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A região de que se fala, portanto, não pode ser descrita nem mesmo representada, antes, o pensamento da região é ele mesmo a passagem para uma outra modalidade de pensamento: “Como se daria, então, um pensamento sem objetos, sem representações e, principalmente, livre de toda vontade de apreensão e representação? Na serenidade, diz Heidegger, onde se é capaz de esperar”228. Essa espera serena é aquela que abdicou de um esperar por algo, uma espera que é sempre subjetiva, ligada a um querer e à expectativa pela chegada do objeto de desejo – a espera da serenidade, ao contrário, é uma espera em, que é também sempre uma espera por nada229, porque não há nenhum objeto previamente delineado e aguardado em sua representação: “No aguardar deixamos aberto aquilo porque aguardamos”230. Na espera serena, o pensamento experimenta a abertura para a doação do que

no regionar vem ao seu encontro, o pensamento meditativo da serenidade encarna propriamente a ideia daquela disponibilidade e receptividade próprias à disposição serena para a vivência estética, bem como a postura de serenidade que pretendemos descrever como a realização do habitar num nível prático. Se não há a expectativa concentrada no desejo e seu objeto, parece também não haver mais propriamente vontade: o pensamento meditativo realiza aquela transição de um querer para a serenidade, a sua entrega confiada à espera incerta e errante nos fluxos desconhecidos da região finalmente o liberou para o caminho de algo que não é um querer. O primeiro traço da serenidade aparece assim como o estar-liberto da representação transcendental horizontal, mas este não esgota a sua essência: a serenidade deve ser pensada como uma relação adequada com a região. O que Heidegger pretende enfatizar aqui é o fato de que a relação de serenidade e região pertence a esta última, de modo

227 Na verdade, poder-se-ia dizer, a própria possibilidade de um encontro, mas um encontro genuíno, pois no

regime da representação em que opera a contraposição objetiva nunca há propriamente um encontro: as coisas tornadas objetos, enquanto postas diante de nós, sempre nos enfrentam de algum modo [entgegenstehen].

228 PADUA, A “topologia do Ser”: lugar, espaço e linguagem no pensamento de Martin Heidegger, p. 214. 229 Nessa espera por nada em específico aparece o teor principal da crítica a um pretenso quietismo

heideggeriano, em que se advogaria o sacrifício da própria vontade. Em defesa da noção de serenidade e de sua contribuição ao problema da vontade – conceito que teria passado por um processo de desabilitação durante o século XX –, pode-se apontar o fato de que a intenção de Heidegger é justamente a de pôr em questão a distinção tradicional de atividade e passividade. Além disso, o abandono da vontade no sentido de chegar a algo que não é um querer, dá-se por meio de uma decisão (assim como a Entschlossenheit de Ser e Tempo), de um engajar-se na insistência [Inständigkeit] de abrir-se ao aberto da região.

que o próprio movimento da serenidade rumo à região é um movimento que diz respeito à própria região:

A serenidade vem da Região, porque consiste no fato de o Homem permanecer confiado/sereno (gelassen) à/na região, precisamente através dela. Está-lhe confiado na sua essência na medida em que pertence originalmente à Região. Pertence-lhe na medida em que está inicialmente a-propriado (ge-eignet) à Região (Gegnet), precisamente através da própria Região231.

Aqui, resolve-se o impasse com que começamos nossa exposição acerca da noção de serenidade: a essência do pensamento não se encontra no próprio pensamento, mas deve antes ser buscada em sua pertença à região. O pensamento meditativo, isto é, a essência do pensamento é assim a serenidade em relação à região, é aquela postura de espera que abandona a vontade de apreender do pensamento representacional e experimenta uma abertura serena ao aberto do Ser – o pensamento meditativo é mais um dos modos em que se cumpre o sentido do habitar como tarefa: no exercício de um pensar aberto e sereno, o homem pode se apropriar de sua essência e então descobrir-se entregue em sua relação com o Ser. A serenidade é então a experiência do aguardar pelo abrir-se da região, e ela se dá de um modo essencial em que nessa espera nós também sempre pertencemos àquilo mesmo porque esperamos. Se a serenidade compreende o sentido em que o homem é confiado [gelassen ist] à região, ela então corresponde antes de tudo à postura adequada do homem em sua relação com o Ser – tema de que devemos nos ocupar a partir daqui, percorrendo a distância própria à coisa e ao dispositivo técnico.

A partir do pensamento da região como outro modo de, no interior do vocabulário heideggeriano, dizer a essência da verdade e a verdade do Ser (a abertura primordial que sempre nos envolve e nos antecede), o ensinamento final que a passagem pelo tema da serenidade nos deixa é o de que tanto a essência humana compreendida tradicionalmente como animal rationale, como a relação de homem e coisa pensada como originariamente pertencente ao esquema sujeito-objeto, tratam-se somente de uma “variação histórica”232 das aberturas concedidas no aberto da região, restando, portanto, muito distantes de uma formulação definitiva quanto à nossa essência e à nossa relação com as coisas. A compreensão da historicidade própria à relação de homem e Ser – em que a nossa essência recebe as suas determinação do próprio Ser, em forma de envios – deve poder ser esclarecida junto ao tema da questão da técnica. Nesta mesma passagem pelo tema do dispositivo, a relevância de uma reflexão acerca da coisa verdadeira [das Ding] na filosofia tardia de

231 HEIDEGGER, Serenidade, p. 49-50. 232 HEIDEGGER, Serenidade, p. 54.

Heidegger deve poder ser introduzida pelas considerações acerca do problema que a objetificação extrema da técnica impõe ao nosso cotidiano.