Como já mencionamos, a parte mais importante no culto de Asclépio era o chamado ritual de incubação, ἐ ύ (enkatheudon). No entanto, adentrar esta espacialidade dos sonhos não era tarefa simples, um verdadeiro percurso ritual tinha de ser traçado para se introduzir no espaço onírico e se encontrar com o deus Asclépio. Pela concentração de significados e de sacralidade, o devoto necessitava realizar determinados procedimentos para entrar, primeiro, no temenos, o terreno sagrado do santuário e, depois, no Ábaton, local das incubações, a entrada neste local proibido, sagrado dentro do sagrado, só era possível mediante o cumprimento de determinados ritos. Da mesma forma, também era preciso cumprir uma série de rituais para sair do espaço sagrado – tão importantes quanto os rituais de contato com o sagrado eram os de desligamento com o mesmo. A negligência com relação à realização de qualquer uma das partes destes procedimentos sagrados poderia ter efeitos funestos sobre o devoto.
Algumas fontes nos permitem saber como se desenvolvia o culto de Asclépio em Epidauro no período em análise. Um relato bastante completo do que ocorria durante as incubações é fornecido por Aristófanes, em sua peça Pluto12, do século IV a. C.. Temos outro relato, apenas dos sacrifícios iniciais, no mimo IV de Herondas13, século III a. C.. Boa parte, contudo, do que sabemos com relação aos sacrifícios, taxas e sacerdotes que participavam do culto de Asclépio, vem das inscrições dos próprios santuários, chamamos atenção para o texto de uma lei do Asclepeion de Pérgamo14, bem completo e detalhado, sobre os procedimentos que os incubantes deveriam fazer. Este texto encontra paralelo com outra lei de Epidauro15, do século IV a. C., cujo texto infelizmente está incompleto e fragmentário, no entanto, é possível que a lei de Pérgamo seguisse as orientações de Epidauro. Outros detalhes esparsos podem ser lidos em diversos autores como, por exemplo, Aristides e Pausânias. Os vestígios
12 ARISTÓFANES. Pluto (a riqueza). 655-760. 13 HÉRONDAS. Les mimes d’Hérondas. Mime IV. 14 I. Perg. III, 161.
arqueológicos também ajudam a entender a dinâmica destes rituais, Milena Melfi faz algumas observações acerca do percurso ritual no Asclepeion de Epidauro16.
Antes de qualquer coisa, era preciso que os participantesΝ estivessemΝ “puros”,Ν devemos lembrar que os rituais de cura eram, sobretudo, rituais de purificação. O sentido de pureza é muito lato em grego antigo, vai desde estar fisicamente limpo, daí o papel fundamental dos banhos e da água nos cultos de Asclépio, passa por uma série de atitudes, evitar ter relações sexuais, não ter matado ninguém, não ter participado de funeral, e vai até os pensamentos, ter pensamentos santos era um dos aconselhamentos encontrados no santuário de Epidauro. Uma inscrição do templo de Asclépio afirmava: “PuroΝ deveΝ serΝ aqueleΝ queΝ entraΝ noΝ temploΝ perfumado;Ν purezaΝ significaΝ terΝ divinosΝ pensamentos”17.
Assim, aparentemente, uma das atitudes iniciais ao se chegar ao santuário era tomar um banho. Aristófanes afirma que assim que Pluto, que era cego, chegou ao santuário de Asclépio em Epidauro, foi banhado na água do mar18. Alice Walton explica queΝ oΝ termoΝ empregado,Ν peloΝ autor,Ν paraΝ “águaΝ doΝ mar”,Ν emΝ grego,Ν éΝ “ ά ” (thálassa), sendo que este termo, desde a Antiguidade até o grego moderno, é empregado não apenas para se referir ao mar, mas também para se referir à mistura de água e sal19. Temos um relato de séculos posteriores, século II d. C., que ainda faz referências a estes banhos. O relato é de um homem chamado Apelas, que narra de maneiraΝ maisΝ pessoal,Ν asΝ sensaçõesΝ ocorridasΝ nestesΝ banhos:Ν “enquanto eu me ungia, com sais e mostarda umedecida, senti dores, porém quando me banhei elas desapareceram”20.
Além disto, nos chama a atenção a quantidade de cisternas, poços, bacias e tubulações que levavam água para os principais edifícios, identificada por Milena Melfi no Asclepeion de Epidauro. Encontramos praticamente diante de cada edifício uma bacia, ou mais de uma, como que para lembrar, o tempo todo, que a cada passo, no percurso ritual, uma libação, ou limpeza, tivesse que ser feita. Higeia, a deusa da saúde e da higiene, filha de Asclépio, é comumente representada segurando um pote de água,
16 MELFI, M. I santuario di Asclepio in Grecia. p. 40-45.
17 PORPHYRIUS. De abstinentia, II, 19. Apud EDELSTEIN, E.; EDELSTEIN, L. Asclepius: A Collection and
Interpretation of the Testimonies. Volume I. p. 163.
18 ARISTÓFANES. Pluto (a riqueza). 655.
19 WALTON, Alice. The Cult of Asklepios. p. 77-78. 20 IG IV², 1, 126.
em que, às vezes, uma serpente desce, pelo seu braço, para beber, a associação entre água, limpeza e saúde parece estar evidente. A lei do Asclepeion de Pérgamo ainda prescreve que o incubante esteja limpo das poluções causadas pelas relações sexuais, carne de cabra e queijo, a lista de interdições não se encerra aqui, porém, a inscrição está danificada nesta parte do texto21.
Estando-se puro, então, o incubante poderia começar o que a inscrição chama de ί (prothysia), os sacrifícios iniciais que precediam a incubação. Os sacrifícios iniciais deveriam ser feitos no altar de Apolo Maleata22. Munido com uma coroa de oliveira, deveriam ser oferecidos bolos sacrificiais a cada um dos seguintes deuses: Zeus, Ártemis e Gaia. Uma lei, desta vez do Asclepeion de Atenas, século IV a. C., informa que bolos sacrificiais deveriam ser dados também às filhas de Asclépio: Iaso, Aceso, Panaceia23. Como existiam altares para os filhos de Asclépio em Epidauro, é provável que todo este procedimento tenha seguido as indicações do Asclepeion de lá.
Apenas após isto é que se sacrificava um porco no altar de Asclépio, a inscrição de Pérgamo menciona um porco, mas sabemos que outros animais poderiam ser oferecidos, como bois e galos, a repartição destes animais era feita entre sacerdotes, cantores e guardiões que acompanhavam o cerimonial24. O mimo IV de Herondas25 dá a entender que um sacerdote, intitulado neokoros, informava se o sacrifício foi aceito e se os presságios eram bons. Feito isto, deveria se pagar a taxa de três óbolos ao tesouro de Asclépio, a mesma quantia é observada em Epidauro26. Ao que parece, toda esta parte do ritual se fazia durante o dia. Durante a noite, novos sacrifícios de bolos eram feitos, desta vez para Tyché, a deusa da fortuna, e para Mnemosine, a deusa da memória, do lado de fora, dentro do Ábaton, oferecia-se um bolo a Têmis, a deusa que guardava os juramentos e a lei. Eram requisitadas, assim, três deusas de imagem significativa neste momento: uma para a boa sorte, uma para a lembrança, talvez para lembrar os sonhos ocorridos depois de desperto, e uma para cobrar os juramentos que foram feitos.
A se julgar a proximidade do Ábaton, no Asclepeion de Epidauro, com um poço e a existência de bacias próximas à entrada, é provável que, antes de entrar, um novo
21 I. Perg. III, 161. 22 IG IV², 1, 128, III. 23 IG II², 4962. 24 IG IV², 1, 41.
25 HÉRONDAS. Les mimes d’Hérondas. Mimo IV. 26 Peek, Asklepieion 336.
banho deveria ser tomado ou libação deveria ser feita. A lei de Pérgamo faz questão de mencionarΝqueΝtodosΝqueΝfossemΝentrarΝnoΝ“pequenoΝdormitório”ΝdeveriamΝobservarΝasΝ mesmas prescrições, seja a de se estar puro, seja com relação aos sacrifícios cruentos e incruentos, seja a quantia paga em dinheiro. Se alguém fosse se consultar várias vezes sobre a mesma doença, ou sobre outro assunto qualquer, todo o ritual deveria ser repetido.
Para o que ocorria estando-se dentro do Ábaton, as fontes são esparsas e pouco detalhadas, as inscrições do santuário não são claras, talvez porque todos que passavam pelo ritual sabiam o que ele era e não havia necessidade de detalhamento, elas dizem apenasΝ deΝ maneiraΝ imprecisa:Ν “duranteΝ aΝ incubação...”.Ν AΝ melhorΝ fonteΝ sobreΝ esteΝ momento está na peça intitulada Pluto de Aristófanes. Segundo este autor, no interior do Ábaton, os devotos oravam para o deus enquanto sacerdotes passavam recolhendo os bolos sacrificiais de cada um, ao mesmo tempo, eles pediam para que dormissem e não fizessem barulho. Na cena de Aristófanes, um de seus personagens tenta roubar os bolos de outros devotos, ao passo que os sacerdotes não permitem, talvez por causa daquilo que Pausânias nos informa, tudo o que fosse oferecido em sacrifício deveria ser consumido no interior do recinto sagrado27. Os incubantes deitavam, então, em um leito de folhagem, provavelmente em cima do chão. As luzes eram apagadas e simplesmente, contam os personagens de Aristófanes, o deus aparecia causando grande terror28.
Após a incubação e a realização da cura, não fica claro se mais algum montante deveria ser pago, ou mais sacrifícios deveriam ser feitos. Seja como for, não há dúvida que o anáthema, o ex-voto, deveria ser depositado como agradecimento ao tratamento. Às vezes o objeto que iria ser depositado como ex-voto era pedido especificamente pelo deus no próprio sonho, às vezes era o devoto quem decidia o que ia oferecer. De toda forma, o ex-voto era consagrado ao santuário como prova do ocorrido. Prova em três sentidos: primeiro como lembrança, como memorial, para quem foi agraciado pelo milagre, o fato é materializado em objeto e, portanto, eternizado; segundo como prova de fé para outros devotos, para encorajá-los na mesma situação, a sua visualização socializa os problemas e também as soluções; terceiro como testemunho para o próprio deus de que a dívida foi paga, segundo um epigrama de Calímaco29, Asclépio poderia
27 PAUSANIAS. Description de la Grèce. Livro II, 27, 1. 28 ARISTÓFANES. Pluto (a riqueza). 660-700.
esquecer que a dívida foi paga e perturbar o espírito do devoto, com a prova material de sua quitação com sagrado esta aflição poderia ser refutada. A oferenda-memorial é um elemento catalisador que une o aspecto pessoal, coletivo e divino.