS, 2004, p. 106)

As edições do jornal local de Paraguaçu entre 1967 e 1969, inclusive, são repletas de notícias sobre a construção de vários trechos rodoviários, previstos como compensação aos municípios afetados por Furnas. A Rodovia de Furnas só seria inaugurada em 15 de novembro de 1969:

Paraguaçu – Elói Mendes – Varginha; Paraguaçu – Alfenas; Alfenas – Areado – Monte Belo – Juréia.63

Curiosa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para verificar a situação em que se encontram as populações atingidas pelo represamento de Furnas e Peixotos64 é tema da reportagem da edição de 5 de maio de 1969 do jornal de Paraguaçu. O presidente da CPI era o deputado federal Manoel de Almeida; o relator, Bento Gonçalves, Geraldo Freire, líder do Governo na Câmara e “Sua Excelência o Sr. Presidente da República”, o Marechal Castelo Branco65.

Interessante observar que os anos de implantação do empreendimento (1957-1965) coincidem com momento de grande turbulência na vida política nacional, do governo dito democrático de Juscelino Kubitscheck à ditadura dos governos militares, após 1964. Contudo, a se julgar pelo que sugerem as fontes aqui coligidas, pouca diferença percebe-se no tratamento dispensado à população atingida.

6.8. O BAIRRO RURAL DO CHICO DOS SANTOS E A POPULAÇÃO