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Nesta seção, traremos primeiro os milagres que ocorrem apenas por se estar dentro do espaço sagrado do santuário. O ritual de incubação não é nem sequer citado nestes relatos, mesmo assim, verificamos que o milagre ocorre. Estas narrativas serão analisadas inicialmente porque a quantidade de informação acerca do espaço onírico é inexistente, uma vez que todo o milagre ocorreu enquanto o devoto estava acordado, ou seja, durante a vigília.

121, XVI: Nicanor, coxo. Enquanto ele estava sentado, e acordado, um garoto agarrou sua bengala e fugiu. Ele se levantou para persegui-lo, e assim ficou curado.

A palavra, em grego, que descreve a doença de Nicanor é ό (cholos) que, segundo Liddell e Scott51,Ν significaΝ principalmenteΝ “coxoΝ nosΝ pés”,Ν “mancando”,Ν ouΝ seja, um indivíduo que apresenta dificuldade de locomoção. Não sabemos, porém, se este problema é de nascença ou se ele foi, de alguma forma, adquirido por este devoto em algum momento de sua vida. O fato é que estando no santuário, um garoto desconhecido roubou a bengala, que podemos inferir, através da leitura, que Nicanor usava para se locomover. Miraculosamente sua dificuldade ao andar é sanada e ele persegue rapidamente o garoto, verificando-se assim que a cura foi efetuada. Neste primeiro relato, tanto a doença de Nicanor quanto o milagre, ao nosso olhar, podem ser questionados, pois parecem forçosos. Poderíamos nos perguntar em que medida o problema de Nicanor era realmente grave? Ou o que pode ser considerado milagroso aí? Porém, perguntas deste tipo levariam a uma interpretação equivocada, como já observamos ser feita pela bibliografia relativa ao desenvolvimento do culto de Asclépio em Epidauro – reduzem a complexidade dos milagres a um binômio verdadeiro/falso. A

questão não é se os milagres descritos são realmente verdadeiros ou falsos, devemos compreender, ao invés disto, o quanto eles revelam acerca da sociedade que os produziu. O que este milagre parece querer deixar claro para os novos suplicantes que viriam ao santuário, é que se o devoto apenas estiver em um lugar sagrado, como o santuário, sem um contato direto com o espaço onírico, isto é durante a vigília, ou sem um contato direto com o deus pessoalmente, a cura pode ser alcançada. O poder do sagrado está espalhado em todo o temenos e pode ser usufruído. A mesma lógica pode ser verificada no relato seguinte:

121, V: Um garoto mudo. Ele veio ao santuário como suplicante para recuperar a voz. Assim que ele ofertou os primeiros sacrifícios e cumpriu os rituais, imediatamente o servo do santuário, que traz o fogo para o deus, olhando para o pai do garoto perguntou se ele prometia trazer durante um ano as oferendas pela cura, se ele a obtivesse. O garoto, de repente, gritou:Ν “euΝ prometo”.Ν SeuΝ paiΝ ficouΝ chocadoΝ eΝ pediuΝ paraΝ eleΝ repetir, o garoto repetiu as palavras e verificou-se que ele estava curado.

Mais uma vez, o ritual de incubação não chegou a ser efetuado. Toda a cura é realizada durante a vigília.Ν Aqui,Ν todaΝ aΝ passagem:Ν “oΝ servoΝ doΝ santuário,Ν queΝ trazΝ oΝ fogoΝ paraΝ oΝ deus”Ν é,Ν naΝ verdade,Ν aΝ explicaçãoΝ deΝ umΝ únicoΝ termoΝ empregadoΝ noΝ original:Ν“pyrphoros”,ΝemΝgregoΝ“ ό ”,ΝqueΝsignificaΝaqueleΝqueΝtrazΝoΝfogo,ΝouΝ que porta o fogo52. Aparentemente, pelo contexto desta inscrição, este era um cargo sacerdotal que cuidava dos sacrifícios e dos rituais preliminares ao deus Asclépio. Estes rituais e sacrifícios preliminares pareciam ser essenciais. Segundo a inscrição de Isilo53, não era possível descer ao Ábaton sem antes se fazer estes rituais e sacrifícios preliminares. Provavelmente era neste momento que também se pagava a taxa em dinheiro mencionada por Milena Melfi54. Este momento era crucial, pois indicava a relação de entrada na realidade sagrada. Foi justamente neste momento carregado de significados que o garoto mudo passa a falar, dando uma resposta afirmativa ao que foi proposto pelo pyrphoros. Contando que a compra de animais e de coisas para os rituais

52 LIDDELL; SCOTT. A Greek-English Lexicon. verbete: . 53 IG IV², 1, 128, III.

sacrificiais também tivessem algum custo, a promessa de arcar com tudo isto por um ano inteiro é relativamente onerosa.

Percebemos também que um jogo econômico para arrecadação de fundos era exercido pelos sacerdotes. Ao milagre foi atrelada conscientemente, pelo sacerdote, a obrigação de que oferendas fossem pagas pelo pai do garoto durante um ano. Isto mostra que a atuação dos sacerdotes não era ingênua e despretensiosa, mas levava em consideração o potencial econômico de arrecadação de fundos do santuário. Não apenas o fato de ter pedido isto especificamente a este pai, mas também por expor esta narrativa no compêndio de milagres do santuário, que se destinava à leitura de novos visitantes e devotos, mostra claramente que o comportamento esperado de um devoto não era o de negligência ou avareza com relação ao sagrado. A negação do pagamento ao deus poderia ter consequências danosas, como teremos oportunidade de analisar mais adiante. A confiança em relação ao poder do deus também é expressa no relato seguinte. 121, X: O vaso. Um carregador estava indo para o santuário, há uma distância de dez estádios, ele caiu. Quando se levantou, ele abriu sua bolsa e viu seus bens quebrados, inclusive o vaso que seu senhor costumava beber. Com uma grande angústia, ele sentou e tentou consertá-lo, reunindo as peças. Um transeunte, ao vê-lo,Νdisse:Ν“camarada,ΝporΝqueΝreconstróisΝoΝvasoΝemΝvão?Ν Isto, nem mesmo Asclépio de Epidauro poderia fazê-lo!”.Ν OΝ jovem, ouvindo isto, pôs os pedaços de volta na bolsa e foi ao santuário. Quando chegou, abriu a bolsa e retirou o vaso completamente restaurado. Ele contou tudo ao seu senhor que ao ouvir a história, dedicou o vaso ao deus.

Da mesma maneira que as narrativas anteriores, o ritual de incubação não foi necessário para proceder este milagre. Curiosamente, o milagre não foi realizado sobre uma pessoa, mas sobre um objeto, um vaso. Inclusive o próprio vaso é tratado como tendoΝumaΝdoença,ΝpeloΝmenosΝàΝmedidaΝqueΝaΝinscriçãoΝafirmaΝqueΝeleΝfoiΝ“curado”,ΝouΝ “sanado”.Ν NaΝ verdade,Ν aΝ palavraΝ queΝ aquiΝ utilizamosΝ paraΝ “restaurado”Ν éΝ “ ή ”Ν (hygies), a mesma palavra que é utilizada exaustivamente para declarar que as pessoas ficaram curadas de suas enfermidades. Poderíamos achar que o milagre foi livrar o escravo da angústia causada pela possível punição que ele receberia de seu senhor.

Neste ponto, o caráter benfazejo de Asclépio, para com os mais humildes, é exaltado. Como os objetos que, de alguma forma, foram tocados pelo sagrado não poderiam mais compartilhar a realidade profana, o vaso foi consagrado ao santuário.

Sempre que o poder de Asclépio é posto em dúvida, como fez o transeunte, as inscrições dão uma mostra do poder do deus, no sentido de desvalorizar a incredulidade e valorizar a fé. Além disto, percebemos também que o deus Asclépio era consultado, para resolver problemas cotidianos. Este relato não pode ser tomado isoladamente, como veremos mais adiante, Asclépio era consultado para uma infinidade de casos, para conserto de objetos, para oráculos, para encontrar pessoas desaparecidas, enfim, mais do que para a cura. Embora a cura fosse o motivo principal, ela não era o único. Percebemos que, de certa maneira, há a intenção de fazer com que o santuário tenha uma frequentação de pessoas que não estivessem apenas doentes. As estruturas arquitetônicas analisadas no capítulo 3 exemplificam isto, como já foi afirmado, o santuário era mais que um centro para tratamento de doenças, ele era um lugar de convivência.