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O envio da armação, destino de nosso presente histórico em que a realidade é tornada técnica, portanto, dá-se como destino que conduz o homem para o desabrigar enquanto subsistência. De modo claro, o destino é algo que cabe ao homem tão somente receber, como algo que lhe advém – nós não escolhemos o modo de desabrigar por onde o ente já sempre se descobre à nossa volta e nos envolve em nossas ocupações – contudo, o destino de que fala Heidegger a partir de sua orientação ontológico-historial não se trata de um “transcurso inalterável”, uma fatalidade em relação à qual não se dá qualquer saída. Antes disso, cabe ao homem justamente escolher e se responsabilizar pela postura assumida diante desse destino; a relação estabelecida com esse envio é precisamente aquilo que pertence aos desígnios do homem (enquanto relação com o Ser), bem como a possibilidade de se apropriar dessa relação e de participar da verdade que aí acontece: “O destino do desabrigar sempre domina os homens. Nunca é, porém, a fatalidade de uma coerção. Pois o homem se torna justamente apenas livre na medida em que pertence ao âmbito do destino e, assim, torna-se um ouvinte

246 HEIDEGGER, A questão da técnica, p. 387.

247 O que está em jogo aqui é uma distinção entre a Historie, a história enquanto narrativa humana e, portanto, de

cunho historiográfico, e a Geschichte, a história que subjaz a primeira como seu fundamento metafísico e que conduz toda a interpretação do ente a cada nova época histórica. Enquanto abertura primordial de ser que possibilita a emergência do humano e a compreensão do ente, a história do Ser é sempre também a história do esquecimento do Ser [Geschichte der Seinsvergessenheit], pois que a essência metafísica do Ocidente impede que se reconheça esse esquecimento como um esquecimento, enquanto se confunde o ente com o Ser. Outra observação importante é a de que a história assim entendida não comporta uma articulação teleológica: sem qualquer relação causal, os diversos destinos enviados pelo Ser simplesmente se sucedem no tempo.

[Hörender], mas não um servo [Höriger]”248. É a participação do homem nesse desabrigar que possibilita o caminho para o que liberta, pois enquanto o homem permanecer na ilusão de que a sua vontade pode alterar o curso desse desabrigar originário do real, ou então, enquanto o homem acreditar que pode controlar a técnica e guiar o seu destino, nenhuma autonomia se faz possível e o homem perece como mais um dos entes tornados disponíveis – o traço mais fundamental de sua condição não teria ficado ainda exposto de modo claro: que ele é um ente finito. É então preciso reconhecer o destino como um destino para que se possa cumpri-lo de modo autêntico, sem sucumbir numa entrega desolada e capitulante, e nem mesmo negá-lo numa vã tentativa de sublimar a sua verdade: “Ao evitar uma perspectiva exclusivamente antropológica, o homem torna-se mais fiel a sua própria condição; ou seja, somente se não considerar a técnica como algo inteiramente do domínio do humano pode o homem conservar alguma autonomia perante a própria técnica”249. É nesse sentido que o problema quanto à superação da técnica – problema de fundo a partir do qual surge a noção de habitar –, que é sempre também a tarefa de superar a metafísica250, deve se encontrar com um dos temas mais

essenciais na filosofia de Heidegger, a relação de homem e Ser: se a técnica nos chega como um envio do qual não se pode contornar, então certamente não é a nossa vontade de controlar a técnica que dissolverá o problema, mas fará antes que permaneçamos como aqueles que desabrigam o real na forma do dispositivo técnico.

Aqui os termos se invertem significativamente: a tarefa de superar nossa realidade técnica se cumpre no percurso por uma possibilidade de autonomia muito mais estreita do que teria sonhado a filosofia moderna (bastião da liberdade como auto-determinação). Uma autonomia, portanto, que só se faz possível no momento em que o homem ousa se retirar daquela sua posição pretensamente privilegiada enquanto fundamento subjetivo do real, e então compreende a verdadeira ausência de posição (no sentido daquela necessária contra- posição do esquema representacional) no viger de mundo da quaternidade: adentrar a própria essência de habitante é reconhecer a ineficácia e mesmo o delírio da vontade de controlar e determinar o próprio destino, é compreender que a essência humana pertence muito mais aos

248 HEIDEGGER, A questão da técnica, p. 388, grifo nosso.

249 LEOPOLDO E SILVA, Franklin. “Martin Heidegger e a técnica”. In: Scientiae Studia. São Paulo, v. 5, n. 3,

2007, p. 373, grifo nosso.

250 Técnica e metafísica tornam-se sinônimas na filosofia tardia de Heidegger, relação que é explicitada no

contexto de O fim da filosofia e a tarefa do pensamento: na Contemporaneidade, a metafísica teria atingido a fase de seu acabamento, isto é, o esgotamento de suas possibilidades, de modo que a técnica é propriamente a figura que a metafísica assume como a sua última possibilidade. O domínio técnico da realidade é evidenciado por Heidegger pelo fenômeno de desdobramento da Filosofia nas diversas ciências tecnicizadas e tornadas autônomas: a Filosofia encontra seu fim junto ao acabamento da metafísica. HEIDEGGER, M. “O fim da

filosofia e a tarefa do pensamento”. In: HEIDEGGER, M. Conferências e escritos filosóficos. Tradução de

envios do Ser do que ao próprio homem. Ilumina-se assim de um modo radical a compreensão de homem e Ser como a relação em que se dá algo como a recepção de um destino a ser a cada vez enviado. Assim como a graciosidade do corpo exige aquele distanciamento da esfera da consciência e das intenções humanas, do mesmo modo em que a serenidade se cumpre como um não-querer que rompe com a vontade, também o problema da técnica se desenvolve neste mesmo registro: a única possível saída de seu impasse se constitui como aquela “correta relação” de homem e técnica com a qual iniciamos nossa exposição, a qual deve significar a um só tempo tanto a compreensão de nossa essência na relação com o Ser e o seu caráter de destino, como o abandono de uma postura voluntarista na condução de nossa existência. Essa correta relação com a técnica, nós pretendemos tê-la defendido como aquela postura serena do habitante que, ao se assumir como mortal, encontra-se capaz de destruir (no sentido heideggeriano da Destruktion) a sua vontade onipotente de dominação251. É nesse caminho que a temática da relação humana com o Ser deve ser compreendida a partir de uma postura de aceitação252 do destino, em que se torna possível aquela relação adequada com a técnica:

“O que se põe em questão, portanto, para um pensamento capaz de falar em superação, é a noção mesma de liberdade, quer dizer, a questão da possibilidade e do limite de escolha em relação àquilo que a cada vez se encontra no mundo”253. Compreender o sentido que o termo

“aceitação” assume neste contexto corresponde a compreender na mesma medida aquela transição realizada pela serenidade em relação ao querer: aceitar nosso destino de mortais não significa sucumbir a uma passividade alienante, mas responde antes à tarefa de exercer a possibilidade de o homem se redimir de uma postura objetificadora que o teria levado à compulsão pelo domínio do real, para então finalmente experimentar aquela abertura de sua essência na relação com o Ser em que emerge a real e profunda vigência de sua liberdade.

251 A referência explícita de Heidegger ao modo de acontecer dessa relação apropriada com a técnica se encontra

em “Serenidade”, discurso pronunciado na ocasião do 175º aniversário de nascimento do compositor Conradin

Kreutzer em Messkirch, no ano de 1955. A indicação heideggeriana é a de dizermos “sim” aos objetos da técnica enquanto uma realidade incontornável de nosso presente histórico, e ao mesmo tempo também dizermos “não” na medida exata em que se torna possível protegermos e preservarmos nossa natureza [Wesen] do jugo do pensamento objetificador que somente calcula. Nesse sentido, a atitude correta em relação às coisas do mundo técnico é a de deixá-las repousar em si mesmas como algo que não interessa ao que temos de mais íntimo e de mais próprio. Nesse deixar repousar as coisas que corresponde sempre à postura de serenidade, pode-se finalmente alcançar aquela relação livre com a técnica em que esta se torna “maravilhosamente simples e

tranquila”. HEIDEGGER, Serenidade, p. 24.

252 Segundo Vattimo, é este o sentido que a superação da metafísica assume na filosofia tardia de Heidegger: a Verwindung da metafísica se dá como a aceitação do destino que nos é enviado pelo Ser no sentido da

convalescença e da resignação, uma aceitação que deve dis-torcer esse mesmo destino em busca de suas experiências originárias para então dele se apropriar. Cf.: VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade: niilismo e

hermenêutica na cultura pós-moderna. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 179. 253LYRA, Edgar. “Superação da metafísica, realidade técnica e espanto”. In: Natureza Humana, vol. 5, n. 1,

O limite de escolha de que fala Edgar Lyra corresponde justamente à escolha de participar desse desvelamento, doar-se em abertura ao que na verdade também se envia e assim se doa, quando o homem conduz a si mesmo para o exercício de sua existência livre, que reconhece o mistério de que é feita: escolher aceitar o destino é assumir aquela postura de serenidade. Postura que é sempre a de uma espera serena: no aguardar esperançoso por alguma dádiva do Ser, sabemos esperar pela apropriação de nossa essência254. A técnica entendida como envio [Schickung] do Ser, por fim, traz-nos a perspectiva do Ge-Stell que se abre ao homem enquanto o perigo [die Gefahr] de que esse desabrigar recebido como destino cancele toda outra abertura e então cegue o homem para o fato de que todo desabrigar é sempre um entre outros. Sendo solicitado e correspondendo compulsivamente a essa provocação, enquanto transforma a natureza num contexto efetivo e calculável de forças, o homem tornado objeto da técnica se torna incapaz de reconhecer no desabrigar do Ge-Stell um modo de o ente aparecer enquanto o deixar vir à frente próprio à poiesis, isto é, do desabrigar que é sempre um modo de a verdade acontecer. É assim que Heidegger irá afirmar que o Ge-Stell “obstrui[r] todo brilhar de cada desabrigar e todo aparecer da verdade”255. O

perigo consiste em que, na era da técnica, a compulsão pelo Ge-Stell ameaça bloquear a nossa consciência e mesmo o nosso interesse por outras formas de se relacionar com o real: a força desveladora da subsistência é tamanha que provoca uma desorientação em nossa experiência de mundo, fazendo parecer que ela se trata da única possível256. Numa realidade técnica, não mais se faz a experiência da dádiva do momento de emergência do ente e da relação significativa que sempre estabelecemos com ele a partir de um todo estrutural que nos envolve e nos antecede – mundo e coisa restam enfraquecidos no cotidiano objetificador da técnica. Nesse sentido, o problema que a questão da coisa deve esclarecer é o da fixação humana num único nível de experiência: aquele da relação sensível com os objetos, em que se dá a redução de seu sentido à utilidade que oferecem à vontade humana (assim como vimos junto à análise do conceito de instrumento em Ser e Tempo). A noção de coisa [das Ding], neste horizonte, deve articular aquele outro nível de experiência em que se faz possível

254 Essa proximidade entre a postura de espera da serenidade e o caráter de esperança na relação com o que nos é

enviado já havia aparecido no tratamento da categoria dos deuses enquanto mensageiros por cujas graças anunciadas os homens aguardam. Essa postura de espera é assim condição para se tornar um mortal – ela é a manifestação do reconhecimento de uma carência originária em nosso ser que nos faz aguardar por dias melhores.

255 HEIDEGGER, A questão da técnica, p. 390.

256 No mesmo caminho, portanto, do diagnóstico gumbrechtiano quanto ao exclusivismo do sentido em nossa

cultura, bem como do consequente esquecimento do componente de presença em nossas vivências de mundo e de si mesmo.

transcender a relação empírica e assim alcançar o todo significativo do mundo que nós mesmos ajudamos a criar enquanto entes formadores de sentido:

Se a Coisa é convertida apenas em objeto e não se percebe o contexto significativo no qual ela se articula conosco no dia a dia, estará perdida a dimensão fundamental em que o mundo no qual nós estamos nos insere no todo que nos leva a transcender a simples manifestação do objeto257.

A noção de coisa vem assim para nos lembrar de atentar para a verdade que já sempre acontece na experiência habitualmente tão próxima ao homem, mas para o pensamento sempre tão distante: de que o ente é, de que há ser. A esse respeito, Zeljko Loparic esclarece que a transição para uma relação tranquila com a técnica depende de uma viragem no próprio desocultamento do Ser que só pode se dar a partir dele mesmo – a nossa vontade de apropriação não é suficiente e pode mesmo bloquear um processo em que aquela postura de serenidade é requisitada. Mais uma vez, o que permite ao homem habitar é a coisa em sua manifestação de mundo como a quaternidade, a coisa que abre o espaço habitável do entre de céus e terra, deuses e mortais, o mundo da verdadeira coisa: “A solução do problema do morar é o mundo aberto pela coisa verdadeira, o mundo-quadrindade. O acesso a esse tipo de coisa pressupõe a superação da técnica e o fim da metafísica ocidental”258. Resta iluminar o

sentido desta coisa verdadeira e o mundo que aí é aberto de modo propriamente poético, como um essencial deixar morar.