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2.3. The Omaheke Ju/’hoansi

2.3.1. Baaskap 1 and class status in the Omaheke

Está diretamente relacionada às emoções, e se refere a estados interiores da consciência (CSIKSZENTMIHALYI, 1999). Quando sentimos prazer, alegria, beleza, felicidade, desejo, a emoção pulsa e vibra no interior de nosso Ser. Portanto, não importa o que fazemos, e, sim, como fazemos. E a intensidade com a qual realizamos determinada ação é que nos faz fluir. Csikszentmihalyi (1999) afirma que as intenções, metas e motivações são manifestações da “negaentropia psíquica”; isto é, as emoções positivas são mais elevadas quando as pessoas sentem que o que fazem é motivado por não terem nada melhor para fazer. Nos cenários imagéticos, percebem-se situações vivenciadas nos intervalos de aulas ou de turnos que demonstram, mesmo que de maneira rápida, o fluir das emoções. Foram momentos de intensa alegria e satisfação, ocorridos em companhia de amigos:

Bem abaixo da caixa, perto da borda inferior, coloquei uns bonequinhos, que representam meus colegas e eu no açude da escola, nos intervalos de aula. Além disso, procuro conversar com meus colegas. São momentos de relaxamento, e descarregamos todo um peso de aulas e trabalhos escolares... (SOLO F. G. D., 2008).

A parte onde coloquei os bonecos sentados nas cadeiras em volta da mesa, representa a hora do intervalo, no qual eu me sinto bem (por motivo de força maior, fico uma boa parte do meu dia no almoço e jantar). Gosto de comer devagar e saborear bem os alimentos! (SOLO J. C. S., 2008).

Dessa forma, coloquei no canto superior esquerdo da caixa a representação de um dia no qual não teve aula, eu e minhas colegas do quarto fomos fazer um piquenique no bosque da escola. Esse dia foi ótimo!... (até rolar na grama nós rolamos!) (SOLO P. M. M., 2008).

Essas atividades categorizadas como lazer social (DUMAZEDIER, 1980), são expressas nos cenários imagéticos dos participantes (SOLO F. G. D.; SOLO P. M. M., 2008) mostram a importância do desenvolvimento do lazer para a autoformação humanescente dos adolescentes, evidenciando a importancia do indivíduo se sentir feliz para interagir melhor com os pares, principalmente em um ambiente de moradia coletiva.

Em relação à descrição do Solo J. C. S., o fato de gostar de comer possibilitou um deleite nas horas das refeições, “apesar de muitas atividades de fluxo serem agradáveis apenas durante curto período, porque seus desafios logo se esgotam,” (CSIKSZENTMIHALYI, 1999, p.83). Outras características da ludopoiese, em relação à propriedade da autofruição foram observadas. Quando os participantes criaram seus cenários, principalmente no período da noite, mostram que conseguem desfrutar melhor seu tempo livre. Observamos assim, a sensibilidade e beleza da fala de Solo J. C. S. (2008):

[...] E, mais acima da caixa, do lado direito, represento o período da noite através dos bonecos - eu e outra pessoa, do sexo feminino -, ou seja, eu ficando com uma menina aqui no bosque da escola. E, as duas bonecas que estão em pé, ao lado são mais duas meninas fazendo fila prá ficarem comigo!!!! As plantas em volta mostram o belo ambiente do bosque!

Nessa descrição, visualiza-se, a emoção como um aspecto mais subjetivo da consciência, uma vez que só mesmo a própria pessoa pode dizer o amor que sente, ou a vergonha, ou a gratidão, ou mesmo a felicidade. Assim, concordamos com Csikszentmihalyi (1999) quando esclarece que

[...] uma emoção é também o conteúdo mais objetivo da mente, porque a sensação física que experimentamos quando estamos apaixonados, envergonhados, assustados ou felizes é geralmente mais real para nós do que aquilo que observamos no mundo exterior, ou o que e quer que aprendamos com a ciência e a lógica (CSIKSZENTMIHALYI, 1999, p.25).

Essas atitudes que se refletem em sentimentos paradoxais, muitas vezes expressas pelo homem, fazem emergir seus sentimentos mais íntimos que se manifestam em ações externas.

Outras vivências lúdicas representadas nos cenários também mostraram a autofruição no período da noite, como se pode verificar nos seguintes relatos:

À noite, costumávamos nos reunir para dançar e conversar. Trocávamos confidências, o que tornava esse momento muito especial. E ainda tinha as festas onde dançávamos muito (SOLO F. L. S. J., 2008).

Ao lado desse cenário, mostrei outro momento de alegria na escola, quando de noite tem alguma festinha (que também ajuda a tirar o estresse da gente...) (SOLO F. G. D., 2008).

Nos depoimentos dos Solos F.L.S. e F.G.D.(2008), observa-se que as festas e as frequentes conversas, foram momentos marcantes e significativos na vida desses adolescentes em moradia estudantil, possibilitando a expressão de beleza na convivência entre eles, e o sentimento de alegria e bem-estar. Atividades do lazer físico e social vivenciadas pelos adolescentes residentes trazem uma direta e relevante contribuição para a formação e autoformação humana nesse ambiente de coletividade gerando emoções positivas.

É possível perceber nas falas a simplicidade das ações que geraram alegria e prazer, pois, para eles encontrarem tal felicidade, não houve necessidade de bens materiais, justificando-se que “tudo o que fazemos tem como meta final experimentar a felicidade”. Essa afirmação foi inspirada no pensamento do filósofo Aristóteles, sendo complementada pelo pensamento de Csikszentmihalyi (1999, p.26): “Não queremos realmente a riqueza, ou saúde, ou fama por si sós – queremos essas coisas porque esperamos que elas nos tornem felizes”. Essa afirmação mostra também a íntima relação que existe entre as propriedades ludopoiéticas, nesse caso a autovalia e a autofruição, pois, se o homem busca a felicidade sem ter nada em troca, isso favorece o sentimento de leveza ao fazer vibrarem as emoções no interior do Ser.

Tratando-se do lúdico na vida humana, Maturana e Verden-Zöller (2004) consideram como brincadeira qualquer atividade exercida pelo homem, desfrutada em sua realização, na qual a atenção de quem a vive não vai além dela. Para os autores, brincadeira é “qualquer atividade humana praticada por inocência, isto é, qualquer atividade realizada no presente e com atenção voltada para ela própria e não para seus resultados” (MATURANA; VERDEN-

ZÖLLER, 2004, p. 231). Portanto, o “saber brincar”, como um dos saberes da corporeidade (CÂMARA, 2005) é uma atitude fundamental nas relações estabelecidas pelo Ser com a meta de viver melhor e feliz consigo, com os outros e com o mundo. Nesse sentido, concordamos com Câmara (2005, p. 68) quando afirma que “a ludicidade como essência do brincar e fator de humanização é presença fundamental em uma educação que se dá ao longo de toda a vida, uma vez que ela deve ser desfrutada em sua realização”.

Nas representações simbólicas dos cenários construídos e nos depoimentos dos participantes, ocorrem, ainda, significativas revelações acerca da autofruição nos finais de semana: “[...] No fim de semana gosto muito de cozinhar, então sempre preparo alguma coisa para comermos, por isso que no meu cenário tem uma cozinha” (SOLO I. M. B., 2008).

Verifica-se, nessa descrição, o interesse pelo lazer manual que Dumazedier (1977) classifica de lazer prático. Atividades de lazer como desenho, pintura e culinária podem auxiliar na expressividade da personalidade do indivíduo, tornando-se vivências essenciais em seu desenvolvimento humano e em sua autoformação.

O cenário construído mostra que o prazer de cozinhar, especialmente em companhia dos amigos, permitiu os sentimentos fluírem, apesar de a arte de cozinhar ser considerada por Csikszentmihalyi (1999) como uma experiência mais apropriada para pessoas adultas. Entretanto, nessa situação, a culinária se tornou uma vivência de lazer instigante e prazerosa possibilitando o fluir no envolvimento de ações que usualmente não são realizadas no cotidiano.

Ainda em relação aos finais de semanas, outra descrição revelou a autofruição sentida por um participante:

O terceiro cenário representa os momentos de finais de semana, quando me dedico ao estudo, e também (como escolha própria: não posso tomar banho no açude) aproveito bastante a piscina. Quando fica muita gente da minha turma é melhor ainda, pois nos divertimos muito! O último final de semana que fiquei, passamos todo na piscina, sempre juntos. Foi muito bom para diminuir... desestressar! (SOLO G. L. F., 2008).

Essa descrição mostra um desejo pessoal e uma escolha própria do estudante residente ao procurar realizar uma ação que lhe faça bem, envolvendo sua emoção, o que vem materializar de forma clara a autofruição nas atividades de final de semana.

As propriedades ludopoiéticas apresentadas pelos participantes deste estudo foram evidenciadas no período de permanência na moradia estudantil, principalmente nos intervalos de aula, à noite e em finais de semana. Essas propriedades participam do processo da

autoformação ludopoiética e da autoformação humanescente desses estudantes, possibilitando-lhes se reinventarem a todo o momento com alegria, com beleza e plenitude, a própria vida. Toda essa dinâmica vivenciada no cotidiano escolar, por meio das sementes do lazer lançadas e expressas nos cenários do jogo de areia traz, portanto, uma imensurável contribuição para o processo da autoformação ludopoiética desses adolescentes, sendo vislumbrados, hoje, como solos férteis para novas semeaduras.

Mediante as análises das propriedades ludopoiéticas como fenômenos emergidos nas vivências do lazer praticadas no tempo livre dos adolescentes, a autofruição, tornou-se mais evidente dentre as atividades de lazer desenvolvidas no período da noite.

5 A EXPANSÃO DAS VIVÊNCIAS LUDOPOIÉTICAS

Fonte: Gabriela Pereira

Mãos de semeador... Afeitas à sementeira do trabalho. Minhas mãos são raízes procurando terra. Semeando sempre

A imagem de abertura deste capítulo construída na caixa de areia representa a expansão das vivências ludopoiéticas no ambiente escolar. Nela materializaram-se os etnofenômenos, nas suas variadas formas de encaminhamentos adotados pelos estudantes durante a realização das vivências de lazer. Destaca-se que a identificação desses princípios se deu a partir dos fenômenos suscitados nas experiências vividas durante o período de permanência dos estudantes na moradia estudantil, especialmente vivido no período da noite, intervalos de aulas e finais de semana.