Há mais de dois mil anos Sun Tzu, estrategista chinês, escreveu a seguinte frase que parece ser um lugar comum, isto é, uma verdade que toda a gente sabe: «A guerra é um assunto de importância vital para o Estado; o reino da vida ou da morte; o caminho para a sobrevivência ou ruína. É indispensável estudá-la profundamente»107.
Ao reproduzir este pensamento, que nos poderá parecer banal, quisemos evidenciar a importância que a guerra já tinha quando no Egipto se vivia a última fase da sua história - o período saíta - ou quando morria Sólon, na Grécia, ou, ainda, quando Roma vivia o seu distante
104 Op. cit., p. 85.
105 Veja-se a parte final da matéria referente à Guerra convencional. 106 Que designámos, até, por fenómeno total.
e lendário começo, revoltando-se contra o domínio etrusco. Quer dizer, a civilização europeia, nos seus mais distantes alvores, ainda não existia e já na China se teorizava sobre a guerra. Assim, descrevê-la no passado distante torna-se difícil, porque não sabemos a que passado nos havemos de fixar.
Por causa dessa dificuldade preferimos pegar no problema, partindo da visão da guerra no passado distante, através do armamento.
• Antes das armas metálicas
Seria estultícia tentar falar de guerra antes da existência das armas metálicas, porque, no fundamental, nada se sabe desse período remoto da vida da Humanidade e, porque, também, nem guerra, como tal encarada, deveria, então, haver.
Os recontros entre homens não andariam muito longe dos que se verificariam entre estes e os animais selvagens; no essencial, dever-se-iam utilizar armadilhas, lanças de madeira com pontas afiadas, pedras como arma de arremesso, mocas de madeira, punhais talhados em pedra e machados de madeira e pedra. De um modo geral, a derrota do adversário impunha uma aproximação física que pouco mais era do que a distância de um braço estendido. A derrota conseguia-se pela inutilização do adversário; esta poderia ser temporária ou definitiva. No último caso, tratava-se de matar o adversário o que acontecia, muito principalmente, por esmagamento ou fractura do crânio e, por certo mais raramente, por perfuração de órgãos vitais (há que atender aos instrumentos de combate utilizados).
Nas condições descritas, certamente, só os homens mais fortes e mais corajosos poderiam entrar em luta - quer esta se travasse contra outros homens ou contra animais selvagens. Podemos, pois, concluir que a luta, - porque não será conveniente falar de guerra em tempos tão recuados - entre homens armados com instrumentos não metálicos de combate, exigia, pela proximidade física a que se travava, que os combatentes fossem fortes e corajosos.
Deve entender-se por coragem a capacidade de, face às situações de perigo, dominar o medo.
A coragem, enquanto expressão de uma energia moral, é directamente proporcional ao medo e
inversamente proporcional ao treino das situações de perigo; daí resulta a necessidade de, em todos os tempos, se desenvolver, entre os homens que se dedicam à luta ou à guerra, treinos que
ponham à prova o aumento da capacidade de dominar o medo, ou seja, de desenvolver a coragem.
Embora os metais não tenham sido descobertos em todo o lado ao mesmo tempo, nem o arco e a flecha tenham surgido só depois das armas metálicas108, por uma questão de simplificação
metodológica resolvemos estabelecer a cronologia que propomos.
As armas metálicas introduziram técnicas de combate tão sofisticadas que deixaram muito para trás as que eram utilizadas no tempo das armas de pedra e de madeira.
Com efeito, às armas metálicas opuseram-se sistemas individuais de defesa que ofereciam a possibilidade de resistir a certo tipo de golpes dos adversários - o escudo (de couro ou metálico), o elmo, a couraça (de couro ou de metal) - obrigando estes a organizar melhor o ataque, partindo do treino em grupo. Assim, muito provavelmente, nasceram as primeiras tácticas da infantaria - a falange - e nasceu a imposição das razões do grupo às razões individuais109.
Para adversários melhor defendidos houve que procurar derrubá-los mais à distância e, assim, terá nascido a lança com ponta metálica; a espada curta actuava de diversas formas: partindo ossos, perfurando órgãos vitais, fracturando crânios. O duelo perdeu a característica que tinha quando a arma era de pedra - individualizado e lento - para ganhar uma outra - massivo, disciplinado e rápido nos golpes, permitindo passar a outro adversário.
A luta corpo a corpo continuou a exigir que os combatentes fossem fortes e corajosos, embora, agora, lutando em grupo, passaram a desenvolver conceitos de disciplina e formas de mútuo amparo.
• O cavalo como arma de guerra
A associação da arma metálica, cortante, ao uso do cavalo ampliou largamente a capacidade do combatente, em especial se a este se opunha um adversário apeado.
Na verdade, a aceleração do cavalo aumentou a velocidade do embate da arma no adversário, facto que permitia matar por perfuração de órgãos vitais, pelo efeito de choque ou, ainda, como consequência da queda do cavalo se o adversário também estava montado.
Também se passaram a desenvolver formas de coacção grupal para disciplinar os cavaleiros, quando o combate ocorria em grandes formações.
108 Deve ter-se em conta que certos povos primitivos não dominando a técnica metalúrgica dominavam a técnica da construção e utilização do arco e da flecha.
109 Ou seja, começam-se a esboçar os primeiros contornos da disciplina militar, já que esta subordina a vontade do indivíduo à vontade do grupo.
O uso do cavalo na guerra passou a exigir perícia na arte de montar, continuando a ser necessária a robustez física e coragem, embora esta variasse consoante o adversário a enfrentar fosse ou não um cavaleiro.
• Depois do aparecimento das flechas
A introdução da flecha na arte de fazer a guerra constituiu uma verdadeira revolução, porque, a grande distância, tornou vulneráveis os combatentes mesmo que protegidos por armaduras metálicas, por outro lado, gerou no archeiro um sentimento de segurança que o simples soldado de infantaria, portador de uma arma metálica nunca teve. Quer dizer, a flecha introduziu a necessidade de maior coragem, de maior desprendimento pela vida, de maior necessidade de protecção, no combatente possuidor de simples armas tradicionais, enquanto ao seu atirador deu maior sentimento de impunidade, visto que só outro archeiro, ou, em certas e raras circunstâncias, um cavaleiro o poderiam abater. Matar, utilizando a flecha, tornou-se mais simples, menos penoso e exigindo menos coragem, por estar menos exposto ao perigo, ao mesmo tempo que permitiu um regresso ao individualismo110 do archeiro.
Conclusão parcial
Tendo em vista compreender como é que a guerra afectava a vida das populações, por forma a verificar se ela era ou não total, do que deixámos dito, podemos concluir que a guerra, nos seus efeitos mais perniciosos111, enquanto foi feita só com armas metálicas112 era sentida,
no máximo numa cidade e nunca num Estado. • A arma de fogo individual
A introdução da arma de fogo nos combates entre exércitos, correspondeu, uma vez mais, a uma revolução na arte de fazer a guerra.
110 Embora se tenham desenvolvido tácticas de emprego dos archeiros em grupo, de modo a criarem-se grandes barreiras de disparos simultâneos, este combatente teve sempre grande liberdade de escolha do seu alvo, facto que, por certo, permitiu cultivar o individualismo.
111 A morte, a fome, a quebra de circuitos produtivos e comerciais, são, de entre outros, os efeitos mais perniciosos da guerra.
112 Excluímos o período em que as guerras não eram feitas com armas metálicas, porque a unidade política - tribo - não tinha nem a dimensão, nem a organização do Estado, nem, talvez, as populações se identificassem perfeitamente com o espaço geográfico que habitavam.
A arma de fogo permitia alvejar o adversário, mesmo que couraçado, a muito grande distância e de uma forma que, pela certa, o punha fora de combate e possibilitava acabar com a supremacia dos archeiros, porque os atingia utilizando um método mais eficaz. Mas, se é certo que a arma de fogo individual veio evidenciar terríveis vulnerabilidades nos adversários, também é certo que elas eram iguais quando os detentores de armas de fogo ficavam sujeitos aos seus efeitos; teve de se estudar novas formas de fazer a guerra o que passou por desenvolver um tipo de disciplina que garantisse que os homens dominavam o medo no momento de ficarem sob o fogo inimigo; tiveram de ser treinados os cavalos de modo a não se espantarem com os novos ruídos do campo de batalha; o equipamento individual teve de se alterar, tornando-o mais ligeiro, porque o tipo de ferimentos em combate se estava a alterar - morria-se mais da perfuração de órgãos vitais provocada pelos projecteis das armas de fogo; quanto mais se aperfeiçoavam as armas de fogo individual mais o combate corpo a corpo foi sendo raro; a mortandade e os ferimentos graves em combate aumentaram para números muito elevados; o número de combatentes envolvidos na luta foi sendo cada vez maior.
Todas as transformações referidas exigiram: mais aprendizagem técnica, mais disciplina no combate, mais coragem para enfrentar o adversário e mais espírito de abnegação para suportar os sofrimentos físicos.
• A arma de fogo colectiva
Deve entender-se como arma de fogo colectiva a boca de fogo de artilharia nas sua múltiplas variantes113.
Se a introdução da arma de fogo individual nos combates provocou profundas alterações nos exércitos, a introdução da boca de fogo de artilharia114 alterou totalmente todos os conceitos
tácticos e estratégicos até então em voga.
A peça de artilharia obrigou à aprendizagem de novas técnicas de cálculo de tiro; reduziu o tempo de cerco das praças que se pretendiam conquistar, porque rapidamente destruía as muralhas; nas batalhas campais, passou a impedir a aproximação das tropas, facto que aumentou a usura115 antes do contacto a curta distância; levou à necessidade de aumentar a
capacidade psicológica face ao fogo adversário; levou os efeitos do combate muito para trás
113 Canhão ou peça, obus, morteiro.
114 Para simplificação passamos a designá-las por peça de artilharia.
das linhas definidoras do campo de batalha; aumentou as baixas, por morte e ferimento, entre os combatentes; provocou a morte e ferimentos nas populações civis; ampliou as destruições nas propriedades de civis.
Todas as transformações referidas exigiram: mais conhecimentos técnicos, modificações nas estruturas defensivas das povoações, mais disciplina das tropas e mais coragem para suportar o combate.
Conclusão parcial
Tendo em vista compreender como é que o conflito bélico afectava a vida das populações, por forma a verificar se ele era ou não total, do que deixámos dito, podemos concluir que a guerra, nos seus efeitos mais perniciosos quando passou a ser feita com armas de fogo começou a ser sentida mais fortemente pelas populações civis, podendo dizer-se que ao aumento da capacidade de fogo correspondeu uma ampliação do número de frentes possíveis de sustentar com o mesmo tipo de armas, facto que, estendendo a guerra para além da batalha campal, envolveu pessoas civis e suas propriedades nos conflitos. Em resumo, a guerra só assumiu uma feição totalizante depois do aparecimento das armas de fogo, embora só se tenha tornado total no século XX, como veremos de seguida.