Nessa mesma direção a estrutura física, o espaço, as condições deste espaço foi considerada pelos enfermeiros entrevistados como um fator que interfere na integralidade, assim vejamos algumas falas:
[...] A minha unidade tem algumas deficiências, mas ela é funcional. [...] pra alguma conversa reservada, hoje em dia, já é possível assim, já tá bem mais tranqüilo. Girassol.
[...] É uma deficiência, né, e... e grande, né, e que acaba acarretando, você acaba tendo que se ausentar, deixando de acolher. A área física, como exemplo a minha sala, né! Quem tá escutando não pode ver, mas vou falar... tem a farmácia, tem a mesa de ginecologia, para exame, a assistência a puérpera e o pré-natal também é aqui, o meu mini- almoxarifado também é aqui, né! Então você vê assim, que fica tudo, restrito aqui. Então, fica difícil, porque às vezes você está atendendo paciente, estão batendo na porta, porque alguém quer pegar medicação e você não tem outro lugar para colocar a medicação de distribuição à comunidade, entendeu? Então, a área física atrapalha, é difícil, soroterapia, por exemplo, eu tenho uma salinha pequena, quando eu tenho dois soros, três soros, fica complicado. [...] Nós temos pacientes oncológicos, você não vai mandar ele já debilitado, com baixa resistência, para tomar um soro no hospital, você nem pode, ele acaba vindo na nossa unidade e nosso recurso é pouco para estarmos acolhendo, na medida do possível a gente acolhe. É um biombo só, o dia que eu vou colher preventivo eu uso o biombo. Então se tem alguém tomando soro, ele fica exposto, você entendeu? Então assim as unidades deveriam, né! Eu espero que no futuro serão é... mais apropriadas, com rampa... eu acho que é... é... como é que fala pros idosos, porque nós temos muitos idosos, é corrimão pra ele segurar, é... tapetes antiderrapantes, são aquelas placas emborrachadas para que ele não escorregue na unidade. Tulipa.
Nessas falas, os entrevistados ampliam os espaços de relações para além do biológico, valorizando o espaço de escuta, o espaço de estabelecimento de vínculo à necessidade de ter uma área física, onde possa ser assegurado o mínimo de privacidade, proteção para que seja possível construir relações de confiança e compartilhar dificuldades.
Em outras falas os integrantes da pesquisa nos apresentam situações adversas às vezes valorizando aspectos positivos das instalações da unidade, conquistas adquiridas, demonstrando sua responsabilidade, seu envolvimento com o processo de melhora e às vezes apontam para precariedade dos espaços físicos, o que nos indica uma possibilidade de comprometimento com a qualidade da resolutividade e a quantidade da política de encaminhamento.
[...] estando na unidade, dentro daquilo que eu via que tinha recursos, pra tá melhorando, é claro a gente foi até mesmo, vamos dizer assim, como se fala, adaptando algumas coisas, que dava pra resolver. Orquídea. [...] nada vem até nós, nós que temos que correr pra estar melhorando as nossas unidades de saúde. Tulipa .
[...] Então, assim em questão pra fazer as atividades com meu grupo, que tá em andamento, da terceira idade, eu tenho uma área física muito boa, tenho disponibilidade dum banheiro, né! [...] A sala como no caso de urgência e emergência é nossa sala de curativo, ela não tem porta, não tem privacidade, eu acho, que outra coisa importante que a gente teria que tá modificando é isso seria tá restringindo essa sala e a minha sala. Essa sala e também a sala da médica, de consulta, a porta da médica não fecha, ela fica assim e lá também fica perto da recepção. Violeta.
[...] Olha lá a estrutura física é bem precária, né! Perante algumas outras. É muito pequena, não dá pra você, é, é... assim de repente tá prestando um atendimento com tanta qualidade, porque tumultua muita gente no mesmo lugar, é aquela gritaria, a pessoa não ouve, de repente você tem que aumentar o tom de voz pra conversar com a pessoa, né! Muita das vezes não tem um local muito adequado pra você fazer o curativo, a pessoa fica transitando ali, né! Azaléia.
[...] ali realmente a área física é pequena, eu não tenho assim uma área pra tá fazendo reuniões, então, vai pros improvisos, né? Uso salão paroquial, mas no dia que tem capoeira lá não tem jeito, aí faz alongamento, mas tem dia que tem festa lá, aí não tem jeito, todo aquele pessoal da caminhada vai lá pra dentro da unidade, que dá uma barulheira danada, começa a conversar, sabe? O espaço não permite, aí fica muito complicado. Orquídea.
[...] Na estrutura física... igual aqui no meu caso, assim o que falta é sala assim. Aqui no caso é... sala, né... quando o pediatra chega de manhã eu tenho que tirar todas as minhas coisas levar pra outra sala, aí se chega alguém eu tenho que entrar aqui na sala toda hora. Pingo de Ouro.
Após essas falas achamos importante ressaltar que melhorar as condições das instalações físicas pode ser uma estratégia para melhorar a articulação e resolutividade dos serviços.
Nas falas anteriores, analisamos que iniciativas da implantação de equipes e unidades de SF, é importante uma vez que a ESF tem potencialidade para (re) estruturação do modelo assistencial e que de início nem tudo, principalmente no
que se refere a estrutura física, seja possível de ser implementado, porém devemos ficar atentos quanto a presença de precariedades, que precisam ser superadas, para que não prevaleça a cultura da APS de que pode ser instalada em qualquer espaço físico, sem as mínimas condições de espaços e de conforto com vista a possibilidade de oferecer respaldo para a prática da integralidade.
[...] Então eu queria ter um espaço só pra atender criança, sabe? Um espaço só pra atender mulher, que lá tivesse um banheiro privativo para ela ir lá, colocar camisola, voltar. Então seria o ideal, como seria bom, e uma sala realmente para atendimento geral, ali pra acompanhamento de hipertenso, diabético, tivesse uma balança, fazer grupos, né? Tudo. Orquídea.
[...] todos os profissionais que trabalham aqui tem sua sala disponível, né. No caso tem como ter uma conversa particular, a psicóloga tem a sala dela, onde ela atende individualmente, né. Margarida.
Esses dois discursos anteriores nos leva a refletirmos quanto à necessidade de distribuição e ao tamanho da estrutura física a ser montada, nos leva ainda a pensarmos até que ponto este tipo de recurso valoriza a AP enquanto centro dos sistemas integrados em saúde, enquanto uma porta de entrada, com perspectiva estabelecida pelo Ministério da Saúde de que se resolva 85% das necessidades dos usuários ou até que pondo pode potencializar a fragmentação?
Será que não daria para compor na mesma sala um esquema de revezamento, enquanto um profissional estaria atendendo individualmente, o outro estaria em ações coletivas, ou extra unidade?