3.2 Macrofauna
3.2.1 Pre-Sampling
Logo nas primeiras linhas do texto intitulado “O embaixador”, o autor parece aproveitar-se do espaço correspondente para agradecimentos e, de forma declarada, começa a estabelecer uma espécie de justificativa em relação à consistência e à credibilidade das informações contidas na presente obra e do zelo quanto a manter a “essência oficial” da História.
Isso é explicado devido a um axioma que diz que não há discurso que não seja endereçado. “Todo discurso é dirigido para uma resposta e não pode escapar à influência profunda do discurso réplica previsto. [...]”. (BAKTIN, 1978,p.23).Nesse caso, temos o conhecimento da crítica que envolve os livros reportagens que trabalham com questões históricas quanto à carência de embasamento acadêmico e à falta de precisão de datas, documentos e outros elementos oficiais.
O autor inicia assim:
Esta obra deve grande parte de sua consistência e credibilidade ao cuidadoso trabalho de orientação e revisão realizado pelo diplomata, ensaísta, Historiador, poeta e acadêmico Alberto da Costa e Silva, um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. (GOMES, 2010, p.11)
Na primeira linha de seu texto, ainda numa parte pré-introdutória, que poderíamos cogitar como um espaço reservado a agradecimentos, que está inserida no capítulo denominado “O embaixador”, Gomes aproveita estar munido pelo invólucro de se tratar de um capítulo em que não se aborde propriamente o livro em questão, e sim uma parte introdutória, de agradecimentos e se vale disso para justificar a presença dos outros discursos que serão encontrados no livro.
Já de início, ele relata que esteve o tempo todo amparado em sua falta de especialidade no assunto, ao ser orientado e tendo todo o seu trabalho revisado por alguém habilitado, com prestígio na área e, portanto, capaz de auxiliá-lo nos assuntos acadêmicos ou que envolviam um conhecimento mais específico sobre o tema. Ele revela a presença do discurso do outro e assim inicia seu processo de legitimação.
É importante destacar também o fato de que esse outro discurso não é, de maneira nenhuma, o que poderíamos classificar como “qualquer discurso”, trata-se de um “diplomata, ensaísta, Historiador, poeta e acadêmico [...] um dos mais respeitados intelectuais brasileiros. ” (GOMES, 2010, p. 11). Sendo relevante acrescentar que, com o intuito de dar ênfase, esses nomes são escritos sempre acompanhados de seus respectivos sobrenomes.
Ele segue descrevendo de modo detalhado como se deu o cuidadoso processo de revisão e como ele responsabiliza Alberto da Costa e Silva pelo resultado impecável de sua obra, ao que se refere à veracidade de informações e dados históricos:
Profundo conhecedor da história brasileira, ele leu e anotou cada um dos capítulos à medida que eu os escrevia.
Suas críticas e observações, feitas sempre de forma gentil e ponderada, ajudaram a corrigir enfoques, datas, nomes e informações que, sem o seu crivo, teriam comprometido o resultado final da obra. (GOMES, 2010, p. 11)
Mais adiante, Gomes cita renomados profissionais e instituições importantes, sobre os quais, percebemos um forte empenho em autenticá-los e a comprovar seu valor e prestígio, para que assim, gradativamente, o autor construa e consolide um sustentáculo firme e forte em que possa estabelecer seu discurso:
Além do embaixador, recebi contribuições de várias pessoas e instituições brasileiras e portuguesas. [...] incluindo as obras de Octávio Tarquínio de Sousa, Alberto Pimentel, Hélio Viana, Luís Henrique Dias Tavares, Hugh Owen e Carl Seidler (GOMES, 2010, p. 12).
A partir daí começa a citar vários nomes de Historiadores, especialistas e pessoas importantes ligadas ao estudo da História, nomes de Universidades e Institutos:
No trabalho de pesquisa no Brasil tive ainda a colaboração de renomados historiadores, como Cecília Helena de Salles Oliveira, diretora do Museu Paulista da Universidade de São Paulo [...]Hendrik Kraay, especialista em história brasileira na Universidade de Calgary, no Canadá; Geraldo Mártines Coelho, professor da Universidade Federal do Pará; [...] Nelly Martins Candeias, presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia; e Fátima Argon e equipe, que me auxiliaram na busca de documentos no riquíssimo acervo do Museu Imperial de Petrópolis. (GOMES, 2010, p. 12)
Finaliza citando seus editores: “Devo aos meus editores Paulo Roberto Pires, Leila Name e Janaína Senna o criterioso trabalho final de revisão de texto e checagem de informações” (GOMES, 2010, p.12). Já de início ele mostra que sua fonte de pesquisa é muito rica e nada tradicional, na medida em que mistura a denominada fonte de pesquisa tradicional, e acrescenta um
novo método, como comentários de especialista, como permite um livro- reportagem.
Detectamos, na citação dos nomes desses diversos autores, uma excelente estratégica discursiva, porque o nome do autor é utilizado para caracterizar um certo modo de ser do Discurso. Isso nos permite dizer “isto foi escrito por fulano” ou “tal indivíduo é o autor”, ou seja, indica que este discurso não é um discurso cotidiano, indiferente, passageiro, mas que se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto. (FOUCAULT, 2000, p.30).
Isso vale não só para o nome dos autores, mas também para o nome das instituições, como as Universidades e museus citados que, quando acompanhados dos nomes dos especialistas ou professores, servem como mais uma forma de enfatizar e endossar a importância dessas pessoas, ainda mais quando temos junto a isso um cargo de destaque, como o de diretora de museu ou presidente de instituto, por exemplo.
Até aqui, não é de se espantar, de maneira nenhuma, que Laurentino Gomes tivesse como foco de suas preocupações uma forte busca da legitimidade de seu texto. Primeiramente, ele precisava provar ser capaz de escrever sobre um assunto de que não era “academicamente” especialista e, depois, provar ser capaz de escrever um discurso obrigatoriamente apoiado em outros discursos, manter sua própria identidade e passar um efeito de legitimidade.
Afinal de contas, ao mesmo tempo em que esse Sujeito precisa do discurso dos outros, das outras vozes, a todo o momento para obter o efeito de legitimidade desejado, e até para se constituir como Sujeito legítimo e de credibilidade, ele também precisa “demarcar” a sua própria identidade, estabelecer limites entre toda essa alteridade necessária e a sua própria fala.