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In document Social Development the (sider 89-93)

A Natureza as fez Feiticeiras. – É o gênio próprio à Mulher e seu temperamento. Ela nasceu fada. Pela volta regular da exaltação, ela é Sibila. Pelo amor, ela é Mágica. Por sua fineza, sua malícia (muitas vezes fantástica e benfazeja), ela é Feiticeira, e faz sorte ou, pelo menos, adormece, engana os males. Todos os povos primitivos tiveram um mesmo princípio; nós o vemos através das Viagens. O homem caça e combate. A mulher imagina, sonha; ela é a mãe dos sonhos e dos deuses. Ela é vidente em certos dias; ela tem a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor compreender o tempo, ela observa o céu. Mas a terra não tem menos seu coração. Seus olhos se baixam para as flores amorosas, ela mesma uma flor, e aprende a conhecê-las infinitamente. Como mulher, ela lhes pergunta como curar aqueles que ama.(...) Isso valia uma recompensa. Pagaram-lhes com torturas e fogueiras79.

Não é possível avançar na história da Wicca sem passar pela história da feitiçaria e das Inquisições. A História da Wicca começa na Idade Pedra, avança na Europa, passa pelos Celtas e entra na Idade Média, representando a bruxaria através da “Feitiçaria e das Inquisições”. Esse roteiro é proposto pela própria Wicca e a localização histórica, temporal e geográfica tem seu sentido construído e legitimado entre os wiccanos e wiccanas.

A feitiçaria é uma religião, talvez a mais antiga existente no Ocidente80, diz Starhawk. Essa é uma afirmação muito comum entre os praticantes de bruxaria na modernidade. Entender a feitiçaria como algo que transpõe eventos históricos, sobrevive nos primórdios da humanidade para realizar feitiços ainda na Idade Média, e é fundamental para construir uma tradição concisa. Parece-nos, até aqui, mesmo cedo para analisar, que a Wicca e seus praticantes pretendem se fortalecer como figuras de oposição na história da humanidade que podem ser encontrados por toda a linha do tempo. Bruxas e bruxos que estão sempre sintonizadas/os com os reais eventos da história, mas foram silenciados por ela.

E quem fez da bruxaria o mal? Quem qualificou está prática como um instrumento do demônio? A Idade Média é a porta para um clima de crescente febre social, principalmente a partir do século XIV, onde a crise feudal, o aparecimento da Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos, os Cismas (e aqui se inclui a Reforma), deixa o mundo Ocidental em pânico81. Neste clima, o mundo real e físico está encantado. Mas este encantamento não é positivo. O universo está povoado por demônios: anjos caídos, fadas, pesadelos e demônios familiares – as chamadas bruxas82.

Este medo generalizado se materializa na perseguição ao demônio, que tem muitas faces. Através da mulher, do homem, da carniça, do padre, do vendedor, do mouro, do monstro e de animais (como pã), bode, gato, touro83, o Diabo pode se apresentar e realizar seus malefícios enganando aqueles e aquelas que são o seu alvo.

A parte que compete à mulher, nestes possíveis disfarces do mal, se encontra na prática da bruxaria que pode ser entendida de muitas formas. No Martelo das Feiticeiras encontramos:

A Categoria de Bruxa é a das Pitonisas. – pessoas em quem e pelas quais o Diabo ora fala, ora realiza operações incríveis. (...) As mulheres que cavalgam (como pensam e dizem) ao lado de Diana ou de Heródia, estão elas, na realidade, a cavalgar com o Diabo, que, tendo adotado um nome pagão, lhes faz recair todo o seu encanto84.

80 STARHAWK. A Dança Cósmica das feiticeiras: guia de rituais à Grande Deusa. Rio de Janeiro: Editora

Record/Nova Era, 2003. p. 29.

81 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no Imaginário Cristão. 2ª edição. São Paulo: EDUSC, 2002. p.78. 82 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no Imaginário Cristão. 2ª edição. São Paulo: EDUSC, 2002. p.75. 83 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no Imaginário Cristão. 2ª edição. São Paulo: EDUSC, 2002. p.61. 84 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

Cresce, na Idade Media um forte sentimento de misoginia85, e a mulher é vista como instrumento do Diabo para propagar o prazer e o mal86. Mas, se por um lado, este sentimento misógino avança em meio ao senso comum e religioso da Idade Média, por outro, as práticas de religiões ocultas não são totalmente expulsas do interior do catolicismo. O paganismo na Europa continuou sobrevivendo em meio às proibições em 385 d.C. e se refugiou no campo, longe dos olhos ortodoxos da Igreja87. E cada vez mais, o Cristianismo se preocupava com a livre circulação do Diabo, por isso, procurou sistematizar a figura do Diabo, para facilmente ser reconhecido:

Os demônios, pelo seu engenho, produzem efeitos maléficos através da bruxaria, apesar de ser verdade não conseguirem criar qualquer forma sem o auxílio de algum o outro agente, seja essa forma circunstancial ou substancial, e não sustentamos que consigam infligir danos físicos sem o auxílio de certos agentes. Mas, com a devida ajuda, conseguem provocar doenças e toda a sorte de sofrimento e de padecimentos humanos, reais e verdadeiros. De que modo as bruxas (em cooperação com o demônio) empregam tais agentes e os tornam eficazes (...)88 . As bruxas tem relações com Íncubos e Súcubos e sacrifícios hediondos de criancinhas89.

As bruxas são veículos para a procriação do Diabo. Segundo o Martelo das Feiticeiras ele é capaz de gerar crianças no estado matrimonial e fora dele90. Quando Sátiros e Faunos se apresentam às mulheres para manterem relações sexuais com elas – estes são chamados Íncubos91

e Súcubos são os casos em que o Diabo usa uma mulher ou se apresenta no corpo dela para manter relações sexuais com os homens 92.

85 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. Bruxaria e História. As práticas mágicas no Ocidente Cristão. São Paulo:

EDUSC, 2004. p. 165.

86 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. Bruxaria e História. As práticas mágicas no Ocidente Cristão. São Paulo:

EDUSC, 2004. p. 47.

87 NOGUEIRA, Carlos Roberto F. Bruxaria e História. As práticas mágicas no Ocidente Cristão. São Paulo:

EDUSC, 2004. p. 61.

88 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1991. p. 63.

89 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1991. p. 78.

90 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1991. p. 79.

91 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1991. p. 83.

92 KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. MALLEUS MALEFICARUM. O Martelo das Feiticeiras. 7ª edição.

E o que diz a Wicca sobre o tempo de misoginia, perseguições e fogueiras? Em quase todas as obras que tratam de Wicca, e que encontramos referências históricas sobre o nascimento e o desenvolvimento da bruxaria na história do Ocidente, observamos citações sobre a Inquisição na Idade Média. Além disso, também encontramos espaços nas obras para comentários sobre o

Malleus Malificarum93. Gardner chama o período da Inquisição de Era do Terror94, sinalizando que o ponto de partida para a caça às bruxas é o marco do Papa Inocêncio III. Segundo o autor, este papa denunciou a “antiga fé pré-cristã”95 como heresia e bruxaria, mandando que a

inquisição a esmagasse.

A valorização histórica do chamado „período das fogueiras‟ é promissor para a tradição da Wicca. Todo o peso sacralizado, mágico e hereditário da bruxaria está em reconhecer a luta das mulheres nesse período. A valorização do feminino na Wicca também faz parte desta sistematização. O feminino vitorioso, antigo, resistente, mágico é eterno e hereditário.

Esta questão da hereditariedade na Wicca merece atenção. Existe uma tradição de bruxaria italiana chamada de Stregheria96. Ela insiste que toda a bruxaria na Europa, e principalmente na

Itália, é a transmitida pelo “Sangue de Bruxa”97. É a força da hereditariedade sanguínea que garante a transmissão do caráter mágico do legado de bruxa na Europa. A tradição do sangue da bruxa nasce com o mito de Aradia que relataremos a seguir:

Diana amava muito a seu irmão Lúcifer, o deus do Sol e da Lua, o Deus da Luz (esplendor) que, de tão orgulhoso de sua beleza, foi expulso do paraíso. Diana tivera uma filha de seu irmão, a quem deram o nome de Aradia (Herodius).

Naquela época havia na terra muitos ricos e muitos pobres. Os ricos escravizavam os pobres. Havia, naqueles dias, muitos escravos, os quais eram cruelmente tratados; tortura em toda a parte, prisioneiros em todo o castelo. Muitos escravos escapavam. Eles fugiam para os campos; assim, tornaram-se bandidos e pessoas de má índole. Ao invés de dormir à noite, eles tramavam

93As Inquisições fazem parte da história da bruxaria e fortalecem a hereditariedade da tradição. Rememorá-las

significa luta e persistência para a sobrevivência do legado mágico. Conferir: GARDNER, Gerald. O significado da Bruxaria. Uma introdução ao universo da Magia. São Paulo: Editora Madras, 2004. p. 147; STARHAWK. A Dança Cósmica das feiticeiras: guia de rituais à Grande Deusa. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003. p. 30 [Nova Era]; & GARDNER, Gerald. A Bruxaria Hoje. São Paulo: Editora Madras, 2003. p. 104.

94 GARDNER, Gerald. A Bruxaria Hoje. São Paulo: Editora Madras, 2003. p. 104.

95 Título atribuído por Gerald Gardner à religião pagã. Conferir: GARDNER, Gerald. A Bruxaria Hoje. São Paulo:

Editora Madras, 2003. p. 104.

96 LELAND, Charles G. Aradia: O Evangelho das Bruxas. São Paulo: Editora Outras Palavras, 2000. p. 15.

97 GRIMASSI, Raven. Bruxaria hereditária: segredos da Antiga Religião. São Paulo: Editora Gaia e Alemdalenda,

fugas e roubavam de seus mestres, para depois matá-los. Viviam então nas montanhas e florestas como ladrões e assassinos, tudo para evitar a escravidão.

Diana disse um dia a sua filha Aradia:

´É certo que és um espírito, mas foste gerada para voltar a ser um mortal; deves descer á terra e ser uma mestra de homens e mulheres, os quais, de bom grado, devem estudar bruxaria em tua escola. Mas, como a filha de Caim, jamais deve ser. Tampouco como a raça que por fim se tornou depravada e infame pelo sofrimento, como os judeus e os errantes Zingari (ciganos), os quais são todos ladrões e vilões; Como eles não deves ser! E deves ser a primeira das bruxas conhecidas; e deves ser a primeira de todas no mundo; e deves ensinar a arte do envenenamento. Do envenenamento daqueles que são os maiores dentre os senhores;

Sim, deves fazer com que morram em seus palácios; e deves sujeitar a alma do opressor (pela força); e quando encontrares um campônio que seja rico, deves então ensinar à bruxa, sua pupila, como arruinar suas colheitas com tempestades terríveis, e com granizo e com vento...

E quando um padre causar-te mal com suas bênçãos, deve imputar a ele males duas vezes piores, e fazei-o em nome de mim, Diana, a Rainha de todas as Bruxas! E quando os sacerdotes da nobreza disserem que deves depositar sua fé no Pai, no Filho, e em Maria, respondei então: Vosso Deus, o Pai e Maria são três Demônios... pois o verdadeiro Deus Pai não é o vosso; pois vim para varrer o mal. Os homens malignos destruirei a todos! Vós que sois pobres e sofrem com a fome e labutam em miséria, sofrendo também constantemente com a prisão. Ainda assim tendes uma alma e por vosso sofrimento, sereis felizes no outro mundo, mas negativo é o destino de todos os que vos causam mal!‟

Então quando Aradia foi ensinada a operar a bruxaria, a como destruir a raça maligna (de opressores), ela (transmitiu a suas pupilas) e lhes disse:

„Quando eu tiver partido deste mundo, sempre que precisardes de algo, uma vez por mês, quando a lua estiver plena, reuni-vos em algum local deserto, ou em assembléia num bosque para adorar o poderoso espírito de sua rainha, minha mãe, a grande Diana. Àquela que de bom grado aprender toda a magia, mas que ainda não domina seus mais profundos segredos, minha mãe irá ensinar, na verdade, todas as coisas ainda desconhecidas. E sereis libertos de qualquer escravidão, e sereis livres para qualquer coisa; e como sinal de sua inequívoca liberdade, deveis comparecer desnudos em seus ritos, tanto homens quanto mulheres: isto deve perdurar até que morra o último de seus

opressores; e deveis jogar o jogo de Benevento apagando as chamas, para em seguida desfrutar de sua refeição!‟ 98.

O mito de Aradia, no evangelho das bruxas, é sempre citado como um marco da tradição na bruxaria italiana, e também, tem sido remetido à sua formação na Europa. De fato, a ideia inicial é de que corre o sangue de Aradia nas veias de todas as bruxas que se dedicam a estudar e praticar a magia contra a opressão e violência. O mito nos conta que do incesto entre irmãos, Diana a deusa mãe da tradição da bruxaria e Lúcifer – o deus Sol, nasceu Aradia, uma bruxa destinada a ser mortal e peregrinar pelas terras da Itália para ensinar a arte a aqueles e aquelas que querem se “libertar da opressão”. Aradia deveria ser a primeira bruxa conhecida e eliminar todos que praticavam a maldade. Para as suas pupilas que ficam, depois de sua morte, existe uma recomendação para adorar o poderoso espírito da rainha das bruxas – Diana, e ela ensinará tudo que for desconhecido. Essa arte deve persistir até que morram todos os opressores.

Parece-nos que este mito tem a intenção de justificar e legitimar os elementos de hereditariedade da bruxaria, mesmo quando eles não existem. Todas as bruxas e bruxos que têm a prática da bruxaria como um sacerdócio tem em suas veias o sangue de Diana e Arádia e por isso são empoderadas. A hereditariedade é da bruxaria, segundo o evangelho das bruxas, é simbólica. Voltaremos ao período das fogueiras e das Inquisições. Através dessa hereditariedade simbólica, os integrantes da Wicca entenderam que ela existe hoje porque sobreviveu ao período das Inquisições. Claudinei Pietro, um dos renomados bruxos wiccanos brasileiros afirma que: “A

Wicca é sucessora da primeira religião da humanidade que enfrentou as fogueiras da Idade Média e Gerald Gardner, fundador da Wicca apenas reavivou isso99”.

Para a Wicca, o período das Inquisições e caça às Bruxas está na Idade Média, faz parte da tradição e solidifica a sobrevivência da bruxaria nos tempos modernos. A relação do cristianismo e a prática do paganismo são relações de guerra, em que a caça às bruxas e as torturas fazem parte de uma mentalidade de intolerância que construiu para as mulheres quatro tipos de papéis: a „burguesa-esposa-cozinheira-empregada‟, a prostituta, a freira e a bruxa100. Essa sistematização

98 LELAND, Charles G. Aradia: O Evangelho das Bruxas. São Paulo: Editora Outras Palavras, 2000. pp. 31 – 34. 99 PIETRO, Claudiney. Wicca: a Religião da Deusa. 4ª Edição. São Paulo: Coleção Gaia Alemdalenda, 2002. p. 15. 100 GARDNER, Gerald. O significado da Bruxaria. Uma introdução ao universo da Magia. São Paulo: Editora

de quatro papéis sociais é de Gardner, e valoriza a figura da bruxa como uma mulher livre, decidida e especial:

Quer dizer, com exceção das nobres e serviçais (esposas, criadas, camponesas), que eram destinadas a labutar todos os dias de suas vidas, e a freira que estava fadada a um destino ainda pior, as únicas mulheres livres, pessoas que podiam usar seus cérebros, eram as prostitutas e as bruxas. Agora, havia multidões de prostitutas em toda a cidade, e elas acompanhavam todos os exércitos em hordas bem organizadas, e alegremente aliavam-se aos inimigos, caso seus protetores fossem derrotados. A Igreja algumas vezes as perseguiu, mas normalmente as deixava em paz, contanto que pagassem dízimos. (...) Já as bruxas sempre fizeram todo o possível para serem imperceptíveis, porém, antes da lei do linchamento do reinado eclesiástico tudo era diferente; a maioria delas eram, como hoje em dia, mulheres casadas, em casamentos felizes, e gozavam de um status distinto, eram respeitadas e de certa forma temidas, embora também fossem geralmente amadas por seus serviços à comunidade como médicas, parteiras e dissipadoras do mal!101.

O autor wiccano está afirmando que mulheres livres e espertas, para sobreviverem em uma guerra, eram prostitutas e mulheres livres, em casamentos felizes, com muito respeito, e as inteligentes eram bruxas. Nosso objetivo, neste texto, não é desvendar as „verdades‟ da história da bruxaria, como já esclarecemos anteriormente, mas mapear o imaginário da figura da bruxa que é desenhado por alguns nomes da tradição da Wicca.

Até o momento, o que temos é uma colagem de eventos desde a Idade da pedra, até as Inquisições, desenhando uma figura de bruxa um pouco diferente do que conhecemos por filmes, revistas e desenhos. O que temos aqui, desenhado pela Wicca são sacerdotisas que, hereditariamente, ou por um legado que não de sangue, transmitem pela história – e por grandes ciclos da história – uma tradição de poder, liberdade e inteligência. Este é o ciclo de “empoderamento” da história e da figura da bruxa como uma mulher especial e forte. Grandes eventos tornam a tradição cada vez mais pura e mais sagrada. Starhawk afirma que:

A perseguição começou lentamente. Os séculos XII e XIII assistiram ao renascimento de aspectos da Antiga religião através dos trovadores, que escreviam poemas de amor à Deusa, sob o disfarce de damas da nobreza da época. Catedrais magníficas

101 GARDNER, Gerald. O significado da Bruxaria. Uma introdução ao universo da Magia. São Paulo: Editora

forma construídas à Maria, que havia incorporado vários aspectos da Antiga Deusa. A feitiçaria foi declarada como um ato de heresia, e em 1324, um grupo irlandês foi levado á julgamento (...). As bruxas e fadas que podiam, escaparam para terras longe do alcance da Inquisição. Algumas vieram para a América e neste lugar, a Arte trabalhou e sobreviveu secretamente102.

Starhawk mostra que este período é sombrio, mas impulsionou o crescimento da bruxaria em outros lugares. Para ela e para Gardner, a deusa sempre procura uma maneira de transformar eventos negativos em positivos, visando sempre a sobrevivência e o fortalecimento da Wicca. Gardner, Robert Gravis, Claudiney Pietro, Starhawk, Leland, Grimassi são autores renomados para a Wicca e escrevem, para os wiccanos, documentos relevantes que todo aquele e aquela que se interesse por bruxaria deve conhecer. Para que? Para saber seu passado, seu legado e o que deve transmitir. De fato entendemos que até aqui a história das bruxas, aos olhos da Wicca, é empoderada com colagens de tradições e anexações de eventos que historicamente não estão ligados.

A Wicca é uma religião que sistematizou sua história como uma „colcha de retalhos‟ para construir uma tradição sagrada, carregada de símbolos importantes e inteligíveis para quem as pratica. Saber que corre em suas veias o sangue de bruxa é ter mais que um título. É carregar um legado que atravessa o principio do mundo, as Idades da Pré-história, o passado glorioso e reinventado dos celtas e a força para a sobrevivência das Inquisições. O objetivo disso é se encontrar no tempo e no sagrado para cumprir a missão de toda a bruxa, que é a mesma dada à Arádia: libertar e exterminar a opressão.

A compreensão sobre a bruxaria não se encerra na percepção de que ela consegue estabelecer um traço tênue com a história da feitiçaria. A bruxaria também tece relações históricas com a história do corpo, que é algo construído pelo Ocidente. Antes de conhecermos detalhadamente os elementos que compõem a bruxaria e precisamente a Wicca, investigaremos o imaginário do corpo construído no Ocidente, com objetivo de compreender quais os tipos de relações são estabelecidas pela Wicca e o corpo moderno.

102STARHAWK. A Dança Cósmica das feiticeiras: guia de rituais à Grande Deusa. Rio de Janeiro: Editora

In document Social Development the (sider 89-93)