San children in formal education
3.1. San children education
O primeiro e o mais evidente dos princípios etnofenomenológicos visualizados nas vivências de lazer é o da experiencialidade. Essas vivências revelam variadas formas de resolução de problemas da vida na dinâmica contínua nas relações interpessoais dos residentes na moradia estudantil, com relação da inclusão da perspectiva do lazer na vida dos estudantes dentro e fora da instituição.
O princípio da experiencialidade resvela-se por meio da expressão dos sentimentos., Destaca-se que ao desfrutar a experiencialidade ludopoiética os estudantes residentes foram estimulados a sentirem o que aprenderam, a viverem o conhecimento, o que permitiu que este se tornasse mais significativo e acessível. Dentre as situações materializadas, que mostram as repercussões da experiencialidade no processo de autoformação e autoprodução do lazer encontra-se a culinária. Observemos a fala do Solo A.C.M. (2010) quando questionada sobre as vivências do lazer fora da escola e a relação desta com a experiencialidade:
Nunca pensei que pudéssemos aprender cozinhando, mas percebi o quanto é rica a experiência quando estou em casa fazendo uma lasanha pra dividir com o namorado, ou com a família. É engraçado, pois fazemos relações entre o que fazemos e o que vivemos em nosso cotidiano. A experiência torna-se ainda mais prazerosa quando a ela acrescente-se uma boa música.
Como podemos perceber, a experiencialidade possibilita a vivência dos saberes, legitima o conhecimento teórico aprendido em sala de aula e nos demais espaços educacionais, bem como permite a criação de novos conhecimentos por meio da interação
com outros meios e outras pessoas. Como afirma Certeau (1994, p.271), “cozinhar envolve um volume complexo de circunstâncias e dados objetivos, onde se confrontam necessidades e liberdades, uma confusa mistura que muda constantemente e através da qual se inventam as táticas [...]”. Por esta razão destacamos a importância da experiencialidade na vida cotidiana do indivíduo.
Redescobrindo novos solos, nos deparamos com a semente do ecoturismo, nela a
experiencialidade tornou-se evidente quando o Solo A. A. A. (2008) construiu seu cenário no
Jogo de Areia (Figura 10) e assim se expressou: “É uma satisfação inigualável os momentos livres nos banhos de açude sempre perto da mãe natureza, com esse contato enriquecemos as experiências, aprendemos respeitar a natureza e os que dela dependem”.
Figura 10: Cenário Construído pelo participante Solo A. A. A. (2008) simbolizando os momentos livres que trouxeram alegria e prazer, no período de permanência em Moradia estudantil.
Fonte: Pereira (2009).
Ao vivenciar o ecoturismo, os sujeitos experienciam e vivem seu corpo e suas sensações de diferentes formas (BARBIER, 2003), isso porque ao se relacionar com a atmosfera ambiental os sentidos ficam aflorados, permitindo que os estudantes apurem a audição, desenvolvam sua tatilidade, apreciem paisagens, desvendando a beleza do meio. Ainda nas vivencialidades do ecoturismo junto as áreas verdes, muitos estudantes manifestaram atitudes de fruição, que demonstram o prazer de se envolver consigo mesmo e o de descobrir a amplitude da mãe natureza. Destacamos aqui este depoimento: “A experiência do lazer proporcionado naquele dia no Parque das Dunas foi um momento ímpar, uma vez
que a trilha, o envolvimento com a sensibilidade daquelas “bolinhas”, foi excelente” (SOLO H.S.M., 2008).
Nesse momento de formação ludopoiética fora do ambiente institucional visualiza-se como é possível o indivíduo construir um conhecimento de si próprio, além de proporcionar um comprometimento com a preservação do meio ambiente. Desse modo, os sujeitos são levados a desenvolverem o sentimento da solidariedade, tornando-se co-responsáveis pela preservação do ambiente e da vida. Para Moraes (2003), a vida é uma experiência de constante aprendizagem, na qual são construídas novas realidades e novos saberes. Dessa forma, ainda se descobrem pertencentes a um mundo de possibilidades e concretudes, no qual aprendem constantemente.
Adentrando no mundo das imagens, por meio da semente do cinema, realizado nos finais de semana ou no período da noite, a experiencialidade ganhou novas proporções, agora não apenas sentia-se, mas imaginava-se, criava-se, fantasiava-se. O tempo era o de visualizar novas cores, experiências, refazer-se mediante ao que a priori não passava de ficção.
O aprender, o conhecer revelava-se no momento em que os sujeitos expressavam suas emoções, extravasando sensações e sentimentos suscitados pelo jogo de imagens na televisão ou nas telas do cinema. Como demonstra o Solo A.C.O. (2008), assistir filmes tornou-se uma prática significativa com a qual os participantes internalizavam conhecimentos que lhes permitiam o desenvolvimento de princípios morais e éticos necessários a boa convivência social e, principalmente, ao crescimento pessoal de cada um deles
As tardes de sábado e domingo que nos reunimos para pegarmos a pipoca e sentar na poltrona para assistirmos a filmes que ora nos proporcionavam momentos de riso, ora de aventura e os demais gêneros, todos eles de muita importância para o nosso crescimento moral e espiritual. Sem querer nos colocávamos no lugar dos personagens e isso nos levava a pensar na resolução de nossos problemas (SOLO A.C.O., 2008).
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Como podemos observar ao vivenciarem o cinema os estudantes integravam-se as novas realidades, já que experienciavam o papel dos personagens. Nesse processo, eles recriavam-se e buscavam resolução de seus problemas, por meio do exemplo assistido. Em muitos casos, o cinema tornou-se um instrumento mediador e incentivador das transformações. Para Fernandes e Siqueira (2010, p.102), “ o cinema pode ser entendido como
um produto cultural gerador de significados e entendimentos sobre o que é ou não aceitável em relação aos comportamentos e papéis que o indivíduo assume na sociedade”.
Afirmamos, por meio da análise dos registros que as variadas linguagens e expressividade adotadas nas telas do cinema mostram como as experiências favorecem o sentido de beleza e aproximam as pessoas, e os estimulam nas ações, como destacado pelo Solo A.C.O. (2008) na construção do Jogo de Areia:
Os bancos menores é a nossa sala de estar, onde nos reunimos para assistir
TV, representa o “cine” improvisado da EAJ. Lá nos sentimos felizes, pois
somos nós mesmos e ao mesmo tempo outros. Nos encontramos num tempo presente e logo em seguida num passado ou futuro ainda distante. É muito bom! Assistimos ótimos filmes.
Percebe-se que a experiencialidade evidenciada a partir do cinema possibilitou ainda estabelecer relações intergeracionais uma vez que os temas assistidos provocam discussões entre pessoas de faixa etárias distintas, como professores e estudantes, dentro e fora do contexto escolar. Ao assistir os filmes, o estudante passa a assumir novas posturas, tornando- se mais sensível e criativo, uma vez que seu pensamento passa por transformações interiores que o fazem refletir criticamente. Para Bohm e Peat (1989, p. 226), “espectador ao mesmo tempo apaixonado e sensível será capaz de explorar novas ordens generativas dentro da sua mente e corresponder aos vários indícios presentes no papel ou tela”.
Com a semente dos Jogos Esportivos também foi possível visualizar as repercussões do valor da experiencialidade, principalmente por se tratar de uma prática que por si exige a congregação entre o fazer, o ser e o conviver.
Essas repercussões tornaram-se evidentes nos depoimentos dos estudantes que afirmaram a sua relevância no processo de formação individual, quando necessitaram amadurecer, construir e respeitar regras; desafiar-se, bem como no processo de formação do sentimento de coletividade, com o qual definiram equipes, consolidaram o espírito de grupo por meio dos incentivos e ajuda mútua.
Como podemos verificar na fala de Solo F.G.D. (2010), os jogos auxiliaram esses adolescentes a se reconhecerem e a reconhecerem o valor do outro, entendendo a especificidade de cada ser, bem como, identificando os sentimentos e sensações por eles suscitados:
O fato de estar junto aos meus colegas, nas atividades de lazer, como os jogos esportivos, me ajudou muito a me desinibir e a interagir mais com eles. Isso me fez perceber as diferenças e semelhanças entre eu e os outros, e com isso melhorar minha forma de vê as pessoas. Acho que me tornei mais sensível.
As semelhanças e diferenças entre as pessoas, as regras estabelecidas e a recriação das mesmas foram motivos para que os partícipes deste estudo pudessem construir outras perspectivas em torno de si mesmo e das pessoas do seu entorno, favorecendo desta forma o convívio em grupo e a sua relação com o mundo.
Nesse mesmo sentido, para o participante Solo P.S.J. (2010), “ as vivências com os jogos, principalmente o voleibol e o basquetebol experienciadas foram muito importantes para perder a minha timidez e me relacionar melhor com as pessoas, pois antes eu não tinha tanta facilidade para me entrosar”.
Com isto constata-se que a experiencialidade materializada nos jogos esportivos foi um divisor de águas no que se refere às atitudes e forma de relacionar-se consigo mesmo e com os pares no convívio escolar e consequentemente fora desta.
Podemos ainda destacar a experiencialidade nos momentos das festas, quando os residentes têm a possibilidade de se expressar nas variadas linguagens. Pensam, agem, interagem, produzem e brincam. Estabelecem critérios de organização, participação e até avaliam o processo. Vivem no cotidiano a tarefa de gerir, planejar, executar.
Durante as festas, na fase de preparação o estudante se organizava, experienciando o fazer não apenas do estudante, mas o do organizador, do administrador, do vendedor, animador e líder de grupo. Nesses momentos eles também revelam a importância do experienciar o trabalho em grupo no seu processo autoformativo, capaz de respeitar a opinião do outro e estabelecer uma relação harmoniosa para alcançar o sucesso esperado.
O participante Solo P.S.J. (2010) conta-nos um pouco sobre a experiência estética, ou seja, a experiência de ser um organizador e expõe a responsabilidade e o cuidado com o outro. Tais atitudes apesar de intrínsecas a alguns participantes puderam ser afloradas por meio das vivências do lazer.
Como organizador, minha turma este ano organizou muitos horários de lazer para o pessoal da escola. É meio trabalhoso, porque tipo assim... sempre tem um planejamento. Se a festa for numa quarta-feira, por exemplo, desde o inicio da semana ou mesmo uma semana antes a gente se organiza; precisa saber o que fazer, Como fazer? E para que fazer? Já que o público alvo mesmo é o aluno interno, já que eles são os que têm mais facilidade para participar. Sempre escolhendo as músicas que agrada a uns e outros, já que tem muitos grupos na escola, muito gosto musical... a gente sempre misturava os ritmos para agradar a todos e para que as pessoas pudessem interagir.
Em consonância com este participante, Solo F.G.D. (2010) acrescenta:
Fazendo parte da comissão organizadora de uma festa tinha que animar o pessoal para ir às festas, porque algumas vezes coincidia a festa com o período das provas, então ficava um clima mais tenso, as pessoas com receio de ir participar.mas no final elas sempre iam para desopilar.
Como podemos observar nessa vivência, os organizadores exerciam diferentes papéis, comprometendo-se com o espaço, com o outro e consigo mesmo. Nas festas o interagir com os colegas, tocá-los nos momentos das danças, permite a aproximação entre os sujeitos, favorecendo a construção do sentimento de reciprocidade, comprometimento e respeito às diferenças.
Ainda em relação à experiencialidade, o Solo A.P.M. (2010) faz uma relação entre as experiências vividas na Escola Agrícola com o processo de aprendizagem: “Jundiaí15 me ensinou a viver com mais vida, pois aprendi por meio dela. Hoje sei que conheço mais porque vivi e não porque o Português e a Matemática me ensinaram”
Como podemos constatar, os diferentes processos da experiencialidade impulsionam os estudantes a recriarem sua forma de agir e atuar no cotidiano escolar e na vida fora da escola. Estes tiveram que se tornar sensíveis às suas capacidades criativas e explorar suas potencialidades corporais, atuando e desempenhando diferentes papéis. Isso permitiu que os estudantes se reconheçam e amplie as formas de comunicação com o mundo.