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Ao observarmos os estudos referentes à língua, notamos duas tendências: uma tendência tradicional, correspondente ao Paradigma Clássico, denominada Tendência Representativa, que trazia consigo o axioma do “ideal da representação pura”, ou seja, defendia a representação do real de forma ideal e pura, como se a língua apenas fosse capaz de exprimir representações “perfeitas” da realidade.

E a outra tendência denominada Demonstrativa, em que a língua é considerada “campo mostratório”, na qual o sujeito passa a ocupar uma posição privilegiada, uma vez que a verdade se torna algo representado por um sujeito que lhe confere sentido. Desse modo, a noção de representação vigorada anteriormente, agora é deslocada do eixo da verdade para ser solidária com a da subjetividade.

Essa segunda tendência recusa a concepção que a considerava apenas enquanto capacidade de exprimir representações, dando à língua uma espessura própria, que é desvendada na sua própria estrutura. Assim, o sujeito não só passa a ocupar, nesse quadro teórico, uma posição privilegiada, mas também a linguagem é vista como o lugar de constituição da subjetividade. Dessa maneira então, a conclusão que se chega é de que por constituir o sujeito, a linguagem pode representar o mundo.

Contudo, o sujeito, para essa linha de estudos, possui um caráter contraditório e que é marcado pela incompletude, ao mesmo tempo e que anseia por essa completude e pela vontade de “querer ser inteiro”.

Dessa maneira, numa relação dinâmica entre identidade e alteridade, o sujeito é ele mais a complementação do outro, sendo a ênfase no espaço discursivo que é criado entre o “eu” e o “tu”. Assim, podemos concluir que o sujeito só está completo na interação com o outro, isso significa, em outras palavras que o sujeito é constitutivamente heterogêneo.

É imprescindível, antes de continuarmos, esclarecer que a Análise do Discurso aqui estudada se refere à linguagem apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em conjunturas históricas. Isso porque, atualmente, houve uma circulação incontrolável do termo que, consequentemente gerou uma verdadeira proliferação de empregos da expressão “Análise do Discurso”.

Para isso recorremos ao teórico Maingueneau que tratou desse assunto de forma acurada, esclarecendo que,

A análise e discurso não pretende se instituir como especialista da interpretação, dominando “o “sentido dos textos; apenas pretende construir procedimentos que exponham o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégica de um Sujeito. (MAINGUENEAU, 1987, p. 10 e 11).

Deste modo, dois aspectos são conceituados: O primeiro que a língua é apenas uma possibilidade que ganha concretude somente o ato da enunciação; isto é, quando em relação com o mundo. E o segundo aspecto é que a noção de sentido passa pela do sujeito, da mesma maneira que a significação passa pela instância discursiva.

Por isso defendemos que o conteúdo da subjetividade é muito relevante para a AD, quer dizer, primeiramente porque o sujeito se constitui na linguagem e pela linguagem e também porque pelo fato de constituir o Sujeito, consequentemente, ela se tornar capaz de representar o mundo. “Porque falo, aproprio-me da linguagem, instauro a minha subjetividade e é, enquanto sujeito constituído pela linguagem que posso falar, representar o mundo”. (BRANDÃO, 1996).

Porém, o sujeito sempre falará do interior de uma formação discursiva (FD), que é regulada por uma formação ideológica. É a formação discursiva, inclusive, que irá orientar o sujeito, determinada pela posição, pelo lugar de onde se fala. Em outras palavras, poderíamos dizer que o sujeito nunca estará situado no “vácuo”, mas sim inserido numa formação discursiva. Da mesma maneira,

Um discurso não se inscreve sobe uma página branca; quando ele se constitui não pode ser senão em um campo já saturado por outros discursos. (...) O novo não pode se enunciar senão por um reagenciamento do que já está lá. A maneira pela qual uma Formação discursiva define sua relação com o outro não é senão uma modalidade de sua relação consigo mesma. (MAINGUENEAU, 1983, página15)

Num primeiro momento, a concepção de uma subjetividade assujeitada às coerções da FD e da FI. Portanto, um sujeito marcado por uma forte dimensão social, histórica, que na linguagem é balizada pela FD que define “o que pode e deve ser dito por um sujeito”.

Ou ainda, como definiu Foucault, uma FD é:

Um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram uma época dada, e para uma área social, econômica e geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa. (FOUCAULT, 1987, p.45).

Assim, sinteticamente, Formação Discursiva pode ser definida como aquela que representa um lugar central da articulação entre língua e discurso, envolvendo dois tipos de funcionamento: a paráfrase e o pré-construído. Uma Formação Discursiva é formada por um sistema de paráfrases, um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade.

Já o “pré- construído” remete a uma construção anterior e exterior, independente, por oposição ao que é “construído” pelo enunciado. Trata-se de um elemento que irrompe na superfície Discursiva como se estivesse já-aí. Valendo ressaltar que tanto a paráfrase quanto o predito poderiam ser utilizados como instrumentos para legitimar um Discurso; a paráfrase, em seu espaço de retomada e reformulação de enunciados, poderia não só preservar sua identidade, como também sua legitimidade, e o “pré-construído” poderia se estabelecer de tal forma na superfície discursiva que o seu “já-aí” poderia ser considerado uma verdade absoluta.

Nesse momento, contudo, não podemos ignorar, do mesmo modo que os estudiosos da época não puderam, que o conceito de Formação Discursiva da maneira como foi concebido inicialmente, acabou por apresentar um espaço estrutural fechado, reproduzindo o fechamento do corpo discursivo com a homogeneização do corpus.

Por causa disso, a AD passa a ser objeto de duras críticas, que só se acalmaram devido às desconstruções e reconfigurações das ideias desse momento inicial e graças a uma série de transformações ocorridas na conjuntura teórica e política que aconteceram por volta do ano de 1975.

Resultado disso se encontra na reformulação do conceito de Formação Discursiva de Michel Pêcheux, em que Pêcheux reconhece que a FD não é um espaço estrutural fechado uma vez que está numa relação paradoxal com seu “exterior”, ao ser constitutivamente “invadida por elementos que vem de outro lugar, isto é, de outras FDs, que se repetem nela, sob a forma de pré- construído e de discursos transversos. ” (PÊCHEUX, 1997).

Consequentemente, é a partir daí que surge a noção de Interdiscursividade para explicar o “exterior específico” que irrompe no interior de uma FD; considerados elementos tão importantes na análise de uma FD.Pêcheux alega que,

[...] na medida em que são colocados em relação com um além- exterior e anterior e detectados os pontos de confronto polêmico que se trava nas suas fronteiras internas, as zonas atravessadas por toda uma série de efeitos discursivos tematizados como efeitos de ambiguidade ideológica, de divisão, de réplicas estratégicas” (PÊCHEUX, 1990, p.314).

Finalmente, como resultado, teremos um sujeito que, de início, foi concebido como puro efeito de assujeitamento ao dispositivo da FD com a qual se identifica, e que vai sendo contaminado por essa preocupação nova, ou seja, o exterior como constitutivo do interior discursivo). O que leva a um grande questionamento da própria concepção original da FD e ao reconhecimento do discurso como um objeto heterogêneo. Sob o primado

teórico do outro sobre o mesmo, procura-se tematizar as formas linguístico- discursivas do discurso do outro e da identidade discursiva.

Para cumprir essa finalidade é necessário voltarmos ao campo da subjetividade discursiva, cuja ideia base que sustenta e que originou todo uma teoria sobre o sujeito é aquela que recusa totalmente a ideia de que o sujeito seja uma instância fundadora da linguagem e que o discurso foi apontado como um campo de regularidades no qual diversas posições de subjetividade podem se manifestar, sendo assim o Discurso um lugar de dispersão e não de unidade uma vez que sujeito é capaz de ocupar várias posições que lhe conferem diferentes estatutos. (FOUCAULT,2000)

Como já sabemos também, o Sujeito se dá por meio da interação que acontece num determinado espaço discursivo que é criado pelo eu e o tu, resultando num reconhecimento de um Sujeito que possui um caráter contraditório, marcado pela incompletude e na busca ansiosa pela completude, por uma vontade de ser inteiro.

Desse modo, quer dizer que a constituição da identidade do Sujeito depende da interação com o outro, há uma relação dinâmica entre identidade e alteridade no “interior” da Subjetividade. O que podemos concluir é que os níveis intradiscursivos e interdiscursivos compõem a sua fala e que, portanto, na fala desse Sujeito outras vozes também falam.

Dessa maneira, explicamos por que, dentre outras perspectivas, optamos pelo denominado Sujeito Heterogêneo, que é aquele que divide o espaço discursivo com o outro por ser o outro constitutivo do próprio sujeito, criando uma heterogeneidade discursiva também. Afinal, é pela linguagem que o homem se constitui como sujeito, na medida em que abre espaço para relações intersubjetivas e para o reconhecimento recíproco das consciências.

Provocando, assim, uma relação radical do interior com o exterior do discurso que acarreta, obrigatoriamente, que haja uma preocupação com a identidade como uma forma de organizar esse exterior. Atualmente, existem dois planos da heterogeneidade que são muito estudados: a Heterogeneidade Mostrada e a Heterogeneidade Constitutiva.

A Heterogeneidade mostrada marcada corresponde às manifestações explícitas, encontradas na própria superfície discursiva através da materialidade linguística do texto, em que formas marcadas acusam a presença do outro ou são recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação.

Uma teórica que tem se destacado é a francesa Jacqueline Authier- Revuz, que teve seus estudos, como já dito, bastante influenciada pela concepção polifônica de linguagem de Bakhtin e pela psicanálise, partindo da noção de que a própria natureza da linguagem é constitutivamente heterogênea.

A heterogeneidade constitutiva corresponde aquelas que não são marcadas em superfície, mas que os estudos da Análise do discurso podem definir, por meio de hipóteses e através do interdiscurso, a propósito da constituição de uma formação discursiva.

É verdade que, no início, tínhamos uma concepção de subjetividade assujeitada às coerções da Formação discursiva e da Formação ideológica, ou seja, como se os sujeitos fossem servos de seus próprios discursos, o que acarreta, portanto, uma forte dimensão social, histórica e que na linguagem a Formação discursiva é que definirá ‘o que pode e deve ser dito por um sujeito”.

Podemos dizer que era uma noção de Formação discursiva de estrutura fechada, que posteriormente ficou conhecida, para fins classificatórios como AD-1. Mais adiante essa noção é refutada quando se reconhece que a Formação discursiva não é um espaço estrutural fechado, já que está sempre sendo “invadida” por outras Formações Discursivas. Desse modo temos enfim a noção do interdiscurso, classificada como AD-2.

Nessa etapa também é que Pêcheux desenvolve o “tema da ilusão subjetiva”, em que o sujeito que se desdobra em vários papéis segundo as várias posições que ocupa numa Formação discursiva (que é atravessada por várias Formações discursivas) a ilusão discursiva da unidade, origem, uma “ilusão necessária” para a manutenção da identidade.

Consequentemente, diante disso tudo surge uma preocupação nova que é justamente a que se refere à questão da heterogeneidade discursiva. É na terceira época que há um verdadeiro reconhecimento dessa heterogeneidade, que trabalhada pelo autor através de uma “vocação totalizante” faz com que esse texto adquira, na forma de um conceito polifônico, uma unidade, uma coerência, harmonizando as diferentes vozes ou apagando as vozes discordantes.

Desse momento em diante, notamos um interesse crescente dos analistas do discurso em desvelar as diversas maneiras e estratégias dos discursos em “escapar” de toda essa heterogeneidade, por meio de recursos linguísticos e discursivos construídos de tal maneira a criar efeitos de veracidade, unidade e identidade.

2.4. Efeitos de Unidade e identidade como produto de estratégias