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ternalês e tem sido o foco de vários estudos, especialmente desde a década de 70, “(…) quando muitas pesquisas buscavam encontrar correlação entre o uso desta maneira de falar das mães e o desenvolvimento da aquisição da linguagem de seus filhos.” (Hubner & Ardenghi, 2010, p. 33). Na sequência desta reflexão impõem-se as questões: o maternalês é usado exclusivamente no seio familiar ou é também adotado pelos profissionais de educação? Considerando que esta característica linguística é usada em contexto educativo, será uma prática comum a todos os intervenientes?
Com o objetivo de responder a estas questões, importa sintetizar as características do mater- nalês, sendo possível identificar alguns traços comuns deste tipo de linguagem (Cristia, 2013; Rathus, 2013; Brooks & Meltzoff, 2008; Braarud & Stormark, 2008; Fonsêca & Salomão, 2006; Aquino & Salomão, 2005; Tomasello, 2003; Bishop & Mogford, 2002), nomeadamente:
i) traços prosódicos específicos: discurso mais intenso, tom alto, entoação exagerada e com um ritmo mais lento do que o discurso dirigido a adultos, contemplando várias pausas. Inclui frequentemente traços emocionais e manifestações da intenção comunicativa do locutor;
ii) utilização de onomatopeias e de palavras infantilizadas (ex: popó; chichi);
iii) reduplicação de sílabas ou de palavras (ex: “Não, não, a Ana já disse para não fazeres isso”); iv) utilização de vocabulário concreto, que se centra no conteúdo, grande parte das vezes
através da descrição de objetos circundantes ou de assuntos referentes ao momento; redução das palavras funcionais;
v) utilização frequente de diminutivos (ex: papinha; florzinha);
vi) frases simples e curtas, com reduzido número de formas e modificadores verbais. As palavras-chave encontram-se no final da frase com um timbre exagerado;
vii) repetição frequente de frases ou expressões ditas pelas crianças, nalguns casos procurando reformular o discurso infantil;
viii) utilização primordial de frases imperativas e interrogativas, muitas vezes questões retóricas que procuram estabelecer ligação com a criança (ex: Vamos vestir o casaquinho?).
Metodologia
O objetivo geral do estudo é nitidamente transversal a muitas outras pesquisas na área da aqui- sição da linguagem, já que procura melhorar a compreensão deste processo e refletir sobre a implicação das práticas pedagógicas na aquisição e desenvolvimento da linguagem infantil.
Neste sentido, os objetivos do estudo podem formular-se nos seguintes moldes:
i) caracterizar a linguagem que Educadores de Infância (EI) e Assistentes Operacionais (AO) dirigem às crianças em idade de creche e de educação pré-escolar;
ii) identificar, na linguagem de profissionais de educação, características associadas ao
maternalês e razões para a sua utilização;
iii) comparar a linguagem usada pelos Educadores de Infância com a linguagem dos Assistentes Operacionais.
Para dar resposta aos objetivos enunciados, construiu-se um questionário tendo por base a revisão da literatura efetuada. O instrumento foi depois validado por um especialista da área das Ciências da Linguagem e por uma especialista da área das Ciências da Educação, particularmen- te associada à formação de Educadores de Infância, que sugeriram algumas modificações que orientaram a reformulação do questionário.
Recolha e Análise dos Dados
A versão final do instrumento foi enviada por correio eletrónico a todos os agrupamentos de escolas com creche e/ou jardim-de-infância do distrito de Leiria, tendo sido dado o prazo de quinze dias para a obtenção de respostas por parte dos EI e AO que exerciam função nesses es- tabelecimentos de educação. Findo o tempo inicialmente previsto, a amostra era reduzida (sete) tendo-se, por essa razão, alargado o prazo por mais quinze dias. Simultaneamente, optou-se também por contactar estabelecimentos privados da mesma zona, com o intuito de se alargar a
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amostra, tendo sido igualmente solicitado que respondessem ao questionário online. O total de respostas foi de vinte e cinco, sendo que dezoito são EI e sete exercem funções como AO.
Resultados e Discussão
Os 18 EI têm idades compreendidas entre os 22 e os 60 anos, sendo que apenas um é do sexo masculino, discrepância que não cria qualquer estranheza uma vez que é comum na área da educação. Esta situação repete-se, aliás, no que diz respeito aos AO, sendo que, também neste grupo, apenas um, num total de sete, é do sexo masculino. Neste último grupo as idades são, no entanto, inferiores, concentrando-se entre os 22 e os 40 anos, o que contribui inequivocamente para uma experiência profissional também inferior à dos EI.
Sendo a habilitação profissional dos educadores conferida pelo grau de licenciatura ou, mais recentemente, pelos mestrados profissionalizantes, não será de estranhar que 83% dos inquiridos tenham, como habilitação literária mais elevada, um destes níveis, sendo os restantes 17% dividi- dos entre o mestrado não profissionalizante e outras habilitações não especificadas, elegendo como áreas a Educação de Infância, a Educação Especial, a Comunicação Educacional e as Humanidades.
Os AO têm, por outro lado, áreas de estudo mais generalistas que nem sempre estão rela- cionados com a área da educação, sendo as habilitações académicas de 86% dos participantes equivalentes ao ensino secundário.
Do cruzamento destes vetores de análise em torno da identificação dos participantes no es- tudo, é possível apresentar a seguinte tabela-síntese:
Outro apontamento a ser realizado, refere-se à situação profissional atual dos inquiridos (Grupo II do questionário), que se encontram a exercer funções no distrito de Leiria, tanto na rede pública como na rede privada da qual fazem parte as Instituições Particulares de Solida- riedade Social (IPSS). Os educadores encontram-se maioritariamente nas instituições públi- cas (72%), enquanto, pelo contrário, os auxiliares que participaram no estudo estão integrados maioritariamente na rede privada (71%).
Apesar de ter sido colocada aos participantes uma questão que pretendia recolher a média de idades dos grupos de crianças com quem trabalhavam, não é possível encontrar uma faixa de idades predominante, já que o total de 25 respostas nos remete para um vasto leque, entre os zero e os 6 anos de idade, não tendo sido, no fundo, respeitado o objetivo inicial da questão.
O terceiro e quarto grupos do questionário pretendiam recolher as características da lingua- gem usadas pelos Educadores de Infância e pelos Assistentes Operacionais quando se dirigem às crianças e as razões dessa utilização. Para tal foi disponibilizada uma lista de treze particula- ridades associadas tipicamente ao maternalês (enunciadas na introdução deste artigo) e de oito razões possíveis que justificassem a aplicabilidade desse tipo de linguagem. Perante as listas apresentadas, os inquiridos deveriam atribuir um valor que descrevesse convenientemente o grau de utilização de cada item e a importância de cada uma das razões apresentadas para a utilização das características linguísticas anteriormente enunciadas, correspondendo o 1 – Não utilizo/Não uso por essa razão; 2 – Utilizo raramente/Uso raramente por essa razão; 3 – Utilizo
Idade Sexo Habilitação Literária Tempo de Serviço
Anos AO EI AO EI AO EI Anos AO EI
22-30 57% 28%
♀ 86% 94%
12.º ano de escolaridade 29% x 0–5 43% 17%
31-40 43% 6% Curso Profissional (equivalente ao 12.º ano) 57% x 6–10 29% 11%
41-50 x 44%
♂ 14% 6%
Licenciatura x 50% 11–15 14% 6%
51-60 x 22% Licenciatura + Mestrado Profissionalizante 14% 33% 16–20 x 6%
61-65 x x Mestrado x 11% 21–25 x 28%
26–30 x 17%
31 ou + x 17%
Tabela 1 - Síntese dos elementos identificadores dos participantes no estudo (AO – Assistentes Operacionais; EI – Educadores de Infância)
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algumas vezes/Uso algumas vezes por essa razão; 4 – Utilizo com frequência/Uso com frequên- cia por essa razão; 5 – Utilizo sempre/Uso sempre por essa razão.
No que concerne à caracterização da linguagem utilizada pelos participantes no estudo quando se dirigem às crianças e, tendo em conta a percentagem de respostas, foi possível sinte- tizar os resultados através de uma tabela que permite, por um lado, analisar a porção atribuída a cada item e, por outro, efetuar uma comparação relativamente às respostas dos dois grupos de participantes (Assistentes Operacionais vs. Educadores de Infância):
A partir da análise dos dados, é possível verificar que a expressividade, enquanto veículo de intencionalidade comunicativa, não é utilizada com frequência pelos AO, uma vez que apenas 14% a utiliza sempre, sendo que os restantes elementos o faz esporadicamente, conduzindo a uma menor riqueza prosódica. O mesmo não acontece relativamente aos EI, que usam frequen- temente uma entoação mais expressiva com as crianças do que a que é dirigida a adultos – 44% utiliza com frequência e 28% sempre.
Quanto ao tom de voz alto ou intenso, não há uma discrepância tão grande entre os grupos, já que ambos parecem fazê-lo algumas vezes no seu discurso, sendo, por isso, a maior mancha gráfica a que se encontra no ponto central (3) – 71% dos AO; 61% dos EI.
Ainda sobre a enunciação, os participantes foram questionados sobre o ritmo do discurso, sendo notório que os educadores demoram mais tempo a produzir os fonemas do que os AO. Neste sentido, todos os EI afirmam utilizar um discurso mais lento, relativamente ao dirigido a adultos, havendo mesmo 28% que considera que o faz com frequência e 17% parece expressar-se oralmente de uma forma mais pausada, em todos os momentos do dia-a-dia.
Quanto ao uso das onomatopeias, constata-se que nem todos os participantes as utilizam (14% - AO; 22% - EI) e que muitos o fazem raramente (29% - AO; 17% - EI), embora a maioria forme este tipo de palavras ou fonemas para imitar os sons de objetos, animais ou pessoas que os rodeiam. Os níveis 3 e 4 são, neste sentido, os que apresentam o maior número de respostas (nível 3: 29% - AO; 28% - EI; nível 4: 14%-AO; 33% - EI). Embora se tenham obtido estes valores significativos, quando questiona- dos a propósito do tipo de onomatopeias utilizadas, os participantes não manifestaram o seu parecer. No que diz respeito à recorrência de palavras próprias do registo da criança e ao uso de diminutivos, fica claro que estas não são práticas usuais dos profissionais de educação, concen- trando-se as respostas nos três primeiros níveis. Embora com uma utilização pouco expressiva, denota-se, todavia, uma maior utilização destas características pelos AO. Há, no entanto, um educador, que afirma utilizar estas palavras com as crianças mais novas, que vai substituindo pelo emprego da terminologia correta à medida que estas vão crescendo.
Tabela 2 – Características linguísticas usadas pelos Assistentes Operacionais (cor amarela) e pelos Educadores de Infância (cor azul) quando se dirigem às crianças
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A simplificação do discurso, através de vocabulário concreto na descrição de objetos cir- cundantes ou de assuntos referentes ao momento e a enunciação de frases simples e curtas provou-se ser, pelo contrário, muito comum, com uma grande expressividade nas categorias 3 (algumas vezes), 4 (com frequência) e 5 (sempre). Nestes itens, importa salientar a utilização permanente do tipo de vocabulário descrito anteriormente por 67% dos EI.
Nesta linha de raciocínio, a preocupação com a forma do discurso dirigido às crianças parece ser uma realidade em contexto de creche e jardim-de-infância, embora nem sempre este tenha em conta a reformulação dos enunciados desviantes das crianças, especialmente pela parte dos AO, visto 29% o fazer raramente e 43% apenas algumas vezes. Infere-se, portanto, que as crian- ças produzem os seus enunciados e nem sempre são confrontadas com o modelo correto, embo- ra os EI o façam com muito mais regularidade – 50% com frequência e 39% sempre.
Quanto às frases ou expressões ditas com desvios por parte do adulto, um EI e um AO afirmam que o fazem com frequência e o mesmo número e tipo de profissionais admite fazê-lo sempre, ou seja repetem as frases/expressões incorretas. Este número, em termos percentuais, é mais sig- nificativo nos AO dado que a amostra destes profissionais contempla menos sujeitos, embora a grande maioria aja de forma correta, não articulando ou produzindo frases incorretamente como modelo perante as crianças – EI: 78% - nunca; 11% - raramente / AO: 43% nunca; 29% raramente.
As respostas relativas à utilização das frases imperativas são muito dispersas, estando todos os níveis preenchidos por ambos os grupos, com exceção do nível 5 (sempre) dos EI. A maior percentagem de resposta encontra-se, no entanto, nos níveis dois e três. A recorrência ao impe- rativo está diretamente associada à capacidade de interagir e agir verbalmente sobre o interlo- cutor, sendo um modo verbal que surge intersujeitos, ou seja, conduz o outro à ação.
A frase interrogativa, à semelhança da imperativa, age sobre o interlocutor, procurando ob- ter uma resposta por parte deste. Esta é, nitidamente, uma característica muito utilizada por EI e AO, uma vez que apenas um assistente refere não utilizar este tipo de frases. Denota-se, apesar disso, uma maior utilização por parte dos educadores; 67% utiliza frases interrogativas com frequência e 17% utiliza-as sempre.
A última questão relativa à caracterização da linguagem dos adultos perante a criança pren- de-se com a recorrência às questões retóricas, ex. “Vamos vestir o casaquinho?”. Verifica-se que a maior parte dos participantes utiliza estas questões sendo a maior mancha gráfica da Tabela 2 relativa ao nível intermédio – algumas vezes (EI - 39%; AO – 57%).
Apesar do questionário incluir, após esta listagem de características, um espaço para que os participantes pudessem escrever outras propriedades específicas da linguagem que dirigem ao grupo de crianças com quem trabalham, nenhum EI ou AO enunciou elementos que nos per- mitam descrever com maior exatidão o discurso usado em contexto de prática pedagógica por estes profissionais.
O mesmo tipo de tabela construído para sintetizar as características linguísticas, foi traçado para retratar as razões da utilização desses elementos discursivos, tendo sido obtida a seguinte estrutura:
Pela análise da tabela, é possível verificar que as oito razões expressas no questionário são consideradas pelos AO e EI como descritoras dos argumentos que estão na base da utilização
TTabela 3 – Razões da utilização das características linguísticas usadas pelos Assistentes