Para Foucault a questão da autoria se apresenta como um dos procedimentos que organizam o discurso. O autor não é qualquer pessoa que escreve, mas sim um elemento que articula discursos, uma função-autor. A pessoa física não é o autor desta função- autor, este funciona como um organizador, um elemento que permite catalogar e classificar o discurso. O autor tem uma obra que deve ter uma coerência interna e essa coerência o poria em uma corrente de pensamento e seria possível então colocá-lo em seu lugar na relação com os demais autores. Este então não é simplesmente um nome próprio como outros. Como próprio Foucault coloca: “O nome do autor não está localizado no estado civil dos homens, não está localizado na ficção da obra, mas na ruptura que instaura um certo grupo de discursos e seu modo singular de ser.” (FOUCAULT, 2009, p. 274).
Há por último ainda os autores que realizam “instaurações discursivas”, ou seja, são autores aos quais se retornam e alteram os discursos, Foucault nos dá os exemplos de Karl Marx e Sigmund Freud como aqueles que podem transformar os discursos de sua “linhagem”. Acredito que nas ciências humanas esse tipo de autor é bastante comum, enquanto nas ciências exatas se estabelece mais uma relação na qual a função- autor é substituída pela metodologia científica. Todavia, Foucault já coloca em seu texto que se encontrarmos um novo texto de Freud, pode-se alterar o freudismo, mas um novo texto de Galileu não altera a mecânica.
Quando se diz que este é um texto de Charles Bukowski, isso já a priori estabelece uma série de informações sobre o texto antes mesmo de lê-lo. Ele delimita um estilo e um tipo de discurso.
O autor não é a pessoa que escreve, mas uma construção que se dá diante de uma projeção sobre quem escreve, e cada tipo de discurso exige a construção de um autor diferente. Foucault diz que um poeta não se constrói como um filósofo, cada um tem suas próprias características necessárias.
Deve-se deixar claro então que quando aqui se fala de autor ou da ausência deste, não é a ausência da pessoa que escreve, mas sim da função-autor, não se procura aqui o papel de quem escreve, mas sim da presença desta função na articulação do discurso.
O autor para Foucault funciona como procedimento de controle e delimitação do discurso, dentre outros processos. Marco Antônio Sousa Alves diz sobre Foucault: “Assim entra o autor em sua investigação, como aquele que tem a função de criar e organizar certos discursos em determinada época e cultura, exercendo também um papel coercitivo, como qualquer outro procedimento de controle.” (ALVES, 2010, p. 9).
Na Wikipedia o nome do autor aparece de diversas formas, realizando movimentos diferentes. Em alguns deles existe a presença da função autor, enquanto em outros somente seu “nome próprio” aparece, sem mobilizar uma obra. Mesmo nos momentos em que aparece o autor, a função-autor é conjugada de forma diferente, por isso não pretendo aqui estabelecer uma única resposta quanto à função-autor dentro da Wikipedia, mas sim de que forma ela é mobilizada nos diferentes momentos.
Quando a Wikipedia estabelece verbetes que não estão ligados a uma única pessoa dentro da lógica da escrita colaborativa ou quando exige somente que este só forneça o seu IP a função-autor não aparece. Neste caso não se estabelece obra, ou função estilística específica.
Mas em outra esfera ocorre algo diferente, quando o colaborador edita ou cria verbetes usando continuamente o mesmo apelido (lembrando que esta é uma das possibilidades) se apresenta a função-autor, já que este colaborador estabelece a que tipo de conhecimento ela esta ligada, qual o tipo e qualidade da sua escrita, quais as fontes que ele mais utiliza etc., permitindo que se classifique seu trabalho e se estabeleça uma espécie de “obra de verbetes” e um “autor de verbetes”. Contudo esta função-autor aparece somente para os usuários que procuram saber quais são os colaboradores, delimitando assim um conjunto de pessoas que participam de forma
diferenciada dentro da Wikipedia e que estabelecem entre si relações específicas, os administradores são um bom exemplo disso. Vale lembrar que o nome dos colaboradores não está na página principal do verbete, mas na view history e nas talk pages.
O papel do autor no procedimento de escrita colaborativa da Wikipedia não está no mesmo lugar de diversos métodos de produção como o artístico, acadêmico, etc. Ele se apresenta somente a quem procura, a quem está mais inserido no processo e se coloca a possibilidade dele simplesmente não se apresentar, na forma de IP.
O autor já se mostra como um elemento que não esta no primeiro plano quando a própria Wikipedia diz que qualquer um pode participar na criação e edição dos verbetes. Este qualquer um é um colaborador sem face, uma retirada do autor. Porém, ao mesmo tempo a Wikipedia traz o autor novamente na necessidade de citar as fontes, que têm outros tipos de função-autor.
Foucault analisa dois tipos de discurso quando fala da função-autor em “O Que é um Autor?”, o discurso científico e o discurso “literário” – o próprio Foucault coloca o nome entre aspas. No discurso científico não haveria necessidade da função-autor a partir do século XVII ou XVIII, já que a própria metodologia científica já bastaria para abalizar o discurso. Já o discurso “literário” passou a necessitar desta função a partir da mesma época, isso porque este discurso não teria a chancela necessária. Por exemplo: um texto de Jack Kerouac só tem alguma validação se foi produzido por ele, já um artigo escrito por um cientista do MIT (Massachusetts Institute of Technology) tem validade pelo seu método acadêmico.
Uma das críticas dirigidas a Wikipedia é que não se sabe quem escreve, quais seriam as suas credenciais para poder escrever sobre este ou aquele assunto. Porém, Foucault já coloca que nas ciências a função-autor não é mais central, o método é o que abaliza o discurso acadêmico. Foucault afirma:
Um quiasma produziu-se no século XVII, ou no XVIII; começou-se a aceitar os discursos científicos por eles mesmos, no anonimato de uma verdade estabelecida ou sempre demonstrável novamente; e sua vinculação a um conjunto sistemático que lhes da garantia, e de forma alguma a referência ao indivíduo que os produziu. A função autor se apaga, o nome do inventor servindo no máximo para batizar um teorema, uma proposição, um efeito notável, uma propriedade, um corpo, um conjunto de elementos, uma síndrome patológica. (FOUCAULT, 2009, p. 275-276).
Então, se há uma luta de diferentes discursos nas relações entre academia e Wikipedia, essa não está na presença ou não do autor. Podemos partir então da ideia que talvez esse embate esteja centrado no procedimento de produção e não na questão da autoria.
Quando os editores se utilizam da escrita colaborativa para construir a Wikipedia a função-autor parece adquirir novos formatos, mas quando estes colaboradores só podem falar através das fontes acadêmicas e jornalísticas, que em alguns casos ainda mantém a função-autor como descrita por Foucault, estes podem estar somente circulando os discursos já estabelecidos, trazendo para dentro da enciclopédia a autoria, amalgamando ambas as formas e objetivando a zona cinzenta que se apresenta. Difícil afirmar então de qual se trata exatamente, estas permanecem inseparáveis e fugidias em suas formas. Há função-autor não esta nem em um formato nem no outro, mas em ambos.